Taxa de juros sobe. Qual a novidade?

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Texto escrito por José de Souza Castro*:

A notícia divulgada no dia 29 de abril não chamou muita atenção, pois está se tornando costumeira. É a quinta alta consecutiva da taxa básica de juros (Selic), que chegou agora a 13,25% ao ano, com possibilidade de novo aumento na próxima reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), em junho.

A escalada dos juros começou há dois anos e só foi interrompida durante o período eleitoral. O que se assiste é a retomada incontestável da política de 1999, do governo Fernando Henrique Cardoso, de usar a Selic como instrumento de política monetária.

Indaga-se: o que não deu certo naquela época, dará agora pelas mãos treinadas na gestão do Bradesco do ministro Joaquim Levy?

Certamente, dará certo para o Bradesco e outros bancos que há muito tempo vivem em clima de festa no Brasil. O balanço trimestral do Bradesco não deixa dúvidas. No mesmo dia em que o Copom decidiu elevar a Selic, o banco revelou que obteve nos primeiros três meses do ano lucro líquido de R$ 4,2 bilhões.

Em comparação com o quarto trimestre do ano passado, quando Levy era ainda diretor-superintendente, desde junho de 2010, do Bradesco Asset Management, o lucro do Bradesco aumentou 6,3%. Em comparação com o primeiro trimestre de 2014, invejáveis 23,3%.
Vejamos o que ocorreu em 1999.

Numa sexta-feira de janeiro, chamada na época de “sexta-feira negra”, o clima no país beirava o pânico, com previsões catastróficas e boatos alarmistas sobre feriado bancário e confisco financeiro. O presidente FHC demitiu o presidente do Banco Central, Francisco Lopes, e desvalorizou o real, abandonando o regime de câmbio fixo. O país passou a operar no regime de câmbio flutuante, até hoje.

Em setembro de 1998, faltando pouco para a sua reeleição, o presidente havia admitido que era grave a crise brasileira. Talvez tivesse sido melhor que Dilma Rousseff, que vem seguindo agora os passos de FHC nos rastros de Levy, tivesse feito o mesmo em setembro passado.

Para contornar a crise, Fernando Henrique tratou também de aumentar impostos, para tentar tapar o buraco do déficit fiscal. Empresários da indústria reagiram. Sabiam que com altas taxas de juros e baixo crescimento econômico, as chances de sobrevivência de muitas indústrias diminuíam a cada dia. Era falir ou vender para alguma multinacional de olho gordo no mercado consumidor brasileiro.

As perspectivas seriam diferentes hoje? O Banco Central parece pouco preocupado com a produção. Pelo menos, bem menos que com a inflação e com o desempenho dos bancos aos quais tem o dever de fiscalizar. No comunicado sobre o último aumento da Selic, ele repetiu o discurso das duas últimas reuniões, de que tomou a decisão “avaliando o cenário macroeconômico e as perspectivas para a inflação”. Uma frase com efeitos anestésicos, talvez, pois a gritaria hoje é menor que em 1999.

Quem sabe esse comportamento de resignação do Brasil não anima o Federal Reserve (o BC dos Estados Unidos) a aumentar as taxas de juros, apesar da freada em sua recuperação econômica? No primeiro trimestre deste ano, o PIB americano cresceu apenas 0,2%, comparado com o mesmo período de 2014. No quarto trimestre, o crescimento foi de 2,2%. Se pelo menos os juros no exterior fossem maiores, as indústrias brasileiras aguentariam mais tempo, não? Porque, aqui, eles não caem.

Os bancos brasileiros – e os estrangeiros que para aqui vieram no governo FHC – não deixam. Eles têm muito a lucrar, quando a Selic sobe, pois os juros que cobram no mercado acompanham essa alta, mas em escala maior. Só o governo federal deve R$ 2,44 trilhões. Parte dessa dívida é cobrada pelos bancos com base na Taxa Selic.

Não tenho informações recentes. Mas, há um ano, a participação dos títulos corrigidos pela Selic na dívida interna era de 9,5%. Se o percentual se manteve, a alta que ocorre pela quinta vez consecutiva tem reflexo significativa no endividamento público. Ninguém gosta de falar sobre isso, aparentemente. Sobretudo na imprensa.

Enquanto isso, o financiamento imobiliário ao consumidor caiu 4,6% no primeiro trimestre deste ano, em comparação com o mesmo período de 2014. A primeira retração para o período, nos últimos 13 anos. Os depósitos da caderneta de poupança, principal fonte de recursos do setor, ficaram menores R$ 30,2 bilhões neste ano, até o dia 23 de abril.

Diante de recursos escassos, a Caixa Econômica Federal fez dois reajustes nos juros cobrados e passou a dar prioridade aos empréstimos voltados à baixa renda e a imóveis novos, vendidos pelas construtoras, especialmente dentro do programa Minha Casa, Minha Vida.

O governo parece mais preocupado em como garantir o pagamento da dívida, com medidas de ajuste fiscal para tentar cumprir a meta, tendo anunciado corte de despesas de R$ 18 bilhões neste ano. E não se fala em taxar mais os ricos, mesmo com a queda de R$ 14,8 bilhões na arrecadação no primeiro trimestre deste ano, comparado o primeiro trimestre de 2014.

Em compensação, deixou de gastar R$ 1,7 bilhão para subsidiar as contas de energia elétrica. Quem pagou foi o consumidor.

E não é culpa dele, pois não come minério de ferro, que a Vale registrou prejuízo líquido de R$ 9,5 bilhões no primeiro trimestre…

O governo não vai taxar as grandes fortunas, pois parece que Dilma Rousseff não tem disposição para enfrentar mais esse desafio. Mas, que tal pôr a Receita Federal para obrigar os mais ricos a pagarem o que devem? Por que o silêncio em relação à sonegação de mais de R$ 19 bilhões constatada na Operação Zelotes desfechada pela Polícia Federal há pouco mais de um mês e já esquecida?


 

* A blogueira continua de férias, mas o blogueiro seguirá postando sempre que puder, viu? 😉

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