Frase do dia

“A experiência da morte em vida está no fim de um amor.”

 

(Reflexão do ator baiano João Miguel, na Serafina, revista da “Folha”, de ontem. E quem nunca sentiu esse buraco na alma é porque nunca amou pra valer — e tem sorte por isso, em parte… — ou tem o privilégio de preservar um amor até hoje :D)

 

Outras “frases do dia” AQUI.

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Campanha contra o hábito de pegar o elevador para subir só um andar

Existe coisa mais preguiçosa, antiecológica e antipática do que pegar o elevador para subir UM andar?

Bom, talvez só uma: pegar o elevador para descer um andar.

É claro que não estou falando das pessoas idosas, grávidas ou com mobilidade reduzida: foi para elas, afinal, que o elevador foi construído (ou deveria ter sido).

Mas, para o demais, não há qualquer coisa que justifique acionar o botão e desperdiçar 0,025 kWh para subir apenas um andar, que pode ser cumprido tranquilamente em 15 degraus de escada.

No meu trabalho, é comum ver pessoas pegando o elevador no térreo para chegar à sobreloja. Ou pegarem o elevador no sétimo andar para descer até o sexto. Para mim, isso é o fim do mundo. A cada vez que presencio alguém fazendo isso, tenho que me conter para não soltar um palavrão, mas não evito o muxoxo.

E ainda nem entrei no mérito da saúde dessas pessoas. Já viram aquela propaganda de margarina em que as pessoas andam carregando seus corações? No final, o sujeito com coração duro e de aspecto terrível entra bruscamente na frente de outro cara, com o coração normal, apenas para subir pela escada rolante. O cara que ficou pra trás olha para o próprio coração, pensa um segundo, e opta pela escada convencional, ao lado.

Diz-que que é possível gastar de 14 a 20 calorias por minuto durante uma subida de escadas. É um exercício físico, e seria uma ótima contribuição para essas pessoas que passam o dia inteiro com os traseiros grudados na cadeira do computador, preferem mandar o estagiário fazer tudo a andar dez passos até uma impressora para buscar o papel etc. Porque não quero levantar a hipótese de que essas pessoas que pegam elevador para subir um degrau são as mesmas que passam duas horas malhando na academia. Haveria um problema básico de lógica aí.

Nem a pressa é argumento. Tanto em prédios residenciais quanto nos empresariais, é comum a longa espera até a chegada do elevador, muitas vezes abarrotado, obrigando a esperar ainda mais, como quando o trem que chega no metrô está cheio demais. Muito mais rápido e prático abrir a porta da escada e resolver logo a questão a pé.

E há ainda a questão da segurança, já que nunca ouvi falar de escada caindo ou de pessoas pisando em falso num buraco porque a escada não está ali. Nos incêndios, ela já é sempre a recomendada. E ela não trava, lotada, causando pânico em pessoas claustrofóbicas ou nas frescas.

Por tudo isso, instituo, desde já, uma campanha contra o péssimo, preguiçoso, antiecológico, antieconômico, lerdo e pouco saudável hábito de pegar o elevador para subir ou descer um andar (eu estenderia para mais andares, mas acho que aí a adesão seria pequena demais).

Quem concordar, que compartilhe este texto e a foto abaixo. Também vale imprimir e pregar nos elevadores do condomínio (sabia que eles são responsáveis por 6% de todo o consumo de energia do prédio?), da empresa, ou enviar para emails dos colegas sedentários ou os de coração engordurado.

Onde está o botão da sobreloja? Apesar de eu achar muito criativo esse pequeno vandalismo didático, não fui eu que cometi a ousadia.

Esqueceram de nós

Texto de José de Souza Castro:

Acabei de ler finalmente “Guns, Germs, and Steel”, que havia ficado esquecido por 15 anos num dos muitos lugares em que livros são enfiados aqui em casa. Descobri-o há duas semanas, ao procurar outra coisa. Não sei mais quem me deu. Sei que não o comprei. Foi alguém que veio dos Estados Unidos, quando o livro estava na lista de bestsellers do “New York Times”, e acabara de ganhar o Prêmio Pulitzer. E que sabia de meu gosto exótico por história.

Bom, mas isso não importa. O que interessa é que esse livro da última década do século 20 está muito atual. Não duvido que se transforme num clássico. É uma viagem pelos últimos 13 mil anos da vida do homem em todos os continentes, com um olhar inteligente e pouco comum nos compêndios de história. Em vez de reis e imperadores, papas e generais, Jared Diamond, um professor de geografia na Ucla (Universidade da Califórnia), discorre sobre a importância dos micróbios, das armas e da tecnologia na construção da história humana. E da domesticação de plantas e animais. Tudo me pareceu muito interessante. Talvez porque, ao longo das 500 páginas, não encontrei nenhum conterrâneo. O autor – que antes já havia escrito outro livro premiado, “The Third Chimpanzee” – esqueceu-se de nós, os brasileiros.

Olhando o Mapa Mundi, não é fácil para o Brasil passar despercebido. Mas ele está ausente também nos títulos de centenas de livros citados como referência pelo autor, em 30 páginas. Pode-se alegar, é claro, que tudo isso aconteceu antes de Lula assumir o poder. “Nunca antes na história”, como ele dizia do alto de sua sabedoria. Hoje é mais difícil para o Brasil se fingir de morto.

E aí vem a questão: nenhum povo, conforme o livro, se saiu muito bem ao longo desses 13 últimos milênios, se não estivesse mais bem armado que seu vizinho. É um soco no estômago dos pacifistas, como nós, que nunca quisemos ter por aqui uma bomba atômica para defender nossa floresta amazônica e nosso petróleo escondido no pré-sal da plataforma continental. Mas a dor passa. Continuamos não querendo esses artefatos perigosos. O que fariam nossos generais trapalhões com uma arma dessas nas mãos?

O livro foi publicado pela editora Record, em 2001, com o título “Armas, Germes e Aço – Os Destinos das Sociedades Humanas”. Está disponível, por exemplo, na Americanas.com, por R$ 54,90.

O expurgo

Estávamos em cinco, carro em alta velocidade, a intenção de cumprir em 50 minutos o percurso até o destino final, em Santos.

Santos. Cidade conhecida por seus prédios tortos, por sua areia feia, pelos canais que levam até a praia, pelos muitos habitantes idosos. E, sim, pela violência cada vez maior, como em toda a Baixada.

De dia, achara Santos formidável. Minha vontade era visitá-la muito mais, inclusive por ser tão perto da Terra Cinza, mas com aquele calçadão, aquela maresia. Praia é praia. Um dia descobri que há ônibus a cada 15 minutos para lá, que custam menos que o pedágio de carro, e que a Imigrantes, fora dos feriados de sol, costuma ser uma ótima rodovia.

Mas eis que era noite, madrugada até, e a Imigrantes estava fechada. A Anchieta descia lenta, com seus vários caminhões e curvas e escuridão de mata nativa. De dia, tão mais bonita. À noite, apenas incômoda.

Ainda naquela rodovia, quando todos estavam num raro momento de silêncio, eu distraída digitando uma mensagem no celular, vemos o carro diminuir velocidade.

“O que será? Um acidente?”, pergunto.

“Não, é só uma obra mesmo.”

Continuo com minha distração, alheia ao que estava acontecendo fora. Rezam os mais observadores que carros à nossa frente começaram a dar marcha a ré, enquanto outros tentaram acelerar, em vão.

Até que, como se fosse uma cena de filme que eu estivesse assistindo, um episódio de “Law and Order”, algo muito fora da minha realidade, ouço dois jovens aos berros, arma apontada em nossa direção. “PERDEU! PERDEU!”

O motorista para o carro, todos com a certeza de que os sujeitos queriam roubar o veículo. Alguns segundos em suspensão, ninguém muito certo do que estava acontecendo — ou falo por mim.

“Passa tudo aí! Passa a bolsa! Passa a carteira! Passa tudo!”

Ainda como se não fosse comigo, pego a bolsa que estava no meu colo e, indecisa sobre se deveria entregá-la, acabo por colocá-la no chão do carro. O vidro da minha janela está todo aberto, vento forte batendo na minha cara, e o moleque — pouco mais que um garoto, bastante trêmulo e nervoso — continua exigindo as coisas, aos berros, perdido entre todos os passageiros do carro. Sua arma a alguns centímetros de distância da minha cara, mas não a observo, não sei dizer se está apontada para mim, não quero saber.

Estendo o celular, mas ele também não vê, parece ocupado com o dinheiro sendo entregue no banco da frente. Penso bem, “uai, ele não pegou”, jogo o celular no chão do carro, com a bolsa.

Ele se volta pra mim, continua gritando, o outro, mais exaltado, não para de falar “ATIRA! ATIRA!”, abro a bolsa e tiro a carteira de dentro. Entrego a ele, relutante, pensando vigorosamente no que havia lá dentro que pudesse ser importante para mim.

Depois de pegar minha carteira e outras duas, mais o dinheiro de uma quarta pessoa, eles vão embora, prosseguem em seu arrastão, arma agora estendida para um caminhoneiro atrás.

Ou melhor, é isso que me dizem. Eu não vejo nada. Ouço o colega gritar: “Acelera! Vamos embora!”, meio abaixado, como se pudesse receber um tiro a qualquer momento. Imitando-o, me abaixo também, meio de costas, pensando como aquela posição não me protegeria de nada, se algo tivesse que vir. Depois pensei como seria a dor de tomar um tiro, se um tiro nas costas causa morte, em quanto tempo chegaríamos a um hospital.

Ali era ainda a maldita Anchieta, limite entre Santos e Cubatão, num bairro chamado São Manoel. Eu não sabia de nada disso, ainda alheia e ignorante, mas ouvi meu colega dando essa explicação ao atendente da central de polícia, para quem ele ligava.

Carteira velha, CNH, dois cartões de banco, cheques, carteirinha do Sesc, do plano de saúde, do clube, de livrarias, uma foto da minha sobrinha, uma moeda da sorte, fotos 3×4, cartões profissionais, menos de R$ 10.

“Se deram mal com esse roubo.” Mais tarde, quando a tensão já tinha passado, dei risada com a frustração que devem ter sentido ao abrir minha carteira e só ver R$ 10.

Mas naquela hora eu ainda estava começando a processar a informação de que não foi um filme, não foi Law and Order, aconteceu comigo e alguém apontou uma arma pra minha cara em troca daqueles R$ 10 e de outros pertences que não entreguei, agindo exatamente como a regra das reações a assaltos manda que a gente não aja. Mas quem sabe como reagir? Por que aqueles dois garotos atirariam em mim? E por que não?

Só muito depois, quando eu já estava pisando num chão, uma corrente elétrica passou por meu corpo, que não parava de tremer. Vieram me abraçar, uma amiga estava com os olhos cheios de lágrimas.

Mas ainda não parece real. E, às vezes, me vejo perguntando: e se tivesse sido?