Na guerra da criação dos filhos, será que preciso ter sempre um time?

Foto: Pixabay

No domingo retrasado, presenciamos cenas deprimentes de briga generalizada de torcidas em Beagá. Era dia de clássico Galo X Cruzeiro e teve torcedor fanático saindo de casa com porretes, prontos para a pancadaria, logo que o sol raiou. Não foi a primeira nem a última vez que o noticiário esportivo pareceu jornalismo policial.

Mas não é só no futebol que as pessoas se engalfinham apenas por torcerem por times opostos. Na política, é a mesma coisa – e a polarização do Brasil desde 2013, agravada nas eleições de 2014, só piorou o quadro. E até mesmo no nobre universo da maternidade/paternidade/criação de filhos já se nota um radicalismo muito grande, com times sendo formados e um apontando o dedo, raivoso, para o time oposto.

Desde que o bebê nasce — ou até mesmo antes disso, quando está na barriga –, já somos instados a tomar partidos e escolher um time. Veja só algumas das situações de que me lembrei rapidamente agora: Continuar lendo

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Ao menininho de Aleppo


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Texto escrito por Eduardo Augusto*:

 

Tudo estava claro. Depois veio um estrondo. Tudo ficou escuro. Homens gritam lá fora. Um deles me pegou no colo, me sentou numa cadeira. O lugar está muito claro. Meu cabelo tá sujo. Sujou. Tem uma coisa escorrendo no meu rosto…

(Os militares sírios realizaram um ataque aéreo onde morava o menino Omran Daqneesh com sua família. O ataque foi uma resposta às ações das forças contrárias ao governo Bahsar al-Assad. Era o dia 18 de agosto de 2016).

*

Querido Omran Daqneesh, suas mãos tão pequenas me comovem. Elas tocam o seu rosto ensaguentado. Talvez você nem saiba o que é sangue. Me comovo também, quando você olha pra sua mão. Estará nela inscrito um mapa que nos mostrará a saída? Agora, já são três crianças na ambulância.  Elas estão tão paralisadas quanto você! Três preciosas vidas. Haverá outras a serem resgatadas dos escombros da maldade e da ignorância humanas? Continuar lendo

Homenagearam demais

Assista se tiver tempo sobrando: SNIPER AMERICANO (American Sniper)
Nota 5

sniper

É, não tem jeito. Os filmes que concorrem ao Oscar deste ano estão realmente bem mais fracos que os do ano passado. Até agora, com a exceção de “Boyhood” dentre os mais indicados, ainda não vi nenhum “Ela“, nenhum “Nebraska“, nenhum “Clube de Compras Dallas“, nenhum “Lobo de Wall Street” e aquelas outras belezuras de 2014. Mas tudo bem, sei que ainda tenho muito a que assistir para cumprir meu desafio.

“Sniper Americano” concorre a seis prêmios importantes, incluindo de melhor filme, melhor roteiro e melhor ator. Ok, Bradley Cooper merece concorrer ao prêmio de melhor ator. Ele já tinha mostrado seu talento em filmes como “O Lado Bom da Vida” e, desta vez, fazendo o papel de uma lenda da guerra, baseado na autobiografia de um personagem real, o franco-atirador Chris Kyle, ele também convence muito. Até engordou 18 kg, de puro músculo, para se agigantar como o militar e, quando chegou ao figurino final, com barba crescida e corte de cabelo da marinha, dizem que ele ficou tão parecido com o original que os amigos e parentes os confundiam.

Já dizer que “Sniper Americano” tem um dos melhores roteiros do ano é rir da nossa cara. O filme tem pouco mais de duas horas e parece ter bem mais, de tão arrastado. E olha que estamos falando de um filme de guerra e sobre um sniper: ou seja, com tiros pra todos os lados, fugas, cenas de ação. Poderia ter tido um roteiro mais interessante se a parte dramática da guerra fosse melhor explorada, se o trauma do personagem tivesse aparecido com mais destaque, se a vida familiar se entremeasse melhor às quatro participações e mais de mil dias na Guerra do Iraque. Mas não houve nada disso. Pelo contrário: o filme é tão nacionalista, que mesmo os momentos de fraqueza e agressividade do “herói” (que, em dado momento, mais parecia um psicopata, quase sem freio para cometer seus mais de cem assassinatos) passam voando, são logo “curados”, e ele volta a virar herói rapidinho. Enfim, é um típico filme-homenagem, a um personagem ultracondecorado e que morreu muito recentemente, então cai naquele erro de anular defeitos e construir a imagem de lenda a qualquer custo, mesmo ao custo da razoabilidade.

Depois li que o pai de Chris Kyle disse pessoalmente a Bradley Cooper e ao diretor Clint Eastwood que ele faria um escarcéu se a memória de seu filho fosse desrespeitada no filme, mas que o ator e o diretor eram “homens em quem ele podia confiar”. Enfim, já viram o naipe do texano, né?

Só não dou uma nota mais baixa porque, mesmo sem gostar muito de filmes de guerra, achei muito boas as cenas bélicas de “Sniper Americano”. Muito realistas, muito interessante ver tudo do ponto de vista de um sniper, com imagens aéreas marcantes e uma sensação de estar mesmo dentro do campo de batalha. Inclusive, uma das melhores cenas do filme ocorre dentro de uma tempestade de areia, que parece também nos cegar e sufocar.

E, no fim das contas, chega a ser um filme assistível, se você deixar de lado todo o seu senso crítico em relação à Guerra do Iraque e considerar como os norte-americano são, na maior parte das vezes, patriotas demais. Melhor sermos condescendentes e levarmos a sério a ameaça do Kyle pai, né? Afinal, foi ele que ensinou o filho a atirar…

Veja o trailer:

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As formiguinhas

formigas

Antes era até normal. Deixava um pedaço de doce na pia, e as formiguinhas logo apareciam para devorá-lo. Depois de um tempo, não se contentavam mais só com as migalhas esquecidas: começaram a se organizar em batalhões para invadir sacos de pão em lugares remotos. Tínhamos que colocar tudo na geladeira, ou então, bye-bye.

E eu que achava que fossem herbívoras! Sempre enxerguei a cena das formigas carregando folhinhas nas costas para o inverno, como na fábula. Mas que nada. Descubro na prática que elas são onívoras: atacam de tudo. Bem humanazinhas. Se fazemos carne na panela-churrasqueira, logo elas formam uma de suas filas quilométricas e vão se deliciar com a gordura da banha, que fica grudada no fundo. A panela deve ser seu rio de chocolate no paraíso de Willy Wonka.

É guerra? Então assim será! Chegou um ponto em que nos equipamos pra valer. Compramos um veneno que é aplicado por um tubinho, bem dentro do formigueiro mesmo. E começamos a caçar as formiguinhas. Se víamos uma fila imensa desses insetinhos petulantes, íamos seguindo seu trajeto, até perceber onde ficava a entrada para seu centro de operações. Geralmente era o lugar onde víamos três ou quatro formiguinhas entrando e saindo, sempre do mesmo microburaquinho. E dá-lhe veneno borrifado lá dentro!

Logo elas vinham por outro buraco. E assim fomos caçando, de borrifadas em borrifadas, seguindo as filas novas, sem perder as esperanças.

Um dia, cometemos um erro amador. Saímos de viagem no fim de semana e deixamos um pão de mel meio aberto em cima do gaveteiro da cozinha. Quando voltamos, o gaveteiro inteiro, que é branco, estava preto, povoado por aqueles pontinhos sobre patas. Furiosos, pegamos o veneno e atacamos geral. Parecia que a parede inteira tinha buraquinhos de onde elas saíam, não tinha mais como descobrir qual era o centro de operações. Elas pareciam ter vencido a guerra.

Nãããão! Pegamos martelos e até o extintor de incêndio e começamos a bater na velha parede da cozinha, abrindo buracos. Vocês não vencerão!!!! Quando as camadas de tinta começaram a cair, levando pedaços de gesso, percebemos que a parede estava oca. Dentro dela, horrorizados, vimos milhares — milhões! — de formiguinhas vorazes, caminhando por túneis minúsculos. Uma cidade inteira atrás da parede, agora derrubada, de nossa casa. O frasco de veneno, obviamente, já era. Éramos só dois humanos, cercados por muito pó, tinta, gesso, e por um número infinito de insetos, que agora nos olhava — com fome.


 

(Até o quarto parágrafo, é crônica; depois vira conto de ficção. Será que algum leitor teria uma fórmula mágica para combater as formiguinhas e evitar que os dois últimos parágrafos um dia venham a acontecer? 🙂 )

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Estou fora da guerra das eleições

Outro dia reproduzi aquele texto bem-humorado sobre espremedor de limões no blog do Brasil Post. O texto foi escrito no ano passado, então atualizei um trecho que falava do PIB brasileiro (com os 2,3% de crescimento de 2013) e publiquei. O tema principal do post era outro: como algumas pessoas se dispõem a pagar fortunas por coisas insignificantes como um espremedor de limões. Como falta noção a uma pequena camada da sociedade que tem dinheiro sobrando. Daí a explosão de “studios”, “ateliês” e coisas “gourmet”, que vendem o mesmo esmalte nas unhas, o mesmo pãozinho francês e o mesmo café de padaria, mas cobram o triplo do preço por causa da imagem, do marketing, ou de um design um pouco diferenciado.

Enfim, é um texto que posso reproduzir pelos próximos 20 anos e continuará atual, enquanto houver essa falta de noção. Mas não era um texto sobre política. Não falava sobre governo Dilma ou sobre candidato Aécio. E não é que um leitor pinçou uma frase lá do fim do texto, ignorou uma parte da frase e começou a bater boca pela internet, pra provar sua visão de que o governo Dilma tem uma economia desastrosa?

Não dá pra falar ou escrever sobre NADA nesses dias de guerra sem que o interlocutor transforme o texto em algo de cunho eleitoral. Sem que enxergue o vermelho ou o azul, e tripudie, caso ele esteja do outro lado do espectro das cores (ou das ideologias). Tenho visto amigos (amigos mesmo, não desconhecidos) se estapeando no Facebook, como se não houvesse amanhã. E, na hora de xingar o candidato alheio, as pessoas não poupam ofensas pesadas — mas não ofensas ao candidato, e sim a quem declara voto nele.

Gregorio Duvivier conta que a coisa está tão feia lá no Rio que outro dia, tarde da noite, andando a pé pelas ruas de seu bairro (o abastado Leblon, onde fica o apartamento de Aécio Neves), ele se viu perseguido por uma SUV imensa, cheia de adesivos do tucano, e teve que ouvir um agressivo “Volta pra Cuba!”. A que ponto chegamos: já não se pode mais andar a pé sem medo de ser agredido?! “Detalhe”: ele declarou voto em Luciana Genro no primeiro turno, não em Dilma.

Eu penso o seguinte: as pessoas têm o direito de votar em quem quiserem. Em Dilma, em Aécio, em branco, no nulo. Ou podem até mesmo não comparecer às urnas, nestes tempos de voto nem tão obrigatório assim (as abstenções chegaram a 20% no primeiro turno. Um quinto do país!). Na minha família tem dilmista, aecista e marineiro, só no núcleo familiar mesmo. E há que se respeitar a inteligência alheia, sabe? Se a pessoa raciocinou e concluiu que vai votar de tal jeito, é preciso se conformar. Ninguém é dono da verdade e não existe uma verdade soberana, que alguns detenham e outros sejam burros demais para captar. Existem ponderações e prioridades para cada eleitor.

Sobre isso, recomendo o texto brilhante que Antonio Prata publicou na “Folha” de ontem. Ele fala como o chapeiro vota diferente do dono da padaria, ambos fazendo uso de um voto racional. O chapeiro não é mais ignorante que o dono da padaria só por ser mais pobre (como acredita Fernando Henrique Cardoso, e até declara, sem nem corar as bochechas). Inteligência é algo que prescinde de anos de escolaridade ou de dinheiro no bolso: é uma questão de neurônios, de tico e teco. E deus é testemunha de que tem muita perua rica e playboy milionário que são burros como uma porta.

Eu acho que, nesses tempos de guerra, de fanatismo exacerbado, as pessoas precisam respirar fundo e se lembrar de um bordão que não me canso de repetir: todo fanatismo é burro. É saudável apresentar dados e informações, numa conversa com os parentes e amigos, que, quando não são fanáticos, podem até mesmo mudar de ideia quanto a um voto (deixar de votar nulo e escolher um dos dois, por exemplo). Não é saudável promover ataques, agredir, distorcer textos publicados ou ofender, como muitos têm feito.

Vi na internet e gostei, então vou usar para fechar este texto:

amareleicoes

Deixem a guerra para a baixaria das campanhas eleitorais, para os candidatos e suas declarações belicosas. A gente pode separar a razão da emoção e passar por essas últimas duas semanas sem tantos mortos e feridos.

P.S. Já decidi meu voto há tempos, mas não vou declarar neste post, para não correr o risco de toda a mensagem que passei se perder entre os comentários fanáticos, raivosos e belicosos que sem dúvida vão aparecer. De qualquer forma, antes do dia 26, vou fazer um post sobre as razões (não emoções, mas razões mesmo) do meu voto.

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