#Playlist: Chico Buarque e Bob Dylan, os dois mestres da palavra

Fazia tempos que eu não montava uma playlist no meu canal do Deezer.

Fui inspirada agora pela eleição por unanimidade de Chico Buarque, recentemente, para o Prêmio Camões, o maior de literatura em língua portuguesa, pelo conjunto de sua obra.

Como bem colocou Antonio Cícero em comentário para a “Folha de S.Paulo”: “Evidente que esse prêmio é um reconhecimento pela poesia dele nas letras de música, que também são literárias, não só pelos livros. São poemas. Grandes poemas. A música ‘Construção’, por exemplo, é um poema até raro de se fazer. Os primeiros poemas ocidentais conhecidos, alguns dos melhores já feitos, que são os gregos, com os épicos de Homero e os líricos como os de Safo, eram poemas musicados. A palavra lírica vem de lira. A poesia lírica era toda cantada. Seria uma tolice pretender que a letra de música [não seja vista] como grande poema.”

A mesma percepção teve a Academia Sueca, ao premiar Bob Dylan, em 2016, com o Nobel de Literatura. E acho uma bobagem essa comparação que se fez dos dois. Ambos são gênios da poesia, ambos merecem os prêmios que ganharam, e Chico, é claro, poderia e ainda pode ganhar um Nobel de Literatura a qualquer momento, com a maior justiça do mundo.

Minha playlist de hoje mescla canções desses dois grandes poetas universais, grandes letristas, grandes músicos. Viva a poesia cantada!

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O humor na tragédia, o belo no feio

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Li este livro pela primeira vez quando eu tinha 15 anos. Ele foi escolhido a dedo, junto a vários outros livros, de estantes abarrotadas de volumes, que minha tia Maria Afonsa me ofereceu. “Vai lá embaixo e pegue quantos quiser”, ela me disse. Fui lá com meu pai e saímos colhendo todos aqueles tesouros. Foi um dos dias mais divertidos da minha vida.

Esta edição, da Record, já está com as páginas amareladas pelo tempo. Não diz a data em que foi impressa no Brasil, mas deve ser de muitos anos atrás. Mesmo assim, não dá alergia. Deve ser de tão bom que o livro é!

Passados 15 anos, resolvi relê-lo. E lá estão Mack e os rapazes, Doc e seus discos de música clássica, Lee Chong e seu mercado que tudo vende e Dora, a cafetina de coração grande. Além desses personagens principais, há também diversos adjacentes, todos moradores da Cannery Row, uma rua da cidade de Monterey, na California. Pobre, em plena depressão dos anos 30, com andarilhos, meninos de rua, trabalhadores, pescadores, marinheiros, prostitutas, malucos e outra porção de seres humanos interessantíssimos.

John Steinbeck (um dos meus ídolos) é mestre em descrever esses tipos humanos e dar vida e carisma às figuras mais incríveis. Ele nos transporta para esse mundo de “madeiras lascadas, calçadas rachadas, terrenos baldios cobertos de mato e pilhas de lixo, tabernas imundas” e, mesmo em meio a toda essa miséria, com tanta tragédia humana — suicídios, brigas e desastres de toda sorte –, ele consegue nos fazer rir. Sim, porque o grande mérito de Steinbeck é colocar uma lupa nesse universo de uma rua e encontrar humor até nos lugares e situações mais improváveis.

Reli com gosto e, talvez, com um sabor diferente, agora aos 30 anos de idade. E farei questão de reler de novo aos 45, aos 60 anos, e até quando minhas vistas permitirem. Porque este é um clássico que nunca se perde no tempo.

Só hoje descobri que Steinbeck retomou alguns dos personagens de Cannery Row em um livro escrito nove anos depois, “Doce Quinta-feira”, de 1954. E já tratei de encomendar um exemplar para mim, por meio de um sebo virtual lá de Porto Alegre (viva a internet!), a meros R$ 7,90. Provavelmente chegará com as páginas amareladas, mas não vai dar alergia.

A Rua das Ilusões Perdidas (Original: Cannery Row, de 1945)
John Steinbeck
Ed. Record
207 páginas
De R$ 15,20 a R$ 20

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Quando até discurso é bom de ler

gabo

A Ana Paula, de quem tanto já falei por aqui, me emprestou o livro acima com bastante propaganda. “É muito legal!”. E disparou a contar uma história sensacional que é contada logo no começo do livro, que depois reli como se tivesse sabendo dela pela primeira vez, de tão genial. Gabriel García Márquez é genial e fazia tempo que eu não me lembrava disso (o último dele que li foi “Memórias de minhas putas tristes”, em 2006!!).

O livro em questão, “Eu não vim fazer um discurso”, reúne 21 discursos que Gabo fez entre 1944 e 2007. Da despedida do colegial à comemoração de seus 80 anos e 40 anos de publicação da obra prima “Cem Anos de Solidão”. Passando pelo prêmio Nobel, por conferências com grandes líderes e intelectuais do mundo e por homenagens a amigos, os discursos tratam das agruras da América Latina, do ofício apaixonante de jornalista, da literatura e de figuras públicas, mais ou menos conhecidas.

Pincelo alguns trechos incríveis do livro:

“Em cada linha que escrevo trato sempre, com maior ou menor fortuna, de invocar os espíritos esquivos da poesia, e trato de deixar em cada palavra o testemunho de minha devoção pelas suas virtudes de adivinhação e pela sua permanente vitória sobre os surdos poderes da morte.” (1982)

*

“Em algum momento do próximo milênio a genética vislumbrará a eternidade da vida humana como uma realidade possível, a inteligência eletrônica sonhará com a aventura quimérica de escrever uma nova Ilíada, e em sua casa na Lua haverá um casal de apaixonados de Ohio ou da Ucrânia, angustiados de nostalgia, que se amarão em jardins de vidro à luz da Terra. A América Latina e o Caribe, porém, perecem condenados à servidão do presente: o caos telúrico, os cataclismos políticos e sociais, as urgências imediatas da vida diária, das dependências de toda índole, da pobreza e da injustiça, não nos deixaram muito tempo para assimilar as lições do passado nem pensar no futuro.” (1985)

*

“Um minuto depois da última explosão, mais da metade dos seres humanos terá morrido, o pó e a fumaça dos continentes em chamas derrotarão a luz solar, e as trevas absolutas voltarão a reinar no mundo. Um inverno de chuvas alaranjadas e furacões gelados inverterá o tempo dos oceanos e dará volta no curso dos rios, cujos peixes terão morrido de sede nas águas ardentes, e cujos pássaros não encontrarão o céu. As neves perpétuas cobrirão o deserto do Saara, a vasta Amazônia desaparecerá da face do planeta destruída pelo granizo, e a era do rock e dos corações transplantados estará de regresso à sua infância glacial. Os poucos seres humano que sobrevivam ao espanto, e os que tiverem o privilégio de um refúgio seguro às três da tarde da segunda-feira aziaga da catástrofe magna, só terão salvado a vida para depois morrer pelo horror de suas recordações. A criação haverá terminado. No caos final da umidade e das noites eternas, o único vestígio do que foi a vida serão as baratas.” (forte discurso contra as 50 mil ogivas nucleares engatilhadas pelo mundo, feito em 1986)

*

“Pois o jornalismo é uma paixão insaciável, que só se consegue digerir e humanizar pela sua confrontação descarnada com a realidade. Ninguém que não a tenha padecido consegue imaginar essa servidão que se alimenta das imprevisões da vida. Ninguém que não tenha vivido isso consegue nem de longe conceber o que é o palpitar sobrenatural da notícia, o orgasmo da nota exclusiva, a demolição moral do fracasso. Ninguém que não tenha nascido para isso e esteja disposto a morrer por isso poderia persistir num ofício tão incompreensível e voraz, cuja obra termina depois de cada notícia (…).” (1996)

*

“Aos meus doze anos, estive a ponto de ser atropelado por uma bicicleta. Um padre que passava me salvou com um grito: ‘Cuidado!’ O ciclista caiu no chão. O senhor padre, sem se deter, me disse: ‘Viu só o que é o poder da palavra?'” (1997)

Mas o trecho mais legal, aquele que citei de cara neste post, vou deixar para publicar aqui amanhã, porque domingo é dia do bom e do melhor 😉

De qualquer forma, adianto: quem gosta de literatura, de história e de jornalismo, de refletir sobre a palavra e de sorver textos tão maravilhosamente bem escritos, tem que dar um jeito de ler este livro.

Eu não vim fazer um discurso
Gabriel García Márquez
Editora Record
127 páginas
De R$ 16 a R$ 28

Leia também os seguintes posts sobre discursos:

 

Dois poemas de uma polonesa

Hoje tive o prazer de ler dois poemas da polonesa Wisława Szymborska, publicados no excelente blog do escritor Carlos Emerson Junior (recomendadíssimo, aí na listinha da direita). Por 12 pequenas coletâneas de poemas, ela já abocanhou um Prêmio Nobel de Literatura, em 1996. Por aí se vê a força de seus textos.

Reproduzo abaixo os dois selecionados por Carlos, para que sempre possamos lê-los também por aqui 😉

***

Cem pessoas

Em cada cem pessoas

Aquelas que sempre sabem mais:

cinquenta e duas.

 

Inseguras de cada passo:

quase todo o resto.

 

Prontas a ajudar,

desde que não demore muito:

quarenta e nove.

 

Sempre boas,

porque não podem ser de outra maneira:

quatro — bem, talvez cinco.

 

Capazes de admirar sem invejar:

dezoito.

 

Levadas ao erro

pela juventude (que passa):

sessenta, mais ou menos.

 

Aquelas com quem é bom não se meter:

quarenta e quatro.

 

Vivem com medo constante

de alguma coisa ou alguém:

setenta e sete.

 

Capazes de felicidade:

vinte e alguns, no máximo.

 

Inofensivos sozinhos,

selvagens em multidões:

mais da metade, por certo.

 

Cruéis,

quando forçados pelas circunstâncias:

é melhor não saber

nem aproximadamente.

 

Peritos em prever:

não muitos mais

que os peritos em adivinhar.

 

Tiram da vida nada além de coisas:

trinta

(mas eu gostaria de estar errada).

 

Dobradas de dor,

sem uma lanterna na escuridão:

oitenta e três,

mais cedo ou mais tarde.

 

Aqueles que são justos:

uns trinta e cinco.

Mas se for difícil de entender:

três.

 

Dignos de simpatia:

noventa e nove.

 

Mortais:

cem em cem –

um número que não tem variado.

cemiterio

***

Exemplo

O vendaval
à noite arrancou todas as folhas de uma árvore,
menos uma,
deixada
para balançar só num galho nu.

Com este exemplo
a Violência demonstra
que sim –
às vezes ela gosta de se divertir.

Fotografia de Filipa.

Fotografia de Filipa.