‘Privatize-se tudo, privatize-se o mar e o céu, privatize-se a água e o ar’

Jose Saramago por bottelho (Flickr/reprodução)

 

Bom momento para relembrarmos o desabafo de José Saramago:

“A mim parece-me bem.

Privatize-se Machu Picchu, privatize-se Chan Chan,
privatize-se a Capela Sistina,
privatize-se o Pártenon,
privatize-se o Nuno Gonçalves,
privatize-se a Catedral de Chartres,
privatize-se o Descimento da Cruz,
de Antonio da Crestalcore,
privatize-se o Pórtico da Glória
de Santiago de Compostela,
privatize-se a Cordilheira dos Andes,
privatize-se tudo, privatize-se o mar e o céu,
privatize-se a água e o ar, privatize-se a justiça e a lei,
privatize-se a nuvem que passa,
privatize-se o sonho, sobretudo se for diurno
e de olhos abertos.

E, finalmente, para florão e remate de tanto privatizar,
privatizem-se os Estados, entregue-se por uma vez
a exploração deles a empresas privadas,
mediante concurso internacional.
Aí se encontra a salvação do mundo…

E, já agora, privatize-se também
a puta que os pariu a todos.”

(Texto de “Cadernos de Lanzarote – Diário III”. Lisboa: Editorial Caminho, 1996, que tirei da revista Prosa Verso e Arte.)

Leia também:

Privatização da Eletrobras: a hora do espanto

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Clarabóias

Recomendo a leitura de todas as “claraboias” que Saramago escreveu e que vêm sendo publicadas agora em seu blog.

Tipo esta:

“Sim. Os tempos são outros, mas os homens são os mesmos…” (Claraboia 22)

E esta:

“Os mesmos lábios podem beijar de diversas maneiras e Lídia conhecia-as todas. O beijo apaixonado, o beijo que não é apenas lábios mas também língua e dentes, era reservado para as grandes ocasiões. Nos últimos dias fizera largo uso dele, vendo que Paulino se afastava ou, pelo menos, o parecia.” (Claraboia 19)

Ou esta:

“Amanhã, não sei o que serei. Talvez desempregado. Não seria a primeira vez… Ignoro se sabe o que é estar sem trabalho, sem dinheiro e sem casa. Eu sei.” (Claraboia 16)

E:

“Nessa manhã, muito a contragosto porque chovia, Carmen saiu às compras. A casa ficou tranquila, isolada pelo sossego dos vizinhos e pelo rumor sossegado da chuva. O prédio vivia uma daquelas horas maravilhosas de silêncio e paz, como se não tivesse dentro de si criaturas de carne e osso, mas sim coisas, coisas definitivamente inanimadas.” (Claraboia 14)

A melhor:

“Estava só. O cigarro ardia lentamente entre os dedos. Estava só como três anos antes, quando conhecera Paulino Morais. Acabara-se. Era preciso recomeçar. Recomeçar. recomeçar…
Devagar, duas lágrimas brilharam-lhe nos olhos. Oscilaram um momento, suspensas da pálpebra inferior. Depois, caíram. Só duas lágrimas. A vida não vale mais que duas lágrimas.” (Claraboia 6)

Boa:

“É sempre a mesma história. Para uns, muito; para outros, pouco: e para outros, nada. Quando é que essa gente aprende a pagar aquilo de que precisamos para viver?” (Claraboia 3)

A primeira:

“Deixou cair o livro lentamente e, de olhos fitos no espelho, onde a sua cara tinha, agora, uma expressão de espanto que recordava a mãe, recapitulou em segundos a sua vida – luz e sombra, farsa e tragédia, insatisfação e logro.”

Leia todas a partir DESTA.

Blogs legais!

Desde que criei esta jocinha, vocês podem encontrar aí ao lado, na coluna da direita, uma lista de blogs que recomendo. Acrescentei alguns no meio do caminho, talvez tenha tirado outros e certamente esqueci de muitos. Mas o importante é que todos os que sobreviveram são legais e valem a visita.

Finalmente agora tirei um tempinho para colocar a descrição de cada um deles. Assim, quando vocês passam o mouse sobre um link, saberão previamente se interessa visitar aquele lugar.

Hoje resolvi visitar todos eles e selecionar alguma coisa legal para que vocês sintam vontade de espiar.

Na ordem:

O pacotão da Dilma para ajudar pessoas com deficiência, no blog Assim como Você.

A análise do Balaio do Kotscho sobre a crise do CNJ X STF.

O risco que corre a Serra da Gandarela, segundo o Boletim Mineiro de História.

Dos Cadernos de Saramago, uma pérola por dia:

Estava só. O cigarro ardia lentamente entre os dedos. Estava só como três anos antes, quando conhecera Paulino Morais. Acabara-se. Era preciso recomeçar. Recomeçar. recomeçar…
Devagar, duas lágrimas brilharam-lhe nos olhos. Oscilaram um momento, suspensas da pálpebra inferior. Depois, caíram. Só duas lágrimas. A vida não vale mais que duas lágrimas.

Não-soneto da amora, no Correndo risco de vida:

de tudo, ah minha amora, serei atenta
antes naquele instante em dezembro
e, pela tarde que cai junto à tormenta,
ei de amá-la uma infinitude
ei de achá-la no esquecimento
engasgada no pranto,
ah, minha amora, que eu a tenha,
mais do que quero, avessa a este momento.

Paris debaixo d’água, do Desculpe a Poeira:

Se o governo tivesse boas políticas para qualidade do ar, economizaria alguns bilhões de dólares no sistema de saúde, diz Sérgio Abranches, do Ecopolítica.

Fiúme tem um bom olhar pras pechinchas:

Jaime Guimarães, eterno Groo, sempre se lembra do genial Stanislaw Ponte Preta:

Alice diz: “Apenas faça.” E com drama e humor:

Liniers e seu Macanudo é genial:

Mas genial mesmo é o Laerte, o minotauro:

Ótimos artigos do meu pai, no blog do Massote.

A dança de Penny Lane, do blog da Ju Granjeia:

Takata realmente discute o aborto.

Um pequeno desafio literário no blog Novo em Folha.

Uma poeminha no blog do jornalista e poeta Talis Andrade:

Assim como a chita barata
que vive a efemeridade
de suas cores
Sigo aproveitando a luz
e expondo minhas flores
Antes que o tempo
que o sol
ou uma moça alheia
me rasgue sem vontade
e eu desbote
e fique feia.

Olhem o que achei no blog Pelo Mundo (faltou a apple dos Beatles!):

De tudo um pouco, desde que em São Paulo (ou geralmente), no Pseudopapel.

Graaaande Savage Chickens!

Coisas que nunca me disseram mas eu aprendi (e todas valem!):

Homenagem ao Juca Kfouri no blog do amigo Tadeu Galiza:

Gaitinha das boa no blog Talk is Cheap, do blueseiro Kenji:

Críticas de filme e livro, crônicas, contos e bela homenagem, na Velha Margem do Matheus.

Outro gênio, o XKCD:

Por fim, apesar de ter saído da ordem alfabética, a homenagem do dia, feita pelo Um Sábado Qualquer (crônicas de deus em pessoa):

Saramago para iniciantes (mesmo)

Bela dica do Roberto Takata no post abaixo:

Pra quem preferir ler o livro:

 Mas leiam o Conto da Ilha Desconhecida, garanto que não vão se arrepender! 😉

Saramago para iniciantes

Atendendo ao pedido do meu colega Samy (o único da Folha que lê meu blog ;)), coloco aqui o trecho de um texto de José Saramago que adoro, chamado “O Conto da Ilha Desconhecida”.

Não é muito grande e vocês deveriam ler até o final, viu?

Um homem foi bater à porta do rei e disse-lhe, Dá-me um barco. A casa do rei tinha muitas mais portas, mas aquela era a das petições. Como o rei passava todo o tempo sentado à porta dos obséquios (entenda-se, os obséquios que lhe faziam a ele), de cada vez que ouvia alguém a chamar à porta das petições fingia-se desentendido, e só quando o ressoar contínuo da aldraba de bronze se tornava, mais do que notório, escandaloso, tirando o sossego à vizinhança (as pessoas começavam a murmurar, Que rei temos nós, que não atende), é que dava ordem ao primeiro-secretário para ir saber o que queria o impetrante, que não havia maneira de se calar. Então, o primeiro-secretário chamava o segundo-secretário, este chamava o terceiro, que mandava o primeiro-ajudante, que por sua vez mandava o segundo, e assim por aí fora até chegar à mulher da limpeza, a qual, não tendo ninguém em quem mandar, entreabria a porta das petições e perguntava pela frincha, Que é que tu queres. O suplicante dizia ao que vinha, isto é, pedia o que tinha a pedir, depois instalava-se a um canto da porta, à espera de que o requerimento fizesse, de um em um, o caminho ao contrário, até chegar ao rei. Ocupado como sempre estava com os obséquios, o rei demorava a resposta, e já não era pequeno sinal de atenção ao bem-estar e felicidade do seu povo quando resolvia pedir um parecer fundamentado por escrito ao primeiro-secretário, o qual, escusado se ria dizer, passava a encomenda ao segundo-secretário, este ao terceiro, sucessivamente, até chegar outra vez à mulher da limpeza, que despachava sim ou não conforme estivesse de maré.
Contudo, no caso do homem que queria um barco, as coisas não se passaram bem assim. Quando a mulher da limpeza lhe perguntou pela nesga da porta, Que é que tu queres, o homem, em lugar de pedir, como era o costume de todos, um título, uma condecoração, ou simplesmente dinheiro, respondeu, Quero falar ao rei, Já sabes que o rei não pode vir, está na porta dos obséquios, respondeu a mulher, Pois então vai lá dizer-lhe que não saio daqui até que ele venha, pessoalmente, saber o que quero, rematou o homem, e deitou-se ao comprido no limiar, tapando-se com a manta por causa do frio. Entrar e sair, só por cima dele.

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