A fábula do menino de 10 anos que aprendeu a andar de bicicleta

Foto ilustrativa. Crédito: Pixabay.

 

Luiz está com 2 anos e 10 meses. Há uns seis meses, começou a ir para a pracinha com o pai, pela manhã, levando uma bicicleta de equilíbrio que ganhou no aniversário de 2 anos. A bicicleta de equilíbrio é sem pedal e dizem os entendidos que as crianças que aprendem a andar com ela pegam o jeito rapidinho, passando direto para a bike tradicional, sem precisar usar rodinhas.

Nas primeiras duas vezes que o Luiz andou, foi quase arrastando. Não é nem que ele caía, simplesmente saía pouco do lugar. É como se estivesse tentando caminhar com uma bicicleta no meio.

Na terceira vez, já estava desenvolvendo mais, colocando menos o pé no chão.

E assim foi: a cada ida à pracinha, a evolução era maior. Começou a descer morrinhos, ganhando mais agilidade e autoconfiança. Hoje, ele anda pra lá e pra cá, na maior felicidade.

Na semana passada, num desses passeios, um pai que estava com seu filho de 10 anos observou o Luiz e ficou impressionado: como um garotinho de menos de 3 anos estava andando tão bem de bicicleta e o filho dele, de 10 anos, ainda estava usando rodinhas?

Foi até o carro, buscou umas ferramentas, tirou as rodinhas e começou a ensinar o filho a andar de bike também, a exemplo do Luiz, 7 anos mais novo.

Não precisou de muito tempo: logo o garoto tinha aprendido.

A história acima é real, foi relatada pelo meu marido. Mas é das histórias reais que podemos tirar as melhores reflexões. Qual é a “moral da história”? Pensei de imediato em três:

  1. As pessoas podem até não ter nascido com um dom ou talento especial, mas tudo é aprendido com a prática e a persistência.
  2. Se ninguém ensinar algo ao seu filho, vai ser bem mais difícil de ele aprender sozinho.
  3. Nunca é tarde demais para se aprender algo novo, por mais difícil que pareça.

E isso vale para tudo. Ensine seu filho, desde cedo, a interpretar textos corretamente. Isso será fundamental para ele na vida toda. Ensine seu filho, desde cedo, a ter empatia. Ensine seu filho, desde cedo, a respeitar quem é diferente dele. Ensine seu filho, desde cedo, que a violência não é a melhor resposta nunca. Ensine seu filho, desde cedo, que mulheres têm os mesmos direitos que os homens.

Se você não ensinar, ele pode até aprender de outras formas, mas sempre haverá pessoas tentando ensinar o contrário também. Lembre-se disso 😉

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A fábula do menino de 2 anos que aprendeu a valorizar o que tem

Luiz se divertindo com baldinhos cheios de terra e água | Foto: arquivo pessoal

– OLHA O QUE EU GANHEI, PAPAI!

Foi assim que o Luiz chegou em casa, no último sábado. Todo alegre, ele mostrava ao pai o que tinha acabado de ganhar no passeio que fez comigo, na livraria infantil do bairro.

Era um pedacinho de papel rosa, com um número “3” escrito a caneta no meio.

O pai ficou meio sem entender. Expliquei:

– A livraria sorteou três livros, depois que a contação de histórias terminou. Não ganhamos nenhum livro, mas o Luiz adorou o papelzinho rosa com seu número no sorteio.

Claro que desandei a pensar num monte de coisas por causa desse singelo episódio.

Em como as crianças ficam maravilhadas com pequenas coisas, com pequenos gestos, surpresas, presentes-sucata de papel, caixinhas, embrulhos, tão ou mais valiosos que seus conteúdos.

Em como, para o Luiz, o simples fato de ter participado de um sorteio, com a aventura de poder ganhar um presente a partir da sorte, do aleatório, já foi emocionante.

Em como perder, no fim das contas, não desmerece o percurso da expectativa de ganhar.

Em como seríamos todos mais felizes, os adultos, se soubéssemos valorizar e agradecer por essas pequenas trivialidades que compõem a vida, em vez de estarmos sempre esperando pelas conquistas grandiosas, as mais difíceis, que só acontecem de vez em quando.

Em como sou sortuda, pra começo de conversa, por ser mãe desse baixinho sorridente, que sente felicidade em empunhar um papelzinho rosado, e que me faz pensar em todas essas coisas.

É muita fortuna junta!

 

E aí na sua casa? Quantos papeizinhos rosas te deixaram contentes nos últimos dias? E quantos vocês simplesmente jogaram fora sem nem reparar?

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A província

A fábula abaixo dispensa comentários complementares, porque já traz, por si só, reflexões poderosas a quem a lê. Foi escrita pelo meu amigo e professor Marcelo Soares, premiado jornalista da “Folha de S.Paulo”, que sabe muito sobre tudo. Ele publicou em sua página no Facebook e, com sua autorização, reproduzo o conto aqui no blog. Boa leitura! 😀


 

“A notícia de que terroristas atacaram o semanário francês “Charlie” e mataram seis cartunistas que trabalhavam na publicação abalou o mundo. Abalou também as maiores autoridades de uma distante província.

Mal se soube da notícia, houve uma reunião urgente entre o governador, o bispo local, o presidente do Legislativo e o diretor da escola secundária local.

— Fato lamentável, mas percebam que eles mexeram com o sagrado, e com o sagrado não se mexe — disse o bispo.

— De fato, leio que publicavam coisas ofensivas e de mau gosto –, disse o governador. — Passarinho que come pedra sabe a dor que lhe advém.

Ninguém queria que algo semelhante ocorresse em seu território, porém, e medidas drásticas precisariam ser tomadas. Não era por ser distante que a província estaria a salvo.

Esses terroristas não respeitam fronteiras, lembrou o diretor da escola. Nada os impediria de tomar um dos três ônibus que paravam toda semana na rodoviária local, orgulho da província, e matar a população inteira em poucos minutos caso se sentissem ofendidos por algo publicado na “Trombeta”, o jornal local – que, como todos na reunião sabiam, não tinha jeito.

O presidente do Legislativo, sem demora, teve a ideia de criar uma lei que evitasse as causas do ataque. A lei criava um guichê onde toda a população da distante província informaria coisas que achassem ofensivas e de mau gosto.

A partir do registro no Grande Livro das Ofensas, algo que ofendesse uma pessoa sequer não poderia mais ser dito ou visto naquela distante província.

As primeiras contribuições foram quase de consenso.

Não pode falar mal de qualquer religião, o que implicaria também que não se pode falar bem de qualquer religião porque há quem se ofenda com a religião alheia.

Não pode ficar falando dos parentes de ninguém, isso é consenso, e como todo mundo tem família fica proibido falar de quem quer que seja.

Não se pode citar um fato desfavorável sem citar todos os fatos desfavoráveis sobre quaisquer outras coisas que possam ser vistas como relacionadas ou opostas. Por exemplo: para poder dizer que Fulano roubou, se Fulano não for parente de ninguém, é preciso lembrar também que Beltrano roubou, Sicrano roubou e seguir a listagem até chegar a São Dimas, o Bom Ladrão da Bíblia (lembrança do bispo). Sem essa longa ponderação, não se pode citar fatos desfavoráveis. Reduziu-se muito a fofoca.

Não pode olhar para as mulheres na rua. Olhar para homem também não pode. As mulheres também ficam proibidas de usar roupas muito olháveis (o diretor da escola era pai da moça mais cobiçada da província), e os homens ficam proibidos de sair malvestidos. Lactantes ficam proibidas de amamentar em público. Dirigir a palavra a estranhos é proibido.

Não pode falar mal do time dos outros. Bem do próprio time também não se pode falar, porque dizer “meu time foi campeão” ofende quem torce para o time que perdeu. Os dois times locais, que todo domingo disputavam o clássico da província no ginásio, sob intensa torcida, saíram contentes.

O governador e o presidente do Legislativo incluíram a provisão de que não se pode falar mal de político. Não se poderia falar bem de político também, porque todo político é adversário de algum outro e falar bem de um implica desfavor a outro.

Um ponto contencioso foi o musical. Muitos propuseram vetar o pagode. Outros propuseram vetar o rock também. Ainda outros vetaram a bossa nova. O governador, em sua sabedoria, propôs vetar a música como um todo, e portanto não se ouve mais música naquela província.

Beijar na rua: não pode. Usar pochete: não pode. Andar sem camisa: não pode. Rir alto: não pode. Rir baixo: menos ainda. Falar difícil: elitismo, não pode. Falar fácil: coisa de burro, não pode. Contar o fim do filme a quem não viu: NÃO PODE. Ler livros em público: ofende quem não tem o hábito da leitura, portanto não pode. Ler livros escondido: é suspeito, não pode.

Foram semanas de intensa deliberação, quando inclusive o nome daquela província foi considerado inadequado, e portanto não poderia ser dito. Foi apagado dali para a frente de todos os registros, e por isso não o mencionamos aqui.

Ao final da deliberação, decidiu-se que, em nome da paz, nada mais poderia ser dito a respeito de coisa alguma.

Parece que todos foram felizes depois — não há registros para garantir, porém.”

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A fábula do juiz que queria ser chamado de “doutor”

"I'm the Master" sign on executive's desk

Ainda em 2007, escrevi sobre a história do juiz Antonio Marreiros da Silva Melo Neto.

Vou refrescar a memória dos leitores: ele é um que queria obrigar o funcionário de seu condomínio a chamá-lo de “doutor” e “senhor”. Como não conseguiu fazer isso por meio da simpatia, pura e simples, apelou à máquina do judiciário (que conhece bem, por ser juiz), para tentar obter o tratamento à força.

Lá foi o juiz Marreiros entrar para a história do judiciário brasileiro, como um desexemplo. Não sei quanto a vocês, mas me lembrarei para sempre do nome dele. E, se um dia vier a encontrá-lo em minha frente, farei questão de chamá-lo de “você” — ou, mais mineiramente, de “cê”. Acho o caso tão anedótico e, ao mesmo tempo, tão absurdo, por chegar à mais alta esfera do judiciário — o STF — depois de longos dez anos de tomada de tempo e dinheiro do nosso sistema judiciário, que tenho convicção de que ele deve ser estudado nas boas escolas de direito do país. Se não é, pelo menos vale um belo post para este blog. Recomendo a leitura até o fim, queridos leitores, porque trata-se de uma verdadeira fábula:

CAPÍTULO 1 – DA BRIGA DE CONDOMÍNIO

Tudo começou com um vazamento no prédio. Ele pediu a ajuda do porteiro para resolver o problema, que, por não ter a autorização da síndica, negou o socorro. Os dois discutiram e o porteiro passou a chamar Marreiros sempre de “você” e “cara”, enquanto chamava a síndica de “dona” (daí surge a ofensa maior, reparem bem!). Como se vê na própria apelação do juiz, ele chegou a interfonar para o porteiro e insistir em várias ocasiões que fosse chamado de “senhor” e “doutor”. O empregado, antipatizado, respondeu: “Não vou te chamar de senhor não, cara!” e acrescentou: “Fala sério!”. Marreiros retrucou que “não é cidadão comum, mas juiz”. Pneus de seu carro começaram a aparecer furados. Enfim, típico barraco de condomínio.

CAPÍTULO 2- DO COLEGA QUE CONCORDOU COM O JUIZ

Inconformado com as ofensas do displicente porteiro e com o dar-de-ombros da síndica, Marreiros decidiu entrar com uma ação na Justiça, em setembro de 2004 — um mês depois do início das discussões — pedindo para ser tratado por “senhor” e “doutor”, sob pena de multa diária que seria fixada, e pedindo ainda indenização por danos morais, a ser paga pela síndica e pelo condomínio, no valor de no mínimo 100 salários mínimos (o que, em valores de hoje, daria mais de R$ 70 mil). Leia a petição inicial dele.

A juíza Simone Ramalho Novaes, da 7ª Vara Cível de São Gonçalo, negou o pedido de liminar, e Marreiros recorreu. Na segunda instância, o desembargador Gilberto Dutra Moreira concordou com Marreiros e concedeu a liminar, decidindo:

“Tratando-se de magistrado, cuja preservação da dignidade e do decoro da função que exerce, e antes de ser direito do agravante, mas um dever e, verificando-se dos autos que o mesmo vem sofrendo, não somente em enorme desrespeito por parte de empregados subalternos do condomínio onde reside, mas também verdadeiros desacatos, mostra-se, data vênia, teratológica a decisão do juízo a quo ao indeferir a antecipação de tutela pretendida. Isto posto, defiro-a de plano. Oficie-se, inclusive solicitando as informações e indagando sobre o cumprimento do art. 526, do CPC. Intimem-se os agravados para contra-razões, por carta.”

Na época, o presidente da OAB-RJ, Octávio Augusto Brandão Gomes, repudiou a decisão, dizendo: “Todos nós somos seres humanos. Ninguém nessa vida é melhor do que o outro só porque ostenta um título, independente de ter o primeiro ou segundo grau completo ou curso superior”.

Apesar disso, em março de 2005, a 9ª Câmara Cível do TJ confirmou a decisão do desembargador Gilberto Dutra Moreira, por 2 votos a 1.

CAPÍTULO 3 – DA AULA DE BOM SENSO

Pouco depois, em maio de 2005, Marreiros teve sua primeira grande derrota: o juiz Alexandre Eduardo Scisinio, da 9ª Vara Cível de Niterói, foi decidir o mérito da ação, não só a antecipação de tutela (que tinha sido favorável a Marreiros até então). E sua decisão foi um poço de sabedoria e bom senso. Ela pode ser lida na íntegra AQUI, mas seguem alguns trechos:

“Embora a expressão “senhor” confira a desejada formalidade às comunicações — não é pronome —, e possa até o autor aspirar distanciamento em relação a qualquer pessoa, afastando intimidades, não existe regra legal que imponha obrigação ao empregado do condomínio a ele assim se referir.”

“O empregado que se refere ao autor por “você”, pode estar sendo cortês, posto que “você” não é pronome depreciativo. Isso é formalidade, decorrente do estilo de fala, sem quebra de hierarquia ou incidência de insubordinação.”

“Tratamento cerimonioso é reservado a círculos fechados da diplomacia, clero, governo, judiciário e meio acadêmico”

“Mas na relação social não há ritual litúrgico a ser obedecido. Por isso que se diz que a alternância de “você” e “senhor” traduz-se numa questão sociolingüística, de difícil equação num país como o Brasil de várias influências regionais. Ao Judiciário não compete decidir sobre a relação de educação, etiqueta, cortesia ou coisas do gênero, a ser estabelecida entre o empregado do condomínio e o condômino, posto que isso é tema interna corpore daquela própria comunidade.”

UM BREVE PARÊNTESIS

(Se ele realmente tivesse conseguido uma decisão judicial favorável, de que adiantaria? Será que o funcionário iria cumpri-la? Se não cumprisse, ainda mais antipatizado com o magistrado depois dessa peleja jurídica, quem o iria punir? Ele seria preso? Multado? O juiz andaria com um gravador para mostrar que ele descumpriu a determinação? E quantos anos depois conseguiria a execução da “pena”? Enfim, fico só a pensar.)

EPÍLOGO

Marreiros ficou inconformado com esta sentença e apelou para o TJ de novo, dizendo que a conduta da síndica é “pior do que um soco na face”. Perdeu. Em 2006, enviou Recurso Extraordinário ao STF, dizendo que o caso diz respeito à Constituição “por envolver os princípios da dignidade da pessoa humana e da igualdade”.

No dia 22 de abril de 2014, o ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo, pôs fim à novela, negando o pedido de Marreiros, apenas poucos dias depois de o STF julgar o caso de um ladrão de galinhas que já havia até devolvido as aves furtadas. Leia a decisão de Lewandowski.

MORAIS DA HISTÓRIA

1) Nosso sistema judiciário precisa de reforma urgente. Não é cabível que se despenda esforço, equipe, dinheiro e tempo (dez anos!) para julgar uma rixa de condomínio. Não é cabível que se despenda o mesmo por um furto de galinhas. Num Brasil de mensalões petistas e tucanos, de operações lava-jatos, castelos de areia, satiagrahas, sanguessugas, navalhas, caixas de pandora, etc ad nauseam, não é possível que nosso judiciário tenha que perder tempo para acalmar o incômodo de um juiz que ficou #chatiado.

2) O juiz Marreiros terá que se conformar em ser chamado de você. Ou pode fazer duas coisas:

  • se mudar de condomínio, para um no qual seja melhor atendido pelos síndicos e porteiros, com os quais poderia até travar alguma amizade;
  • fazer doutorado na área de linguística (após esses dez anos de aula que ele teve que tomar na área, forçosamente), para ser chamado de doutor onde esta forma de tratamento funciona bem: no meio acadêmico.

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“A cigarra e a formiga”, um novo fim

Era uma vez uma Cigarra e uma Formiga, que se odiavam por terem visões de mundo totalmente diferentes. Ou, na verdade, começariam a se odiar lá pela metade da história.

A Cigarra era liberal, meio hippie, gostava de curtir a vida (“porque a vida é curta”, dizia), nunca punha os pés no chão (no máximo, num tronco de árvore), preferia voar para lá e para cá, sonhadora. Não deu certo em nada na vida e tampouco tinha talento algum, então resolveu aprender três acordes de violão (começou com Legião Urbana e Nirvana) e imitou Alanis Morissette “tocando” gaita, até que algum Pato caiu na conversa de que aquilo era música e contratou os serviços da Cigarra num barzinho mequetrefe, com couvert a R$ 3, todas as sextas e sábados.

Num desses dias, a Formiga lá estava, acompanhada de sua família. Uma formiga-macho, frise-se bem. A Formiga era o contrário da Cigarra (que também era macho, porque como todos sabem, são as cigarras-macho que cantam): mais conservadora, valorizava os valores morais cristãos e achava que sua missão na terra era o trabalho suado, que seria recompensado com um caixão farto de dinheiro nas gavetas e um monte de folhas no paraíso da vida eterna. Pão-dura, a Formiga achava que restaurante era um luxo desnecessário, mas foi lá fazer a vontade da esposa, que estava reclamando que não faziam nada no aniversário de casamento desde que o primeiro dos 237 filhotes nasceram. E ficou irritadíssima ao constatar a incompetência musical da cigarra, que levava, com tantas cabeças para pagar couvert, um mínimo de R$ 717 às custas da Formiga.

“Ora, ora, que vida mansa! Finge que toca violão, finge que toca gaita e ainda me vem com essa voz esganiçada repetindo o mesmo refrão (“cississississississississississi… cissississississississississississi…”) por todo o jantar, como se meu ouvido fosse um penico! Faz isso por míseras duas horinhas por semana e vai embora com todo o meu dinheiro de dois meses de trabalho!”

A Formiga ficou tão indignada que mal conseguiu engolir a deliciosa couve amanteigada, especialidade da casa. (O bar era mequetrefe, mas servia boas verduras, coletadas, aliás, por funcionários de uma fábrica do sogro da formiga, aquele miserável milionário mão-de-vaca.)

Começou a arquitetar um plano de vingança contra aquela Cigarra maldita. Aquilo não podia ficar barato.

“Oi, seu Cigarra, tudo bem? Estive te ouvindo por todo o jantar e não pude deixar de reparar em como é afinadinha e talentosa! Poderia tocar na festa de aniversário de minha esposa, no próximo inverno?”

A Cigarra ficou toda-toda, principalmente por perceber como havia tantos trouxas que realmente acreditavam que ela tocava bem. Como era gastadeira, nunca recusava ofertas de bicos fáceis como aquele, que dariam grana na certa, sem trabalho demais. Mas primeiro se fez de difícil:

“Poxa, adoraria, mas minha agenda é bem apertada. Quanto o sr. estaria disposto a desembolsar pelo meu show?”

“Ah, dinheiro não é problema! A sra. pode me pedir o quanto quiser, que te pago na hora.”

“Bom, se é assim, eu cancelo os outros compromissos”, disse a Cigarra, mal contendo a alegria.

Chegado o inverno, a Cigarra apareceu (com três horas de atraso, diga-se de passagem) no endereço da família da Formiga. Lá chegando, foi recebida pela Formiga, junto com dez de seus filhos mais obedientes, todos ex-militares, que cercaram a Cigarra e lhe deram uma ferroada brava antes que ela pudesse sequer pensar em voar.

Levaram a convalescente para um calabouço previamente arrumado pela Formiga e lá a trancaram, sem que os outros irmãos e a dona da casa suspeitassem de nada.

E lá ficou a Cigarra, por exatos dez dias, sem comida e com pouca água, que a Formiga meticulosamente oferecia, só o suficiente para manter a Cigarra viva. E ela até aguentou bem o tranco, porque, como todo boa-vida, era comilona e gorda à fartura, e tinha muita banha para transformar em energia naquele jejum forçado.

O que mais a incomodava era a dúvida sobre por que a Formiga tinha sido tão cruel. Teria acreditado na história de que era uma cantora famosa e pensado em sequestrá-la? Seria uma louca assassina?

A Formiga só se dispôs a contar seus motivos no terceiro dia de cativeiro, ao som torturante de Jota Quest e Sandy no talo:

“Estou farta dessa injustiça! De ver vagabundos como o senhor lucrando o dinheiro dos trabalhadores, e usando esse dinheiro para a esbórnia, para a farra, para a putaria e a gula. Esse período é para que repense nos seus valores baixos e reaprenda a valorizar a comida e reaprenda a orar a deus e, pelo santo Cristo, pelo menos use o tempo livre para aprender a tocar mais do que três acordes e seguir essa profissão com um mínimo de dignidade!”

“Mas o senhor vai me matar?”, perguntou a Cigarra tremendo, sem prestar atenção a todo aquele blablabá moralista.

“Talvez. Se, ao fim de dez dias, o senhor tiver aprendido a lição, poderá ser libertado. Se não… veremos!”

E, tendo dito isso, a Formiga deixou o calabouço, sem mais explicações.

A Cigarra ficou atordoada. Onde foi se meter? Que fulano insuportável, arrotando toda aquela bazófia sobre deus e justiça e agora cometendo toda essa atrocidade só por não concordar com seu estilo de vida? Uma verdadeira tortura! Será que os direitos humanos estão cientes disso? Ela divulgaria à mídia toda aquela afronta, assim que saísse. Tem uns contatos de uma rádio e, na verdade, pensando bem, ter sido uma sobrevivente certamente vai render uma boa publicidade… Hummm… Até que não foi má ideia. Se ela soubesse administrar aqueles dez dias e pudesse dizer o que a Formiga quer ouvir, certamente se livraria daquilo e ainda poderia usar a experiência para alavancar a venda de discos!

Assim pensou a Cigarra, que era um poço de otimismo.

Pois bem, ela foi durando os dez dias, até um pouco satisfeita por estar perdendo uns graminhas, arquitetando as letras de música que comporia sobre o período de privação. A Formiga nada mais falou, de todo modo. Apenas soltava um pouquinho de água no chão, a cada dia, o suficiente para a Cigarra não desmaiar de vez naquele calor e abafamento.

No último dia, a Formiga chegou, acompanhada de dois dos seus filhos milicos. Perguntou, toda cheia de si:

“Você aprendeu a lição, Cigarra arrogante?”

“Sim, aprendi, Formiga! Deixe-me sair daqui! Nunca mais vou viver aquela vida mansa, nem pretendo tocar. Vou me alistar no Exército hoje mesmo, servir a pátria! Ou buscar um seminário para aprender a espalhar as bondades de deus sobre os animais de bem, que frequentam e respeitam a Igreja!”

A Formiga nada mais disse. Assobiou para seus filhos-capatazes e, diante de uma Cigarra tão magrinha e fraca, ainda por cima com as asas presas, não foi preciso mais do que dez segundos de ferroadas para que ela finalmente virasse um cadáver.

Morreu sem entender o que tinha feito de errado. E, em tese, nada tinha feito de errado. Mas é que o inverno tinha destruído todas as plantações da redondeza e a família da Formiga, bocas a não mais acabar, estava faminta. Além disso, tudo o que tinha sido guardado durante o outono estava chegando ao fim, porque mais da metade foi comida por cobradores de impostos e pelo dono da espelunca onde viviam. E, afinal, aquela Cigarra era uma imprestável mesmo. Muito provavelmente teria mentido qualquer coisa para poder escapar e ainda lucraria com a historinha de ser uma sobrevivente. No fundo, bem sabia a Formiga que a intenção nunca foi libertar aquela vadia. Deus escreve certo por linhas tortas. E aquele jantar que depenou o bolso da Formiga seria o caminho para um banquete de asinhas e casulo de quitina no momento de maior privação.

Naquela noite, a Formiga chegou em casa, toda orgulhosa, carregando, com a ajuda dos filhos mais fortes, aquele Cigarrão. Teria sido melhor comê-lo gordo, é claro, mas a Formiga queria, pelo menos, enviar uma alma mais penitenciada ao céu. O Louva-a-Deus da paróquia certamente aprovaria a ação. De todo modo, a Formiga-fêmea ficou tão alegre e orgulhosa do marido que preparou sua receita com o maior capricho e até corou de vergonha pensando em como havia se sentido atraída por uma Cigarra parecida com aquela no dia do aniversário de casamento. Ora, ora, eu amo mesmo é a Formiga, que bobagem!, pensou ela, afastando as memórias no ar, com as mãos espalmadas.

E todos dormiram de pança cheia naquela casa naquela noite, enquanto, do lado de fora, ninguém estranhava o silêncio da cigarra desaparecida, logo substituída por outra, muito mais popular, que sabia tocar bandolim e acordeão.

FIM

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Nham!

Nham!

Burp! [Fotos: CMC]

Burp!
[Fotos: CMC]