Dois narradores, duas épocas, um livro poderoso e comovente

Uma narradora com 100 anos de idade, que mora em um asilo/hospício há pelo menos 70 anos. E resolve escrever secretamente sobre sua vida e sobre o que levou a esse confinamento. Apesar de tão idosa, ela é extremamente lúcida, inteligente, saudável, do tipo que não precisa nem de óculos para ler. Sua narrativa é suave, filosófica, e, como em toda memória que se preze — ainda mais de quem viveu muitas histórias –, às vezes se perde em meandros e devaneios, embora logo recupere o fio da meada.

Esta é Roseanne e passamos as 350 páginas ansiosos para conhecê-la melhor.

O segundo narrador da história é o doutor Grene, meia-idade, médico do asilo onde vive Roseanne. Ele tem a mesma necessidade de saber um pouco mais sobre a história de sua paciente, movido por uma curiosidade que, no começo, até custamos a entender, mas que aos poucos vai fazendo sentido. Ele também se perde em devaneios durante seus relatos, mesclando o que descobriu de Roseanne com seu dia a dia em casa, onde vive com a mulher, num estado de casamento-divorciado.

Mais do que isso eu não gostaria de contar, porque o mais instigante deste livro é justamente o suspense em torno da história de Roseanne, tão maravilhosamente mantido por essa estrutura de narrativa em dupla e pelo jeito que ela tem de contar as coisas de forma sempre parcelada, como quem lembra e logo se esquece, e vai lembrar de continuar o “causo” apenas dias depois.

Além de serem dois narradores muito diferentes entre si, o que leva a história a mudar de enfoque a todo momento, são também dois tempos muito distantes que se entrelaçam com frequência: o passado remotíssimo em que Roseanne viveu sua juventude (e a parte mais emocionante do livro, para mim, foi da infância dela e do carinho que tinha pelo pai) e o presente que a gente fica querendo entender, intrigados. Pra melhorar tudo, as duas versões da mesma histórias às vezes se contradizem, e ficamos em dúvida sobre no que acreditar, em quem acreditar. No fim, fiz minha escolha.

O autor deste livro, Sebastian Barry, Continuar lendo

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Entenda a política partidária no Brasil com a ‘Família Dinossauros’ dos anos 90

Ando tão desencantada com a política no Brasil (para não dizer que com muitas outras coisas), que hoje só me ocorreu postar por aqui esta paródia feita pela série “Família Dinossauros”. Essa sátira foi feita no início da década de 1990 e se referia à sociedade norte-americana. Mas como se encaixa bem com o que vivemos ainda hoje e em outro país…!

Vejam se não é verdade: Continuar lendo

‘Teocrasília’, uma HQ que prevê Brasil de futuro obscuro

“Teocrasília é uma história em quadrinhos que fala sobre um futuro distópico não muito distante, no qual a bancada religiosa da política nacional domina o país após um episódio que ficou conhecido como “Revolução da Palavra”, estabelecendo um regime teocrático.”

É assim que o ilustrador Denis Mello resume sua mais nova obra de HQ, Teocrasília, que está sendo produzida, com apoio de financiamento coletivo, e em pré-venda.

Ele explica muito mais sobre o projeto, em texto e vídeo, AQUI no Catarse. Em SEU SITE, é possível conhecer um pouco do trabalho do quadrinista, que já foi bastante premiado.

Ele faz a seguinte provocação: “Se você concorda que a mistura de política e religião pode nos levar por um caminho obscuro enquanto sociedade, apoie esse projeto.” Bom, eu concordo: política e religião jamais deveriam se misturar. Por isso, e por acreditar em trabalhos independentes, já fiz minha contribuição. É possível ajudar com R$ 10 a R$ 250, sempre levando algumas recompensas em troca do apoio financeiro, como em toda vaquinha.

Fica a dica 😉

Veja também:

 

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Presidente do TJMG assume governo e muda prioridades

Texto escrito por José de Souza Castro:

Faz tempo que não escrevo sobre o judiciário mineiro. Foi um assunto que muito me interessou na época em que a imprensa ainda evitava criticar os juízes, e até escrevi um livro a respeito. Felizmente, isso mudou. Como comprova, mais uma vez, essa reportagem de Wálter Nunes, feita de São Paulo e publicada na quarta-feira pelo maior jornal paulista que, por sinal, recebeu no mesmo dia o prêmio “Mídia do Ano”, seja lá o que isso signifique.

Significa, pelo menos, que o que esse jornal publica não pode ser ignorado por políticos e juízes, quando o assunto diz respeito a eles. Aliás, está cada vez mais difícil distinguir alguma diferença entre as duas categorias.

Ao que diz o jornal:

“Tancredo Neves, quando governador de seu Estado (1983-1984), disse que “o primeiro compromisso de Minas é com a liberdade”. O desembargador Herbert Carneiro, presidente do Tribunal de Justiça mineiro, assumiu na semana passada por quatro dias a cadeira que foi de Tancredo e decidiu que era o caso de trocar a prioridade. O primeiro compromisso de Minas, na sua curta gestão, seria com a Justiça. Mais especificamente com os salários do Judiciário. Carneiro se mudou provisoriamente para o Palácio da Liberdade porque o governador Fernando Pimentel (PT) viajou com o presidente da Assembleia para a Colômbia. O vice-governador, Antônio Andrade (PMDB), está afastado das suas funções.”

Sem entrar no mérito da viagem do governador e do presidente da Assembleia Legislativa para a Colômbia, abrindo espaço para que o presidente do TJ se tornasse interinamente governador de Minas, cabe um reparo: Carneiro não se mudou provisoriamente para o Palácio da Liberdade. Por obra de Aécio Neves, esse velho palácio não é mais sede do governo mineiro, desde março de 2010, quando foi inaugurada a Cidade Administrativa Tancredo Neves, pelo neto. Em família, como sói acontecer na política mineira. E que custa caro aos mineiros.

Nas 96 horas em que Carneiro comandou “um Estado à beira do colapso nas contas públicas”, lê-se na reportagem, o governador interino “aproveitou para pressionar o secretário da Fazenda, naquele momento seu subordinado, para liberar dinheiro para o Judiciário”. Continuar lendo

The Guardian descobre mais um escândalo no pré-sal

Texto escrito por José de Souza Castro:

“The Guardian”, importante jornal britânico, trouxe esperança de que as novas regras do pré-sal propostas pelo governo brasileiro ao Congresso Nacional não venham a prevalecer. Como ignorar o escândalo revelado neste fim de semana de que a comissão mista que aprovou as mudanças foi influenciada pelo lobby comandado no Brasil pelo Ministro do Comércio da Grã-Bretanha, Greg Hands, em favor da Shell, BP (que se chamava British Petroleum) e Premier Oil, gigantes petrolíferas de seu país?

O senador Roberto Requião (PMDB-PR) faz aqui um bom resumo do mais novo escândalo deste governo, escândalo que, se bem entendido, pode contribuir para reverter o processo de entrega de nossas riquezas às multinacionais.

O líder da bancada do PT na Câmara dos Deputados, o paulista Carlos Zarattini, é um dos que acreditam que a revelação de que o governo Temer trabalhou para a Shell, antes dos leilões do pré-sal, ajudará a oposição a derrubar a MP 795, que acabou com a política de conteúdo nacional e concedeu isenção fiscal de R$ 1 trilhão às multinacionais do petróleo. Para ele, “é um escândalo que só confirma o caráter entreguista desse governo golpista”. Conforme o site 247, entidades empresariais, como a Abimaq, “também pretendem usar a denúncia do Guardian para derrubar a medida provisória encomendada pela Shell e servida de bandeja por Temer”.

Vamos ao que publicou The Guardian. Um telegrama obtido pelo Greenpeace mostra que o ministro Greg Hands veio ao Brasil para negociar redução de impostos e mudanças nas normas ambientais na exploração do pré-sal pela BP e Shell, além da não exigência de participação de empresas brasileiras.

Conforme Requião, Hands foi tão bem-sucedido que justificaria chamar nosso presidente de Mishell Temer.

The Guardian informa que Hands viajou ao Rio de Janeiro, Belo Horizonte e São Paulo, em março, para ajudar empresas de mineração, energia e água a conquistar negócios no Brasil. Ele se encontrou com Paulo Pedrosa, secretário executivo do Ministério de Minas e Energia, e diretamente levantou as preocupações da Shell, BP e Premier Oil com “taxação e licenciamento ambiental”. E obteve de Pedrosa a promessa de que pressionaria autoridades brasileiras sobre essa questão.

A MP 795 é o resultado dessas pressões. Continuar lendo