O julgamento nosso de cada dia (uma fábula)

Para pegar na locadora: HÁ TANTO TEMPO QUE TE AMO (Il y a longtemps que je t’aime)

Nota 9

Logo no início, somos apresentados a duas mulheres, muito parecidas fisicamente.

Uma, que não para de fumar, tem o olhar distante, o semblante frio. A outra, agitada, alegre, tem o aspecto mais jovem e saudável.

Aprendemos em pouco tempo que a primeira estava longe há 15 anos, mas não sabemos por quê. Teria ficado doente? Estaria em uma clínica de reabilitação? Em coma? Teve que viver em outro país, num exílio?

Aos poucos, vamos descobrindo o que houve. E o melhor desse filme é justamente como o quebra-cabeças vai se formando sem pressa, de forma perfeita, mantendo um suspense no ar todo o tempo.

Esforçamo-nos por gostar de Juliette, esta do olhar distante, mas ela não se esforça para nos conquistar, confusos telespectadores. Sentimos que ela é uma boa pessoa, mas queremos entender o que a levou para longe da família por tanto tempo. O que teria feito ou vivido de tão grave?

O filme nos deixa intrigados, ansiosos por saber mais. E isso só vai acontecer 100% na última cena. Mas, até lá, já vamos aprendendo que, no fundo, este drama é uma fábula sobre os julgamentos.

Em dado momento, um personagem (irritante, por sinal) diz que Juliette está sempre calada, observando a todos e julgando todo mundo.

Não é o que fazemos todo o tempo? Desde quando entramos no elevador e miramos o vizinho, já estabelecendo todo um juízo de valor a respeito de quem ele é, até quando lemos (ou cobrimos) um caso policial e, sem praticamente nenhum recurso, apontamos o dedo para alguém e o condenamos por um crime que nunca saberemos se cometeu mesmo.

Esse filme é quase que uma interpretação de “Crime e Castigo”, mas com um Rodka bem peculiar.

***

As duas atrizes principais são fabulosas.
O diretor e roteirista é professor de literatura da Universidade de Lyon, o que explica as várias referências à literatura ao longo do filme.
Depois de assistirem, voltem aqui para lerem esta palavra: Orinoco. Também arrepiaram?
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Showzaço grátis em São Paulo nesta quinta

Já falei sobre o Affonsinho aqui no blog.

Pois bem, paulistanos e demais brasileiros residentes nesta Terra Cinza: amanhã ele fará um show aqui, depois de muito tempo longe, e vai ser MUITO legal!

Agendem-se:

  • Onde: no jardim do Espaço Minas Gerais (av. Paulista com rua Minas Gerais, paralela à av. Angélica)
  • Quando: nesta quinta-feira, a partir das 19h (deve acabar por volta das 21h, então quem trabalha até tarde pode pegar pelo menos o fim)
  • Quanto: grátis!

Ele vai tocar o novo CD, sétimo da carreira solo, recém-lançado, mas é claro que também vai fazer aqueles solos de guitarra que só ele sabe.

Aí um trechinho do show de Beagá, anteontem:

(Este que toca ao lado dele é seu filho, Fred Heliodoro, que está arrebentando como baixista dentro e fora do Brasil.)

Esta outra é a bossa nova que dá o nome ao novo álbum:

E mais:

Vejo vocês lá amanhã! 😉

***

Atenção, cariocas: o show no Rio será nos dias 21 e 22 de outubro!

Comerciais de pasta de dente

Juro pra vocês: faz tempo que quero escrever sobre as propagandas de sabão em pó e, principalmente, de produtos bucais e desinfetantes de privada.

Daí vi a ilustração acima e tive que escrever HOJE, tornou-se uma questão inadiável na minha vida.

E, na verdade, eu pouco tenho a acrescentar além da piada de fundo da charge.

Ou seja: senhor Jisuis, será que todas as empresas de pasta de dente só contratam estagiários para fazer a publicidade?!

Ou toda a inspiração desse meio foi sugada pelos feiticeiros que lançaram Carlos Moreno como o sensacional “Garoto Bombril“?

Porque, numa boa, até eu, com minha falta de visão comercial, sou capaz de fazer um roteiro como esses que TODAS as marcas fazem, e que passam mais ou menos pelo seguinte:

1) Sabão em pó

Criança está brincando com lama/chocolate/tinta/etc e suja blusa branquinha. Mãe faz cara de oh!. Em seguida, narrador fala como está tudo bem, porque ela pode contar com o sabão X, que é simplesmente mágico e milagroso (porque NUNCA vi NENHUM sabão que deixasse uma roupa como nova, ainda mais branca), e mostra cena de duas roupas sendo lavadas, uma com o sabão Z e outra com o poderoso X (às vezes mostra um megalaboratório, às vezes um cara com jaleco vai falar e tal). Z fica encardido, pior que antes, e X fica zero-bala. A mãe olha orgulhosa para o filho pimpão, que come sorvete lambuzando toda a blusa, como se achasse que se come pelo umbigo.

2) Desinfetante

Pessoa vai lavar banheiro e chegam repórteres (?) perguntando se ela quer fazer um teste de limpeza. Às vezes acontece de 15 crianças, supostos filhos da dona da casa, irem seguidamente para o banheiro — o que já levanta a suspeita de que a cena se passa em um país com surto de cólera –, tudo para provar que o troço deve estar sujo MESMO. A suposta repórter mostra um desinfetante mágico que, com um paninho de nada, deixa o vaso livre de todos os germes do mal, que fizeram aquelas criancinhas sofrerem com tanta diarreia. A propósito: que nojo! Na minha casa se lava privada com um escovão próprio para isso, não com paninho.

3) Limpadores de chão, ceras, limpadores de móveis e afins

Pessoa gastou séculos limpando casa, mas criança deixa cair uma sujeirinha qualquer, ou então ela vê que tem uma poeirinha no tapete da sala etc. Desespera (ou, na versão de uma das marcas, aparece uma tal de “Neura” falando que ela vai morrer de tanto trabalhar por causa daquela poeirinha ridícula) e o narrador diz que existe um produto mágico que, com um paninho (sempre os paninhos…) remove tudo e deixa o fogão TININDO (hahahah! Até parece que um fogão cheio de gordura de óleo e resto de feijão fica daquele jeito novo e brilhante com um paninho lambuzado de Veja!). A fulana, que certamente é neurótica com limpeza e precisa se tratar, só sossega depois que passa o tal paninho.

4) Pasta de dente, bochechador etc

Tem aquelas em que o sujeito escova os dentes e as paredes começam a desabar a cada baforada de hortelã que ele dá, e mil mulheres começam a se aproximar, querendo beijá-lo desesperadamente, como se homens sem bafo de bode estivessem em falta no mercado. Ou então a do dentista que pára a pessoa na rua, pede pra ver o dente dela com um microscópio (!) e enxerga mil placas nojentas e amarelas e fala: Querida, tem que escovar os dentes melhor, hein? Por que não usa esta marca? (Eu, obviamente, esbofetearia um cara abusado desses). Mas pra mim, a pior, é a que inspirou a charge acima. Uma menina, que é A CARA da Eliza Samúdio, ex do goleiro Bruno (e sei disso porque a propaganda passa DESDE aquela época, sintam o drama!), está enrolada numa toalha (numa propaganda de PASTA DE DENTE, veja bem), sorrindo para o espelho, quando, de repente, mil câmeras e uma mulher com microfone, irrompem no cômodo falando que ela tem que escovar com a pasta X etc. Sério, dá vergonha alheia essa propaganda, de tão surreal.

Paro por aqui porque o objetivo do post não é falar dos clichês das gostosonas nas propagandas de cerveja, nem dos aventureiros imprudentes que andam a 150 km/h dos comerciais de carros etc. Até carro com três portas estão querendo nos enfiar sem nenhum argumento cabível nas propagandas (eu também ia falar disso num post, mas o Ruy Castro já disse tudo). Tudo isso, é verdade, é podre. Mas os únicos comerciais que realmente me dão vontade de não só desligar a TV como nunca mais ligá-la de novo na minha vida, só para não ter que ver de novo, são os que seguem os roteiros acima. É quando a campanha do desarmamento precisa, realmente, botar pra quebrar.

P.S. Bons exemplos da boa publicidade brasileira, valorizada e premiada no mundo todo, estão listados no ótimo “Na Toca dos Leões“, de Fernando Morais.

Democracia e/ou morte

O discurso da Dilma no Conselho de Segurança da ONU foi na quarta passada e até hoje não falei dele (vocês bem sabem que este blog, nas poucas vezes em que aborda o noticiário — já que aqui é minha rede –, se dá ao luxo de fazê-lo sem pressa ou pretensão nenhuma, como devem ser os hobbies).

Nem sei se eu ia falar, mas hoje vi a imagem abaixo e me lembrei de um trecho específico do discurso que achei sensacional. O discurso todo, aliás, foi muito bem construído, incisivo e bom, inclusive como propaganda do Brasil para sua pretensão de ganhar uma cadeira permanente no conselho (embora muitos digam que as críticas aos Estados Unidos valham como tiro no pé). Mas é o trecho abaixo que me chamou mais a atenção:

Desde o final de 2010, assistimos a uma sucessão de manifestações populares que se convencionou denominar “Primavera Árabe”. O Brasil é pátria de adoção de muitos imigrantes daquela parte do mundo. Os brasileiros se solidarizam com a busca de um ideal que não pertence a nenhuma cultura, porque é universal: a liberdade.

É preciso que as nações aqui reunidas encontrem uma forma legítima e eficaz de ajudar as sociedades que clamam por reforma, sem retirar de seus cidadãos a condução do processo.

Repudiamos com veemência as repressões brutais que vitimam populações civis. Estamos convencidos de que, para a comunidade internacional, o recurso à força deve ser sempre a última alternativa. A busca da paz e da segurança no mundo não pode limitar-se a intervenções em situações extremas.

Apoiamos o Secretário-Geral no seu esforço de engajar as Nações Unidas na prevenção de conflitos, por meio do exercício incansável da democracia e da promoção do desenvolvimento.

O mundo sofre, hoje, as dolorosas consequências de intervenções que agravaram os conflitos, possibilitando a infiltração do terrorismo onde ele não existia, inaugurando novos ciclos de violência, multiplicando os números de vítimas civis.

Muito se fala sobre a responsabilidade de proteger; pouco se fala sobre a responsabilidade ao proteger. São conceitos que precisamos amadurecer juntos. Para isso, a atuação do Conselho de Segurança é essencial, e ela será tão mais acertada quanto mais legítimas forem suas decisões. E a legitimidade do próprio Conselho depende, cada dia mais, de sua reforma.

Só nesse trecho ela conseguiu fazer críticas veladas aos Estados Unidos no Iraque, à Otan, aos países que defenderam intervenção na Síria e aos próprios regimes ditatoriais árabes.

E, como eu ia dizendo, vi uma imagem que achei que valia ser compartilhada aqui no blog, e ela tem tudo a ver com esse discurso da presidente da República:

Ah, e quem ainda não leu ou ouviu o discurso na íntegra, CLIQUE AQUI.

CNJ perde poder para caçar juízes corruptos

Texto de José de Souza Castro:

Leio hoje na “Folha de S. Paulo” que ganha fôlego movimento para esvaziar o poder do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), criado em 2004 para controlar os órgãos da justiça no país. É uma pena que isso aconteça. Tenho lamentado repetidas vezes que a imprensa, em geral, não se anima a apurar em profundidade os malfeitos dos juízes. Sem um CNJ forte, a corrupção no judiciário tende a aumentar.

A “caixa preta” do judiciário começou a ser aberta em 2007 por um relatório da Corregedoria do CNJ, que confirmou algumas suspeitas de cobrança de propina e de tráfico de influência numa categoria até então imune a críticas oficiais.

Até agora, o CNJ tem poderes para investigar juízes independentemente do início de apurações pelas corregedorias dos tribunais. O que se quer é mudar isso. Entre os interessados na mudança está a Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), que entrou com ação no Supremo. Não tenho como saber se é verdade, mas no dia 13 último o jornal “Hoje em Dia” publicou que um juiz de Montes Claros, Danilo Campos, escreveu, ao examinar um processo, que a representação da classe “tornou-se refúgio de magistrados carreiristas, que lograram o milagre de fazer da arriscada atuação sindical uma fonte perene de proveito para suas carreiras.” O juiz faz parte de um tal Comitê de Combate à Corrupção. Não sei do que se trata.

A ministra Eliana Calmon, do STJ, que se notabilizou por ser a primeira mulher brasileira a ocupar um cargo em tribunal superior, assumiu em setembro do ano passado a Corregedoria Geral do CNJ, criticando as práticas burocráticas, e declarando: “Para mim, corrupção no Poder Judiciário é tolerância zero.”

Na próxima quarta-feira, o Supremo Tribunal Federal deverá julgar ação ajuizada pela AMB pedindo restrição à atividade do CNJ. A AMB pode não gostar dessa história de tolerância zero. Segundo a Folha, se o Supremo decidir que o CNJ tem que atuar de forma complementar, “estaria aberta a possibilidade de anulação de condenações anteriores, hipótese admitida pelos ex-ministros Nelson Jobim e Miguel Reale Júnior”. Não é uma beleza?

Um dos ministros que vão decidir a questão, Marco Aurélio Mello – que chegou ao Supremo nomeado pelo primo, o então presidente Collor de Mello –, já havia anulado em dezembro passado decisão do CNJ que afastara o presidente de uma associação de juízes federais acusado de fraudar contratos de empréstimos da Fundação Habitacional do Exército.

No mesmo dia em que se publicava o desabafo do juiz de Montes Claros, o presidente do Supremo, Cezar Peluso, votou contra a presidente da CNJ, Eliana Calmon, que pretendia apurar denúncias contra duas juízas do Pará, e foi acompanhado por dois ministros. A denúncia era que um bloqueio de R$ 2,3 bilhões de uma conta do Banco do Brasil pudesse favorecer uma quadrilha especializada em golpes. O CNJ vai poder apurar, mas não num processo disciplinar, que é público, e sim numa sindicância, protegida pelo segredo de Justiça.

Ou seja, contra juízes supostamente corruptos, ao contrário de outros cidadãos que respondem a processos por corrupção, não se pode punir com a sua exposição pública. O que, em geral, é a única punição que sofrem os corruptos neste país.

Em meados deste ano, o CNJ passou por uma renovação. Um dos novos conselheiros, José Lúcio Munhoz, logo depois da posse, apresentou ao colegiado a proposta de redução de poderes do Conselho Nacional de Justiça. Terão os juízes corruptos colocado dentro do CNJ um cavalo de Troia? Só o tempo dirá.