O telefone

Toca o telefone.

(“You’re nobody until somebody loves you”, um clássico do Sinatra, mas numa versão alta e cheia de baterias do Jamie Cullum — irritante, para mim, desde que a selecionei como toque de celular, mas não vou trocar para não castigar outra boa música.)

Estou tomando banho, não posso atender, mas me dá aquela angústia de pensar quem pode ser.

Cheguei do plantão há pouco, será que aconteceu alguma tragédia e estão me convocando de volta? Isso só aconteceria, em pleno sabadão, se fosse uma tragédia bem grande, tipo a queda de um avião, então afasto o pensamento da cabeça.

Vem outro pior: uma ligação de casa, falando de alguma fatalidade na família (desculpem as dezenas de mortes numa queda de avião, mas, para todo ser humano, a morte de um só ente querido é pior, muito pior).

E eu lá, no banho, sem poder atender.

Nunca gostei de falar ao telefone, não mudei em relação a isso, mas, desde que me tornei repórter, o toque do telefone passou a me causar certa ansiedade inédita.

Tanto que, há muito pouco tempo atrás, coisa de duas semanas, passei a colocá-lo no silencioso antes de dormir, porque previa que a qualquer dia morreria num infarto com as ligações fora de hora dos pauteiros, geralmente para coisas não realmente urgentes.

(Isso sem falar numa fonte que, certa vez, me ligou às 3h da madrugada.)

Pois bem, saio do banho e vou direto para o celular, pingando água pela casa.

Lá está ele: um número desconhecido. Não o “número não identificado”, que é o que aparece quando me ligam do jornal. Desconhecido mesmo, começando com 6 e terminando com 6, DDD 11, não registrado na agenda ou na memória.

Repasso na minha cabeça quem poderia me ligar de um celular desconhecido neste sábado à tarde e, não vindo ninguém à mente, dou de ombros.

Mais tarde, ele de novo. Desta vez atendo, curiosa:

— Alô.

— Quem fala?

— Com quem você quer falar? Você ligou para um celular (já odeio quem pergunta “quem fala” quando está fazendo a chamada, mas pior ainda é quando o destino da chamada é um celular).

[Silêncio de uns segundos]

— Dayanne? — arrisca o sujeito, com voz titubeante. (A grafia do nome fica por minha conta.)

— Não, não sou a Dayanne.

— Ah, desculpa, acho que liguei pro número errado…

— Tenho certeza que sim.

Desligo pensando quem seria a tal Dayanne e quem seria o desafortunado que pegou o número dela errado. Será que nesta sexta à noite os dois se conheceram numa “balada”, “ficaram” parte da noite e, no final, ele pediu o número para ela, prometendo ligar, e ela, sem a menor vontade de um “day after”, passou qualquer número que lhe veio à mente?

Ou então, ao contrário, ela ficou doida com ele, queria esse contato, mas já tinha tomado uns tragos a mais e confundiu um algarismo.

O silêncio antes de dizer o nome da pessoa significa que o sujeito não tinha certeza de qual era? Provavelmente “pegou” várias mulheres na noite, ou também estava de pileque e não está certo de ter conhecido uma Dayanne ou uma Darlene, ou, quiçá, uma Dorianna.

O importante é que nunca mais se verão…

Esses devaneios me distraem, em meio a minha tentativa frustrada de adiantar um trabalho que preciso terminar em poucas horas, e lembro como telefone é um pé no saco.

Pra azar do Sinatra!

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