Pequeno tijolo sobre a Melancolia

(Foto: CMC)

Vou me abster de dar uma nota ou mesmo comentar o filme Melancolia, do Lars von Trier, que fiquei doida pra ver por várias semanas e acabei de ver agora (enquanto escrevo, numa noite fria de quarta), porque, ao contrário de Dogville e Manderlay, que vi e já saí aplaudindo da sala de cinema, ainda em Beagá, desta vez eu saí meio anestesiada da sala do Espaço Augusta Unibanco, talvez por causa do frio insuportável que fazia lá fora (e pensar que ontem de manhã fazia no mínimo 20ºC a mais que hoje e o céu era azul-azul. Mas a Terra Cinza sempre quer me lembrar que estou certa ao criticar o clima insano paulistano), que tornava qualquer pedaço de tecido insuficiente e medíocre e me fazia olhar escandalizada para os moradores de rua DESCALÇOS, protegidos apenas pela imundície da poeira que cobre a casca que lamentavelmente se tornaram suas peles. Saí a pé dali, em direção à minha casinha, exatos 3 km (já havia andado outros 4 km antes do filme), tentando cobrir as mãos de alguma forma do vento cortante, ou as colocando na nuca, vez por outra, pra aquecê-las um pouco, soltando fumacinha de gelo da boca e pensando em tanta coisa e com muita vontade de chorar. Quer dizer, assim como em Dogville e em Manderlay, o filme causou um impacto, mas ainda não consegui definir se gostei dele ou não. O que sei é que ali há, sim, o retrato, em forma de fábula, do que seria uma pessoa imobilizada pela própria melancolia, em estágio avançado — aquele em que se perde a fé na vida, na humanidade, em deus, no que quer que seja, e se perde a vontade de comer e de caminhar e tomar banho e só se quer dormir-dormi-dormir, para que o dia seguinte chegue logo, e o depois dele, e o seguinte, para que a morte se aproxime cada vez mais rápido. É uma doença e hoje já há formas de tratá-la, mas a personagem do filme parece preferir mastigá-la, que nem chiclete, com os olhos em meia-lua e jogando fora cada oportunidade de felicidade que surge ao seu redor, em meio ao mar de lama, como se a melancolia fosse inevitável, como um planeta prestes a massacrar a Terra e destruir toda a forma de vida. Como muitos melancólicos da vida real também preferem fazer. E aí o filme me fez sentir raiva desses melancólicos, porque a melancolia é, em última instância, um estado de espírito egoísta, que atinge a todos ao redor como uma força gravitacional, mas o melancólico não liga, ele dá de ombros, ele só quer ser orbitado por essas pessoas que o amam e querem cuidar dele apesar de tudo, mas sem dar nem um pitaco de alma em troca. Tudo passa a circular em torno desse ser melancólico, como se ele fosse mesmo um planeta fora da órbita, e a melancolia torna-se desculpa e justificativa para que ele possa fazer tudo, inclusive pisar nos outros, ignorá-los, agir com indiferença ou mesquinharia. A melancolia engole todas as outras virtudes e sentimentos e escapatórias e domina aquela pessoa — aquela que se deixa dominar por ela. E abate até o maior dos otimistas.

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