Professor mineiro e a greve dos 100 dias

Texto de José de Souza Castro:

A próxima assembléia dos professores estaduais mineiros será no dia 15 de setembro, quando a paralisação completa 100 dias. Desde 1979, segundo levantamento publicado pelo jornal “Hoje em Dia”, a categoria realizou 15 greves, e esta é a mais demorada. Os dias parados nessas greves somam 640, ou seja, num período de 15 anos, os professores ficaram mais de um ano e oito meses sem dar aulas, lutando por melhores salários. Apesar disso, como mostrei em outro artigo, Minas é um dos Estados que pagam salários mais baixos a seus professores. Era o 18º no ranking em 2010.

Ao contrário dos outros diários da capital mineira, o “Hoje em Dia” deu nesta sexta-feira o destaque merecido à greve dos professores. É a manchete do jornal, e ocupa mais da metade da última página do caderno “Minas”. Por si só, o tratamento que a greve vem recebendo da imprensa é um escândalo. O descaso parece ter motivação econômica, pois a greve tem rendido dispendiosas publicidades publicadas pelo governo estadual. No “Hoje em Dia” o anúncio colorido ocupou ontem boa parte da página 5 do caderno principal. E não sei se a publicidade fala a verdade, quando afirma, no segundo parágrafo: “A paralisação é parcial, pois 90% dos professores estão em sala de aula. E da rede estadual mineira, das 3.779 escolas, aproximadamente 3.000 estão funcionando normalmente”.

Se é assim, por que gastar tanto dinheiro com a greve? Não seria melhor fazer como o governador Milton Campos, no começo da década de 1950, quando aconselharam que enviasse a Divinópolis um trem lotado de soldados para acabar com a greve dos ferroviários? “Não seria melhor mandar o trem pagador?” Não seria melhor, senhor Anastasia, gastar dinheiro cumprindo a lei que manda pagar o piso salarial estabelecido em lei, em vez de tentar convencer os eleitores de que o governo está certo?

Pelo histórico de greves e de insatisfação dos professores, é difícil supor que eles aceitem a proposta de pagamento de piso de 712 reais por uma jornada semanal de 24 horas, conforme projeto encaminhado na última segunda-feira à Assembleia Legislativa.

Já que falamos em história, vale lembrar o que aconteceu com o governador Eduardo Azeredo de triste memória, quando ele pediu ao governo federal tropas do Exército para conter uma greve na Polícia Militar. Melhor esquecer. Mas aquela greve de homens armados teve efeito que não se pode esperar de quem se arma apenas de conhecimentos, cuspe e giz. O soldado raso recebe hoje R$ 1.746,81. Para o governo mineiro, um PM em início de carreira vale quase duas vezes e meia um professor experiente com anos de profissão. E olhe que Anastasia é professor licenciado da UFMG.

E depois vêm os tucanos nos dizer que ignorante é o Lula!

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