Vídeo feito por estudantes da UFMG escancara crise da imprensa mineira; assista

Que a imprensa mineira está em crise, acho que até quem não é do Estado nem é jornalista já percebeu. Aliás, isso não é “privilégio” dos mineiros. Mas o que levou a essa crise? Como ela se deu nas Redações dos três maiores jornais diários de Minas (“Estado de Minas”, “Hoje em Dia” e “O Tempo”)? Como foram os passaralhos?

Um vídeo produzido por quatro estudantes do curso de comunicação social da UFMG tenta responder a essas questões a partir do ponto de vista de seis jornalistas que foram demitidos ou pediram demissão nos últimos anos, ao longo desse processo, vindos do “Estado de Minas”, “Jornal da Alterosa” (grupo do EM), “Hoje em Dia” e “Pampulha” (grupo do “O Tempo”). O trabalho foi publicado no Youtube há cinco dias, mas ainda não teve grande repercussão. Por isso, resolvi fazer minha parte, trazendo para o blog.

Não deixem de assistir e compartilhar, especialmente entre os coleguinhas de profissão e os estudantes de jornalismo: Continuar lendo

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Por que será que o Planalto não sabia?!

Texto escrito por José de Souza Castro:

Lia-se no dia 28 de janeiro, no Blog do Planalto, declaração do governador Fernando Pimentel, após reunião com a presidente Dilma Rousseff, em Brasília: “Pela primeira vez o governo federal tomou conhecimento da gravidade da situação hídrica de Minas Gerais.” Segundo ele, a situação é grave: cerca de 50 municípios enfrentam racionamento e quatro estão em colapso eminente. Além disso, outras 100 cidades estão em estado de alerta.

“Pela primeira vez…”. Causa estranheza tanto desconhecimento do Planalto sobre a situação hídrica em Minas. Não se entende por que os mineiros Dilma Rousseff e Fernando Pimentel tenham se surpreendido. Não faltaram alertas, ao longo de 2014. Li-as até mesmo em editoriais de um jornal tido como aliado ao governo de Minas – o “Hoje em Dia”.

Não pretendo que tão altas autoridades da República leiam os editoriais desse ou de qualquer outro jornal, mas a questão não ficou restrita a editoriais. Quem leu o que se escreveu, certamente, não se surpreendeu.

No dia 27 de janeiro, ao discorrer sobre o projeto de construção do mineroduto de 482 quilômetros pertencente ao Grupo Votorantim e a uma empresa chinesa, a Honbridge Holding, para ligar uma usina de beneficiamento de minério de ferro em Grão Mogol, no Norte de Minas, e um porto em Ilhéus, no Sul da Bahia, o editorial daquele jornal que não era mais do bispo Edir Macedo, mas de um amigão da família Neves que governava então o Estado, alertou: “Muito já se disse sobre a inconveniência do transporte por mineroduto, em vez de ferrovia, numa região em que a água é escassa.”

Pelo projeto aprovado pelo então governador Antônio Anastasia, segundo o editorial, “12 milhões de metros cúbicos de água seriam consumidos anualmente pelo mineroduto, num prazo mínimo de 25 anos”. Pior, o empreendedor não precisaria mais investir na construção de duas barragens, porque a SAM – nome da empresa constituída para tocar o projeto – “conseguiu junto à Agência Nacional de Águas (Ana) outorga para captação de 6.200 metros cúbicos de água por hora na represa de Irapé, no município de Berilo”. E não deixou de lembrar que essa barragem foi construída pela Cemig, empresa controlada pelo governo mineiro, que aparentemente havia concordado com a tramoia.
E Pimentel, que anteontem pediu à presidente recursos para obras emergenciais, a serem feitas até novembro próximo para aumentar a captação de água da bacia do Paraopeba, para abastecer o sistema Rio Manso, na região metropolitana, será que ele concorda em se usar a água escassa para transportar minério de ferro?

Será que ele vai tomar conhecimento desta reportagem publicada ontem pelo O Tempo e orientar a bancada governista na Assembleia Legislativa a aprovar os projetos de lei que pretendem acabar com o uso da água escassa para transportar minério em Minas?

Será que vai cair a ficha, finalmente, após a chuva teimar em não cair na quantidade necessária para aplacar a sede dos mineiros? O governador empossado neste mês disse em Brasília que os reservatórios que compõem o sistema de abastecimento na região metropolitana de Belo Horizonte apresentavam 70% da capacidade em janeiro de 2014 e que, um ano depois, o nível caiu para 30%. “Essa situação já podia ter sido detectada em meados do ano passado”, disse.

Não foi? Mas, então, por que um editorial do “Hoje em Dia”, de 6 de fevereiro, já apontava a possibilidade de apagões de energia elétrica no país, em razão da provável escassez de água nos reservatórios das hidrelétricas? Aliás, pouco antes, já se registrara apagões em cidades de 11 estados, deixando 6 milhões de consumidores sem energia, por algum tempo. Em Minas, segundo a Cemig, lembrou o editorial, o corte durara 56 minutos, atingindo 230 mil moradores de 63 municípios de cinco regiões. E mais: “O presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Maurício Tolmasquim, informou ontem que o volume de água que entrou naqueles reservatórios no mês passado foi o pior desde 1954”.

Não era uma situação suficientemente grave para que o Planalto tivesse tomado conhecimento dela, há quase um ano? E iniciasse uma campanha de esclarecimento e conscientização da população.
Por que só agora, segundo o mesmo Blog do Planalto, o governador Pimentel veio a público informar que estão em curso campanha de conscientização para uso racional de água e cobrança de sobretaxa para quem consumir acima da média? Essas medidas, disse Pimentel, já podiam ter sido adotadas há seis ou oito, meses atrás, e não foram. “Vão ter que ser adotadas agora com atraso e, portanto, com mais intensidade.” Fica difícil, até mesmo para ele, que não governava o Estado naqueles meses, lavar suas mãos com tão pouco.

Pergunta-se: por que só agora ele vem a público para tratar dessa importante questão? Em 2014, não era Pimentel ministro influente do governo e, em seguida, candidato a governar Minas?
Se houvesse se informado, ele poderia, por exemplo, ter lido outro alerta num editorial do “Hoje em Dia” – um jornal que, por ser ligado a Aécio Neves, não poderia ter passado despercebido ao futuro candidato petista ao Governo de Minas – publicado no dia 17 de fevereiro. Aliás, não faltaram entrevistas exclusivas de Pimentel àquele “jornal pequeno” (como classificou Aécio o ex-jornal do bispo, durante a campanha eleitoral), quando elas lhe foram convenientes.

O novo editorial dizia que o ministro das Minas e Energia, Edson Lobão, acabara por admitir riscos de apagões de eletricidade no Brasil, dependendo da entrada ou não de grande volume de água nos reservatórios das hidrelétricas, nos próximos meses. “Nas regiões Sudeste e Centro-Oeste, onde se localiza grande parte desses reservatórios, o período de chuvas geralmente acaba com as águas de março”, escreveu o artigo de opinião do jornal, acrescentando:

“E os reservatórios dessas regiões, que abastecem cerca de 70% das hidrelétricas brasileiras, estão com volume de água abaixo do normal nessa época do ano. Na quinta-feira, sua capacidade de armazenamento estava ociosa em mais de 64%. O volume de água das represas é o mais baixo desde fevereiro de 2001, quando foi decretado racionamento de energia no Brasil pelo governo Fernando Henrique Cardoso” […). “Não é o caso de decretar racionamento agora, porque hoje o país dispõe de número maior de usinas que não utilizam a força das águas para gerar eletricidade. Elas podem ser acionadas para poupar água dos reservatórios, mas a energia é mais cara e bem mais poluidora. Há outra providência que o governo pode tomar sem mais demora: convocar a população para poupar água. Se avisadas do risco, certamente as pessoas vão colaborar.

Em Belo Horizonte, por exemplo, é muito comum ver moradores desavisados, varrendo despreocupadamente as calçadas com jatos de água tratada da Copasa. É uma questão que não pode ser deixada exclusivamente por conta da empresa, para que faça uma campanha publicitária para alertar a população. Mesmo porque, diminuindo o consumo, cai o faturamento e o lucro de uma empresa que, embora controlada pelo governo de Minas, tem um grande número de acionistas privados e ações negociadas nas bolsas de valores.

No entanto, bem orientada pelo governo, a Copasa pode buscar soluções para um problema com potencial para afetar milhões de consumidores.”

No dia 11 de março, após a presidente Dilma Rousseff afirmar que não haveria problemas para o fornecimento de energia elétrica no país, o jornal voltou ao assunto, afirmando que “são preocupantes os níveis dos reservatórios de água que abastecem a população e as hidrelétricas da região Sudeste do país”. O editorial exemplifica com a represa de Furnas, que registrava “o nível mais baixo dos últimos 13 anos, para essa época do ano. “Ele baixou um metro e meio nas duas últimas semanas, chegando no domingo passado a 17,4%, apesar das chuvas nas bacias dos rios Grande, Paranaíba e Paraná, onde se localizam oito hidrelétricas que recebem água de Furnas”. E acrescenta:

“A escassez de chuvas pode não apenas causar futuramente o racionamento de energia, como o de água. Algumas cidades mineiras, como Pará de Minas, já enfrentaram em fevereiro esse problema, que agora está afligindo moradores da Região Metropolitana de São Paulo, maior concentração populacional do país.” E concluí: “É melhor prevenir do que remediar. Adiar medidas para evitar falta de luz e de água, por medo de exploração política de adversários, pode ter um preço alto em outubro.”

No dia 7 de junho, outra profecia que começa a se realizar:

“Mas outra espécie de bomba pode estar sendo armada, com grande possibilidade de explodir no ano que vem, meses depois das eleições presidenciais. O governo estaria represando os preços da gasolina e da energia elétrica. Esta última, pelo menos, deveria estar custando mais, pois aumentou o uso de energia mais cara, a termoelétrica, em substituição à produzida pelas hidrelétricas, para poupar água. O governo adiou a cobrança da fatura para o ano que vem, depois de empossado o presidente eleito em outubro.”

O mesmo “jornal pequeno” voltou a insistir sobre a necessidade de economizar água – ou de preservá-la – nos editoriais de 23 e 30 de março, nos dias 2, 9, 17 e 27 de abril, no dia 12 de maio e no dia 6 de junho. No texto de maio, afirmou-se que a Petrobras teria no futuro a mesma importância da Agência Nacional da Água (Ana), pois a água doce seria tão valiosa, escassa e necessária, como o petróleo.

Ninguém discute o valor da Petrobras. Mesmo aqueles que tentam desvalorizá-la com denúncias e mais denúncias de corrupção para comprá-la barato dos brasileiros. Quanto a isso, pouco resta a fazer, a não ser botar um pouco de juízo na justiça e na imprensa. E torcer para que a ANA não passe pelo mesmo processo. Pois, em se procurando, é possível que ali também a Polícia Federal encontre a ação de corruptos e corruptores. A explicar, por exemplo, por que se autorizou construir minerodutos em regiões em que já se sabia ser bastante escassa a água.

Pimentel pode, sim, ter um papel importante na busca de solução para a água, pois, além de governar Minas – a antiga “caixa d’água do Brasil” – ele tem excelente relacionamento com a presidente Dilma. Que, bem informada, finalmente, não se negará a agir corretamente com os mineiros.


 

Nota da Cris: Era meu pai quem escrevia os editoriais do jornal “Hoje em Dia” nos períodos citados, e abordou a crise hídrica diversas vezes, por considerar um assunto de grande importância. Infelizmente, parece que nossos governantes não têm a mesma consideração pelo tema que a gente tem…

Leia também:

A violência e a cor da pele [2]

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Meu pai elaborou muito melhor que eu o assunto do post de sábado, em editorial publicado hoje no jornal mineiro “Hoje em Dia”. Vale a pena ler:

“Não há como negar: a luta contra o racismo no Brasil, que ficou mais afirmativa a partir do começo deste século, teve efeitos importantes na legislação e gerou mudanças em alguns campos, como na educação. No entanto, o novo mapa da violência, “A cor dos homicídios no Brasil”, chega como um alerta ao governo e aos que defendem que a todos os cidadãos, independentemente da origem étnica e da cor da pele, se garanta um tratamento justo. Essa é uma questão importante em um país com enorme diversidade social.

Os dados da pesquisa feita pelo sociólogo Júlio Jacobo Waiselfisz não deixam dúvida: é um mito a crença de que não existe racismo no Brasil e que nossas iniquidades se devem tão somente às desigualdades de classe e não a processos estruturais de discriminação racial e étnica. Só vamos resolver a questão quando reconhecermos que temos aqui uma significativa parcela da população racialmente discriminada.

Os efeitos dessa discriminação podem ser fatais, como revela a pesquisa. De cada cem assassinatos cometidos no Brasil, 65 têm como vítimas os negros, homens e mulheres. A proporção em Belo Horizonte é pior: são assassinados mais do triplo de negros que brancos na capital mineira.

No Brasil, o número de homicídios de negros cresceu nos últimos oito anos, enquanto diminuía o de brancos. Em 2002, foram assassinados 26.952 negros e 18.867 brancos. Em 2010, o número passou, respectivamente, para 34.983 e 14.047. Ou seja, aumentou em 30% o assassinato de negros e diminuiu em 25% o de brancos.

Outro dado preocupante da pesquisa é o aumento do assassinato de jovens negros no Brasil. A taxa é de 89,3 mortes a cada 100 mil habitantes negros de 20 anos contra 31 para brancos da mesma idade. Nos últimos oito anos, diminuíram em 33% os assassinatos de jovens brancos, enquanto a taxa aumentava em 23,4% entre os jovens negros. Em Maceió, capital de Alagoas, a taxa é de 328,8.

É significativo que a violência contra os negros tenha aumentado no momento em que a legislação antidiscriminação racial comece a ter alguns resultados positivos.

Mas tal fato não deve servir de desestímulo. É preciso continuar criando oportunidades educacionais para a população mais pobre, em especial para jovens negros e índios. O jovem dessas etnias estará assim mais bem preparado para entrar em um mercado de trabalho que é também racista, sexista e discriminador. Não vamos avançar nessa questão, se não pudermos identificá-la.”