Vídeo feito por estudantes da UFMG escancara crise da imprensa mineira; assista

Que a imprensa mineira está em crise, acho que até quem não é do Estado nem é jornalista já percebeu. Aliás, isso não é “privilégio” dos mineiros. Mas o que levou a essa crise? Como ela se deu nas Redações dos três maiores jornais diários de Minas (“Estado de Minas”, “Hoje em Dia” e “O Tempo”)? Como foram os passaralhos?

Um vídeo produzido por quatro estudantes do curso de comunicação social da UFMG tenta responder a essas questões a partir do ponto de vista de seis jornalistas que foram demitidos ou pediram demissão nos últimos anos, ao longo desse processo, vindos do “Estado de Minas”, “Jornal da Alterosa” (grupo do EM), “Hoje em Dia” e “Pampulha” (grupo do “O Tempo”). O trabalho foi publicado no Youtube há cinco dias, mas ainda não teve grande repercussão. Por isso, resolvi fazer minha parte, trazendo para o blog.

Não deixem de assistir e compartilhar, especialmente entre os coleguinhas de profissão e os estudantes de jornalismo: Continuar lendo

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A novela das capivaras e o prefeito que não pode ser babá

capivaras

Foto: João Godinho / O Tempo

 

Já faz tempo que prometi à Dri, leitora deste blog, escrever sobre uma novela que ronda os moradores de Belo Horizonte — e os turistas que passam pela cidade — há vários meses.

Mais especificamente, há 20 meses.

Foi exatamente no dia 4 de julho de 2013 que o jornal “O Tempo” publicou a primeira reportagem sobre a morte de Alysson Ribeiro de Miranda, de 42 anos, por falência múltipla de órgãos causada pela febre maculosa. Ele contraiu a doença passeando com a família por um dos pontos turísticos mais famosos de Belo Horizonte — o Parque Ecológico da Pampulha –, onde foi picado por um carrapato-estrela contaminado com a bactéria da febre maculosa. Esse carrapato é encontrado aos montes nas capivaras que povoam a orla da Lagoa da Pampulha. E foi aí que começou a novela.

No dia 28 de junho daquele ano, a Secretaria Municipal de Saúde foi notificada sobre a suspeita. No dia 5 de julho, após a notícia exclusiva sobre a morte de Alysson, a prefeitura disse que lançaria um edital de licitação para contratar uma empresa para solucionar o avanço das capivaras na orla da lagoa. A abertura da concorrência iria começar em um mês e a empresa iria atuar a partir de setembro de 2013, segundo reportagem do dia 9 de julho daquele já longínquo ano.

Não aconteceu nada disso. Em JANEIRO de 2014 — ou seja, passados seis meses da morte de Alysson e três meses do que seria o início do remanejamento previsto pela Prefeitura de Belo Horizonte — a gestão de Marcio Lacerda decidiu contratar uma empresa sem licitação, “para agilizar” o processo (!!!!). Segundo a reportagem de 24 de janeiro de 2014, a retirada das capivaras começaria em fevereiro daquele ano e levaria só 40 dias.

Guardaram a data e os novos prazos? Beleza. Acontece que, no meio-tempo, passados sete meses da primeira morte por febre maculosa, uma outra pessoa morreu infectada pelo carrapato contaminado presente nas capivaras: o estudante de engenharia Samir Assi, de apenas 20 anos. Ele contraiu a doença com uma inocente pedalada na orla da lagoa da Pampulha — passeio favorito de centenas de belo-horizontinos que lotam as ciclofaixas nos fins de semana.

Sem solução por parte da prefeitura, os moradores e frequentadores da Pampulha passaram a andar com medo e mudar seus hábitos.

Apenas no dia 31 de março de 2014 — ou seja, quando as capivaras já teriam que ter sido remanejadas, se a prefeitura tivesse cumprido o SEGUNDO prazo fornecido à população, em janeiro — uma empresa (Equalis Ambiental) foi contratada para realizar o serviço. Valor do contrato: R$ 182 mil. Desta vez, não arriscaram informar prazo para início dos trabalhos.

Até 9 de maio, a empresa contratada continuava mapeando o grupo de animais. Paralelamente, a prefeitura instalava placas alertando a população para o risco de carrapatos. “Verifique as roupas e o corpo cuidadosamente a cada três horas”, diziam as placas. Causaram pânico? Nããão, imagina.

Em julho, o jornal noticiou que as capivaras começaram a invadir jardins de casas da Pampulha, sem ninguém para retirá-las de lá. Naquele momento, a PBH aguardava liberação do Ibama para fazer o manejo dos animais. O Ibama também “brilhou” em agilidade: só liberou o manejo no dia 3 de setembro! A captura das capivaras só começou a ser feita 26 dias depois da liberação pelo Ibama. Até o dia 4 de novembro, das 250 capivaras que vivem no local, 43 tinham sido recolhidas. Menos de um quinto do total (17%). E foi comprovado que estavam mesmo cheias de carrapatos com bactéria da febre maculosa.

Em dezembro, a PBH informou que as capivaras seriam esterilizadas. No dia 26 de janeiro, a notícia era que a esterilização estava ainda “sem data para ocorrer”, dependendo de acordo com a UFMG.

Pra piorar, diante dessa morosidade da Prefeitura e do Ibama, um terceiro caso de febre maculosa foi detectado em janeiro deste ano. Desta vez, felizmente, não levou à morte. A vítima da vez era um garoto de apenas 15 anos. A resposta da prefeitura foi a distribuição de cartilhas.

No fim de janeiro, a aposta para combater o problema era o uso de um carrapaticida. De novo, o assunto morreu. Já estamos em março e o remédio ainda não foi aplicado. Pior: a última notícia que tivemos, no domingo, foi que as capivaras estão morrendo no cativeiro!

Então vamos ver se entendi bem: toda a burocracia, envolvendo licitação, dispensa de licitação, autorização do Ibama e acordo com UFMG era para garantir que as capivaras fossem preservadas, ficassem bem, mas livres de carrapatos contaminados. Assim, elas poderiam permanecer em seu lugarzinho na natureza, mas sem causar doença às pessoas. Seriam controladas, para não se multiplicarem muito rápido, e tudo seria legal, joia, ambientalmente correto. Mas o que aconteceu de verdade? Duas pessoas morreram, uma terceira quase morreu, e, mesmo com toda a lerdeza para resolver o problema, com a bela intenção de manter as capivaras vivas e saudáveis, no final das contas, descobrimos que metade delas também estão mortas!?

Ou seja, a Prefeitura de Belo Horizonte agiu tão desastradamente nesta história que, além de não impedir novas mortes de humanos, tampouco garantiu a sobrevivência dos animais.

Realmente, não precisamos de babás assim, caro prefeito Marcio Lacerda. É melhor tomarmos nossas próprias precauções, sem contar com o poder público: trocarmos o principal cartão postal de Belo Horizonte por outro lugar qualquer. E, claro, avisarmos aos turistas que, se forem passear pela lagoa da Pampulha, correm um risco muito grande, conhecido há 20 meses e ainda não solucionado pelos gestores da cidade.


Atualização em 9/3/2015: A Secretaria Municipal de Meio Ambiente me encaminhou uma longa nota, nesta segunda-feira (9/3), para complementar as informações do post. Da nota, os dois últimos itens se destacam, porque contestam as informações das reportagens de “O Tempo”, nas quais me baseei para fazer o post acima (como vocês podem ver em todos os links), de que um adolescente de 15 anos teria sido detectado com febre maculosa e de que as outras duas vítimas fatais pegaram febre maculosa na orla da lagoa da Pampulha, como disseram seus familiares aos repórteres do jornal.

Como acho que os leitores têm o direito de conhecer todas as versões de uma história, e a liberdade de acreditarem na que acharem mais plausível, compartilho a íntegra da nota da prefeitura. CLIQUE AQUI para ler.

Atualização em 11/3/2015: o Ministério Público tampouco está muito satisfeito com o trabalho feito pela Prefeitura de Belo Horizonte e fez várias recomendações à PBH na noite de ontem. CLIQUE AQUI para ver todas.

Leia também:

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Esgoto tratado não é prioridade em Belo Horizonte

Foto de Marcelo Prates, publicada na edição do jornal "Hoje em Dia" de ontem.

Foto de Marcelo Prates, publicada na edição do jornal “Hoje em Dia” de ontem.

Texto escrito por José de Souza Castro:

A prefeitura de Belo Horizonte alega que não cabe ao Judiciário definir o que é prioritário na cidade. Por isso, recorreu ao Tribunal de Justiça de Minas Gerais contra sentença do juiz da 4ª Vara da Fazenda Pública Municipal, Renato Luís Dresch. O juiz determinou em setembro de 2010 que o município e a Copasa tomassem providências urgentes para que o esgoto que polui o córrego Camões, na região da Pampulha, fosse coletado e tratado.

A ação foi proposta em novembro de 2001 pelo Ministério Público e só agora parece chegar ao fim, com a decisão do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, de rejeitar recursos contra o julgamento de Dresch, confirmado pelo Tribunal de Justiça.

Mas, ficará finalmente o córrego Camões livre do esgoto? E se em vez de cumprir a sentença, prefeitura e Copasa preferirem pagar a multa diária de R$ 1 mil? Não seria a primeira vez que uma autoridade menospreza a Constituição. Para Dresch, está claro ali que “todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações”, como escreveu na sentença.

É preciso reconhecer que a situação não foi criada pelo prefeito Marcio Lacerda. A ação foi proposta bem na época em que o prefeito Célio de Castro, reeleito em 2000, se licenciava por causa de um acidente vascular cerebral, sendo substituído pelo vice, Fernando Pimentel. Este só deixou a prefeitura em janeiro de 2009.

No último ano do mandato, conforme se lê nas alegações apresentadas ao juiz Dresch, Belo Horizonte tinha 235 mil moradores sem rede de esgoto, mais de 7 mil não possuíam sequer instalações sanitárias nas residências e aproximadamente 30% dos esgotos eram lançados diretamente em cursos dágua. Ou seja, numa situação assim, como exigir que fosse resolvido o problema do córrego Camões?

O que espanta, na defesa apresentada pela prefeitura ao Supremo, em 30 de janeiro de 2012, é que, passados tantos anos, a situação na cidade piorou, em vez de melhorar. Afirma: “Aproximadamente 33% dos esgotos gerados no Município de Belo Horizonte não estão interceptados, originando lançamentos diretos nos cursos d’água por cerca de 740.000 habitantes.”

Como o Executivo não sabe estabelecer prioridades, é necessário, sim, que o Judiciário o faça.

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Para entender melhor sobre a poluição na Pampulha e o esgoto sem tratamento de Belo Horizonte, vale ler as reportagens abaixo: