Mais um ano de vida. E a mesma alma de anos atrás

À esquerda, eu aos 26 anos, em 2011. À direita, eu deitada na rede, olhando a paisagem, neste ano de 2019. Diferente, mas igual.

Sempre que chega meu aniversário, gosto de fazer um balanço da vida. Ver os rumos que estou tomando, as curvas ou atalhos que peguei no caminho, os destinos aos quais pretendo chegar algum dia. Desde que este blog foi criado, já fiz sete balanços do tipo (só pulei o de 2016, no auge da licença-maternidade, quando o blog teve que ficar meio abandonado).

Hoje chego aos 34 anos com um certo desânimo, mais ou menos inédito na minha vida. Provavelmente agravado pelo momento político absurdo, surreal, que estamos vivendo, com verdadeiros patetas nas três esferas do poder, fazendo pataquadas diárias, ou várias por dia – e depois tendo que recuar, numa rotina que deprime até os mais otimistas.

Depois de muitos percalços na minha vida, estou com o campo profissional e pessoal finalmente serenos. Ufa. Mas não dá pra dizer que eu esteja “de bem com a vida”. Como em outras ocasiões, resolvi fazer o que faço melhor: arregacei as mangas e tomei providências. Decidi cuidar mais de mim. No início do mês, fiz um check-up na saúde (está tudo bem), me inscrevi em uma atividade física, voltei a fazer reeducação alimentar. Comecei a cortar a internet no momentos de lazer, a trabalhar menos fora do expediente de trabalho. Agora estou batalhando para trabalhar minha cuca, para que se estresse menos, se deprima menos, se abale menos. Quero ser mais zen. Tão pilhada como sou? É tudo um caminho a se perseguir, enfim.

Falei, falei e não falei nada. É que o balanço deste ano está bem menos inspirado que nos outros sete anos. No ano passado, refleti sobre as tantas mudanças pelas quais passei na última década e sobre como é bom mudar para que, no processo, possamos jogar fora os caquinhos guardados inutilmente.

Em 2017, contei a história de uma velhinha que muito me inspirou, e sobre como eu queria poder ser eternamente jovem, como ela, esteja eu em qual idade estiver.

Em 2015, refleti sobre o suposto “divisor de águas” que é chegar aos 30 anos de idade: “Não sou a correspondente internacional, autora de best-sellers, viajante do mundo inteiro, como eu previa que ia ser, quando eu tinha apenas uns 15 anos. Mas aprendi a ser feliz com menos, a curtir minha própria companhia, a gostar de ficar em casa numa sexta à noite, só conversando com meu amor, a gostar de passar uma tarde de domingo com a família, em vez de num churrascão. São coisas prosaicas que, chegados os 30 anos, me parecem o maior dos luxos. E outros sonhos vão surgindo no lugar dos antigos.”

Em 2014, meu texto foi cheio de gratidão pelo caminho percorrido até os 29 anos e, principalmente, pelas pessoas (ou “poeiras cósmicas”) que cruzaram minha jornada.

Em 2013, eu parecia estar explodindo de felicidade. Certa de que todas as mudanças que tinha enfrentado antes tinham culminado no melhor dos mundos.

Em 2012, escrevi, após um período de grande melancolia que eu vivia naquele começo de ano: “A tristeza é útil, para nos fazer reconhecer a alegria. Assim como a morte existe para destacar e distinguir a vida.”

E em 2011, fiz um poema que tentava traduzir minha vida até aquele momento, aos 26 anos. Engraçado que, de todos esses balanços, é esse mais antigo, de quase uma década atrás, o que mais me trouxe identificação neste 2019. É por isso que decidi, nesta noite pouco inspirada, reproduzir o poema daquele ano aqui. Só tomando a liberdade de atualizar a conta de dias, horas e minutos vividos e de destacar meus trechos favoritos:

“Ri, sorri
(fotogenicamente)
Chorei
(de acordar com duas bolas nos olhos)
Quis morrer
(e fiz poema, instead)
Quis chegar aos cem
(como a Maude e a Luísa)
Fiz o bem
(ou o tentei, sempre)
Perdi amigos
(que viraram em outras curvas)
Dispensei outros
(que mostraram não valer o título)
Conquistei pessoas
(mas me conquistaram em cheio)
Amei
(sofri)
Trabalhei e venho trabalhando
(aventuras ou percalços)
Envelheci:

Já tenho cabelos brancos,
barriga de chopp,
linhas de rugas na testa,
olheiras,
mas ainda assim me dão a idade certa
(e há os que suspeitam que minha idade mental seja de criança).

A impressão que tenho é que nunca vou viver o bastante
para o tanto que quero fazer e tentar
(e, ao mesmo tempo, me canso de tanta vida.)

À beira dos 12.410 dias
Mais de 290 mil horas
E de 17 milhões de minutos
Que interferem, como estrelas,
em outras constelações paralelas.
De forma luminosa, pois sim,
mas absolutamente insignificante no todo.

A vida é isso:
um amontoado de insignificâncias,
de encontros e desencontros,
de apontamentos e desapontamentos,
de convivências certas e erradas,
de fugas e momentos de audácia,
de liberdade sempre contida
e felicidade sempre instável.

Seguirei sendo esse ser fundamentalmente bipolar
um poço de defeitos feios
mas de intenções sinceramente boas
(como as que povoam o inferno.)

Que o deus do bom humor me guie,
porque é só dele que precisamos
para que a dura vida dure sendo leve.”

É engraçado pensar que minha vida, hoje, nada tem a ver com aquela da Cris de 2011, de 26 anos, morando sozinha em São Paulo, vivendo exclusivamente para trabalhar, sem marido, sem filho, “foca” na profissão. E que, ao mesmo tempo, tenhamos tanto ainda em comum. Ou seja: a gente cresce, amadurece, vira uma profissional experiente, se casa, publica livros, vira mãe, muda de cidade, muda mil vezes de lar, muda mil vezes de emprego, leva calotes, contrai dívidas, engorda, emagrece, engorda de novo, muda de hábitos, volta a hábitos antigos, lê dezenas de livros, assiste a centenas de filmes. Mas, ainda assim, nossa alma dá um jeito de continuar a mesma.

Torço para que minha alma ainda conserve a alegria e entusiasmo da Cris menina, hoje e para sempre! Como dizia meu pai, “Peter Pana”. Lutando bravamente para transformar este mundo insano numa Terra do Nunca decente.

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Crescer é difícil, mas pode ser divertido

Não deixe de assistir: DIVERTIDA MENTE (Inside Out)
Nota 8

divertidamente

Alegria, tristeza, raiva, medo e aversão. Esses sentimentos nos controlam desde o dia em que nascemos e ditam a forma como nos relacionamos com o mundo. Cada um deles tem sua importância.

É essa a mensagem que o filme “Divertida Mente” passa a seus espectadores, mirins ou não. Mas, apesar de ser uma animação, teoricamente voltada para crianças, este filme tem um dos roteiros mais filosóficos da Disney.

Tanto que, além de concorrer como melhor animação no Oscar deste ano, Inside Out também concorre na categoria de melhor roteiro original. Escrito e dirigido por Pete Docter, a mente por trás de outros sucessos como “Toy Story”, “Montros S.A.” e “Up”, o filme envereda fundo dentro da mente humana, passando pelas memórias profundas, as que moldam nossas personalidades, pelos sonhos, pela imaginação, pelo subconsciente e até pelo esquecimento. A história aborda, de forma simples e didática, temas como a nostalgia e o amadurecimento. Mostra como crescer é difícil, principalmente quando estamos deixando de ser crianças, como a personagem do filme, que tem 11 anos de idade.

Originalmente, o filme incluiria outras das várias emoções que sentimos, como orgulho, surpresa e confiança. Elas foram cortadas e os roteiristas deixaram apenas aquelas cinco principais, para facilitar o entendimento. Afinal, mesmo com a redução, a animação já comporta grande nível de complexidade.

Mas não fiquem pensando que é um filme-cabeça disfarçado de animação. Como sugere o nome em português, trata-se de um filme muito divertido, capaz de agradar a todas as crianças — inclusive aquelas que ainda não morreram dentro de nossos cérebros adultos.

Que a ilha da bobeira nunca desapareça! 😀

Veja o trailer do filme:

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Tem livro novo na Biblioteca do Blog!

Virgílio Guimarães, Sandra Starling e Chico Ferramenta em foto de 1980. Imagem: Reprodução / Flickr

Virgílio Guimarães, Sandra Starling e Chico Ferramenta em foto de 1980. Reprodução / Flickr

Na verdade, é um livro velho 😀

Uma eterna aprendiz no PT“, de Sandra Starling, foi publicado em primeira mão, em fevereiro de 2008, em meu primeiro blog. Como a página entrou definitivamente no limbo da internet, após a desativação do Blogger, em junho deste ano, o livro também se perdeu. Por isso, resolvi colocá-lo na Biblioteca deste blog, junto aos outros nove livros que estão disponíveis para download gratuito. CLIQUE AQUI para baixá-lo à vontade, para ler no computador, tablet ou depois de impresso.

ATUALIZAÇÃO EM 25/5/2016: O livro foi removido da biblioteca do blog, a pedido da autora.

E por que ler um livro de memórias de uma das fundadoras do PT, escrito ainda na era Lula? Acho que o livro desperta interesse renovado agora que o partido, há 12 anos no poder, virou alvo de críticas e questionamentos inclusive de sua militância. Sandra Starling romperia definitivamente com a sigla que ajudou a fundar em 2010 e, nas últimas eleições, chegou a declarar voto em Aécio Neves, do PSDB. Mas, antes, sempre pelo Partido dos Trabalhadores, foi candidata ao governo de Minas em 1982, eleita deputada estadual em 1986, deputada federal de 1990 a 1998 e ministra interina do Trabalho no governo Lula em 2003.

Como muita água já rolou por baixo da ponte de 2008 pra cá, ela diz que ainda fará um posfácio para ser acrescentado ao livro. Avisarei por aqui quando estiver pronto 😉

Enfim, para completar a sugestão de leitura, republico aqui o artigo que meu pai escreveu em 30 de janeiro de 2008, que está guardado no meu backup do blog Tamos com Raiva, apresentando o livro aos nossos leitores daquela época:

“No segundo semestre de 2006, telefona-me Sandra Starling. O jornalista Acílio Lara Resende, que como ela escreve uma coluna semanal no jornal “O Tempo“, dera-lhe o meu telefone. Ela estava precisando de alguém para fazer a revisão de seu livro. Prontifiquei-me e nos encontramos pouco depois em minha casa, onde ela apareceu com o marido, Thales. Como jornalista, eu vinha acompanhando a carreira política de Sandra, mas nunca havíamos falado. Logo depois comecei a ler Uma eterna aprendiz no PT e verifiquei que não teria quase nenhum trabalho pela frente.

Sandra Starling é uma escritora que sabe lidar com a palavra escrita e falada. Na juventude, trabalhou na Refinaria Gabriel Passos, da Petrobras, e batalhou para fundar o sindicato dos petroleiros em Minas, sendo eleita sua primeira secretária-geral. Depois do golpe de 1964, ameaçada de prisão, demitiu-se do primeiro emprego. Era grande oradora, como demonstrou nas escaramuças dentro do PT antes e depois da fundação do partido e nas suas campanhas políticas: para governadora, em 1982, para deputada estadual uma vez e por duas vezes para a Câmara dos Deputados. Com exceção da primeira vez, quando disputou com Tancredo Neves e Eliseu Resende e teve 110 mil votos, foi sempre vitoriosa em suas campanhas, mas não quis tentar a terceira reeleição como deputada federal por achar que ninguém deve virar um político profissional. Saiu para voltar a dar aulas.

Mas, voltando ao livro. Afonso Borges, o inventor do Sempre um Papo e único agente literário da atualidade em Minas, ofereceu-o a algumas editoras e fechou com a Ediouro. Sandra estava muito animada. Já havia sido marcada até uma data provável do lançamento. De repente, sem maiores explicações, o projeto foi arquivado pela editora.

Decepcionada, a autora preferiu não insistir. O livro estava destinado a ficar na gaveta ou a ser lido por uns poucos amigos. Mas o Tamos com Raiva começou a divulgar livros de minha autoria, que teriam também o mesmo destino, se fossem depender da indústria editorial brasileira. Sandra Starling se animou quando o blog se ofereceu para publicar o livro dela.

É um verdadeiro presente para os leitores do nosso blog. Não se trata, como afirma de cara a autora, de um livro de história. São memórias, que, como diz Sandra, não se baseiam em documentos ou testemunhos, mas que “retratam o que uma pessoa viveu, ou pensou ter vivido – já que muitas vezes reescrevemos de outra maneira acontecimentos que nos são muito caros ou que foram muito ruins para nós. Foi com o que me lembro que escrevi este livro”.

E ela se lembra de muita coisa que faz história.

Sandra Starling podia ter sido, por tradição familiar, advogada ou juíza. Afinal, se formara como melhor aluna da Faculdade de Direito da UFMG, em 1972, recebendo a “Medalha Rio Branco”, e foi logo selecionada para o curso de Doutorado da escola. Seu pai, Benedito Starling, era juiz de Direito. E o avô paterno, Alonso Starling, foi juiz e desembargador do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Mas esse mesmo avô foi deputado constituinte estadual, entre 1905 e 1907, tendo exercido mandato em duas legislaturas. O outro avô tinha sido chefe político em Caratinga e não era um bom exemplo: ao saber, às vésperas de uma eleição, em que havia sido traído por correligionários, morreu fulminado por um ataque cardíaco.

Apesar disso, o apelo da política foi mais forte. Sandra desistiu da pós-graduação em Direito e foi fazer a de Ciências Políticas na UFMG. Ela não se esquecia dos tempos de Diamantina e acompanhou o pai juiz a um jantar em homenagem ao presidente JK. Sobretudo, guardava no coração os ensinamentos do Padre Geraldo Magela Teixeira, vigário da Matriz, que a acolheu na JEC (Juventude Estudantil Católica), quando tomou consciência da questão da exclusão social e da necessidade de lutar pela justiça na Terra.

Passados alguns anos, Sandra Starling começou a lecionar na PUC/MG, campus Coração Eucarístico, dando aulas nos cursos de Comunicação e de Serviço Social. Sobre esse tempo, ela escreveu:

E logo estoura a primeira greve pós-68, justo no Serviço Social. Para tentar salvar os estudantes da repressão, todos nós, professores, pedimos demissão. Nessa época, reencontro o padre Geraldo Magela, que, na ocasião, ocupava a pró-reitoria de graduação da universidade. Convidou-me para assumir a coordenação do curso básico da área de Ciências Humanas. O convite me deixou lisonjeada, mas o recusei. Magela nunca entendeu a razão desse ato. Considerou estranha a recusa, em face de nossa amizade, pois ele confiava em mim e precisava de uma pessoa de confiança para ocupar o cargo. Nunca declinei as minhas razões. Na verdade, eu já circulava na periferia de uma organização clandestina de esquerda de que falarei mais adiante. Sabedores da possibilidade de indicação para o preenchimento desse cargo, os dirigentes de tal organização determinaram que eu me abstivesse de aceitá-lo, para que envidassem esforços na indicação de um quadro militante para preenchê-lo.

Depois fui convidada a lecionar Introdução ao Estudo do Direito, que, embora fosse disciplina do Curso de Direito da UFMG, era ministrado no “Ciclo Básico” da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich). Daí foi apenas um passo para eu começar a participar das ações do Movimento Feminino pela Anistia e a colaborar na imprensa alternativa. No jornal Movimento eu vendia assinaturas e participava das reuniões de elaboração de pauta e de avaliação do semanário. Depois, ajudei a fundar o Em Tempo, onde também escrevi meus primeiros artigos, além de distribuir exemplares para a venda em bancas e de vender o jornal, toda sexta-feira, à tarde, na porta da FMB, em Betim. Mergulhei na militância, acompanhando a greve dos operários da construção civil (como chorei vendo o massacre jurídico dos sindicalistas na audiência do Dissídio Coletivo, no Tribunal Regional do Trabalho, em Belo Horizonte) e acompanhando, dia a dia, a grande greve dos trabalhadores do ensino, que gerou a fundação da União dos Trabalhadores do Ensino (hoje Sind-UTE).

Não me estenderei na descrição do livro, para não estragar o sabor da leitura. Concluindo: se alguém espera encontrar, nessas páginas bem condimentadas de emoção e verve, louvores ao PT e a Lula (a autora participou dos primeiros 207 dias de seu governo, como secretária-executiva do Ministério do Trabalho, e saiu exonerada) ou críticas acerbas à atual direção e aos rumos de um partido que ela ajudou a fundar e que conheceu de perto, convivendo com figurões, como o sindicalista Luís Inácio Lula da Silva, e tornando-se uma das poucas mulheres a ter “vez e voz” no período inicial de existência do PT, se alguém espera, vai ter que ler, pois não sou eu, um admirador de Hitchcock, quem vai quebrar o suspense de uma boa leitura.

Um parêntesis: os leitores de Sandra Starling no “O Tempo” devem saber o que ela pensa a respeito do partido que ajudou a fundar. No artigo desta terça-feira, em que analisa a situação política americana, ela conclui dizendo:

Confesso que sinto uma inveja danada. Sempre lutei para que o PT fosse expressão viva de uma democracia participativa forte, de massas engajadas, politizadas, que tomam nas próprias mãos à construção do futuro. Sinto-me frustrada ao ver que isso, até hoje, não se concretizou. E o pior é dar a mão à palmatória e constatar que precisamos aprender algo nesse sentido com os norte-americanos, sempre tão criticados por estas plagas. Não me sinto, entretanto, desencorajada. Sempre tive como norte na política que não sou detentora de verdades definitivas e que é preciso estar sempre com a mente aberta para aprender com as experiências dos outros, ainda que pensem muito diferente de você. É o que procuro fazer nesse período em que o PT, como diz Tarso Genro, apresenta “baixo horizonte estratégico”.

Se não continua a ter voz e vez no PT, não é por culpa de Sandra Starling, mas dos que, bem postos no alto de um tamborete, acham que já sabem tudo e nada têm a aprender com esta eterna aprendiz.”

A própria Sandra também escreveu sobre a publicação do livro, em sua coluna semanal no jornal “O Tempo”, em 13/2/2008. CLIQUE AQUI para ler o artigo dela.

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De que adianta fazer 30 anos?

De que adianta fazer 30 anos?

Uma idade tão forte, redondinha, com cara de divisor de águas, será que divide algo mesmo?

Ouvi amigas dizendo que, ao fazer 30, finalmente se sentiram “adultas”. O peso da vida adulta chegou para elas com as três décadas.

Para mim, não. Eu já me sentia adulta desde que deixei de me sentir criança. Sempre penso que pulei a adolescência: fui criança até o mááááximo que pude (e ainda tento ser, sempre que posso) e aí já comecei a querer ser adulta, com todo o trabalho, a independência e a responsabilidade e disciplina inerentes.

Comecei a ser adulta quando conquistei meu primeiro emprego fixo, aos 19?

Ou quando fui morar sozinha, em outro Estado, tendo que fazer malabarismo para pagar as contas e administrar a casa, a partir dos 22?

Só sei que foi bem antes dos 30.

Então, de que adianta fazer 30? Que diferença esta idade faz?

Aos 30, já não sou mais tão “foca” na carreira e profissão, mas tampouco sou tão calejada a ponto de ter perdido o encanto e o entusiasmo pelo jornalismo (quase sempre).

Aos 30, não sou tão “verde” no amor, mas tampouco tão experiente a ponto de ter perdido a taquicardia e os sonhos e a alegria do casamento.

Aos 30, não sou tão dependente dos amigos e posso me afastar daqueles que já não me fazem sentir muito bem, mas tampouco perdi a graça e o prazer de compartilhar bons momentos com a turma que conhece tão bem meus defeitos e ainda sabe rir deles.

Aos 30, não tenho a mínima preocupação com a opinião alheia (nunca tive, mas agora isso se tornou uma característica quase irreversível da minha personalidade). Não ligo de parecer meio doida — nem no ambiente de trabalho –, não ligo de não agradar a todos, não tenho nenhuma pretensão de ser unanimidade.

Estou menos preocupada em vencer todos os debates, em ter sempre os melhores argumentos e, a cada dia que passa, mais encerro uma discussão com um “você tem razão, obrigada.” Rio-me de quem se leva a sério demais, de quem fica bravinho só porque pensa diferente de mim. Hahahahaha, sério mesmo?!

“Caguei”, tenho que responder, às vezes. (Ainda falo palavrão, mas são palavrões mais inocentes, ou engraçados.)

Aos 30, reforço o sentimento de que é bom fazer os outros rirem. O bom humor é uma arma e uma solução para quase tudo, e, aos 30, é minha meta diária alcançá-lo. (Que a rabugice só me chegue aos 90!)

Continuo pouco vaidosa, como sempre fui, sem usar maquiagem, sem neura com “boa forma”, sem nunca ter pintado os cabelos e mesclando estilos de roupas que nada têm a ver com a moda corrente, mas comecei a me esforçar para passar protetor solar antes de sair de casa. Isso é bem 30 anos, né? 😉

Não sou a correspondente internacional, autora de best-sellers, viajante do mundo inteiro, como eu previa que ia ser, quando eu tinha apenas uns 15 anos. Mas aprendi a ser feliz com menos, a curtir minha própria companhia, a gostar de ficar em casa numa sexta à noite, só conversando com meu amor, a gostar de passar uma tarde de domingo com a família, em vez de num churrascão. São IMG_20150326_115915coisas prosaicas que, chegados os 30 anos, me parecem o maior dos luxos. E outros sonhos vão surgindo no lugar dos antigos.

De que adianta fazer 30 anos, então?

Não é um divisor de águas de nada na minha vida, mas funciona como o pipocar de fogos no Réveillon: me faz pensar em todos os 10.957 dias vividos — 10 mil dos quais totalmente esquecidos — e constatar que a vida é um negócio muito esquisito, mas que sorte e privilégio que eu nasci! E que não morri aos 27, como meus ídolos do rock e do blues e alguns da literatura. Aos 30, quero viver outros 30, e depois outros 30, e morrer bem velhinha (mas menos enrugadinha, por causa do protetor solar) 😀

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Mais um ano que acaba (e haja notícia!)

Salvador Dali

Salvador Dali

Rio das Ostras, fogos de artifício, mar azul. Marchinhas politizadas de Carnaval. Vejo todos os filmes do Oscar. Morre jornalista Santiago Andrade. Facebook compra aplicativo WhatsApp por US$ 16 bilhões. Morrem Philip Seymour Hoffman e Eduardo Coutinho. Carnaval. Avião da Malásia desaparece com 239 a bordo. Fui para o portal. Operação Lava-Jato revela esquema de corrupção na Petrobras e ex-diretor é preso. 29 anos de idade. Eu não mereço ser estuprada. Doença em família. Semana Santa no Ceará. Morre Gabriel García Márquez, José Wilker, Luciano do Valle. Férias on the road: São Paulo, Santa Catarina, Minas. Copa do Mundo. No Mineirão. Família ganha novo bebê. Tragédia em BH, viaduto cai, 2 morrem e 22 ficam feridos. Avião é abatido com 298 passageiros na Ucrânia. Revelado aeroporto que governo de Minas construiu para família de Aécio. Morrem Ariano Suassuna, Rubem Alves, João Ubaldo Ribeiro, Plínio de Arruda Sampaio. Vexame na Seleção, 7 a 1 pra Alemanha. Galo campeão da Recopa. Morre Robin Williams, captain, my captain. Morre Eduardo Campos, ressurge Marina Silva. Roger Abdelmassih é preso. Eu me casei. Ilha Grande, paraíso. Blog no Brasil Post. Fernando Pimentel é eleito no primeiro turno e põe fim a 12 anos de dinastia tucana em Minas. Eleições do ódio. Dilma é reeleita, com vitórias em Minas (onde Aécio governou), Rio (onde Aécio mora) e Pernambuco (de Eduardo Campos). Show de Luiz Melodia. Ineditamente, executivos de grandes empreiteiras são presos por oferecerem propina. Galo campeão da Copa do Brasil vencendo por 3 a 0 seu maior rival. Chaves morre, morre Manoel de Barros. Família ganha outro bebê. Perdi 7 kg sem perder a cabeçaEstados Unidos e Cuba se reaproximam após 53 anos. Morre Joe Cocker. Natal (e aniversário do blog). Serra do Cipó. Avião desaparece na Indonésia com 162 a bordo. Ano do ebola. Ano de crise hídrica sem precedentes.

Uma coisa que não faltou neste ano foi notícia, né? A matéria prima dos jornalistas esteve mais ativa que nunca.

Fora este parágrafo de retrospectiva, pessoal, nacional e mundial, eu também quero destacar um desafio que o “Brasil Post” propôs a seus blogueiros e que publiquei por lá nesta semana: eles perguntaram para quem tiro o chapéu e para quem enterro o chapéu bem fundo em minha cabeça neste 2014. CLIQUE AQUI para ver o que respondi 😉

E você, o que achou deste 2014? Quais fatos mais marcaram sua vida, pessoalmente ou não? Para quem você tira o chapéu neste ano?

Feliz ano novo! Que sua passagem de ano seja bem alegre e divertida e que 2015 seja um ano ainda melhor e mais agitado do que foi este 😀

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