‘A Grande Jogada’: Os mais poderosos do mundo numa mesa de pôquer

Vale a pena assistir: A GRANDE JOGADA (Molly’s Game)
Nota 9

Este é o filme de estreia, como diretor, do roteirista Aaron Sorkin, que antes já tinha escrito o bom “A Rede Social” e o péssimo “Steve Jobs“. Ou seja: o forte dele é falar sobre personagens reais que têm, em comum, grande inteligência e talento para fazer dinheiro. Seu roteiro adaptado da biografia da Molly Bloom da vida real concorreu ao Oscar (perdeu para “Me Chame Pelo Seu Nome“, que achei bem mais fraco) e a outros prêmios importantes, como o Globo de Ouro. A atuação impecável de Jessica Chastain (Interestelar e Árvore da Vida) encarnando Molly também foi muito indicada em várias premiações, embora tenha ficado de fora do Oscar.

História e atriz são os pontos fortes deste filme.

Estamos falando de uma ex-atleta olímpica de esqui que resolve ganhar a vida organizando jogos de pôquer e acaba recebendo em suas rodadas figurões da alta sociedade — atores famosos de Hollywood, empresários, estrelas do esporte e, bem, também uma galera da máfia russa. Só esse resuminho já renderia um bocado de desdobramentos, mas tem muito mais coisa para apimentar a história real. Basta dizer que o filme praticamente começa com Molly sendo presa por 17 agentes do FBI. Continuar lendo

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‘The Big Sick’: é preciso rir para poder bem chorar

Vale a pena assistir: DOENTES DE AMOR (The Big Sick)
Nota 8

Eu fico doente com as traduções dos nomes de filmes no Brasil. Alguns conseguem manter uma certa dignidade, mas casos como de “Doentes de Amor” são (des)exemplares. Me vêm à cabeça imediatamente as tirinhas do Liniers sobre “o senhor que traduz os nomes dos filmes”:

Só nos resta rir, não é mesmo? “The Big Sick” virou “Doentes de Amor”. Isso sem falar em “Darkest Hour“, que virou “O Destino de Uma Nação”, e – horror dos horrores! – “Mudbound“, que virou “Lágrimas sobre o Mississippi”.

Mas sabe uma coisa que The Big Sick nos ensina de muito legal? Que devemos rir até nos momentos de maiores desgraças. Que o humor alivia a barra pesada, embora nem sempre seja possível recorrer às piadas nas horas de tristeza. Mas, quando for possível, tudo bem fazer isso.

Esse filme foi catalogado como comédia, mas também drama e romance. E é um pouco disso tudo mesmo: uma história de amor tragicômica – como boa parte das histórias de amor reais. Vale dizer que foi só no fim do filme que me dei conta de uma informação que boa parte das resenhas já divulgava livremente: que o filme é baseado em uma história de amor real. Que seu roteirista e protagonista, Kumail Nanjiani, interpreta ele mesmo: um paquistanês que mora nos Estados Unidos, tenta ganhar a vida como comediante, mas sua família quer que ele mantenha as tradições muçulmanas e de seu país de origem, pelas quais ele simplesmente não se interessa. No meio do caminho, conhece Emily – americana, loira, branca, não-muçulmana –, que confunde ainda mais seus sentimentos e convicções. Não bastasse essa excelente história de amor a la Romeu e Julieta, Emily entra em coma.

A Emily do filme é baseada na esposa real de Kumail, a escritora Emily V. Gordon, que assina com ele o roteiro do filme, indicadíssimo ao Oscar. O roteiro é tão forte e a história é tão bem contada que foi disputado a tapa por nada menos que Sony, Focus Features, Netflix e Amazon – sendo que esta acabou levando os direitos de distribuição por US$ 12 milhões. (O roteiro de “Corra!” levou a melhor no Oscar, e era realmente outra história arrebatadora. Páreo duro.)

Ainda é bem legal o elenco do filme, com os veteranos Holly Hunter e Ray Romano (de Everybody Loves Raymond) em papéis cruciais. Trata-se de uma verdadeira homenagem ao universo do humor, ainda que num pano de fundo de grandes questões dramáticas, como religião, conflitos familiares, doenças, traição etc. Afinal, são as tristezas da vida os maiores combustíveis para o humor, não é mesmo?

Assista ao trailer do filme:

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‘Projeto Flórida’: Uma baita história totalmente desperdiçada

Não vale a pena ver: PROJETO FLÓRIDA (The Florida Project)
Nota 4

Crianças irritantes, diálogos vazios, bastante palavrão, uma pobreza meio farta para olhares brasileiros, que vemos contrastes bem mais tristes em qualquer esquina, roteiro mal aproveitado e um dos piores finais que já vi na vida, tanto em termos de técnica (todo feito com iPhone, de um jeito que ficou bem tosco) quanto de solução.

Isso foi Projeto Flórida para mim. Pra piorar, o personagem de Willem Dafoe é mesmo muito legal, o ator está bem, mas não acho que se destaque a ponto de merecer a única indicação ao Oscar que o filme teve, de melhor ator coadjuvante. Talvez a novata Bria Vinaite, que interpreta a mãe rebelde Halley merecesse mais do que ele. A pequena Brooklynn Prince, que faz a Moonee, protagonista do filme, também se saiu bem. E só.

O mais legal do filme seria mesmo explorar a ideia de que existem muitas pessoas na penúria, num mundo que é o oposto do glamour e da magia vendidos por Orlando para o mundo todo. Mas o contraste nunca é mostrado — exceto por uma cena curtíssima de um casal em lua-de-mel e outras intervenções muito dispensáveis de helicópteros sobrevoando a área. “Projeto Florida” é como a Disney World era chamada quando ainda estava sendo construída, mas isso a gente tem que ler por fora ou deduzir, porque o filme não chega a mostrar. Fiquei com a impressão de que uma grande história foi totalmente desperdiçada.

O que sobrou foi só a mãe desajuizada e a filha captando os exemplos errados, nas barbas do conselho tutelar. E isso, sem toda a promessa que esperávamos, é muito pouco.

Assista ao trailer do filme:

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