‘Todo o Dinheiro do Mundo’: a alma dickensiana dos bilionários

Vale a pena assistir: TODO O DINHEIRO DO MUNDO (All the Money in the World)
Nota 9

O filme já estava prontinho, com trailer e tudo, quando o ator Kevin Spacey foi acusado de ter cometido abuso sexual contra vários colegas de trabalho. Spacey interpretava um dos protagonistas do filme, o magnata J. Paul Getty, que teve o neto de 16 anos sequestrado em 1973. O diretor Ridley Scott optou por substituir o ator e regravar todas as cenas em que ele aparecia, agora sendo interpretadas pelo octogenário Christopher Plummer.

Não sei como seria o filme se Spacey (o da esquerda, na foto acima) tivesse permanecido no elenco, com toda essa maquiagem envelhecendo o ator de 58 anos. Provavelmente, também teria sido bom, porque ele é um baita ator. Mas Plummer também é fera e interpretou o bilionário com maestria. Acabou sendo o responsável pela única indicação do filme ao Oscar, com a estatueta de melhor ator coadjuvante.

E não acho que tenha sido “prêmio de consolação” pelos dez milhões de dólares gastos a mais por causa do oitos dias de regravações. Ele foi mesmo excepcional em gerar sentimento (de raiva, mais frequentemente) no público. Afinal, as pessoas querem ver finais felizes, querem ver famílias se ajudando. E, se um sujeito ganha US$ 17 milhões num único dia, não pode se negar a pagar essa quantia pelo resgate do neto favorito, não é mesmo?

Esse é o conflito do enredo do filme, baseado em fatos reais, que pode ser enquadrado como um drama policial, mas também contém suspense e ação. Apesar de ter entrado no noticiário da época, eu não era nem nascida e não fazia a mínima ideia do desenrolar da história. Isso garantiu o suspense. O roteiro, alternando a aflição da mãe – interpretada pela excelente Michelle Williams – para tentar convencer o sogro a pagar o resgate com o jovem preso no cativeiro, garantiu que as 2 horas e 12 minutos corressem sem qualquer momento de tédio.

Michelle Williams e Mark Wahlberg

Mas o melhor foi a tentativa, bem-sucedida, de nos colocar dentro do cérebro de um sujeito absolutamente rico e também absurdamente sovina – e talvez uma coisa esteja bastante entrelaçada à outra. É como ver o personagem de Dickens, o velho Scrooge, caracterizando os homens de carne e osso mais ricos do mundo, estes que vemos todos os anos na Forbes. De brinde, ganhamos mais um motivo para odiarmos a desigualdade e a concentração de renda no planeta.

Assista ao trailer do filme:

Leia também:

***

Quer assinar o blog para recebê-lo por email a cada novo post? É gratuito! CLIQUE AQUI e veja como é simples!

faceblogttblog

Anúncios

‘Coco’: um filme sobre o vínculo poderoso entre os vivos e os mortos

Não deixe de assistir: VIVA: A VIDA É UMA FESTA (Coco)
Nota 10

Miguel e sua bisavó Coco, que dá o título original ao filme: união entre as gerações.

O que acontece quando nossos queridos morrem? Como manter viva na família a memória dos parentes amados? Qual a importância de que nunca sejam esquecidos? Por que algumas tradições devem ser mantidas?

Estas – e muitas outras – reflexões e mensagens estão contidas nos 105 minutos deste delicadíssimo filme da Pixar/Disney, cujo nome foi tenebrosamente traduzido para o português como “Viva: A Vida é Uma festa”.

Por que a tradução do nome “Coco” para este retirou parte da força do filme? Porque houve um erro de interpretação. Este não é um filme sobre a celebração da vida, mas sobre a memória dos que já estão mortos. Sobre o elo, o vínculo poderoso, que existe entre vivos e mortos. “Coco” é o nome original da bisavó do protagonista Miguel, que, em português, virou, só Deus sabe como, Inês. Uma velhinha simpática e sorridente, provavelmente com demência ou Alzheimer, que guarda dentro de si uma coisa inestimável, que as outras gerações simplesmente não possuem: a vivência de uma época que já não existe mais.

A linda paisagem do filme, cheia de cores, luzes e detalhes preciosos. Na cena, Miguel e Hector.

Ao trabalhar temas tão profundos e até filosóficos, esta animação é capaz de tocar muito mais os adultos do que as crianças – embora, é claro, elas também sejam perfeitamente capazes de capturar o que há de mais valioso nesse roteiro. E ambas as gerações se encantam também com o cenário colorido, rico, detalhado, tipicamente mexicano, cheio de rituais espetaculares que, para os brasileiros, são pura novidade. Nós até temos o Dia de Finados, em 2 de novembro, mas é só mais um feriado como qualquer outro, em que se emenda uma viagem à praia ou, no máximo, se deixa flores no túmulo de algum querido. No México, ao menos nesse México retratado em “Coco”, o Dia de Los Muertos é muito mais carregado de simbolismo. As famílias espalham pétalas de cravos nas ruas e passagens para, segundo a crença popular, guiarem os caminhos dos mortos até os vivos. Seus membros se reúnem em um evento festivo e, juntos, celebram a memória dos antepassados. Que, teoricamente, comparecem também, como espíritos.

Que bom seria se essa celebração aos mortos também existisse no Brasil, mas não como choro lúgubre, e sim como esta festa calorosa, como lembrança cheia de carinho!

A homenagem calorosa dos vivos aos antepassados mortos.

“Coco” levou o Oscar de melhor animação em 2018 – além de arrebatar na mesma categoria prêmios como Globo de Ouro, Bafta, Annie Awards, o do sindicato dos diretores de arte, e muitos outros. Mas também levou uma estatueta por sua linda canção “Remember Me”, que é importantíssima para a história do filme.

A música, aliás, é parte fundamental de “Coco”, já que o ponto de partida do filme é o garotinho Miguel, que sonha em ser um músico famoso, a contragosto de sua família. Um típico “plot” de milhões de filmes e livros sobre conflitos familiares em todo o mundo, não é mesmo? E felizmente, neste filme, a trama não se resume a isso, como se verá nas várias reviravoltas, cheias de emoções, de dramas e de mistérios. Deixo esta canção tão singela, na interpretação de Gael García Bernal (a voz do Hector do filme) para a premiação do Oscar, como encerramento feliz deste post:

Assista ao trailer do filme: 

Leia também:

***

Quer assinar o blog para recebê-lo por email a cada novo post? É gratuito! CLIQUE AQUI e veja como é simples!

faceblogttblog

‘Roman J. Israel, Esq.’: Um filme sobre a integridade

Vale a pena assistir: ROMAN J. ISRAEL, ESQ.
Nota 8

Ontem comentei aqui no blog, ao fazer a resenha de “Artista do Desastre“, que Tommy Wiseau é um dos personagens mais insólitos do cinema. Eu ainda não tinha visto “Roman J. Israel, Esq.” quando escrevi aquela crítica. Ambos se equiparam, ainda que por razões muito diferentes.

Tommy ganha um ponto a mais no quesito bizarrice por ser um personagem real. Roman é fictício e não chega a ser bizarro, apenas intrigante, certamente fora de qualquer padrão de normalidade. Um gênio (no caso, do direito) e, como todo gênio, um pouco louco. Ou pelo menos com sérias dificuldades sociais.

É esse personagem, na pele de um dos maiores atores do cinema, Denzel Washington – que foi indicado ao Oscar de 2018 –, e interagindo com o “antagonista” George, vivido pelo também incrível Colin Farrell, que levanta todo um debate, em forma de fábula, sobre a integridade humana, sobre a ética, sobre as fronteiras flexíveis que margeiam essas duas coisas.

Ao longo do filme, somos presenteados com as reflexões – muitas vezes tão confusas quanto Roman – disparadas pelo protagonista. E escritas pelo roteirista e diretor Dan Gilroy, o mesmo do também ótimo filme “O Abutre“, que também traz reflexões importantes sobre ética. Naquele filme, a ética girava em torno da profissão do jornalista. Agora, gira em torno da advocacia.

Mas vai além.

“Cada um de nós é melhor do que a pior coisa que já fizemos.”

“Os inimigos reais não são aqueles do lado de fora, mas os que estão do lado de dentro.”

“Somos formados por fragilidade e erro. Perdoemos reciprocamente as loucuras um do outro. Essa é a primeira lei da natureza.”

“Um ato não torna a pessoa culpada, a menos que a mente dela seja culpada também.”

E toma! E toma! E toma! E toma!

Fiquem com estas, mas são quase duas horas com pérolas assim, num contexto de filme que mistura drama a crime a suspense e até mesmo a um pouquinho de ação – a cena da perseguição é uma das mais tensas que você verá nesse gênero, muito graças à brilhante trilha sonora.

A propósito, a trilha sonora merece um parágrafo à parte. Assinada por James Newton Howard, que já foi indicado a nada menos que oito estatuetas do Oscar (“O Casamento do Meu Melhor Amigo, por exemplo, é dele!), escolheu canções da época da Motown que deram um vigor extra a um filme que poderia ter ficado sério demais. Tem muito funk-groovie, jazz, soul e quetais. Minha próxima playlist vai ser com essa trilha, aguardem 😉

Assista ao trailer do filme:

Leia também:

faceblogttblog