Estamos caminhando para a volta da ditadura militar? 10 passos preocupantes

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#1 Primeiro, grupos conservadores da elite saíram às ruas batendo panelas e exigindo o fim de um governo de esquerda, (re)eleito por maioria de votos, acusado de corrupção.

#2 Depois, houve um impeachment baseado num motivo no mínimo frágil (alguém se lembra das pedaladas?), questionado por entidades internacionais de peso.

#3 Em seguida, um vice assumiu contestadamente o poder, promovendo várias medidas que representaram grande retrocesso para o país.

#4 Vários direitos dos trabalhadores, garantidos desde os tempos de Vargas, foram estraçalhados por esse grupo no poder.

#5 O país foi ficando cada vez mais polarizado, dando margem ao fortalecimento de figuras patéticas como Jair Bolsonaro, fã confesso do coronel Ustra, único militar brasileiro declarado torturador pela Justiça até o momento.

#6 Foi ganhando força, também, discursos reacionários que pregam censura a expressões artísticas, que já se tornaram inclusive projetos de lei.

#7 Um ex-presidente foi julgado e condenado até em segunda instância em tempo recorde, com base em provas também frágeis e, de novo, contestadas por seu caráter político (que, muitas vezes, fez lembrar processo quase idêntico sofrido por JK nas mãos dos militares).

#8 Agora, um general do Exército é nomeado interventor de segurança no Estado do Rio de Janeiro, ganhando “poderes de governo“, nas palavras do ministro da Defesa, pelo menos até o dia 31 de dezembro de 2018. Por meio de um decreto já questionado por juristas, e também por políticos à esquerda e à direita.

#9 Esse general poderá tomar decisões apenas referentes à segurança pública, mas segurança pública pode significar muito mais que tanques andando pelas ruas do Rio: pode resvalar nas escolas e na saúde pública, como bem desenhou Renato Rovai.

#10 Pior: podemos nos preparar para, nos próximos meses, assistir a notícias incríveis mostrando como o Rio se tornou um Estado pacífico e maravilhoso depois da intervenção do Exército sob batuta de Temer. Isso deve ser tão martelado que, daqui a pouco, outros Estados que estiveram recentemente embebidos em violência urbana, como Espírito Santo e vários do Nordeste, poderão, quem sabe, ganhar uma ajudinha de um interventor do Exército. E, se essa moda pega, logo teremos um chefe do Exército em cada uma das 27 unidades da Federação.

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Teoria da conspiração? Neste momento, prefiro pensar que é uma pequena lição da História recente do Brasil. Mostrando que o que aconteceu na década de 60 e levou a uma ditadura militar de 21 anos poderá, sim, se repetir. Afinal a polarização do país, que existiu no governo de Jango, já se repetiu agora, a marcha da família já se repetiu também, a censura voltou a mostrar suas garrinhas, parte dos direitos trabalhistas foi cassada, agora até o Exército volta a receber um poder no Executivo que nunca tinha tido, desde 1988, quando o país ganhou sua Constituição democrática.

O que pode vir no futuro? Segundo nos lembra o passado, coisas como: restrição do direito de voto, fim dos partidos políticos, suspensão dos direitos políticos dos cidadãos, cassação de mandatos parlamentares, eleições indiretas para governadores, proibição das greves, ampliação da repressão policial-militar, exílios, prisões, torturas e desaparecimentos de cidadãos, restrições a todas as formas de manifestações artísticas e culturais etc.

Pode não acontecer nada disso também. Pode ser que a intervenção do Exército tenha sido só uma manobra do Temer para não passar vexame na votação da reforma da Previdência, como dizem alguns analistas com bola de cristal. Pode ser que o interventor consiga o milagre de acabar com a banda podre da polícia fluminense e de conter o organizadíssimo tráfico do Rio. Pode ser que as eleições deste ano transcorram sem turbulências que mereçam menção e os últimos dois anos de instabilidade política do Brasil fiquem para trás.

Mas está mais fácil — bem mais — ser pessimista do que otimista no Brasil de hoje.

Por isso, ponho minhas barbas de molho, ao som de Cazuza (eu vejo o futuro repetir o passado), e sigo no aguardo de dias melhores para todos…

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A hora e a vez dos estudantes na defesa da democracia

Texto escrito por José de Souza Castro:

Ana Rita Trajano, sogra de minha filha Cris, emprestou-me um livro escrito pelo jornalista Américo Antunes: “Nós, que amamos a revolução”. Uma viagem ao passado recente – final dos anos 1970, quando o Brasil começava a ter esperança de vencer a ditadura e retomar o árduo caminho da democracia barrado pelo golpe de 1964. Democracia que vai sendo barrada de novo, repetindo-se a história como uma farsa, com o bufão Temer disputando os holofotes da TV com um punhado de juízes muito bem pagos, sabe-se lá por quem.

Escrito nos anos 80 numa máquina de escrever, o autor perdeu os originais, que só foram recuperados uma década depois. Finalmente, o romance do ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais foi publicado em 2016. Ana Rita foi ao lançamento em novembro daquele ano, no restaurante Casa dos Contos, em Belo Horizonte.

O tempo passado entre a redação do livro e sua chegada às minhas mãos foi nada mais que um átimo nos planos da História…

Quando os fatos históricos narrados por Antunes ocorreram, eu não participava do movimento estudantil, como fazia o autor. Mas me interessava muito pelo que os estudantes movidos a droga, sexo e, sobretudo, pelo ideal revolucionário vinham fazendo, pois eu era repórter do “Jornal do Brasil” (JB) que tudo fazia para furar o bloqueio da censura. Entre as coberturas memoráveis daquele tempo, destacava-se a do III Encontro Nacional dos Estudantes (III ENE), “duramente reprimido em Belo Horizonte, em junho de 1977”, lembra o autor.

Robertão, um dos personagens da ficção, afirma na página 67:

“Apesar da censura à imprensa, a repressão ao III ENE estava sendo tão brutal e escandalosa que não haveria como esconder os acontecimentos desse histórico dia quatro de junho de 1977 da sociedade brasileira. Déramos, enfim, um passo decisivo na luta pelas liberdades democráticas e ele terá profundas repercussões no país, comemorei satisfeito. Mais uma vez o ME (Movimento Estudantil) mostrava o seu papel estratégico de força auxiliar dos trabalhadores, de banda de música do movimento operário…”

No dia 4 de junho, a segunda chamada mais importante da primeira página do JB era esta: “Minas fecha Faculdade para impedir o Encontro”. O III ENE seria realizado naquele dia na Faculdade de Medicina da UFMG. Mesmo com a repressão anunciada, centenas de estudantes conseguiram furar o bloqueio policial, mas tiveram que se retirar, diante da ameaça de que o local seria invadido pelo Batalhão de Choque. Cerca de 800 estudantes foram recolhidos em ônibus na porta da Faculdade e levados para o Parque de Exposições da Gameleira, onde passaram a noite sendo ouvidos e fichados pelas polícias civil e militar.

Lembro-me que o JB deu grande espaço aos episódios daquele dia, mas infelizmente a edição do dia 5 de junho não está disponível na internet e nem em meus arquivos pessoais.

Américo Antunes, porém, fez uma extensa pesquisa, e quem se interessar por aquele momento da história vai encontrar em seu livro uma boa fonte. É uma história romanceada e, como não poderia deixar de ser, o leitor será brindado também com muito sexo e drogas que amenizavam ou intensificavam, dependendo do ponto de vista, as tensões da luta contra a ditadura.

Dois meses antes do III ENE, o general Ernesto Geisel havia baixado o Pacote de Abril, para evitar que a oposição à ditadura repetisse nas eleições de 1978 o êxito da última eleição, que pude descrever numa reportagem de duas páginas no JB com um título maroto (“Votos de 74 talvez não tenham dado eleitores ao MDB”) bolado pelo então editor de política, Elio Gaspari, para tentar sossegar os milicos linha dura. O texto ocupa 10 páginas do livro “O caçador de estrelas e outras histórias”, disponível na biblioteca deste blog, e se baseava num estudo de professores e cientistas políticos de 11 Estados publicado pela “Revista Brasileira de Estudos Políticos da Universidade Federal de Minas Gerais”. A reportagem assinada por mim foi publicada no primeiro caderno do JB no dia 5 de setembro de 1976.

Uma das queixas dos líderes estudantis, em 1977, era sobre a apatia política da classe operária. Marcos, um deles, na ficção de Antunes, diz lá na página 179, analisando os avanços obtidos desde o III ENE:

“Mas a verdade é que vivemos uma nova realidade política mesmo, e 79 será um ano de avanços maiores ainda, pode escrever Andréa! Nesse ano nós vamos reconstruir a UNE no congresso de Salvador. E Lula e os sindicalistas do ABC já viram que não dá pra conquistar melhores salários e condições de trabalho dignas sem derrubar a sociedade de exploração, imposta pelos patrões e pelo governo deles. Após as greves, eles estão defendendo a criação de um Partido dos Trabalhadores! Um puta avanço, e estamos firmes no movimento pró-PT! O AI 5 também caiu de podre e os exilados já começaram a voltar para o Brasil! Você viu os jornais da virada do ano? Um barato! Todos eles deram manchetes enormes sobre o fim do AI 5! Até guardei o JB…”

Bem, chegou o momento de remeter ao último artigo da nora da Ana Rita Trajano, que é mãe do Beto e avó do Luiz pelo lado paterno. Luiz que, aos 2 anos, tem um longo futuro pela frente, se o Brasil conseguir superar o momento desastroso de hoje, sem maiores tumultos sociais e crises econômicas.

Que o movimento estudantil, mais uma vez, seja a banda de música do movimento operário, para o bem da maioria dos brasileiros.

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Qual é sua melhor lembrança?

Viva aventuras! Foto: Elvis Ma

No dia 26 de dezembro, logo depois do Natal, é celebrado o Dia da Lembrança. Tudo bem que, naquele momento, nossas lembranças provavelmente giraram em torno de ceias com perus e farofas ou reencontros com familiares sumidos. Mas a data pode ser também uma oportunidade para uma reflexão mais profunda sobre quais são nossas lembranças mais importantes.

Vira e mexe me pego pensando em como é assustador o fato de que uns 90% da nossa vida vão parar no esgoto da nossa memória. São trilhões de momentos esquecidos sorrateiramente, dia após dia. Só uma minoria incrível é impressa em nosso cérebro. E são geralmente as lembranças mais marcantes, as menos corriqueiras, aquelas coisas que fogem da rotina, ou acontecimentos tragicamente ruins ou outros maravilhosamente bons.

Lembro muito bem do dia em que descobri que estava grávida, por exemplo. E também do dia em que o Luiz nasceu. Mas é custoso lembrar do que fiz há duas semanas. Meus aniversários estão gravados na minha memória de forma razoável, principalmente dos 16 anos para cá. Antes disso, ficam meio nebulosos, mas lembro bem do niver de 7 anos em que ganhei uma corda de presente e fui com a prima Marcela e a melhor amiga, Ju, brincar lá na garagem do prédio. Tem uma foto minha, toda suada e descabelada, ao lado da Kika, minha cachorrinha de quem herdei meu apelido, que ajudou a imprimir essa recordação na minha mente.

Naquele dia 26 de dezembro, as redes sociais da revista Canguru, na qual trabalho, lançaram a desafiadora pergunta aos seus leitores: “Qual é sua melhor lembrança?” Não resisti e respondi também. Foi difícil e seguramente não respondi com A MELHOR lembrança, mas com uma boa lembrança, com um sentimento perene que ficou marcado no meu coração. Até porque não tenho esse ranking das vivências mais marcantes de toda a minha vida (será que alguém tem? Um definitivo mesmo? Não invejo). Mas eis o que respondi:

Difícil escolher a melhor… Lembro com carinho da época em que a família toda ia ao sítio, eu adorava subir nas árvores, ficava bem acima do telhado da casa, no alto do ipê, me sentindo uma fada da natureza… A gente colhia amoras juntos, ou goiaba, ou andu, o que estivesse na época, e descascava ou debulhava em torno da mesa… Eu varria e limpava a casinha e às vezes passava o resto do dia lá dentro, lendo um livro, não raro com um barulho de chuva caindo lá fora… Cheiro de terra, passarinhos… As lembranças na roça, de uma época em que a família era mais unida, e eu ainda era criança, são as mais doces.

Gostei também de ler as respostas das outras pessoas:  Continuar lendo