Por menos gritos, muros e ódio nos discursos dos meus amigos de Facebook

Não posso simplesmente deletar minha conta do Facebook, porque trabalho com o Facebook. Faz parte das minhas funções profissionais. Também é por esta rede social que melhor divulgo os posts deste blog de estimação.

Mas, se pudesse, já teria mandado esse circo do tio Zuckerberg pelos ares!

A culpa não é do Facebook, é claro. Ele é apenas um espelho (meio retorcido) da sociedade do lado de cá das telas. E é claro também que leio muitos textos legais ali dentro. Saio curtindo uma porção de fotos incríveis de pôr-do-sol lindo na praia tal, de bebê fofo fazendo uma estripulia, de casais apaixonados celebrando a vida. Dá até para ficar relativamente por dentro da vida de meia dúzia de amigos sumidos que os robozinhos do Facebook permitem que eu veja com frequência em minha timeline.

Essa parte é a parte boa.

Mas quando, vez ou outra, resolvo ler mais a fundo os textões e textinhos que são compartilhados ali, saio meio zonza, com uma sensação de embrulho no estômago, de ter levado mil pauladas. Mal estar danado. Continuar lendo

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Os 33 sobreviventes e seus 3 elementos vitais

Para ver no cinema: OS 33 (The 33)
Nota 9

33

Todo mundo que acompanhou a história pelo noticiário em 2010 sabe como ela começou e como vai terminar. Não se trata, portanto, de um filme que guarde segredos sobre seu final feliz. Não há spoiler no resgate dos 33 mineiros que foram salvos no Chile, após 69 incríveis dias soterrados, a 700 metros abaixo da terra, num calor de 38 graus, com ar rarefeito, como se estivessem presos em um túmulo.

O filme conta a história de como eles sobreviveram por tanto tempo. Percebemos que, mais difícil que lidar com a fome ou a sede é manter a lucidez, que insiste em esvair por causa do medo e da desesperança. O filme é sobre como 33 homens conseguiram superar a desconfiança, a insegurança, o medo de morrer, a loucura, a ganância, a competição. Unidos.

E também é sobre a importância que a pressão das famílias, da imprensa e da sociedade em geral teve para que o resgate efetivamente acontecesse, inclusive reunindo apoio tecnológico e braçal de outros países, como EUA, Canadá e Brasil. Se dependesse da mineradora que provocou diretamente o acidente, os homens iam ficar por ali mesmo, até morrerem e serem esquecidos.

A interpretação de atores consagrados — como Antonio Banderas, Rodrigo Santoro, Juliette Binoche e Cote de Pablo — foi essencial para a construção de um enredo que se passa, sempre, no mesmo cenário de confinamento e lida principalmente com dramas humanos, personalidades, pequenos momentos de desespero. Chegamos ao fim do filme conhecendo bem a maioria dos 33 homens: Mario Sepúlveda, Don Lucho, O Pastor, Darío, o Boliviano, Álex e Yonni, dentre outros.

Enfim, é uma baita história, do noticiário recente, que foi transformada em um baita filme dirigido pela mexicana Patricia Riggen. Que nos ensina quais são os três elementos que podem salvar vidas, mesmo nas situações mais inconcebíveis de privação: a solidariedade, a esperança e o bom humor. Que sirva de lição para nossas vidas — cheias de ar, espaço, alimento e liberdade. “Gracias a la vida!”

Veja o trailer do filme:

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Alergia a gente chata: principais sintomas, diagnóstico e solução

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Eu sempre tive muita alergia, mas só a poeira. É mexer com meus livros e começo a espirrar. Ou abrir aquele cobertor que estava guardado há muito tempo. Descobri que tinha um nome — rinite — e até fiz um texto só em homenagem aos riniteiros que sofrem com essa alergia, como eu. Mas, de uns tempos pra cá, comecei a desenvolver uma segunda alergia, muito mais intensa: a gente chata. Ou mala. O primeiro sintoma é impaciência aguda. A pessoa começa a falar merda e eu já crio um bloqueio no cérebro, deixo de escutar e, se for preciso manter a aparência de educação, só balanço a cabeça, nodding irresponsavelmente. O segundo sintoma, mais severo, é a manifestação de antipatia. Por fim, em casos raríssimos de gente chatíssima mesmo, de galocha e sem rodinhas (pode?), acabo apelando para as patadas — um antídoto nem sempre eficaz.

Desde que essa alergia surgiu, há uns poucos anos, está cada vez mais forte. E o pior: os chatos começaram a se multiplicar, talvez porque os meus sintomas não permitam que eles passem batido mais. É gente se gabando de tudo o tempo todo, é gente se superhiperexpondo nas redes sociais, é gente criando picuinha só porque tem uma opinião diferente da sua, é gente que só reclama de tudo o tempo todo, é gente que acha que sabe de TUDO DO UNIVERSO e fala com a pompa dos especialistas, é gente querendo chamar a atenção sobre si o tempo todo (sabe aquela que fala gritando pro escritório inteiro notar que ela está lá?), é gente dando pitaco sobre TUDO na sua vida sem você pedir, é gente sem educação que nem te cumprimenta quando vê na rua, é gente que quer que tudo seja feito do jeito dela, é gente que fica tentando te convencer/converter o tempo todo (em religião, política, futebol, gosto musical, culinário, whatever), é gente que só lê o título do texto e já vai meter o pau numa ideia que nem sequer foi defendida pelo autor, NÓ!, tem de tudo. Às vezes bastam cinco minutos de conversa para meu alarme de [chato detected] apitar: AAAAAAAAH-TCHIIIIIIMMMMM!!!!

Alguém mais sofre dessa mesma alergia que eu, com os sintomas listados no primeiro parágrafo? Mais importante: alguém aí se identificou com os sinais de chatura ou malice do segundo parágrafo? Se você tem os hábitos que lembrei logo aí em cima (pior ainda se tiver mais de um), faz favor de vestir a carapuça e dar um jeito de mudá-los. A solução está contigo mesmo, meu amigo! Pelo bem da maioria de gente fina, elegante e sincera que existe neste mundão de deus 😉

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Pelo direito de não levantar bandeira nenhuma

bandeira

Acho muito legal que as pessoas tenham bandeiras para levantar. Ou seja, uma causa em que acreditam e que defendem com unhas e dentes. Pode ser a luta contra o racismo, o casamento gay, a criminalização da homofobia, a legalização da maconha, os direitos dos animais, o feminismo, a liberação do aborto, a redução do número de cesarianas, os direitos dos guaranis-caiovás etc. Pode ser professores de melhor qualidade na escola do filho, a criação de um novo parque na cidade, o cumprimento de uma norma específica na universidade, o direito de usar biquíni na praça do bairro. Pode ser a redução da maioridade penal, o direito ao porte de arma e outras coisas assim. Pode ser o direito de os artistas de rua atuarem livremente, o direito de os jornalistas expressarem suas opiniões sem censura, a obrigatoriedade de diploma para exercer algumas profissões, o direito de os garçons receberem os 10% da gorjeta ou de os taxistas não terem a competição dos motoristas de Uber.

As pessoas devem poder ter suas convicções pessoais e argumentar para que elas sejam cumpridas, respeitadas, implementadas ou amplificadas. O ideal é que façam isso de maneira respeitosa, por meio de debates, audiências públicas, artigos, abaixo-assinados, petições ou projetos de lei. E, claro, por meio de protestos, manifestações, passeatas e afins. Com muitas bandeiras — de cores, símbolos e tamanhos diversos — empunhadas pelo grupo em questão.

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Existem causas mais consolidadas, que a maioria já entende como imprescindíveis, que são quase consensuais. As grandes causas dos direitos humanos caminham para esse rumo, lenta mas inexoravelmente. Outras causas são mais regionais, locais, específicas. Há ainda aquelas bandeiras que interessam principalmente a uma classe profissional, por exemplo. E há as bandeiras dos partidos políticos e das religiões (duas que nunca empunhei). Nem sempre a bandeira do vizinho vai coincidir com a sua.

Concordo com algumas, entendo outras, tolero outras, discordo de um tanto e já balancei umas poucas bandeiras. Aliás, já troquei de bandeiras ao longo da vida também. Em algum momento, defendi com mais afinco uma ideia, que hoje pode nem ser tão importante assim para mim. Em alguns casos, empunho de forma cautelosa minha bandeira, com medo de estar usurpando uma causa que é de outra pessoa. Por exemplo, apesar de ser descendente de negros e ter vários traços dos negros — sou morena, de cabelos cacheados etc –, não me considero negra e sei que não é como a população em geral me vê. Então, embora eu defenda veementemente a criminalização do racismo e o respeito às pessoas de todas as cores e etnias, eu tomo cuidado para não parecer que entendo completamente o que é ser vítima de preconceito racial — porque só posso imaginar a humilhação e sofrimento que esse comportamento pode causar à vítima. O mesmo em relação aos homossexuais: apoio a causa deles, apoio a criminalização da homofobia e os direitos civis iguais, mas não fico empunhando a bandeira como se eu pudesse imaginar o que eles passam, todos os dias, como vítimas de preconceito generalizado.

Por outro lado, é bem mais fácil eu me identificar, por exemplo, com a causa feminista. Sei que as mulheres sofrem determinados tipos de preconceito, mais ou menos graves, porque já os vivi (e relatei algumas vezes aqui no blog). No entanto, também é uma bandeira que empunho com cautela, porque gostaria que o mundo banisse os sexismos, todos eles, em vez de apenas trocar o machismo pelo feminismo.

Acho que minha bandeira favorita é pelo direito da livre expressão e da livre imprensa. Mas mesmo esta bandeira não é ilimitada: se o discurso propaga o ódio ou incentiva um crime, como defendê-lo? Defendo o direito de uma Raquel Sheherazade da vida (ela ainda existe?) poder emitir suas opiniões na TV, mas verei com preocupação se o argumento dela defender o linchamento de pessoas suspeitas de terem cometido um crime, já que linchamento é crime (muitas vezes mais grave que o cometido pelo suspeito em questão). Mesmo assim, defendo que ela possa dizê-lo. Se, ao expôr sua opinião, ela cometer um crime, terá de pagar por ele também, mas depois. Antes, vira censura. De qualquer forma, é difícil delimitar o que é censura e o que é uma proteção necessária (por exemplo, as imagens de adolescentes que cometeram um delito são preservadas por força do Estatuto da Criança e do Adolescente, e não acho que deixar de mostrá-las seja uma censura).

Enfim, hoje em dia ando tão ponderada que está difícil alguém me ver balançando uma bandeira qualquer — mesmo a do jornalismo, que anda me desanimando a cada dia mais. Eu me posiciono, eu apoio umas ideias e condeno outras, eu raramente fico em cima do muro, mas a veemência anda em falta por aqui. Talvez minha bandeirinha mais convicta seja a do bom-humor. “Por mais senso de humor no mundo!”, já escrevi por aqui. Mas o que é humor e o que é ofensa? Talvez fosse mais fácil eu balançar por mais bom senso no mundo…

Mais nova campanha do blog: por mais bom humor e leveza no mundo! Por menos gente séria, ranzinza, politicamente correta e chata! https://kikacastro.com.br/2014/06/27/frase-do-ano/

Por mais bom humor e leveza no mundo! Por menos gente séria, ranzinza, politicamente correta e chata! kikacastro.com.br/2014/06/27/frase-do-ano

Por isso, embora eu admire os colegas e amigos que saem por aí carregando suas bandeiras, fico irritada quando eles me cobram que eu carregue as bandeiras deles. Já discuti com uma amiga que queria que eu virasse vegetariana de qualquer jeito, porque ela virou: “Adoro um bife”, encerrei. Já cortei logo outra amiga que queria que eu virasse mãe-ativista depois que engravidei, lutando pelo parto humanizado e coisa e tal. Pode ser que um dia eu vire, eu tenho procurado me informar e tudo o mais, mas hoje esta causa simplesmente não me comove. Eu adoro cachorrinhos, mas ainda gosto mais dos humanos e não me vejo adotando todo vira-lata que encontro na rua para evitar que ele passe frio ou fome. Mas respeito pacas quem faz disso tudo sua missão.

Enfim, esta longa divagação é para defender que as pessoas possam carregar as bandeiras que melhor lhes aprouver — mas que também tenhamos o direito de simplesmente não carregar bandeira alguma, se não quisermos. Sem olho torto, sem julgamento, sem pé no saco. Que tal esta bandeira nova que inventei? 😉

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De que adianta fazer 30 anos?

De que adianta fazer 30 anos?

Uma idade tão forte, redondinha, com cara de divisor de águas, será que divide algo mesmo?

Ouvi amigas dizendo que, ao fazer 30, finalmente se sentiram “adultas”. O peso da vida adulta chegou para elas com as três décadas.

Para mim, não. Eu já me sentia adulta desde que deixei de me sentir criança. Sempre penso que pulei a adolescência: fui criança até o mááááximo que pude (e ainda tento ser, sempre que posso) e aí já comecei a querer ser adulta, com todo o trabalho, a independência e a responsabilidade e disciplina inerentes.

Comecei a ser adulta quando conquistei meu primeiro emprego fixo, aos 19?

Ou quando fui morar sozinha, em outro Estado, tendo que fazer malabarismo para pagar as contas e administrar a casa, a partir dos 22?

Só sei que foi bem antes dos 30.

Então, de que adianta fazer 30? Que diferença esta idade faz?

Aos 30, já não sou mais tão “foca” na carreira e profissão, mas tampouco sou tão calejada a ponto de ter perdido o encanto e o entusiasmo pelo jornalismo (quase sempre).

Aos 30, não sou tão “verde” no amor, mas tampouco tão experiente a ponto de ter perdido a taquicardia e os sonhos e a alegria do casamento.

Aos 30, não sou tão dependente dos amigos e posso me afastar daqueles que já não me fazem sentir muito bem, mas tampouco perdi a graça e o prazer de compartilhar bons momentos com a turma que conhece tão bem meus defeitos e ainda sabe rir deles.

Aos 30, não tenho a mínima preocupação com a opinião alheia (nunca tive, mas agora isso se tornou uma característica quase irreversível da minha personalidade). Não ligo de parecer meio doida — nem no ambiente de trabalho –, não ligo de não agradar a todos, não tenho nenhuma pretensão de ser unanimidade.

Estou menos preocupada em vencer todos os debates, em ter sempre os melhores argumentos e, a cada dia que passa, mais encerro uma discussão com um “você tem razão, obrigada.” Rio-me de quem se leva a sério demais, de quem fica bravinho só porque pensa diferente de mim. Hahahahaha, sério mesmo?!

“Caguei”, tenho que responder, às vezes. (Ainda falo palavrão, mas são palavrões mais inocentes, ou engraçados.)

Aos 30, reforço o sentimento de que é bom fazer os outros rirem. O bom humor é uma arma e uma solução para quase tudo, e, aos 30, é minha meta diária alcançá-lo. (Que a rabugice só me chegue aos 90!)

Continuo pouco vaidosa, como sempre fui, sem usar maquiagem, sem neura com “boa forma”, sem nunca ter pintado os cabelos e mesclando estilos de roupas que nada têm a ver com a moda corrente, mas comecei a me esforçar para passar protetor solar antes de sair de casa. Isso é bem 30 anos, né? 😉

Não sou a correspondente internacional, autora de best-sellers, viajante do mundo inteiro, como eu previa que ia ser, quando eu tinha apenas uns 15 anos. Mas aprendi a ser feliz com menos, a curtir minha própria companhia, a gostar de ficar em casa numa sexta à noite, só conversando com meu amor, a gostar de passar uma tarde de domingo com a família, em vez de num churrascão. São IMG_20150326_115915coisas prosaicas que, chegados os 30 anos, me parecem o maior dos luxos. E outros sonhos vão surgindo no lugar dos antigos.

De que adianta fazer 30 anos, então?

Não é um divisor de águas de nada na minha vida, mas funciona como o pipocar de fogos no Réveillon: me faz pensar em todos os 10.957 dias vividos — 10 mil dos quais totalmente esquecidos — e constatar que a vida é um negócio muito esquisito, mas que sorte e privilégio que eu nasci! E que não morri aos 27, como meus ídolos do rock e do blues e alguns da literatura. Aos 30, quero viver outros 30, e depois outros 30, e morrer bem velhinha (mas menos enrugadinha, por causa do protetor solar) 😀

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