Retrocesso sim, mas a esperança é a última a morrer

Dilma Rousseff participa da Cerimônia de abertura da 4ª Conferência Nacional de Política para as Mulheres, em Brasília. Foto: Valter Campanato/ Agência Brasil

Dilma na abertura da 4ª Conferência Nacional de Política para as Mulheres, em Brasília. Foto: Valter Campanato/ Agência Brasil

Texto escrito por José de Souza Castro:

A presidente Dilma Rousseff fez um discurso de 35 minutos na abertura da 4ª Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres que começou na última terça-feira em Brasília e termina amanhã, com ela já afastada da presidência da República por 180 dias. Na “Folha de S.Paulo” de ontem encontrei algumas palavras de seu discurso, em dois parágrafos de uma notícia de uma coluna intitulada “Dilma desiste de descer a rampa do Planalto”, com o subtítulo “Gesto simbólico criticado por Lula”, por acenar com o fim da luta.

O jornal deu na capa uma foto da presidente, na Conferência, com esta legenda: “Dilma vai a evento sobre mulheres, talvez o último no cargo”. Na foto, com alguma dose de wishful thinking, vê-se um gesto de adeus. Mas, no discurso, desprezado por esse jornal – e talvez por todos os outros, não tenho como aferir – não é isso que se ouve.

CLIQUE AQUI para ouvir o discurso de Dilma.

O que diz a “Folha”? No quarto parágrafo: “a presidente participou de uma conferência de mulheres onde disse não estar ‘cansada de lutar’, mas ‘cansada dos desleais e dos traidores’.” E no parágrafo seguinte, oitava linha: “Segundo Dilma, seu impeachment decorre do fato de a oposição não aceitar os programas sociais do governo do PT.”

A embaixadora Liliane. Foto: Marcello Casal Jr / Agência Brasil

A embaixadora dos EUA, Liliane Ayalde. Foto: Marcello Casal Jr / Agência Brasil

Isso é que é concisão jornalística. O jornal não se deu ao trabalho de informar que entre milhares de mulheres presentes – vindas a Brasília de todos os Estados brasileiros – estava a embaixadora dos Estados Unidos, Liliane Ayalde, saudada pela presidente, nominalmente, depois de agradecer pelo nome as muitas mulheres que a ajudaram a governar nos últimos cinco anos.

Liliane Ayalde, ao contrário dos repórteres presentes e de seus editores, deve ter ouvido com atenção o discurso de Dilma. Já falei sobre a embaixadora norte-americana num artigo publicado neste blog no dia 5 de fevereiro do ano passado com o título “Dilma pode sentir na pele o golpe paraguaio”.

A seguir, trechos do discurso de Dilma Rousseff. Não economizei espaço, até mesmo porque não sei até quando teremos um espaço livre na Internet, após assumir Michel Temer (e nem tentei corrigir os erros do improviso da presidente): Continuar lendo

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Francisco, um papa subversivo

Foto: Korean Culture and Information Service

Foto: Korean Culture and Information Service

Texto escrito por José de Souza Castro:

A impressão é que a imprensa mundial controlada pelo grande capital não sabe o que fazer com o Papa Francisco. Não dá para ignorá-lo. Mas que saudades dos tempos do Papa João Paulo II… Aquilo é que era Papa, apesar de polonês! Melhor do que Pio XII, outro grande batalhador contra o comunismo. Sim, um papa italiano piedoso. Admirável, não obstante, ou até por isso, o apreço dele ao fascismo, pelo menos quando este estava em voga durante boa parte de seu longo reinado.

Já não foi fácil lidar com o Papa João XXIII e Paulo VI a acenarem com uma insuspeitada – e suspeita – preferência da Igreja pelos pobres. Por sorte, ambos tiveram um curto reinado. Se o mesmo ocorrer com esse Papa argentino, o humilde Francisco ganhará soberbos necrológios na imprensa que, caridosamente, vai omitir aquelas maluquices que ele pronunciou em castelhano, aqui bem perto de nós, na Santa Cruz de la Sierra, no dia 9 de julho.

Os que ignoraram o que disse o Papa na sua visita à Bolívia, porque não o ouviram ou leram, na ocasião, em nossa imprensa – que tinha coisas mais importantes a tratar, como o impeachment da presidente Dilma ou, mais importante, a desconstrução da imagem de Lula, um presidente populista que ameaça voltar em 2018 –, certamente vão continuar assim, para maior tranquilidade de nossos banqueiros.

Nossos leitores, porém, merecem conhecer um pouco do que disse o Papa “anticapitalista”, como já está sendo rotulado.

“Reconhecemos”, disse Francisco, “que as coisas não andam bem num mundo onde há tantos camponeses sem terra, tantas famílias sem teto, tantos trabalhadores sem direitos, tantas pessoas feridas em sua dignidade”.

Culpa de quem? De uma “economia que exclui e mata”. E não só o homem: “Reconhecemos que as coisas não andam bem quando o solo, a água, o ar e todos os seres da criação estão sob ameaça constante”, afirmou o Papa vermelho. Sim, tão vermelho quanto o Lula! Pois Francisco condena um sistema que impõe a lógica do lucro a todo custo e no qual o dinheiro “reina ao invés de servir”.

Não se ouviria da boca de tantos sábios padres que o precederam palavras como estas pronunciadas por Francisco naquele dia feito para ser esquecido pela imprensa: “Quando o capital se torna um ídolo e dirige as opções dos seres humanos, quando a avidez do dinheiro domina todo o sistema socioeconômico, arruína a sociedade, condena o homem, transforma-o em escravo, destrói a fraternidade inter-humana, faz lutar povo contra povo”.

Talvez se ouvisse algo assim, prestando muita atenção, das bocas ímpias de um Marx ou um Keynes, não de alguém que se julgue representante de Deus na Terra. Deixemos Marx pra lá, para não eriçar alguns pelos delicados, mas Keynes teve a ousadia de dizer que “love of money” é uma patologia, uma aberração, que deveria ser extirpada através da tributação progressiva e da “eutanásia do rentista”.

Voltemos a Francisco: “Os seres humanos e a natureza, disse ele, não devem estar ao serviço do dinheiro. Digamos não a uma economia de exclusão e desigualdade, onde o dinheiro reina em vez de servir. Esta economia mata. Esta economia exclui. Esta economia destrói a Mãe Terra.”

O Papa Francisco sonha com outra economia: “Uma economia verdadeiramente comunitária – poder-se-ia dizer, uma economia de inspiração cristã – deve garantir aos povos dignidade, ‘prosperidade e civilização em seus múltiplos aspectos’. Isto envolve não apenas os ‘3 T’ (Terra, Trabalho e Teto), mas também acesso à educação, à saúde, à inovação, às manifestações artísticas e culturais, à comunicação, ao desporto e à recreação . Uma economia justa deve criar as condições para que cada pessoa possa gozar duma infância sem privações, desenvolver seus talentos durante a juventude, trabalhar com plenos direitos durante os anos de atividade e ter acesso a uma aposentadoria digna na velhice. É uma economia onde o ser humano, em harmonia com a natureza, estrutura todo o sistema de produção e distribuição de tal modo que as capacidades e necessidades de cada um encontrem um apoio adequado no ser social.”

Para o Papa, que parece viver em Marte, essa economia é possível. Sendo utopia o que ele diz, não é a de alguém que não conheça nossa realidade. “O colonialismo, novo e velho, que reduz os países pobres a meros fornecedores de matérias-primas e mão de obra barata, gera violência, miséria, emigrações forçadas e todos os males que vêm juntos”, diagnostica Francisco, que vai além: “Digamos NÃO às velhas e novas formas de colonialismo.”

Estará o Papa se referindo ao colonialismo imposto pelo capital financeiro? Tenho por mim que sim. É ele que vem obrigando governos progressistas, entre eles, o do Brasil, a praticarem políticas econômicas ortodoxas, com o apoio interesseiro dos grandes meios de comunicação.

Há 40 anos, as palavras do Papa em Santa Cruz de la Sierra seriam classificadas pelo governo brasileiro como subversivas. Operação Condor nele! Mas os tempos são outros e Francisco não se cala: “Queremos uma mudança, uma mudança real, uma mudança de estruturas”, diz. E completa: “A nossa fé é revolucionária, porque a nossa fé desafia a tirania do ídolo dinheiro.”

Parece pouco, mas não é.

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Os juros altos e a encíclica do papa

Foto: Korean Culture and Information Service

Foto: Korean Culture and Information Service

Texto escrito por José de Souza Castro:

Não posso dizer que entendo de economia, embora tenha sido editor dessa área no jornal “Estado de Minas” e tenha feito muitas reportagens no “Jornal do Brasil” e no “Globo” sobre assuntos econômicos. No curso de jornalismo da UFMG, tive quatro semestres de economia, com ênfase no estudo dos “Fundamentos de Análise Econômica”, de Paul A. Samuelsen, publicado em 1947. Por isso, sempre que escrevo contra os juros altos praticados no Brasil, desde quando Delfim Neto era ministro da Economia, fico com uma pulga atrás da orelha: será que estou errado? E já escrevi muito sobre isso.

Foi com alívio, portanto, que li o artigo de Paulo Kliass, doutor em economia pela Université de Paris 10 (Nanterre/França) e integrante da carreira de Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, do governo federal. Ver AQUI. Ele pensa como eu, salvo engano.

“As pressões inflacionárias não serão resolvidas apenas pelo aumento da Selic, cuja alta compromete a própria tentativa de conter gastos públicos. Uma alternativa curiosamente pouco lembrada nos meios do sistema financeiro e na imprensa, mas que poderia ser mais eficaz, é o aumento da alíquota do depósito compulsório”, diz Kliass.

Não vou tentar resumir o artigo, escrito em linguagem clara, entendida por quem não é economista. “Apesar de todas as dificuldades para cumprir com os objetivos de redução de despesas do Orçamento da União, permanece a intenção oficial de atingir os 1,1% do PIB como valores assegurados para o pagamento dos juros da dívida pública”, diz ele.

O raciocínio atrás dessa decisão é retirar recursos do mercado para reequilibrar os preços de uma forma geral e evitar a inflação. Além disso, a elevação dos juros orientaria recursos que não iriam para o consumo, sendo direcionados à poupança, em busca da maior rentabilidade oferecida pelos títulos no mercado financeiro. Mas não é o que acontece no mundo real. E, defende Kliass, alguns aumentos de preços não devem ser combatidos por juros altos.

A alternativa à elevação da taxa de juros para obter o mesmo resultado de redução da pressão da demanda sobre a oferta é o aumento da alíquota do depósito compulsório sobre os depósitos à vista, atualmente de 44%. No primeiro semestre de 2003, primeiro ano do governo Lula, estava em 60%. Em 1999, no governo Fernando Henrique Cardoso, oscilou entre 65% e 75%. Ninguém no governo ou na imprensa pensa nisso, mas se o governo Dilma Rousseff pretende endurecer a política monetária, ele pode aumentar o compulsório, ao invés de elevar a Selic. O efeito sobre a redução da demanda agregada será no mesmo sentido. O impacto sobre o nível de preços será da mesma magnitude. Quem diz é Kliass.

Resta ao governo explicar por que optou pela elevação das taxas de juros, sendo que os atuais 13,75% comprometem a tentativa de conter gastos públicos, pois cada ponto percentual de aumento da taxa de juros corresponde a uma elevação de despesas com serviços da dívida de R$ 25 bilhões anuais. Ou seja, apenas com os aumentos praticados ao longo de 2015, os gastos federais já teriam subido por volta de R$ 38 bilhões.

Não é pouca coisa. E explica por que os bancos no Brasil que emprestam preferencialmente ao governo lucram tanto.

Pensando bem, explica também por que há tanta desigualdade no mundo, apesar de todas as promessas de governos. Para examinar isso, recorro a Leonardo Boff e à análise dele a encíclica do papa Francisco. É certo, diz Boff – e o papa – que o sistema mundial é insustentável sob vários pontos de vista porque deixamos de pensar os fins do agir humano e nos perdemos na construção de meios destinados à acumulação ilimitada à custa da injustiça ecológica (degração dos ecossistemas) e da injustiça social (empobrecimento das populações). A humanidade simplesmente “defraudou a esperança divina”, conclui.

Não vou me estender, porque li há pouco que Boff é um idiota. E o papa, certamente. Porque só um idiota – e talvez Jesus – poderia ter escrito isso, na tradução portuguesa da encíclica:

“Nalguns lugares, rurais e urbanos, a privatização dos espaços tornou difícil o acesso dos cidadãos a áreas de especial beleza; noutros, criaram-se áreas residenciais ‘ecológicas’ postas à disposição só de poucos, procurando-se evitar que outros entrem a perturbar uma tranquilidade artificial. Muitas vezes encontra-se uma cidade bela e cheia de espaços verdes e bem cuidados nalgumas áreas ‘seguras’, mas não em áreas menos visíveis, onde vivem os descartados da sociedade.”

Ou isso:

“A desigualdade não afecta apenas os indivíduos mas países inteiros, e obriga a pensar numa ética das relações internacionais. Com efeito, há uma verdadeira ‘dívida ecológica’, particularmente entre o Norte e o Sul, ligada a desequilíbrios comerciais com consequências no âmbito ecológico e com o uso desproporcionado dos recursos naturais efectuado historicamente por alguns países. As exportações de algumas matérias-primas para satisfazer os mercados no Norte industrializado produziram danos locais, como, por exemplo, a contaminação com mercúrio na extracção minerária do ouro ou com o dióxido de enxofre na do cobre. De modo especial é preciso calcular o espaço ambiental de todo o planeta usado para depositar resíduos gasosos que se foram acumulando ao longo de dois séculos e criaram uma situação que agora afecta todos os países do mundo. O aquecimento causado pelo enorme consumo de alguns países ricos tem repercussões nos lugares mais pobres da terra, especialmente na África, onde o aumento da temperatura, juntamente com a seca, tem efeitos desastrosos no rendimento das cultivações. A isto acrescentam-se os danos causados pela exportação de resíduos sólidos e líquidos tóxicos para os países em vias de desenvolvimento e pela actividade poluente de empresas que fazem nos países menos desenvolvidos aquilo que não podem fazer nos países que lhes dão o capital: ‘Constatamos frequentemente que as empresas que assim procedem são multinacionais, que fazem aqui o que não lhes é permitido em países desenvolvidos ou do chamado primeiro mundo. Geralmente, quando cessam as suas actividades e se retiram, deixam grandes danos humanos e ambientais, como o desemprego, aldeias sem vida, esgotamento dalgumas reservas naturais, desflorestamento, empobrecimento da agricultura e pecuária local, crateras, colinas devastadas, rios poluídos e qualquer obra social que já não se pode sustentar.”

O bom de ler a encíclica, para quem não acha que o papa é um tolo, é que nosso problema com os juros altos se torna quase irrelevante. E podemos assim, tolos que somos e descartado esse problema menor, dormir o sono dos justos.

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Cuba, Obama e a audácia da esperança

Obama e Raul Castro fizeram anúncio simultaneamente. Fotos: AFP

Obama e Raul Castro fizeram anúncio simultaneamente. Fotos: AFP

Texto escrito por José de Souza Castro:

Barack Obama foi eleito presidente dos Estados Unidos em novembro de 2008. Dois anos antes, foi lançado pela Crown Publishers, de Nova York, seu livro “The Audacity of Hope” (no Brasil, “A Audácia da Esperança”), para lastrear a campanha eleitoral do então senador democrata pelo Estado de Illinois que sonhava ser o primeiro negro a presidir seu país. Em suas quase 400 páginas, o livro trata de muitos problemas, mas nada fala sobre Cuba, uma ilha do Caribe com 11 milhões de habitantes, castigada pelos Estados Unidos desde a revolução vitoriosa liderada por Fidel Castro em 1959.

Uma revolução contra um cruel regime ditatorial de Fulgêncio Batista. Não tinha inspiração comunista, mas foi lançada nos braços da União Soviética, em plena Guerra Fria, para que os cubanos que não haviam fugido para Miami pudessem sobreviver, vítimas de um cruel embargo econômico imposto pela nação mais poderosa da terra. E que já dura 53 anos.

Na quarta-feira, Obama surpreendeu o mundo ao anunciar substanciais mudanças para normalizar as relações com Cuba, uma ação audaciosa para pôr fim a um dos mais mal orientados (“misguided”) capítulos na política exterior americana, como reconhece o “New York Times” em editorial.

Misguided? É pouco, tendo em vista o que escreveu Janio de Freitas, em sua coluna das quintas-feiras na “Folha de S. Paulo”: “Os 53 anos do bloqueio americano a Cuba não foram ao regime comunista cubano. Foram a milhões de crianças, e a milhões de mulheres, e a milhões de homens, que compuseram na infância, na juventude, como adultos e como velhos as sucessivas gerações submetidas a mais de meio século do flagelo inútil de carências terríveis”. Íntegra AQUI.

Eu era um jovem universitário quando li, entre outros livros de Sartre, “Furacão sobre Cuba”, publicado no Brasil pela Editora do Autor. É um relato entusiasmado do que o filósofo francês e sua mulher Simone de Beauvoir viram na ilha, entre fevereiro e março de 1960. O livro publica também depoimentos de Rubem Braga e Fernando Sabino sobre suas próprias viagens a Cuba.

O livro era um contraponto interessante a tudo que se lia em revistas e jornais brasileiros sobre Cuba. Todos esquecidos dos horrores da ditadura Fulgêncio Batista, derrubada pela revolução. Nesse meio século, pouco mudou do que se lê por aqui, com raros interregnos, como a série de reportagens feitas por Fernando Morais em 1975 que deu origem ao livro “A Ilha”. Entrevistado no mesmo dia do anúncio de Obama pelo jornal paulista, Morais comemorou: “Não é só uma frase de efeito, mas a Guerra Fria acabou hoje”. Em 2011, ele havia publicado novo livro sobre Cuba, intitulado “Os Últimos Soldados da Guerra Fria” – uma referência aos cinco cubanos que estavam presos nos EUA sob a acusação de espionagem.

Em seu editorial, o NYT afirma que, como parte das negociações secretas que se desenvolveram nos últimos meses entre Cuba e EUA, o governo cubano libertou um espião norte-americano que estava preso havia quase 20 anos e um empresário norte-americano, Alan Gross, preso em Havana em 2009. Já o governo Obama libertou três espiões cubanos que ficaram presos por mais de 13 anos. O que terá acontecido com os outros dois?

De qualquer forma, a troca de prisioneiros pavimentou o caminho para uma revisão política que poderia se tornar o principal legado da política externa de Obama, afirma o editorial do mais importante jornal norte-americano. Que adverte, no entanto, que o Congresso provavelmente não dará, tão cedo, passos complementares rumo a uma relação mais saudável com Cuba.

Como se sabe, o Partido Democrata, de Obama, perdeu o controle das duas casas do Congresso dos Estados Unidos, para o Partido Republicano, historicamente inimigo de Cuba, desde que seus dirigentes desapropriaram propriedades agrícolas de norte-americanos e fecharam os cassinos, boates e prostíbulos pertencentes à Máfia dos Estados Unidos, doadora da campanha eleitoral de John Kennedy. Que só não derrubou Fidel Castro por causa do fracasso da invasão na Baía dos Porcos, em abril de 1961.

É cedo para comemorar o anúncio de Obama, que teria as bênçãos do Papa Francisco.

Lembre-se que em janeiro de 1998 o papa João Paulo II, que muito havia contribuído para o fim do comunismo na Rússia e da União Soviética, visitou Cuba e se encontrou com Fidel Castro. Bill Clinton, do Partido Democrata, presidia os Estados Unidos. E muito se falou, na época, do fim do embargo e do reatamento das relações diplomáticas com Havana, como agora. Em editorial, no dia 16 de fevereiro de 1998, a “Folha de S. Paulo” citou o chanceler britânico Robin Cook, que havia condenado o bloqueio econômico imposto à ilha, e concluiu: “A nova política de Fidel Castro começa a dar frutos e, se incrementada, pode representar a única oportunidade do líder cubano de dar uma sobrevida ao seu regime exausto.”

Quase 16 anos se passaram. Fidel Castro ainda não morreu, seu irmão Raúl assumiu o poder, e o bloqueio econômico por parte dos Estados Unidos permaneceu. E o livro de Obama, oito anos após sua publicação, mal serve como citação para os futuros historiadores, malsucedidas que têm sido aquelas suas audazes esperanças de fazer com que seu país pudesse ainda tornar o mundo menos injusto e belicoso.

De qualquer modo, vale torcer para que, desta vez, Obama tenha êxito. Para felicidade de Obama e da Construtora Odebrecht, que conseguiu do governo brasileiro, a partir de 2009, que o BNDES desembolsasse muito dinheiro, concedendo crédito para o governo cubano comprar de fornecedores brasileiros de bens e serviços. Cito mais uma vez a “Folha de S. Paulo”:

“O maior símbolo da aposta é o porto de Mariel, a 45 km de Havana. Inaugurado em janeiro, foi um projeto da Odebrecht e recebeu financiamento de US$ 800 milhões. Mas Mariel é apenas a parte mais vistosa da investida do Brasil. São mais de 300 as empresas brasileiras que têm negócios ou se fixaram em Cuba. Grande parte usa recursos do Banco do Brasil ou BNDES. Muitas são fornecedoras do porto. Em Cuba, a Odebrecht também trabalha na ampliação do aeroporto Jose Martí, em Havana, e tem um projeto no setor sucroalcooleiro.”

É quase um consenso entre analistas (leia AQUI, AQUI e AQUI) que o Brasil será um grande beneficiado por esta reaproximação entre Cuba e Estados Unidos justamente por causa do porto de Mariel, tão duramente criticado pela campanha tucana durante as eleições deste ano. Esqueça-se o comunismo. Como disse o marqueteiro político norte-americano James Carville, durante a campanha de Bill Clinton à presidência dos Estados Unidos, em 1992: “É a economia, estúpido!”

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Carta de uma sobrevivente do fim do mundo

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Queridos leitores sobreviventes,

Sobrevivi ao propalado fim do mundo, que deveria ter acontecido em 21.12.2012, segundo profecias maias, astecas, hindus ou tupiniquins — já não me lembro ao certo. Lá se foram mais de um ano, mais precisamente 367 dias, e posso garantir que, por enquanto, o mundo continua girando em suas obstinadas órbitas sobre si mesmo e ao redor do Sol.

O que não significa, é claro, que continue o mesmo. Afinal, usamos o termo “o mundo gira” (e “a fila anda”) justamente para tratar das revoluções surpreendentes da vida. Em comentário ainda hoje, meu pai deu dois exemplos disso: nomes como José, que tinham caído em desuso, voltaram com força à preferência de pais e mães adeptos da simplicidade — os mesmos que alçaram João ao nobre 34º lugar entre os batizados de 2013. O outro exemplo foi o Zé Dirceu, aquele que era visto naturalmente como sucessor de Lula na presidência, que era seu braço direito e um dos homens mais poderosos e influentes do país, estar passando o Natal na Papuda, em Brasília.

Neste ano que passou, vi pessoas condenadas pelo chamado escândalo do mensalão serem efetivamente presas. Ainda não vi suas multas serem cobradas. Tampouco vi o julgamento de um mensalão anterior ser iniciado — mas talvez eu sobreviva a esse novo importante momento político.

Vi também um primeiro deputado ser preso no país. Um tal de Natan Donadon, lembram?

Por falar em política, neste ano vi outros escândalos surgirem, como a chamada máfia do ISS, em São Paulo, responsável pelo desvio de R$ 500 milhões — cinco vezes mais que o mensalão –, e o propinoduto mundial da Siemens/Alstom, que também atingiu o Brasil por meio de políticos paulistas (segundo consta, Mario Covas, José Serra e Geraldo Alckmin) e de Brasília (Joaquim Roriz e José Roberto Arruda).

E foi neste ano que uma suposta consciência política assolou os brasileiros, que saíram às ruas para cobrar o direito de andarem de ônibus de graça, depois para protestar contra os gastos da Copa, depois para cobrar o direito de manifestação livresem violência por parte da polícia –, depois para aproveitar e cobrar um pouco de tudo e, por fim, virando uma forma de posicionamento no mundo por si só, com direito a nome próprio — black blocs. Entrei no fim do mundo sem saber que esse povo existia e, poucos meses depois, descobri que havia centenas deles, talvez até alguns vizinhos ou colegas de trabalho.

Fico em dúvida se valeu a pena o mundo ter continuado, porque 2013 foi o ano de tufão nas Filipinas com mais de 6.000 mortos e mais de 1.000 desaparecidos, de uso de armas químicas contra civis sírios (deixando mais de 1.000 mortos), de meteorito deixando 1.000 feridos na Rússia, de tragédia em Santa Maria (resultando em mais de 200 mortos e vários gravemente feridos), do assassinato de Amarildo (e sabe-se lá quantos Amarildos mais), de Renan Calheiros de volta à presidência do Senado, de Marcos Feliciano na presidência da Comissão de Direitos Humanos, de desabamento do Itaquerão com morte de dois operários, de inflação em alta, de artistas consagrados decepcionando ao pedir censura às biografias e das enchentes (de sempre), com mortos, feridos e desabrigados (de sempre), com prefeito indo a Nova York na hora crítica (de sempre).

Por outro lado, em 2013 ganhamos um herói. Ele se chama Edward Snowden e revelou ao mundo, de forma muito corajosa, como se dão as espionagens digitais, feitas com apoio de gigantes como Google e Facebook.

Além disso, se tivesse havido o fim do mundo, eu não teria visto meu time ser campeão mineiro, depois campeão de todas as Américas e, por fim, o terceiro lugar dentre os grandes do mundo. Não teria tido grande felicidade e grande decepção com uma equipe quase inalterada de 11 atletas.

Foi em 2013 que os empregados domésticos começaram a vislumbrar uma correção de injustiça trabalhista histórica, com a aprovação de emenda constitucional para garantir a eles o que qualquer outro trabalhador já tinha há décadas.

Foi em 2013 que os médicos começaram a ser contestados pelos brasileiros e também viraram mote de protestos, desde que o Mais Médicos foi criado e apareceram por essas bandas profissionais cubanos e de outros países, para nosso divino direito da comparação.

Se o mundo tivesse acabado, não teríamos visto Eike Batista sair da condição de sétimo mais rico do mundo para um “mero” milionário, cuja empresa mais importante, a petroleira OGX, teve que pedir recuperação judicial (antiga concordata) para tentar se reerguer após anunciar que produziria muito menos petróleo do que tinha divulgado inicialmente ao mercado.

Foi neste ano ganhado de lambuja que conhecemos todos os Papa Francisco, um sujeito tão simpático, tão latino, que despejou algumas frases tão sábias sobre nós. E acabamos vendo outros ídolos morrerem — como Nelson Mandela, um dos grandes da História da humanidade. (Também morreu Hugo Chávez.)

Isso para não falar que, se o mundo tivesse mesmo acabado, minha vida teria sido interrompida tão precocemente. Vivi tanta coisa boa no período, que sobra a convicção de que viverei outras excepcionais nos anos de sobrevivente que me restarem. Pra ficar num exemplo: ganhei uma sobrinha que é provavelmente o bebê mais sorridente — e mais cabeludo — que pisou na Terra desde 21.12.2012. É impossível não olhar para ela e sorrir, mesmo no dia mais mal-humorado ou triste.

Fico feliz por ter sobrevivido — o mundo, eu mesma, e as pessoas mais queridas da minha vida — por mais um ano. Desejo a vocês um 2014 de muitas emoções e motivos para comemorar. Um ano mais politizado que político, uma eleição sem fla-flu mala na internet, uma Copa sem sangria nas ruas, uma sociedade mais gentil e delicada (inclusive no trânsito!), um Galo bicampeão da Libertadores, com novos heróis surgindo e menos deles morrendo, com mais bebês sorridentes tornando nossa vida amena, cercados de gente que amamos. Uma sobrevida que valha a pena a todos 😉

Gentilmente,

Uma sobrevivente qualquer do fim do mundo