O fanatismo, o fascista corrupto, as fake news e minha desesperança

 

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Reproduzo aqui um texto que postei no meu Facebook pessoal no dia 27 de setembro. Meu desânimo daquele dia não arrefeceu nadica desde então, mesmo vendo as pessoas maravilhosas que participaram dos protestos no dia 29:

 

Tem tanto material bom sendo apurado, escrito e publicado nos veículos demonstrando os absurdos que essa turma do fascismo prega ou tenta resgatar que às vezes volto a ter otimismo e penso: “Poxa, alguém deve se dar ao trabalho de ler pelo menos um desses textos, não?” Ler, não só o título, até o fim, e interpretar direito e parar e pensar. E discernir um trem que teve apuração real, baseada em fatos, de um youtube fake, de um discurso gritado pra disfarçar o tanto que é vazio.

Será? O que mais me desanima nestas eleições não é nem um fascista ganhando as graças do povo, inclusive de gente que admiro, mas o tanto que ficou escancarado que parcela importante do brasileiro não se dá mais ao trabalho nem de fazer o mínimo antes de sair passando vergonha batendo boca sobre nazismo com a embaixada alemã etc. O estrago de décadas sem investir em educação tá feito. E ainda tem a pós-verdade blabla. E ainda tem estas redes sociais dos infernos, que ajudaram imensamente a radicalizar os discursos, a criar bolhas, a simplificar os debates.

Tou aqui escrevendo este textão-desabafo, num dia difícil, que deve ser lido por 5 pessoas que pensam exatamente como eu. Ou seja: e daí? Fico curtindo tudo o que vejo pela frente porque, volto a dizer, é muito material bom sendo produzido e com competência. The Intercept e DW, por exemplo, estão se fortalecendo no Brasil nestas eleições graças a materiais que vêm publicando. Mas é tudo gente que pensa como eu, na minha bolha, postando textos pra quem já está com a missa decorada. Não convertem ninguém da seita oposta.

Me dá uma desesperança, uma sensação de inutilidade… Acho que a única coisa que iluminaria meus dias nestas pré-eleições seria ver um eleitor convicto do fascista se tocando que autogolpe não é legal, ameaçar a mulher de morte é crime, mandar as minorias se curvarem às maiorias é coisa do Hitler, se tocando que, além do discurso hidrófobo que casou com o emputecimento geral da nação, sobra um sujeito patético, que nada entende de economia, de educação, de saúde – de nada, a bem da verdade. E que também é corrupto.

Meus amigos inteligentes eu já sei que sabem interpretação de texto, mas e os que estão na bolha ao lado? Cadê? Não resta mesmo nenhuma esperança? E não estou nem falando de vitória nas eleições, mas de falência da sociedade brasileira, independente do resultado final.

É isso. Bom dia de voto para vocês e boa sorte para todos nós nos próximos anos.

Leia também:

  1. Brasil, o ex-país do Carnaval
  2. O fanatismo e o ódio de um país que está doente
  3. Fanatismo é burro, mas perigoso
  4. Para uns, para outros e para mim
  5. Tem certeza absoluta? Que pena
  6. Post especial para quem se acha com o rei na barriga
  7. Reflexão para as pessoas cheias de si
  8. A saudável loucura de cada um de nós
  9. Qual é a sua opinião, cidadão?
  10. Azuis X Verdes: uma alegoria do fanatismo no Brasil contemporâneo
  11. Mais posts sobre fanatismo
  12. Mais posts sobre as eleições
  13. Fanatismo é burro, mas perigoso
  14. O que acontece quando os fanáticos saem da internet para as ruas
  15. Há um Jair Bolsonaro entre meus vizinhos?
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Brasil, o ex-país do Carnaval

Carnaval do Rio em 2014, bons tempos. Foto: Wikimedia Commons

 

Dia desses, postei no Facebook um singelo desabafo:

Me perguntaram a que aspecto eu me referia e respondi: “Vários, basta acompanhar o noticiário”.

O noticiário que coloca um defensor da ditadura militar e de torturador condenado nas primeiras posições da disputa presidencial. Um noticiário que entrevista esse cara e ouve dele que transformará, caso eleito, todas as escolas em colégios militares. Um noticiário que mostra que um grupelho de aborrecentes reacionários conseguiu censurar uma mostra que reúne várias obras de arte, algumas centenárias. E até um tumblr foi banido em consequência disso. O noticiário recente inteiro me mostra um país cada dia mais careta e carola, mais a fim de marchar e rezar, um ex-país do Carnaval, do Stanislaw, do criativo, do humor, do samba e do lúdico. Um país cada dia mais obscurantista, fanático, retrógrado, radical. De volta à Idade Média.

Suspiros.

Esta obra é de 1910, for Christ sake!!!

Eu não ia mais escrever sobre Bolsonaros, MBLs e afins porque acho que esses caras não deveriam ganhar nenhuma linha no noticiário, nem nos jornalões nem nos blogs alternativos. Também não ia comentar o caso do Santander, porque, sinceramente, foi um assunto da semana retrasada e tendo a achar que tudo o que devia ser dito a respeito já foi, tanto pelos xiitas quanto pelos “sunitas”.

Mas hoje concluí que trata-se daqueles temas que a gente não pode deixar de se posicionar, pra não consentir calando. E, ainda por cima, é um dos temas que são mais caros a este blog. Já disse aqui antes: não levanto bandeira de quase nada nesta vida, mas se tem uma causa que eu abraço é a da liberdade de expressão, imprensa e pensamento. Liberdade artística, é claro, entra no meio.

Vi as peças — algumas poucas, dentro da enorme coletânea — que seriam expostas pelo Queer Museu. Minha reação foi parecida com a que tenho após visitar qualquer exposição: achei algumas obras péssimas, outras geniais, algumas vazias e outras bonitas. Não sou crítica nem super entendida de arte, então essa minha opinião é simplesmente irrelevante.

Só acho que todos têm direito a produzir e expor arte. E que arte tem como um de seus objetivos justamente incomodar, provocar, pôr o dedo na ferida para gerar reflexão ou mudanças. Algo que essa coleção censurada conseguiu, afinal, tá de parabéns. “Ah, mas é ofensivo”. Se todas as obras de arte que ofendem a algum grupinho tivessem que ser censuradas, não haveria mais arte no mundo. Só a ditadura do pensamento único. Charlie Hebdo ofendeu um grupo islâmico radical e levou bomba. É isso que queremos? Censura ou bomba para tudo o que nos incomoda ou diverge de nós?

“Ah, mas crianças não deveriam ver”. E daí? Existe um mecanismo aplicado há anos pelo Ministério da Justiça que se chama “classificação indicativa”. Só garotos acima de 14, 16 anos estão preparados para ver algumas daquelas peças? Bota classificação então, tão simples.

Mas não: o Brasil abdicou do direito de pensar, de rir, de provocar. Agora a ordem da vez é marchar e rezar. Salve-se quem puder.

Cena do clipe superclássico do Pink Floyd “Another Brick in the Wall”

 

Leia também:

  1. O que acontece quando os fanáticos saem da internet para as ruas
  2. Há um Jair Bolsonaro entre meus vizinhos?
  3. Manifesto a favor do direito de divergir
  4. Fanatismo é burro, mas perigoso
  5. O anarquista que enxerga
  6. Para uns, para outros e para mim
  7. Tem certeza absoluta? Que pena
  8. O vizinho que pensa diferente de você
  9. Post especial para quem se acha com o rei na barriga
  10. Reflexão para as pessoas cheias de si
  11. A saudável loucura de cada um de nós
  12. Qual é a sua opinião, cidadão?
  13. Azuis X Verdes: uma alegoria do fanatismo no Brasil contemporâneo
  14. O fanatismo e o ódio de um país que está doente
  15. Pelo direito de não levantar bandeira nenhuma

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O que acontece quando os fanáticos e ignorantes saem da internet para as ruas

Todo mundo já está há dias comentando sobre o que houve em Charlottesville, inclusive o discurso posterior de Trump, criticado até por seus pares republicanos. Todo mundo está de olho na “alt-right” (direita alternativa) dos Estados Unidos, no retorno do KKK, na força que grupelhos neonazistas vêm ganhando desde que Trump assumiu o poder por lá. Todo mundo fica assustado quando vê um vídeo tão completo e corajoso como este produzido pela “Vice”, que já teve 3 milhões de visualizações em três dias:

O que eu quero acrescentar a isso é que este não é um problema restrito aos Estados Unidos. E não me refiro apenas a ódio racial, como o que ocorre lá, mas a ódio de classe, como ocorre por cá, no Brasil. É isso o que acontece quando radicais, fanáticos e ignorantes saem dos antros obscuros da internet, com seus memes e comentários irracionais, e partem pras ruas. Continuar lendo

Na guerra da criação dos filhos, será que preciso ter sempre um time?

Foto: Pixabay

No domingo retrasado, presenciamos cenas deprimentes de briga generalizada de torcidas em Beagá. Era dia de clássico Galo X Cruzeiro e teve torcedor fanático saindo de casa com porretes, prontos para a pancadaria, logo que o sol raiou. Não foi a primeira nem a última vez que o noticiário esportivo pareceu jornalismo policial.

Mas não é só no futebol que as pessoas se engalfinham apenas por torcerem por times opostos. Na política, é a mesma coisa – e a polarização do Brasil desde 2013, agravada nas eleições de 2014, só piorou o quadro. E até mesmo no nobre universo da maternidade/paternidade/criação de filhos já se nota um radicalismo muito grande, com times sendo formados e um apontando o dedo, raivoso, para o time oposto.

Desde que o bebê nasce — ou até mesmo antes disso, quando está na barriga –, já somos instados a tomar partidos e escolher um time. Veja só algumas das situações de que me lembrei rapidamente agora: Continuar lendo

O fanatismo e o ódio de um país que está doente

Charge do Duke!

Charge do Duke!

Nesta quarta-feira, completamente apertada com o fechamento da revista, não consegui acompanhar o noticiário geral do país e do mundo, como faço todos os dias. À noite, já em casa, liguei no “Jornal Nacional” para tentar pegar pelo menos uma lasca de informação do que aconteceu no dia. Em um mesmo bloco, vi manifestantes de extrema-direita invadindo a Câmara, interrompendo uma sessão legislativa, e gritando por um golpe militar. Em seguida, pancadaria em frente à Alerj, com manifestantes perseguindo e agredindo o repórter Caco Barcellos.

Juca Kfouri, a quem muito admiro, resumiu bem a situação bipolar NESTE POST.

Luiz estava dormindo no meu colo, enquanto eu via o noticiário. Observei sua carinha inocente, chupeta indo e voltando, e meus olhos se encheram de lágrimas. Em que mundo cão ele veio parar!

Desde as eleições de 2014, o Brasil se tornou um imenso ringue, se tornou um estádio de futebol em dia de clássico, se tornou um conto do Steinbeck. O cúmulo da situação de ódio e fanatismo é quando um pai mata o filho único por discordar de ele participar de ocupações em protesto contra o (des)governo Temer. A tragédia familiar, que termina com o suicídio do pai, é um retrato de um país doente, nas palavras do jurista Eugênio Aragão.

Eu já vinha alertando para isso há muito tempo aqui no blog (veja os links ao pé deste post). A situação está fora de controle, degringolando. Será que ainda dá tempo de respirar fundo e lembrar que, opa, aquele ali é seu filho único e não um inimigo? Ou, opa, aquele outro sujeito é um jornalista exercendo sua profissão?

Ou é isso ou logo não conseguiremos nem respirar mais.

Leia também:

  1. Manifesto a favor do direito de divergir
  2. Fanatismo é burro, mas perigoso
  3. O anarquista que enxerga
  4. Para uns, para outros e para mim
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  10. Qual é a sua opinião, cidadão?
  11. Azuis X Verdes: uma alegoria do fanatismo no Brasil contemporâneo