NYT vê avanço militar no Brasil, pelo voto ou pela força

Texto escrito por José de Souza Castro:

Charge excepcional do Duke publicada no dia 20.2.2018

“Brazil’s Military Strides Into Politics, by the Ballot or by Force”. Este é o título de uma reportagem de 1.800 palavras publicada pelo “New York Times” no último sábado (em tradução livre: “Militares do Brasil avançam na política, pelo voto ou pela força”). Tipo de relato a que os brasileiros têm acesso em jornais como este dos Estados Unidos, mas não nos do Brasil.

Os repórteres Ernesto Londoño e Manuela Andreoni entrevistaram militares brasileiros de alta patente, na ativa ou na reserva. Entre eles, o general Eliéser Girão Monteiro, que se candidatou a governador do Rio Grande do Norte e que defendeu o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal que decidiram libertar políticos condenados por corrupção.

O sistema político criado pela Constituição de 1988 se tornou uma “caverna que aparentemente não tem saída de emergência”, disse Monteiro. Enquanto afirma que pessoalmente não apoia um golpe militar, acrescenta na entrevista: “A única saída de emergência que o povo está dizendo é uma intervenção militar”.

Se a eleição não trouxer mudanças rápidas, alguns destacados generais da reserva advertem que líderes militares podem se sentir compelidos a avançar para o reinício de um sistema político pela força, escreve o NYT.

“Estamos num momento critico, caminhando sobre o fio da navalha”, disse Antonio Mourão, um general de quatro estrelas que recentemente se retirou depois de sugerir no ano passado, ainda na ativa, que uma intervenção militar seria necessária para purgar a classe política dirigente. “Ainda acreditamos que o processo eleitoral representará para nós uma solução preliminar para mudar o curso”.

Bolsonaro diz que vai nomear militares nos ministérios, se eleito

Antonio Mourão foi eleito recentemente presidente do influente Clube Militar, no Rio de Janeiro. Esse general e outros oficiais reformados estão apoiando vivamente, segundo o NYT, a candidatura de Jair Bolsonaro, o ex-capitão do Exército que tem proposto medidas polêmicas para restaurar a ordem, inclusive dando à polícia rédea solta para matar criminosos.

Bolsonaro, o primeiro ex-oficial militar a ter uma candidatura viável à Presidência da República desde a restauração da democracia, disse recentemente que nomearia generais para seu ministério, “não porque são generais, mas porque são competentes”.

A campanha de militares se apoia na ampla frustração de brasileiros com fé na democracia e nas instituições governamentais, surgida em anos recentes, principalmente depois do impeachment da presidente Dilma Rousseff em 2016 e os enormes esquemas de propina que mancharam todos os maiores partidos.

Uma pesquisa do Latinobarómetro descobriu no ano passado que apenas 13% dos brasileiros estão satisfeitos com o estado da democracia, o mais baixo ranking entre 18 nações latino-americanas. Verificou ainda que somente 6% dos brasileiros apoiam seu governo, um ranking bem abaixo de outros governos profundamente impopulares, incluindo Venezuela e México.

Atentos a isso, generais da reserva e outros oficiais com fortes laços no comando militar estão montando uma radical campanha eleitoral, apoiando cerca de 90 militares veteranos para uma variedade de postos, incluindo a Presidência da República, nas eleições nacionais de outubro. Argumentam, diz o jornal, que o esforço é necessário “para resgatar a nação de uma liderança entrincheirada que geriu mal a economia, fracassou na redução da crescente violência e descaradamente roubou bilhões de dólares mediante corrupção”.

O mais lido jornal do EUA admite que o avanço militar na política é, para muitos brasileiros, preocupante. A última ditadura militar no Brasil durou 21 anos, antes de terminar em 1985, e desde então o maior país da América Latina experimentou o mais longo período de governos democráticos. “Muitos são aguerridamente defensores da separação entre política e militar, se resguardando contra qualquer potencial deslize rumo ao regime militar”.

Acho que podemos nos incluir nesse número. Quem quiser ler o texto completo do NYT, no original, pode acessar AQUI.

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O novo Evangelho dos bancos centrais

Texto escrito por José de Souza Castro:

Espero que a “Folha de S. Paulo” traduza e publique, como fez com outros textos do mesmo autor, o artigo de Binyamin Appelbaum publicado no dia 25 deste mês de agosto na página B1 do “New York Times” com o título “Central Bankers’ New Gospel: Spur Jobs, Wages and Inflation”. Pode ser lido AQUI.

O repórter do NYT cobriu a conferência sobre política econômica realizada em agosto em Jackson Hole, no Estado norte-americano de Wyoming. Segundo ele, pela primeira vez desde 1994, a agenda focalizou os mercados de trabalho. Naquele ano, Alan Blinder, vice-presidente do Federal Reserve (Fed), o banco central dos EUA, escandalizou a audiência ao advertir que os bancos centrais vinham se preocupando muito com reduzir a inflação e não o suficiente com o desemprego.

Vinte anos depois, Alan Blinder participou da conferência como um economista da Princeton University. Considerada uma heresia sua advertência de 1994, ele viu que a heresia havia se transformado no novo Evangelho dos dirigentes dos maiores bancos centrais do mundo.

Blinder ouviu durante essa conferência, encerrada no último sábado, serem ditas coisas que os responsáveis por tais bancos nunca disseram antes. No Fed, disse o ex-vice-presidente, não há mais ninguém que afirme que não se deve prestar atenção no desemprego. Sumiu de lá o hawkish, defensor de juros mais altos e de uma política de austeridade mais forte.

Os bancos centrais se acham agora focados em elevar o nível de emprego e os salários dos trabalhadores. A busca por uma inflação menor foi substituída pela convicção de que a inflação está atualmente muito baixa para o bem da economia.

Algo bem diferente do que prega um ex-presidente do Banco Central brasileiro no governo Fernando Henrique Cardoso, Armínio Fraga, que será ministro da Fazenda se Aécio Neves vencer as eleições. Ou do que defendem assessores econômicos de Marina Silva, candidata do PSB. Se não mudarem de posição, correm o risco de serem os últimos de uma espécie ora em extinção, o hawkish.

Seria bom se prestassem atenção ao discurso de Janet L. Yellen, a presidente do Fed, na abertura da conferência. Ela fez uma explanação paciente sobre a necessidade de manter baixas as taxas de juros para apoiar o crescimento do emprego. Ou à fala de Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu. Ele disse que está expandindo os estímulos à criação de empregos e convocou os governos europeus a fazerem o mesmo. O Banco do Japão já segue esse novo Evangelho, segundo seu presidente, Haruhiko Kuroda.

O mais curioso é que, embora o emprego tenha aumentado nos Estados Unidos, neste ano, os salários continuam baixos. E isso tem preocupado o Fed. Seus economistas estão debruçados sobre essa questão. Os do lado de cá, sobretudo os que assessoram os candidatos Aécio Neves e Marina Silva, certamente vão esperar por suas conclusões. Espero que eles tenham, pelo menos, tomado conhecimento dessa conferência e do novo Evangelho dos bancos centrais dos países mais desenvolvidos. Para que não sejamos arrastados de volta ao atraso, caso Dilma Rousseff seja derrotada.

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“New York Times” defende a produção e o uso da maconha

Foto: Stockxpert

Foto: Stockxpert

Texto escrito por José de Souza Castro:

Uma posição que eu gostaria de ter defendido nos dois anos em que redigi os editoriais de um jornal mineiro, entre junho de 2012 e junho de 2014, passa a ser defendida nesta semana, numa série de editoriais, pelo “New York Times”: a legalização da maconha. A notícia pode ser lida AQUI.

Nunca fui usuário, mas meu interesse pela droga vem de muito tempo. Logo no início de meu curso de jornalismo na Universidade Federal de Minas Gerais, em 1968, descobri que havia entre meus colegas alguns maconheiros – como eram chamados pejorativamente os usuários. Eles eram incentivados principalmente pelo desejo de contestação à ditadura, que travava dura batalha contra a maconha, e pelo movimento da juventude, em vários países, contra a guerra do Vietnam.

No curso, os maconheiros eram minoria. Chamavam de “caretas” os outros, e faziam proselitismo, tentando sair da posição incômoda de minoria pelo menos ali, na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, a mais ligada às questões políticas e sociais entre todas as unidades da UFMG.

Desde adolescente, resolvi não experimentar cigarros, para não me viciar como meu pai. E estendi a decisão à maconha, mesmo acreditando, na faculdade, que seus males eram menores que os do tabaco. O professor José Elias Murad, um especialista em drogas, a quem entrevistei para o “Jornal da Universidade”, tinha uma posição parecida. A entrevista causou polêmica, e anos mais tarde parece que esse médico e farmacêutico mudou de opinião.

Como também mudou, mas inversamente, o “New York Times”, que é agora o maior jornal dos Estados Unidos a assumir a defesa da legalização da maconha, embora ache legítimas as preocupações da população quanto aos malefícios do vício. “Nós acreditamos que, em todos os aspectos — efeitos para a saúde, impacto na sociedade e temas de ordem pública — a balança pende para o lado da legalização nacional”. No outro prato da balança, o álcool e o tabaco.

A posição foi tomada depois de uma grande discussão entre os membros do conselho editorial do jornal, “inspirado num movimento que vem se expandindo rapidamente entre os Estados por reformas das leis sobre maconha”. Dos 50 Estados norte-americanos, 34 já adotaram alguma mudança sobre o uso e a produção e existem dois projetos de lei no Congresso dos Estados Unidos para alterar a lei que há mais de 40 anos aprovou a proibição da maconha, “prejudicando a sociedade ao proibir uma substância tão menos perigosa que o álcool”, diz o editorial.

Segundo o “New York Times”, são altos os custos sociais de tais leis contra a maconha. Cita dados do FBI: em 2012, foram feitas nos EUA 658 mil prisões por posse de maconha e 256 mil por uso de cocaína, heroína e derivados. “Para piorar, o resultado é racista, atingindo de forma desproporcional jovens negros, arruinando suas vidas e criando novas gerações de criminosos de carreira”, diz o editorial.

Ele compara com a proibição do álcool nos EUA. Durante 13 anos, a partir de 1920, enquanto vigorou a Lei Seca, as pessoas continuaram bebendo e a criminalidade cresceu, afirma.

A mim, o que preocupava mais, quando desejava escrever a respeito – e não o fiz, porque não havia no jornal um conselho editorial e não me animei a tomar sozinho tal posição – era a corrupção policial gerada pelo suposto combate à maconha. Se dependesse de mim, não apenas a maconha deveria ser liberada. Em vez de gastar recursos com o combate às drogas, o dinheiro seria mais bem empregado com a conscientização das pessoas, por meio da educação e de campanhas bem feitas, sobre os malefícios de seu uso. Eu incluiria o álcool e o tabaco, que são mais prejudiciais que a maconha, mas que, por serem legalizados, não contribuem para a corrupção policial.

Será interessante a leitura desses editoriais do “New York Times”. O jornal anunciou em seu site que serão publicados seis deles, até o dia 5 de agosto, abordando os aspectos criminais, históricos, de saúde e regulamentação da maconha. Como esse jornal dos Estados Unidos pode ter mais influência sobre as autoridades brasileiras que os locais, algumas mudanças talvez venham a ocorrer por aqui.

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