Sobre o ouvir

Enquanto eu escrevia o post de ontem, e voltava a mergulha na leitura de Rubem Alves, reencontrei uma reflexão dele sobre a importância de saber ouvir. Mais que isso: sobre como é difícil, embora necessário, que a gente saiba suspender nossas verdades para aceitar as verdades dos outros. Esse continho tem tudo a ver com aquele post que publiquei na sexta-feira. Mas também com o de ontem, e tantos outros. Por isso, resolvi trazê-lo para o blog, compartilhar com mais pessoas. Está na página 47 do livro “Ostra Feliz Não Faz Pérola” (editora Planeta, 2008, encontrado a partir de R$ 18,87).

Boa leitura:

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Leia também:

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Duas verdades sobre as mentiras

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De Mário Quintana:

“Do bem e do mal
Todos tem seu encanto: os santos e os corruptos.
Não há coisa na vida inteiramente má.
Tu dizes que a verdade produz frutos…
Já viste as flores que a mentira dá?”

 

De Millôr Fernandes:

“As pessoas que falam muito, mentem sempre, porque acabam esgotando seu estoque de verdades.”

***

Feliz Dia da Mentira! E fiquem alertas, ainda faltam algumas horas para o dia acabar 😉

 

Leia também:

As deliciosas mentiras verdadeiras

Anteontem foi Dia da Mentira e o que o amigo de um amigo meu fez? Postou cumprimentos no mural de Facebook da ex-namorada, desejando parabéns pelo “seu” dia. Pior: vários curtiram.

O Google quis matar o pessoal de susto ao anunciar o fim do Youtube. Mas bem que poderia ter anunciado que o fim do Reader é que era só uma pegadinha fora de época.

O Twitter disse que quem quisesse escrever com vogais teria que desembolsar, para cada letrinha, US$ 5. E o Facebook fez bem pior: resolveu cobrar para envio de mensagens a desconhecidos, que pode chegar a mais de R$ 30, se o destinatário for popular. Não, essa não é mentira.

A trollagem mundial, levada muito mais a sério pelos jornais dos Estados Unidos e Europa do que pelos brasileiros, prosseguiu com anúncio de avião com chão de vidro, fone de ouvido para animais e a busca por cheiros, no Google Nose. Veja tudo AQUI.

Mas a notícia que mais me encantou nos últimos dias, uma verdade com cara de mentira, foi a do sujeito que furtou a TV e uma bolsa da casa de uma professora em Porto Alegre e, cinco dias depois, retornou ao lugar para deixar, num saquinho, os documentos da pessoa furtada e um bilhete com os seguintes dizeres:

“Disculpa dona Maria que DEUS li abençoe foi pelos meus filhos que tive que robá sei que não é serto mais só DEUS para mijuga que DEUS ilumine seu caminho e que tide em dobro.”

O ladrão arrependido não devolveu os bens de valor roubados, mas seu pedido de desculpas deixou a professora atordoada, como se lê AQUI. O gesto imita outro parecido do ano passado.

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O bom da vida é que, de vez em quando, comporta histórias tão fantásticas que mais parecem mentira  – bem mais até do que aquelas inventadas por equipes de marqueteiros de empresas gigantes, com salários bem maiores que o da professora gaúcha. (Mas eu espero que a ex tenha perdoado a maldade do rapaz.)

Filas de antipatizantes

O politicamente correto às vezes é bastante útil como discurso de conscientização e reflexão. Mas, também não raro, às vezes é apenas um negócio CHATO PRA DANAR. Tipo assim:

chargeheroisCom picuinhas, agressividade e chatice, muitas pessoas estão perdendo aliados para suas causas, bandeiras e visões próprias do mundo e, em troca, enfileirando antipatizantes.

Sábio é aquele que consegue unir o bom senso ao bom humor — e, assim, convencer de que sua verdade é a “melhor”.

***

Um cara que sabe defender os direitos das pessoas com deficiência de forma bem humorada e cativante é, por exemplo, o colunista e blogueiro Jairo Marques, da “Folha”. E mesmo ele às vezes tem que aturar amolação de gente chata , que não admite o pensamento divergente, como se vê AQUI.

Também já escrevi a respeito outras vezes aqui no blog:

Em defesa da leveza na vida e da permissividade no humor
Pica-Pau: mocinho ou bandido?
De idosos, anciãos e velhos-jovens

Suspiro, cansada, contra os donos da verdade

1. Entro no táxi da USP e o motorista dispara: “Esses estudantes têm medo da polícia por quê? Devem ter algo pra esconder, né? Se um policial me para, não vejo problema algum em mostrar o documento. Aqui estão meus documentos, senhor policial, e pronto. Se eles têm algo a esconder, aí tá explicado por que têm medo da polícia, né? Só podem ter algo a esconder, pra querer a polícia longe assim.”

(Suspiro, balanço a cabeça afirmativamente, em silêncio, para não prolongar o discurso)

2. Entro no elevador do prédio e uma velhinha, com o jornal na mão, dispara: “O Lula está com câncer, né? Queria ver ele ir pra fila do SUS, pra ver se conseguia tratamento. Tanta gente à espera de um leito do SUS e ele lá, em hospital de primeira. Se ele fosse pro SUS, ia morrer, como tanta gente.”

(Suspiro, balanço a cabeça afirmativamente, em silêncio, para não prolongar o discurso)

3. Entro numa assembleia de estudantes da USP, majoritariamente de esquerda, e, se tenho que me apresentar como repórter, eles disparam: “Quantas mentiras você já publicou hoje? A grande imprensa só sabe distorcer a verdade, em nome do lucro. Vocês tratam a gente como um bando de maconheirozinhos querendo defender o baseado, e mais nada. A imprensa é imperialista, golpista etc.”

(Suspiro e, se estou nos meus melhores momentos, dou um jornal para eles lerem, para afiar a crítica, ou entro para o debate, já que jornalismo é uma das poucas coisas de que entendo um pouco na vida)

Mas estou cansada. Cansada de discursos simples. Uma coisa que aprendi fazendo jornal, embora todos digam que jornais são superficiais, rasteiros e simplistas (e muitas vezes são mesmo), é que nada é simples. Tudo, absolutamente, é mais complexo e tem mais versões e mais interesses em jogo do que parece à primeira vista. Por isso mesmo, os discursos dos donos da verdade, como esses acima, geralmente ignoram tanta coisa importante, que deve ser levada em conta, que tentar infiltrar essas outras realidades neles é quase um trabalho de debater contra um robô.

Um exemplo de como tudo é muito complexo: a assembleia geral dos estudantes da USP, da qual saí há pouco. Todos lá pareciam discursar em torno de um consenso, demonstrado pelo excesso de aplausos entre um discurso e outro: a saída da PM do campus. Ouvi, ao longo de umas cinco horas, mais de 50 discursos. E posso dizer que, tirando um ou outro ponto, quase todos disseram sempre a mesma coisa, mas com outras palavras. E, mesmo havendo esse consenso e, mesmo sendo quase todos ali pessoas autodenominadas de esquerda, ou seja, com muitas ideias em comum, não faltaram vaias, xingamentos, desrespeitos aos discursos dos outros, e posições autoritárias e antidemocráticas de uma parte das pessoas, que quis ganhar no grito algo que já tinha sido perdido pela votação.

Quer dizer: fazer democracia é trabalho árduo. E mesmo seus maiores defensores parecem despreparados para lidar com ideias divergentes. Com, por exemplo, uma imprensa (cheia de defeitos, é claro) que não reproduz apenas o que querem ouvir. Com um colega que defende uma ideia diferente sobre a segurança no campus. Com alunos que não estão apenas defendendo o baseado, mas criticando abordagens repressivas e a própria administração atual. Com um ex-presidente rico que pode pagar um tratamento de primeira para se livrar de um grave problema de saúde.

Importante: dos mais de mil reunidos ali, a grande maioria parecia respeitar o diálogo, tendo em vista que aplaudia, em peso, quem criticava aqueles que queriam passar por cima das exaustivas deliberações feitas por uma maioria. Mas achei curioso ver, ali na minha frente, um exemplo claro de como a realidade é complexa, de como os discursos, por mais parecidos que sejam, encontram matizes múltiplas, que se esbarram a todo momento.

Acho que as pessoas deveriam, às vezes, fazer um pouco mais como eu: suspirar, cansadas, e ouvir mais que falar (não que eu faça isso sempre), pelo menos quando entendem pouco do que está sendo discutido. Porque somos todos ignorantes mundinhos convictos e não representamos nem uma ínfima parte daquela Verdade da qual nos julgamos donos.