‘Bacurau’: um vilarejo que é o Brasil inteiro

Vale a pena assistir no cinema: BACURAU
Nota 9

“Bacurau” mexe com a gente de tantas formas diferentes que é difícil até escrever sobre este filme.

Vou começar pelo mais fácil e ir me dirigindo, cautelosamente, para o pântano mais árduo desta crítica.

O mais fácil é elogiar as atuações. Sônia Braga está de tirar o fôlego desde uma das primeiras cenas, num velório. (Sim, o filme já começa com morte, e isso não é por acaso.) Mas todos são excepcionais. O outro veterano do elenco – o alemão Udo Kier –, a excelente Karine Teles (de “Benzinho”), que aparece rapidamente, mas em cenas marcantes, o impressionante Silvero Pereira (do personagem Lunga), além de Barbara Colen, Thomas Aquino, os gringos todos, Wilson Rabelo. Enfim, é um elenco de primeira, em que mesmo os figurantes, mesmo aqueles que fizeram só uma pontinha, pareceram ter encarnado bem o papel.

A propósito, li depois que a Bacurau de verdade é um vilarejo do Rio Grande do Norte com apenas 80 habitantes, e que a maior parte deles ajudou na produção de alguma forma, inclusive como figurantes. Talvez essa imersão tenha ajudado para um resultado final tão verossímil e impressionante.

A parte técnica também tem grande qualidade, embora eu não goste das transições que eles inventaram entre uma cena e outra. Vou destacar algo que é difícil de ver em cinema nacional e que está excelente aqui: o som. Não vi “Aquarius”, do mesmo diretor Kleber Mendonça Filho, mas vi “O Som Ao Redor”, e é gritante a diferença entre os dois filmes no que diz respeito à qualidade do áudio. Aliás, no que diz respeito a tudo. Detestei o filme de 2012 e adorei este de sete anos depois. Evolução é que chama.

A trilha sonora também foi muito legal para criar o suspense deste filme. Aliás, vale destacar isso: trata-se de um filme de suspense, mistério, ação, ficção científica, aventura. Uma mescla desses gêneros, que são muito diferentes dos que normalmente se alternam no cinema brasileiro: drama e humor. Não tem humor e, se há drama, ele é bem diferente pela forma como foi construído.

Assim, temos um filme que lembra Tarantino, que lembra Black Mirror, mas que também lembra todos os filmes de sertão já feitos no Brasil. A definição que vi em algum lugar é que é nosso faroeste. Um faroeste futurista, eu diria, mas não deixa de ser.

O fato é que saí da sala de cinema bastante impactada pelo filme e demorei algumas horas pensando nele e absorvendo toda aquela loucura. Sem estragar o mistério para o espectador, como vocês sabem que sempre evito fazer, o que posso dizer é que é uma distopia de um Brasil não muito distante do que vivemos hoje. Um Brasil de barbárie, muito mais violento. Um Brasil com sede de se defender, com necessidade disso, pela própria sobrevivência.

Vejo Bacurau como uma analogia para o Brasil inteiro, e o filme como uma fábula, com direito a moral da história e tudo. É um filme de suspense, mas sobretudo é uma alegoria política.

Além disso, ele traz uma mensagem importante sobre a forma como nos relacionamos com o diferente. Em determinado trecho do filme, quando Karine Teles e Udo Kier estão na mesma cena, essa reflexão nos atinge em cheio. Depois de assistir ao filme, leia ESTE POST e veja se você também não se pegou pensando a respeito disso.

E fica a mensagem derradeira do diretor, antes dos créditos finais: este filme gerou 800 empregos diretos e indiretos, fora a contribuição para a cultura e a história do país. Entendeu, Ancine? Foi dado o recado? Talquei, então. (Na verdade, censores são meio burros, graças aos céus.)

 

P.S. Ainda não vi “A Vida Invisível”, que vai representar o Brasil no Oscar do ano que vem. Adorei o livro no qual se baseia, no entanto. Mas será que o filme será superior a “Bacurau”? Por razões estritamente políticas, o Brasil perde uma chance real de levar o Oscar de melhor filme com este que levou o prêmio do júri no Festival de Cannes.

 

Assista ao trailer (mas ele estraga muito o filme, então, se preferir ficar livre de spoilers, NÃO ASSISTA):

Leia também:

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‘Dor e Glória’: o filme da vida de Almodóvar, literalmente

Vale a pena ver no cinema: DOR E GLÓRIA (Dolor y Gloria)
Nota 9

Não foram tantos filmes assim que vi de Pedro Almodóvar, ainda mais para alguém que se define como cinéfila. A Pele que Habito (2011), Abraços Partidos (2009), Fale com Ela (2002), Tudo Sobre Minha Mãe (1999), Carne Trêmula (1997), e acho que só. Mas uma coisa todos eles tiveram em comum: são ótimos.

Este “Dor e Glória”, no entanto, me tocou de um jeito que poucos já tinham me tocado antes. Talvez a sensibilidade seja por conta de tratar-se, como só fui descobrir depois, de uma espécie de filme de memórias de Almodóvar. É como o “Roma” do mexicano Alfonso Cuarón: um filme feito com a nostalgia afetuosa apenas dedicada às nossas memórias mais antigas, às da infância, às da vida em família, às das primeiras descobertas importantes.

Em pelo menos duas cenas, chorei tanto, mas tanto, que fiquei com medo de soluçar e fazer barulho na sala do cinema Belas Artes. Assim, fiquei alguns segundos simplesmente retendo ar, com dificuldade de respirar, nas lágrimas mais mudas que pude. (Para quem já tiver visto: foi na cena do desenho encontrado e do ovo de herança).

Antonio Banderas está maravilhoso!

E por que tanta comoção? Porque é um filme belíssimo sobre muitas coisas, que envolvem o amor materno, o amor sexual, a identidade, a paixão pelo trabalho, as dores que imobilizam (inclusive as psicológicas), a capacidade de perdoar, a passagem do tempo, o reencontro com o passado, o vício, a dependência, a redenção. Em menos de duas horas, Almodóvar consegue tocar em todas essas questões, com delicadeza, profundidade, graça, muitas cor e numa narrativa que mescla presente e passado com grande desenvoltura. O filme corre tão bem que nem a colocação de um monólogo teatral bem no meio interfere em sua fluidez.

Não se enganem, porém, ao achar que trata-se de um dramalhão. Que é um filme apenas triste. A linguagem de Almodóvar, como aconteceu nos outros longas dele que vi, comporta muitos momentos de humor e leveza, que são sua marca registrada. E, sobretudo, de grande beleza.

Penélope Cruz faz um papel importante, embora pequeno.

Entre os atores que compõem um elenco enxuto, mas de muito peso, estão os sempre maravilhosos Antonio Banderas (que levou o prêmio de Cannes por este papel de alter-ego de Almodóvar) e Penélope Cruz. Os outros que se destacam são Asier Etxeandia (Alberto Crespo), Leonardo Sbaraglia (Federico Delgado) e Nora Navas (Mercedes). Mas o filme gira quase o tempo todo em torno de Banderas, em atuação impecável em todos os momentos. Podia ser um monólogo com ele, e talvez desse certo do mesmo jeito.

O outro prêmio importante que o filme levou em Cannes foi pela trilha sonora de Alberto Iglesias, que já foi indicado a três Oscars em sua carreira, por O Espião Que Sabia Demais (2011), O Caçador de Pipas (2007) e O Jardineiro Fiel (2005), que também lhe rendeu um Cannes.

A quem tiver curiosidade, a trilha impactante já está no Youtube:

Acho que os prêmios não vão parar por aí.

“Dor e Glória”, assim como Almodóvar, que é a mais pura definição desses substantivos, merecem arrebatar muitas audiências vindouras. Que venha o Oscar 2020!

Assista ao trailer do filme:

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‘Infiltrado na Klan’: uma história que precisa ser contada e recontada

Vale a pena assistir: INFILTRADO NA KLAN (BlacKkKlansman)
Nota 10

No Festival de Cannes, um dos mais importantes do cinema mundial, este filme de Spike Lee recebeu seis minutos ininterruptos de aplausos e venceu o Grande Prêmio do Júri. Não foi à toa e prevejo muitos outros prêmios mais adiante, incluindo o Oscar. “Infiltrado na Klan” já é um clássico. Com ele, Spike Lee, que já tem 82 trabalhos no currículo, atingiu seu ápice.

Estamos falando, primeiro, de uma história sensacional, baseada em fatos reais: um policial negro (e blackpower) que se infiltra (com a ajuda do parceiro, judeu) na Ku Klux Klan, em plenos anos 70. Esse policial é Ron Stallworth, que escreveu um livro de memórias contando a história em 2014. O livro foi parar nas mãos de Spike Lee, que não tinha como perder um plot desses e foi em frente na direção.

Estamos falando, ainda, de uma condução excepcional para o que tinha tudo para ser um tema árduo, pesado, difícil. Afinal, trata-se da Ku Klux Klan, uma organização assumidamente racista e antissemita, que prega a superioridade da raça branca e o extermínio de negros. O filme foi lançado um ano depois do massacre de Charlottesville, que demonstrou a força do KKK ainda hoje nos Estados Unidos (talvez mais forte do que nunca, com Donald Trump no poder). Spike Lee usou cenas de Charlottesville para enriquecer o discurso. Mas, apesar disso tudo, e de todas aquelas frases racistas nojentas que são disparadas a cada dois minutos, que nos deixam enojados do lado de cá, não se trata de um filme para ficar sério, tenso, para chorar. Porque Spike Lee é inteligente e sabe como ninguém usar o humor para falar de assuntos árduos. Sabe que o humor é uma ferramenta que enriquece, e não empobrece, como muitos pensam. O humor do filme é inteligente, refinado, sutil. E o roteiro equilibra o trágico no cômico como poucos filmes sabem fazer.

Um dos grandes responsáveis por esse humor é o ator que interpreta o policial Ron Stallworth. E é um ator novato, mas que teve a melhor escola: John David Washington, filho do grande Denzel Washington – que já tinha trabalhado em quatro filmes de Spike Lee. John está sensacional. Leve, cínico, corajoso e bem-humorado, como o Ron real deve ter sido, pra conseguir esse feito de se infiltrar na KKK sendo negro. E de tapear um político que era o supremo diretor da organização e que até hoje exerce liderança na ultradireita americana: David Duke (interpretado pelo também ótimo Topher Grace). O elenco ainda tem o excelente Adam Driver, o veterano Robert John Burke, o pastelão Paul Walter Hauser e o ótimo ator finlandês Jasper Pääkkönen, um dos responsáveis por fazer nosso sangue subir aos olhos em relação ao racismo explícito da KKK.

OK, já temos aí uma história real sensacional, na qual se baseou o roteiro super bem-elaborado, com personagens interpretados por grandes atores (muito jovens, aliás). Tudo sob a batuta do diretor ousado na medida certa pra falar de uma bandeira que já é “velha” nos Estados Unidos, mas parece nunca ser tão necessária (ou parece nunca ser suficiente). No Brasil também, diga-se de passagem. Pra melhorar, temos uma câmera cheia de cortes modernos, temos uma edição que dá ritmo fabuloso à história, principalmente a partir da segunda metade do filme, temos uma trilha de primeira, cheia de soul. É já um clássico, como eu disse.

Pena não ter sido lançado antes das eleições no Brasil, porque os brasileiros estão precisando de relembrar alguns dos momentos mais cruéis da história da humanidade, a fim de que não se repitam por aqui. Agora já era. Vale lembrar: David Duke, o ex-chefão da KKK, personagem deste filme e deste episódio real dos anos 70, foi um dos que elogiaram, em outubro, Jair Bolsonaro, então candidato à presidência do Brasil. É a história engolindo a história engolindo a história…

Assista ao trailer do filme:

Leia também:

 

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