Salários de juízes e de professores, uma aberração da cultura brasileira

Charge de Jarbas

Charge de Jarbas

Texto escrito por José de Souza Castro:

Uma esperança para os professores estaduais paulistas. O governador Geraldo Alckmin, do PSDB, nomeou o desembargador José Renato Nalini secretário da Educação. O novo secretário sabe da importância de uma boa remuneração para o exercício correto da profissão.

Pelo menos, a dos juízes. Diz ele, nesse vídeo que agora está bombando na Internet, ao defender o auxílio-moradia para os juízes, que ele serve para que “o juiz fique um pouquinho mais animado, não tenha tanta depressão, tanta síndrome de pânico, tanto AVC etc.”

Se não mudou de opinião no novo cargo, o desembargador talvez use os mesmos argumentos (ou parte deles, porque os professores dispensam a parte que fala de ir a Miami para comprar ternos) para defender o reajuste dos salários dos mestres.

O governo federal reajustou no dia 16 deste mês de janeiro o piso salarial dos professores da rede pública de ensino no país. Com o reajuste de 11,36% em relação ao ano passado, o piso sobe para R$ 2.135 por mês. Mas governadores tentam evitar que o piso entre em vigor agora.

Se entrar, um professor, com o novo piso, vai ganhar 11 vezes menos que um juiz, sem contar os vários benefícios e gratificações extras — como o auxílio-moradia –, que são recebidos por todos os juízes. No tribunal do Rio de Janeiro, “entre proventos e benefícios, há juízes recebendo 150 mil mensais”, diz a jornalista e escritora brasileira Cláudia Wallin. Ela mora na Suécia, e escreveu um artigo para um site comparando o comportamento – e os salários – dos juízes suecos e brasileiros. Trecho:

“Em nenhuma instância do Judiciário sueco, magistrados têm direito a carro oficial e motorista pago com o dinheiro do contribuinte. Sem auxílio-aluguel e nem apartamento funcional, todos pagam do próprio bolso por seus custos de moradia.

Para viver em um país que tem um dos mais altos impostos do mundo, e um dos custos de vida mais elevados do planeta, os juízes suecos têm salários que variam entre 50 mil e 100 mil coroas suecas – o equivalente a cerca de R$ 16,5 mil e R$ 33 mil, respectivamente.

Para ficar no exemplo dos vencimentos máximos de um magistrado sueco: descontados os impostos, um juiz da Suprema Corte da Suécia, que tem um salário de 100 mil coroas, recebe em valores líquidos o equivalente a cerca de R$ 18,2 mil por mês.

No Brasil, um juiz federal recebe salário de 25,2 mil, e os ministros do STF – que ganham atualmente 29,4 mil – aprovaram proposta para aumentar os próprios salários para 35,9 mil. Isso sem contabilizar os diferentes benefícios e gratificações extras disponíveis para as diferentes categorias do Judiciário (…)

Também não há Excelências entre os magistrados suecos. Assim me lembra Göran Lambertz, juiz do Supremo Tribunal da Suécia, quando pergunto a ele sobre suas impressões acerca dos recentes benefícios reivindicados pela Corte brasileira.

‘Claudia, mais uma vez peço a você que me chame de Göran. Estamos na Suécia’, ele diz, quando o chamo mais uma vez de ‘Sr. Lambertz’. E prossegue: ‘É realmente inacreditável saber que juízes se empenham na busca de tais privilégios. Nós, juízes, somos pagos com o dinheiro dos impostos do contribuinte, e temos que ser responsáveis. Juízes devem ser elementos exemplares em uma sociedade, porque é deles que depende a ordem em um país. E é particularmente importante que não sejam gananciosos.’”

Pergunta-se: qual a justiça mais respeitada por seus cidadãos: a brasileira ou a sueca? Sem esperar pela resposta, por óbvio, acrescento: quem é mais respeitado no Brasil, um professor que ganha R$ 2.135 por mês ou um juiz que ganha R$ 150 mil?

Dado o caráter dos brasileiros, acostumados a séculos de subjugação pelos poderosos daqui e de além, não me animo a garantir que a resposta seja “o pobre professor”. E nem deveria, pois sou um defensor de melhores salários para o professor. E não creio nessa conversa de que o mestre, por exercer uma profissão missionária, não precisa ganhar bem.

Por semear saberes, o professor precisa ser dignamente remunerado. Até mesmo para que não seja desrespeitado dentro da sala de aulas por um aluno cujo pai ganha bem mais que o professor. Aluno que cresceu numa uma cultura como a desse desembargador defensor dos privilégios da casta a que pertence e que, dificilmente, vai se rebaixar a defender com denodo uma casta que deve julgar bem inferior – a dos professores.

Para concluir, corrijo então a primeira frase do artigo: a nomeação do desembargador não renova a esperança dos professores da rede pública no Estado mais rico do país. Em São Paulo, conforme essa notícia de junho de 2015, eles tinham remuneração por hora de R$ 15,10 e salário-base de R$ 2.415,89. Menor, quem diria, que Minas Gerais (R$ 15,16 e R$ 2.425,50). Minas, como já foi afirmado aqui no blog, destaca-se entre os Estados que pagam os piores salários aos professores.

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Anote aí: Palestras com grandes nomes da filosofia no Brasil

Hoje quero divulgar um evento muito legal, recomendado pelo leitor Douglas Garcia: o ciclo de conferências “Mutações”, que reunirá grandes nomes de pensadores contemporâneos brasileiros, como Vladimir Safatle, Eugênio Bucci, José Miguel Wisnik, Maria Rita Kehl, Jorge Coli e Marcelo Coelho, e é aberto ao público.

Desta vez, o tema do ciclo será “O Novo Espírito Utópico”, e o evento vai acontecer em Belo Horizonte e São Paulo. Abaixo, a programação em BH:

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Ficou interessado?

Pois bem, as inscrições começam amanhã! A inscrição para todo o ciclo, contendo 13 conferências, é de R$ 30,00 a inteira e R$ 15,00 meia-entrada. As conferências avulsas custam R$ 10,00 a inteira e R$ 5,00 meia-entrada. As inscrições podem ser feitas pelo site www.mutacoes.com.br.

Todas as palestras, com exceção da primeira, vão acontecer às segundas e terças-feiras, às 19h, no auditório do BDMG.

Mais informações pelo telefone da APPA (Associação Pró-Cultura e Promoção das Artes), 31-3224.1919, do BDMG Cultural (31-3219-8486) ou no site www.bdmgcultural.mg.gov.br.

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Minha homenagem a B.B. King, o rei do blues

Obrigada por tudo, B.B. King!

Obrigada por tudo, B.B. King!

Hoje acordei com a notícia de que o rei do blues havia morrido, enquanto dormia. Apesar da tristeza, não me surpreendi. Não por ele ter 89 anos de idade — até muito recentemente, B.B. King ainda mantinha seu ritmo frenético de um show a cada dois ou três dias, como ele fazia desde a juventude. (Outros astros do rock e do blues, depois que se consolidam no sucesso, preferem parar com essa maratona de turnês, que é tão desgastante. Mas B.B. amava fazer shows!). Não me surpreendi por causa de uma foto que a filha de B.B. divulgou há 15 dias, mostrando um velhinho tão abatido que nem parecia aquele que eu vi nos palcos apenas cinco anos atrás. Como acontece com outros astros, no caso de B.B. parece que há uma disputa judicial entre família e empresário, uma daquelas coisas nojentas envolvendo dinheiro e herança.

Foi lendo sua autobiografia (escrita em coautoria com David Ritz), que aprendi um pouco sobre a história do Blues Boy King, nascido Riley Ben King. Como tantos outros negros de sua geração, ele nasceu e cresceu em uma plantação de algodão — local onde vários blues foram cunhados, worksongs cantadas pelos negros escravos e semiescravos para amenizar o árduo trabalho que tinham que desempenhar. Assim como B.B. King, Magic Slim (morto em 2013) passou pelos “cotton fields”. Também passaram por esta “escola” forçada os bluesmen T-Model Ford (morto em 2013), Pinetop Perkins (morto em 2011) e o incrível Muddy Waters (morto em 1983), dentre vários outros do Delta do Mississippi.

O que aprendi em outubro de 2007, com essa leitura, coloquei no sétimo programa de rádio da Barbearia de Blues, todo dedicado ao rei do blues, que já abre com a estonteante guitarra de “Everyday I have the blues”. Contei, por exemplo, que os dois grandes ídolos de King eram Blind Lemon Jefferson e Lonnie Johnson — que fecha o programa com “Me and my crazy self”. No programa número 8, falo sobre a guitarra Lucille e como ela foi batizada assim por King. E ainda dediquei o último programa da Barbearia, o mais importante e especial, à parceria entre B.B. e o “deus da guitarra” Eric Clapton, com a maravilhosa “Three O’Clock Blues”. CLIQUE AQUI para baixar e ouvir gratuitamente todos os programas da Barbearia 😉

Em 2010, já morando em São Paulo, fiquei sabendo que B.B. voltaria a se apresentar na cidade, com seus 84 anos de idade. Os ingressos para o show no Bourbon Street eram, como sempre, escandalosamente caros (algo como R$ 1.500) e, na Via Funchal, estavam por R$ 300 pra cima. E eu, naqueles tempos mais do que nunca, estava totalmente dura. Provavelmente não teria conseguido ir ao show, se não fosse por uma promoção da rádio Eldorado, daquelas que pedem que a gente envie uma frase com as palavras X e Y. Se não me engano, as palavras tinham que ser B.B. King, Eldorado e Bourbon Street. Fiz uma frase despretensiosa e quase caí da cadeira quando recebi o email dizendo que havia sido uma das escolhidas! Ganhei dois ingressos para a plateia premium, bem pertinho do palco, e chamei a amiga Maná para ir comigo, principalmente como agradecimento por ela ter sido a pessoa que me avisou sobre a promoção.

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Gravei o show inteirinho no meu gravador de áudio, mas, infelizmente, não consigo achar o arquivo em nenhum lugar mais. Mas ainda ficaram dois pequenos vídeos, que hoje divulgo pela primeira vez. Um mostrando a entrada triunfal do rei do blues, aplaudidíssimo, e já procurando sua cadeirinha em que tocaria sentado durante as duas horas seguintes:

E outro mostrando como ele era conversador e adorava contar piadas e fazer gracinhas antes de começar a tocar uma música. Ficou papeando o show todinho! 😀

Não filmei as músicas porque eu queria estar 100% concentrada em ver B.B. King tocando guitarra. Mas isso foi uma pena, porque não tenho nenhum registro meu daquele show. Felizmente, várias outras pessoas fizeram filmagens daquele show, que podem ser encontradas em uma busca simples no Youtube.

No final do show, B.B. King, com toda a sua simpatia indescritível, ainda ficou uns 30 minutos sentadinho em seu trono, diante de uma fila gigante de fãs com vinis e CDs, autografando um a um e posando para fotos! Quantos ídolos da música fazem o mesmo por seus fãs?

Eu tinha o hábito de enviar emails semanais para a família e os amigos mais chegados de Beagá, contando como estava sendo a vida na Terra Cinza. Naquela semana, a mensagem foi assim:

“Nem me lembro mais o que aconteceu no resto da semana, depois da noite de ontem. Fui ao show do BB King, um dos meus grandes heróis da música (e ainda vivo, aos 84 anos, com o mesmo vozeirão que tinha aos 40). (…) Ontem vi o melhor show da minha vida! Ele ainda toca e canta como ninguém, a banda é toda maravilhosa e ele não pára de conversar com o público, contar piadas etc. Anexo algumas fotos pra vocês verem.”

Pra fechar este post, então, coloco algumas dessas imagens que enviei naquele email. Para sempre lembrarmos de um B.B. King impressionante em sua alegria, simpatia, talento, bom humor, e todos os outros requisitos, musicais e pessoais, que o coroaram como rei do blues!

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