Para a ‘Folha’, ditadura de Batista foi melhor que a de Fidel Castro

Foto: Ismael Francisco/ Cubadebate

Foto: Ismael Francisco/ Cubadebate

Texto escrito por José de Souza Castro:

Em editorial publicado dia 29 de novembro, quatro dias depois da morte de Fidel Castro, a “Folha de S.Paulo” deu alguns dos motivos que a levaram, desde sempre, a fazer ferrenha oposição ao líder revolucionário cubano. Seus leitores não esperavam outra coisa. Mas talvez alguns, como eu, tenham se surpreendido com esta frase: “Cuba já era, entretanto, um dos países com menor taxa de analfabetismo da América Latina, e o de menor taxa de mortalidade infantil, sob a ditadura de Batista”.

A frase surpreendente dita assim, sem citar fonte, vem após este trecho do editorial:

“Um sistema feito à força, do qual centenas de milhares de pessoas são levadas a fugir, e no qual as que restam vivem sob censura e medo, não se flexibiliza nem evolui. Estaciona no tempo, ou cai definitivamente: é destino de toda ditadura não ter perspectiva de futuro.

Dessa ineficiência estrutural, os simpatizantes de Cuba não costumam se dar conta, preferindo defender o regime numa espécie particularmente desonesta de negociação: não há respeito aos direitos humanos, mas as conquistas na educação e na saúde valeriam a pena.”

Antes de Fidel Castro, Cuba já era um dos países com menor taxa de analfabetismo da América Latina… Uma pesquisa cuidadosa no Google não me confirmou.

Encontrei, porém, estas informações, que resumo abaixo com minhas próprias palavras:

Fulgêncio Batista foi eleito presidente de Cuba em 1940 e teve seu governo marcado pela corrupção e pelo alinhamento com os Estados Unidos. Em 1944, foi eleito Ramón Grau San Martín, ano em que o embaixador americano informou ao seu governo que o novo presidente encontraria os caixas vazios quando tomasse posse em outubro, em razão do “roubo sistemático dos fundos do Tesouro”.

Em 29 de julho de 1948, o Departamento de Estado enfatizou que a economia monocultora de Cuba dependia quase exclusivamente dos Estados Unidos. “Se manipularmos os preços ou o contingente açucareiro podemos afundar toda a ilha na pobreza”, registrou o Opera Mundi. E prossegue essa publicação, reconhecidamente de esquerda, enquanto a “Folha” diz não ter o rabo preso com ninguém:

Carlos Prío Socarrás, que tinha sido primeiro-ministro e ministro do Trabalho desse governo, foi eleito presidente em 1948, mas foi derrubado no dia 10 de março de 1953, por um golpe militar. Fulgêncio Batista passou a governar como ditador até ser derrubado por Fidel Castro. De cara, ele aumentou os salários das Forças Armadas e da Polícia e mais que quintuplicou o salário de Presidente da República, para 144 mil dólares (na época o presidente dos EUA, Harry S. Truman ganhava 100 mil).

Talvez a Folha de S.Paulo soubesse de tudo isso. Afinal, seus editorialistas tiveram quatro dias para pesquisar. Mas eles se impressionaram, talvez, com essa informação:

A educação cubana foi objeto de grande debate político antes da revolução de Fidel Castro. Em 1940, a Constituição feita sob Fulgêncio Batista dizia que o Ministério da Educação deveria receber a maior parcela do orçamento governamental, exceto em casos de emergência. E determinou a educação primária compulsória para idades entre seis e 14 anos.

Se avançasse um pouco mais na pesquisa, os editorialistas descobririam que em 1953, ano em que foi feito o ultimo censo completo antes da Revolução de Fidel Castro, apenas 44% das crianças nessa idade estavam na escola.

Nos anos 1950, é verdade, embora Cuba tivesse um índice de analfabetismo de 23% (subindo para 53% na área rural), isso era considerado bom para a América Latina. Em 1953, 12% dos jovens cubanos entre 15 e 19 anos estavam matriculados no 2º grau, uma taxa bem elevada para a região.

Talvez esteja aí a fundamentação do editorial da “Folha”.  Que faltou dizer, por não vir ao caso, que nos anos seguintes, até o fim da ditadura Batista, o PIB caiu 11,4%. Não encontrei informações sobre investimentos na educação nesse período.

Os editorialistas da “Folha” são sofisticados demais para buscar informações na Wikipedia. Não fosse isso, poderiam ter lido lá o seguinte:

“A educação é controlada pelo Estado e a Constituição de Cuba determina que o ensino fundamental, médio e superior devem ser gratuitos a todos os cidadãos cubanos e é obrigatória até o 9º ano. Em 1958, antes do triunfo da revolução, 23,6% da população cubana era analfabeta e, entre a população rural, os analfabetos eram 41,7%. Em 1961 se realiza uma campanha nacional para alfabetizar a população e Cuba torna-se o primeiro país do mundo a erradicar o analfabetismo (Segundo dados do próprio governo). Hoje não há mais analfabetos em Cuba. Segundo o The World Factbook 2007, publicado pela CIA, 99.8% da população cubana, acima de 15 anos, sabe ler e escrever.”

Pergunto aos meus botões: se tivessem lido, os editorialistas teriam escrito o que escreveram?

Eles respondem: sim.

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17 dicas de Luiza Fiorini para que seu filho se alimente melhor

Foto: Pixabay

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No último sábado, assisti à palestra da gastrônoma especializada em alimentação infantil Luiza Fiorini, pela revista “Canguru”.

Luiza deu diversas dicas muito valiosas para os pais que passam por problemas na alimentação dos filhos (99% do total?). Seja porque os filhos comem mal, porque enrolam demais para comer, porque não ganham peso, porque ficam obesos etc.

Fiz um resumo da palestra para o site da “Canguru” e hoje me dei conta de que essas dicas merecem mais alcance, porque podem ajudar muitos pais e mães Brasilzão afora. Então resolvi trazer aqui para o blog também.

  1. Uma dica que eu já adotava: “Demonstrar prazer em comer, comer com a boca boa diante do seu filho.”
  2. Uma que achei muito interessante e vai mudar meu modo de agir: “Não usar comida como suborno ou recompensa. Nunca falar, por exemplo, que seu filho só vai ganhar sobremesa se comer tudo: assim, a refeição vira vilã e a sobremesa passa a ser o grande triunfo.”
  3. A dica que achei mais legal e universal: “Não rotular seu filho. Dizer na frente dele e de outras pessoas que ele “não come nada”, por exemplo. Ele vai acreditar nesse rótulo e se fiar nele.”

CLIQUE AQUI para ler todas as preciosidades de Luiza.

Aliás, vale a pena acompanhar o blog que ela mantém no mesmo site, com postagens quinzenais, às sextas-feiras. Alguns posts recentes:

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20 sugestões para ajudar o bebê a dormir a noite toda

Meu bebê começou a dormir a noite toda (digamos que em 80% das noites*) por volta dos 5 meses e meio. Hoje ele está com quase 1 ano de vida e tenho conseguido ter boas noites de sono: durmo por volta das 23h e acordo entre 6h e 7h, quando o Luiz começa a fazer seus barulhinhos me convocando até o berço. Posso dizer que isso é um grande alívio, porque sei como é terrível passar tantos meses com o sono picado: é como se a gente não descansasse nunca, com tantas interrupções, e ficamos igual a zumbis durante o dia!

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Mas não foi num passe de mágica que o Luiz aprendeu a dormir a noite toda. Foi um longo processo, que começou desde seus primeiros dias de vida.

Sei que cada bebê é de um jeito e é bem possível que a experiência que eu tive com o Luiz não se aplique de forma alguma a outro bebê — um que seja mais agitado ou deteste chupeta, por exemplo. Mas compartilho abaixo as coisas que funcionaram para mim, na esperança de que também possam ser úteis a outras mães e pais que querem acostumar seus bebês a terem boas — e ininterruptas — noites de sono. Pelo bem de toda a família.

Aí vão minhas sugestões:

1. Outras formas de ninar / Colo não é a única maneira

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As capas dos jornais no dia histórico da morte de Fidel

A morte de Fidel Castro levantou todo tipo de análises sobre o passado, o futuro de Cuba, o ódio e o amor que o líder revolucionário sempre despertou. Mas também trouxe para mim a oportunidade de fazer uma das coisas que acho mais divertidas em dias históricos assim (ou no dia seguinte a eles): comparar as capas dos jornais de todo o mundo, quando a única manchete possível já está dada.

São poucos os fatos históricos que se impõem desta maneira, universalmente. Atentados terroristas, terremoto no Haiti, aviões desaparecidos, Bin Laden morto… No Brasil, o impeachment de Dilma foi manchete obrigatória nacional, por exemplo.

A morte de Fidel Castro, por tudo o que ele representa, é manchete obrigatória. E assim foi, em todos os jornais ao redor do planeta: New York Times, Washington Post, El País, Le Monde, Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo etc.

(Curiosamente, os três maiores jornais mineiros acharam outros assuntos mais importantes para manchetar. O “Estado de Minas” achou que Fidel não mereceu nem a dobra de cima da primeira página. Vai entender…)

Seguem abaixo algumas primeiras páginas que encontrei nesta manhãzinha de domingo (27), para você comparar e dizer qual condiz mais com seu pensamento sobre Fidel Castro. Assim que o Newseum abrir as capas de domingo, acrescento outros exemplos nesta galeria:

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E aí, qual destas capas foi sua favorita e por quê?

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Fidel Castro e o medo do inferno

Foto: Ismael Francisco/ Cubadebate

Foto: Ismael Francisco/ Cubadebate

Texto escrito por José de Souza Castro:

Eu poderia escrever muito sobre Fidel Castro, pois venho acompanhando sua trajetória, pela imprensa e por livros, como o de Sartre, desde 1959, aos 15 anos de idade. No mesmo ano em que os cubanos se libertaram de uma cruel ditadura apoiada pelos Estados Unidos e dominada mais de perto pela máfia americana, eu me libertei do medo do inferno.

Nesse tempo todo, tenho procurado viver longe do inferno – o que não é fácil. Quanto ao inferno como muitos tentaram descrever a ilha dominada por Fidel Castro, neste acho que nunca acreditei mesmo.

Foto: Ismael Francisco/ Cubadebate

Foto: Ismael Francisco/ Cubadebate

Muitos vão escrever sobre a morte de Fidel Castro e a morte da esquerda, como Clovis Rossi, nesta manhã de sábado.

Outros, como Fernando Brito, vêm ao meu socorro, quando ensina que seria “pretensioso procurar resumir aqui 70 anos de lutas políticas e quase 60 em que foi um dos nomes mais amados e mais temidos do mundo”.

O pouco que ele escreveu, porém, em seu Tijolaço, vale ser lido. E este comentário de um desconhecido (para mim) pernambucano: Continuar lendo