O poder de um ‘bom dia’

Foto: Aziz Acharki

 

Eu andando toda cabisbaixa e um “psiu” interrompe meus pensamentos:

— Alguém já te deu bom dia hoje? — pergunta um senhor jovial, apesar de aparentar ter uns 100 anos.

Respondo no automático um “não”, surpresa com a pergunta.

— E num dia lindo desses! — continua o velhinho sorridente — Tenha um BOM DIA!

Ele diz a expressão em maiúsculas assim mesmo, frisando pela entonação alegre da voz. Devolvo o bom dia e penso em como ainda existem pessoas bacanas no mundo.

E sigo meu rumo bem menos cabisbaixa agora, desejosa de distribuir cumprimentos a desconhecidos que cruzem meu caminho.

 

 


P.S. Adoro ouvir bom dia e adoro responder ao cumprimento! Costumo dizer que se uma porta criar vida e me desejar bom dia, responderei com alegria. Não entendo pessoas amargas que ouvem um bom dia ou boa tarde e passam reto, ignoram. Já trabalhei com várias assim. Que pena que existam.

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Toda criança tem algum objeto de devoção: a fase do boi

Boi da cara preta 🙂

O pai do Luiz foi com ele a uma livraria pequenininha que existe aqui no bairro, por onde eles passam quase todos os dias. Desta vez, entraram, e o Luiz pôde escolher o livro que quisesse de presente. Ele viu um livro com um boi imenso na capa e imediatamente escolheu aquele.

O pai comentou com a dona da lojinha:

— Luiz é doido com boi! (Já foi doido com passarinho, depois com urso — por causa de Masha e o Urso –, mas agora ele só fala em boi, pede para ouvir a música do boi da cara preta, pede para ver ilustrações de bois nos livros, pede para achar bois no YouTube etc.)

Ao que ela respondeu:

— Engraçado, cada criança que vem aqui tem alguma fixação diferente. Tem menino que é louco por carros, outros são doidos com aviões, outros preferem dinossauros. Mas toda criança é doida por alguma coisa!

Em casa, quando ouvi essa história, concluí que a fixação do Luiz é com animais. Todos os dias, antes de dormir, ele pede para ver um livro de contos favorito. Fica irritado quando tento ler um conto: o que ele quer mesmo é sair ditando os animais, um a um, enquanto corro para encontrar suas ilustrações pelas páginas. Começa sempre pelo boi. Depois é o peixe, o urso, o fapo (sapo), o au-au, a popó, o gol (Galo), a anhanha (aranha), o côrco (porco), e assim por diante. É emocionante ver a empolgação com que ele narra essas palavrinhas lindas, nomes de animais, que estão entre as primeiras de seu já extenso vocabulário, e vai brilhando os olhos à medida que reconhece os desenhos correspondentes a cada nome.

Depois, ele se despede do livro e me pede de novo: “Boi! Boi”. Desta vez, sei que ele quer é ouvir minha versão adaptada para a música do boi da cara preta, que hoje é sua favorita para a hora de dormir:

Como eu disse mais acima, o boi não foi sempre o rei das preferências do Luiz. Já foi precedido pelo urso e pelo passarinho. E suspeito que logo dará lugar a outro herói mais fácil de se encontrar nos desenhos animados e produtos licenciados. Até que talvez chegue o dia em que ele não tenha mais nenhuma fixação, em que nada faça seus olhinhos brilharem com a mesma alegria devota de hoje. Ele terá, então, deixado de ser criança.

***

Conte para mim: seu filhote é doido com quê? Qual é a fixação dele/a?

O engenheiro Geraldo e a navalha de Maugham

Texto escrito por José de Souza Castro:

W. Somerset Maugham, romancista e dramaturgo nascido em Paris em janeiro de 1874, já havia publicado 39 livros ao lançar, em 1946, “The Razor’s Edge” (“O Fio da Navalha”). Eu estava na faculdade quando li esse livro pela primeira vez. Na época, com menos de 30 anos de idade, não me chamou a atenção um parágrafo sobre a velhice, ao contrário de agora, quando o estou relendo.

“Pela primeira vez em quarenta anos Elliott não passava a primavera em Paris. Embora não aparentasse essa idade, estava agora com setenta anos e, como acontece comumente com homens tão idosos, havia dias em que se sentia cansado e doente. Ia aos poucos abandonando os exercícios e agora quase que só se limitava aos passeios a pé. Preocupava-se muito com a saúde e seu médico vinha vê-lo duas vezes por semana, para espetar alternadamente numa das nádegas uma agulha com a injeção da moda. Em todas as refeições, tanto em casa como fora, Elliott tirava do bolso um estojinho de ouro e dele extraía um comprimido, engolindo-o com o ar compenetrado de quem está cumprindo um rito sagrado.”

Quando se é jovem, um homem de 49 anos parece velho. Foi nessa idade que Plínio Carneiro, meu professor de Relações Públicas no curso de Jornalismo da UFMG, morreu em consequência de um aneurisma cerebral, deixando viúva e duas filhas adolescentes. Eu gostava muito dele e me consolei pensando que Plínio já havia vivido muito – e bem.

Mas Maugham, ao escrever aquilo, estava com 70 anos. Teve tempo e disposição para escrever depois mais 15 livros, incluindo “A Servidão Humana”. Foi um escritor incansável. Aos 13 anos, teve publicado seu livro de estreia, “O Pecado de Liza”, e aos 87, “Purely for My Pleasure”, o último de seus 55 romances, livros de viagem e crítica, aos quais se somam mais 24 peças teatrais. Só morreu em dezembro de 1965, faltando um mês para completar 90 anos.

Eu pensava nisso, sem tantos detalhes, quando encontrei no clube em que caminho diariamente por uma hora e faço mais meia hora de ginástica, um velho desconhecido que estava tentando ver seu peso numa balança, com dificuldade para enxergar, perto dos pés, os números. Continuar lendo