Natal no pé de amora

Um dos motivos que me motivaram a entrar nesta vida maluca do jornalismo foi a possibilidade de ouvir e transmitir boas histórias. Contar causos, eis a primeira função do repórter. Se eles vão derrubar ministros ou apenas emocionar e provocar reflexões no leitor, para mim é uma questão secundária.

Quando uma boa história cai no meu colo, não sossego até apurar tudinho e escrever o texto que transmita com maior riqueza de detalhes possível aquela história. Foi o que aconteceu quando soube que uma moradora de rua tinha tido seu bebê debaixo de um pé de amora, numa calçada do nobre bairro Santo Antônio.

Na mesma noite em que ouvi esta história pela primeira vez, entrei em contato com a fonte para pegar mais informações. Não consegui nem dormir. Nos dias seguintes, fui correndo atrás e descobrindo todos os detalhes que pude sobre o episódio. Até a velocidade do vento naquele horário específico em que a pequena bebezinha veio ao mundo, sem qualquer apoio médico ou hospitalar, me interessava. Contei com a ajuda da excelente repórter Rafaela Matias para buscar informações sobre as mulheres em situação de rua na capital.

Meus pais, que tinham ouvido a história antes de mim e se emocionaram com ela, ficaram satisfeitos com a reportagem final. Isso pra mim foi um termômetro importante. Por isso, resolvi recomendar a todos a leitura, como já fiz em outras ocasiões 😉

CLIQUE AQUI para ler o “Natal no Pé de Amora”.

 

Foto: NIDIN SANCHES / Revista Canguru

Foto: NIDIN SANCHES / Revista Canguru

P.S. Que tal aproveitar o espírito natalino para praticar o bem, e ajudar crianças (e adultos) de rua ou outras pessoas em situação de vulnerabilidade? Veja AQUI 10 instituições de confiança, que estão arrecadando doações para fazer a alegria dessas pessoas no Natal.

Leia também:

Anúncios

O frio dos moradores de rua na visão de dois repórteres

Esta é a Bárbara passando frio, em foto de Daniel de Cerqueira

Esta é a Bárbara passando frio na rua, em foto de Daniel de Cerqueira

Quem acompanha este blog sabe como eu me preocupo em abordar uma questão social antiga e ainda urgente: nossos moradores de rua. Essas pessoas “invisíveis”, que só costumam aparecer nos noticiários quando o frio aperta e elas acabam se tornando as primeiras vítimas da hipotermia.

Listo ao pé deste post, como de costume, alguns textos correlatos que já escrevi sobre o tema.

Mas hoje venho indicar a leitura de uma reportagem feita por outra pessoa, a colega Bárbara Ferreira, repórter do jornal “O Tempo”. Na última quinta-feira, quando cheguei à Redação, às 7h, não encontrei apenas a colega Fernanda Viegas, que costuma “abrir” as portas da empresa junto comigo. Lá estava também a Bárbara, com uma cara de sono danada, e o repórter-fotográfico Daniel de Cerqueira, que a acompanhou na difícil missão de passar a madrugada gélida de Beagá ao lado dos moradores de rua.

Eles descobriram, na prática, que o bom e velho agasalho não é suficiente para cortar o vento frio que tem deixado a sensação térmica na capital mineira em -5ºC durante as madrugadas. Os moradores de rua precisam apelar à pinga e ao crack para tentar se manter aquecidos.

Bom, mas é muito melhor ler o relato sensível da Bárbara (ilustrado pelas imagens capturadas por Daniel) do que meu comentário sobre ele. CLIQUE AQUI e boa reflexão! 😉

Leia também:

Quem são nossos moradores de rua? – parte 3

Morador de rua em Belo Horizonte. Foto: Leo Fontes

Morador de rua em Belo Horizonte. Foto: Leo Fontes/O Tempo

Em maio do ano passado, quando a Prefeitura de Belo Horizonte divulgou o terceiro censo dos moradores de rua que vivem na cidade, eu me debrucei sobre os números e os trouxe para o blog, na tentativa de fazer um retrato, ainda que tímido, dessas pessoas. Depois obtive mais números e complementei num segundo post.

Faltava uma coisa para o raio X ser completo: conversar com essas pessoas que moram nas ruas — que já são mais de 1.800! — e com os responsáveis pelas políticas públicas voltadas para elas.

Agora não falta mais: no último domingo, foi publicada no jornal “O Tempo” uma série de reportagens muito completa e sensível, apurada e escrita pela repórter Juliana Baeta.

Clique AQUI para ler todo o especial.

Ao fim da leitura, constatamos o que já intuíamos: que ninguém quer morar nas ruas e que a solidariedade dos voluntários e das pessoas que se sensibilizam com a situação dos moradores de rua é fundamental para que eles sobrevivam. (Ao contrário do que sugeriu o prefeito Marcio Lacerda, em mais uma de suas declarações infelizes, ao pedir aos moradores (com teto) da cidade que não ajudassem os moradores de rua com “objetos, comida ou dinheiro, para que eles dependam da assistência social da prefeitura e possam ser convencidos a deixar a rua”. Como se se tratasse apenas de uma questão de convencimento…)

No final do meu primeiro post sobre o censo, escrevi: “Eles se concentram na região mais rica da cidade, a Centro-Sul, não por acaso: contam com a solidariedade dos mais afortunados, com suas doações e esmolas, com ajuda dos comerciantes e donos de bares e restaurantes. Que tal retribuirmos esse voto de confiança?”

Agora que o outono já começou, e a vida dos moradores de rua ficará duplamente mais difícil, com o frio (que, em cidades mais geladas, como São Paulo, leva vários à morte), essa solidariedade é ainda mais importante.

Se tememos contribuir com dinheiro, pelo fato de um percentual não desprezível dessa população recorrer às drogas, podemos ajudar com comida, agasalhos, roupas, sapatos e outro bem valiosíssimo e muito raro para eles: água. Já repararam que não existem muitos bebedores públicos em Belo Horizonte (e em quase nenhuma cidade)? Lembro que a primeira vez que isso me chamou a atenção foi graças a uma reportagem da “Folha de S.Paulo”, de 2009. Ou seja, até 2009, nunca tinha me ocorrido como era difícil que um morador de rua conseguisse um bem tão básico como água potável. E que existissem pessoas que negassem um copo de água para eles. Copo de água não se nega, gente!

A reportagem da Juliana ainda vai além, ao mostrar que, se fôssemos seguir a cartilha do prefeito Marcio Lacerda, os moradores de rua estariam lascados, porque o número de vagas em albergues só dá conta de receber metade deles. Pra piorar, os moradores de rua sofrem com uma prática absurda, cometida por agentes públicos: têm seus poucos bens (como cobertores e até remédios) confiscados, numa tentativa de “higienizar” as ruas. Tipo assim: sem a caixa de papelão e o cobertor, ele terá de sair daqui! Mesmo após decisão judicial proibindo a prática, em julho de 2013, vi o problema se repetir um ano depois. Então, não duvido que continue acontecendo até hoje.

Vale lembrar que, se os moradores de rua recebem o devido apoio, podem voltar a ser “humanos” como qualquer um de nós, com todos os potenciais que temos. Lembram do caso da fada madrinha que tirou o poeta Raimundo das ruas? Levou 18 anos, mas aconteceu.

Helena Pereira, ex-moradora de rua de BH, hoje trabalha para ser fada madrinha dos atuais homens e mulheres nesta situação degradante. O vídeo contando sua história é a cereja do bolo da reportagem de Juliana, com imagens de Leo Fontes:

“Eles às vezes nem água têm. E a gente tem isso tudo: teto, cobertor…”

Pois é, dona Helena 😦

Leia também:

faceblogttblog

Copa começa com revolta e festa

Foto: leo Fontes / O Tempo - 2.6.2010 (antes de os barraqueiros deixarem o Mineirão)

Foto: leo Fontes / O Tempo – 2.6.2010 (antes de os barraqueiros deixarem o Mineirão)

A avenida Amazonas é um dos principais corredores da cidade. Em cada semáforo dela (e são muitos os semáforos!), sempre vejo um vendedor ambulante, geralmente oferecendo água e pipoca doce. Já escrevi sobre eles, pois já fui salva por alguns, nos dias de mais calor.

Pois ontem, quando eu passava por ali, vi um verdadeiro aparato em volta de dois desses ambulantes: policiais militares, guardas municipais e funcionária da prefeitura, de pranchetinha em punho.

“É por isso que as pessoas se revoltam! Eles precisam trabalhar! Por que não deixam eles terem o ganha-pão deles? Não estão roubando!”, ouvi de minha carona, moradora de Ibirité, furiosa, enquanto observava um dos ambulantes ser levado pelo guarda municipal, carregando dois sacões quase do tamanho dele, cheios de pipoca.

Pode-se argumentar que eles não recolhem imposto, e que o trabalho informal não é o ideal nem para os próprios trabalhadores. Mas não se discute que é o ganha-pão deles — e sou mil vezes mais favorável ao vendedor de água no dia de sol quente (um trabalho no mínimo lógico) do que ao flanelinha, que já ganhou até uniforme da prefeitura para “tomar conta” dos carros estacionados.

Independente dessa discussão, uma coisa é certa: eles nunca foram incomodados antes, e agora a ânsia para tirá-los das ruas, com a chegada da Copa do Mundo, é visível.

***

Ontem mesmo vi com preocupação outra notícia, de mesmo caráter higienista: moradores de rua foram abordados por policiais e funcionários da prefeitura pela manhã e — mais grave — tiveram seus bens recolhidos, segundo relataram. Não custa lembrar que abordar uma pessoa que mora na rua, para oferecer que ela vá ao abrigo, é uma medida correta e corriqueira, mas é ilegal forçar a retirada, coagir com o uso policial e, principalmente, recolher bens pessoais dessa pessoa.

E fica aquela pulga atrás da orelha: fizeram isso respaldados por um decreto de dezembro do ano passado, às vésperas da Copa, na Savassi, região turística e “nobre” da cidade… Sei.

***

Não bastasse a coincidência, foi também ontem que uma rádio da cidade noticiou que pipoqueiros estão sendo retirados das calçadas. Calma lá, não mexam com os pipoqueiros! Nesse caso, o respaldo é de uma lei de 2010, promulgada pelo já prefeito Marcio Lacerda (PSB), que proíbe trabalhador com veículo de tração humana se estiver em calçada. É claro que a lei não pegou, os pipoqueiros, organizados em sindicato desde 1956, resistiram, mas agora estão sendo removidos de novo, às vésperas da Copa.

***

Vale lembrar que esse problema com os ambulantes não é de hoje. Os primeiros afetados foram os barraqueiros do entorno do Mineirão, que foram removidos de lá em 2010, quando começou a reforma no estádio, para a Copa. Só que o Mineirão foi inaugurado em dezembro de 2012, teve seu primeiro jogo em fevereiro do ano passado — e nada de os barraqueiros voltarem.

Nem precisa dizer que o público lamentou a perda dos tradicionais tropeirões e pães com pernil, vendidos ali. E a prefeitura não buscou uma solução clássica, como a demarcação do lugar das barracas, distribuição de uniforme (como fez com os flanelinhas) e recolhimento de imposto. Tivesse buscado, todos ficariam felizes.

Os cerca de 150 homens e mulheres simplesmente seguiram fora do lugar onde costumavam trabalhar havia mais de 50 anos.

A solução apresentada — também nesta semana, veja só outra coincidência! — foi que retomassem seu posto na área externa do Mineirão — mas só depois da Copa. Quer faturar com comida típica mineira no evento da Fifa, onde milhares de pessoas vão circular? Não pode! Depois da Copa, bem, a gente conversa.

E assim começamos a Copa nesta quinta-feira: com parte do povão varrida pra debaixo do tapete, pra inglês não ver. “Por isso o povo protesta!”, ouço a voz daquela minha carona. Por falar nisso, nada menos que 7.200 pessoas (enquanto escrevo) confirmaram presença no protesto de Beagá, ao meio-dia de hoje. Bom, não exatamente um protesto, mas uma festa, com direito a quadrilha junina e pelada.

No fim das contas, tenho pra mim que tudo será mesmo uma festa, e haverá mais festa do que revolta. E acho que talvez assim seja melhor. Afinal, depois de tanto ralar, o brasileiro merece se divertir. Seja ele o que vai jogar uma pelada no “protesto” da Praça Sete, o que vai dar um jeito de vender água em outros semáforos calorentos e faturar com a cidade cheia, ou o que, ainda em luta para voltar a trabalhar onde sempre trabalhou, e prejudicado pela Copa, vai espairecer se reunindo com os amigos para torcer pela Seleção.

***

P.S. Chegaram a fazer um abaixo-assinado para que os barraqueiros do Mineirão voltem ao lugar a tempo da Copa. Mas esse abaixo-assinado foi muito tardio e dificilmente vai atingir o número de assinaturas que pretende, a tempo da estreia do Mineirão no sábado. De qualquer forma, se quiser assinar, pode CLICAR AQUI.

P.S.S. Enquanto escrevo este post, escuto fogos de artifício estourando na minha janela há vários minutos. E não me canso de pensar: vai Victor!, vai Jô!, vai Bernard! 😀

Adendo às 12h: O post acima foi escrito pensando em Beagá. Em São Paulo, como sempre, a confusão está sendo muito maior. Vejo a transmissão ao vivo na TV e o que vejo é uma guerra, em pelo menos três pontos diferentes de São Paulo. PM usando bombas de gás, black blocs arrancando placas de sinalização e ao menos 5 feridos (enquanto escrevo), sendo 3 jornalistas.

Quem são nossos moradores de rua? – parte 2

Não encontrei quem é o autor da foto.

Não encontrei quem é o autor da foto.

Já contei aqui no blog como a Lei de Acesso à Informação ainda vem sendo paulatinamente descumprida por governos e prefeituras (falei da minha experiência com a BHTrans e com a Polícia Militar mineira). Isso foi até assunto de um debate e uma roda de conversa na última terça-feira, da qual participei. Mas também tive uma experiência boa aqui em Beagá, que gostaria de compartilhar desta vez.

No começo de maio, relatei aqui alguns aspectos do Terceiro Censo da População em Situação de Rua de Belo Horizonte, que tinha sido divulgado na íntegra no site da Secretaria Municipais de Políticas Sociais. Mas também comentei que as duas versões anteriores do censo não podiam ser encontradas em nenhum lugar e que, por isso, ficava difícil traçar uma comparação entre a situação de 1998, de 2005 e de 2013. Cheguei a ser procurada por alguns pesquisadores/acadêmicos que estudam o assunto e que também precisavam dos documentos de interesse público.

Pois bem: no dia 12 de maio, resolvi pedir os dois outros censos por meio da Lei de Acesso à Informação. Recebi uma resposta, no dia 30 — dentro do prazo legal, portanto –, dizendo que eles estariam à minha disposição lá no gabinete da secretaria, que bastava eu agendar um horário e ir buscar os documentos.

Na última segunda-feira, fui lá para a secretaria, na rua Espírito Santo, 505, no Centro de BH. Recebi um xerox do primeiro censo, que estava guardado para mim, e pude fotografar o livro do segundo censo (único exemplar que a secretaria tinha!). Tcharam: lei cumprida! (E não doeu, né?)

Assim, fotografei 175 das pouco mais de 200 páginas do livro (deixei de fora só algumas partes da introdução e uns anexos finais), e depois escaneei todas as 75 páginas do xerox, para fazer o que, no meu entendimento, a prefeitura deveria se empenhar para fazer por conta própria: tornar público e acessível para qualquer um que quiser ver o documento, e por meio da web. Inclusive enviei os documentos digitalizados para o gabinete, para o caso de decidirem publicá-los no site da prefeitura.

Serviço pronto, vou deixar na Biblioteca do blog e aqui neste post, para quem se interessar:

[Peço desculpas por algumas páginas que ficaram um pouco desfocadas, mas é que tive que fazer as fotos na correria.]


Antes de deixar vocês se debruçarem à vontade sobre um assunto tão importante, seguem quatro observações rápidas:

DEZ ANOS NAS RUAS – Um dado preocupante, que não existia no terceiro censo, era o tempo de permanência dessas pessoas nas ruas. Uma semana? Um mês? Um ano? Isso faz toda a diferença. E, segundo o primeiro censo, a maioria dos entrevistados (27%) estava nas ruas/viadutos/abrigos, naquele 1998, havia mais de cinco anos! 22% do total estavam havia menos de seis meses. E 19%, de 1 a 5 anos. Sete anos depois, em 2005, 29% estavam nas ruas havia 1 a 5 anos, 22% estavam por mais de 10 anos (!!!), e 16% estavam nas ruas por 5 a 10 anos.

CRIANÇAS MUITO PEQUENAS – Outro dado importante daquele levantamento foi o detalhamento da situação das crianças e adolescentes nas ruas. Das 204 entrevistadas, a maioria (46%), tinha apenas de 7 a 10 anos de idade! Pelo menos um terço delas não frequentava a escola.

VIVENDO DE BICO – No segundo censo, outros dados importantes que eu não tinha visto antes: 49,9% dos moradores de rua entrevistados sobrevivem com menos de 1 salário mínimo.

HIERARQUIA DOS SONHOS – Outra questão interessante foi quando perguntados sobre qual o seu “maior desejo”: 35% responderam moradia; 28%, trabalho/emprego; 17%, reconstrução de laços familiares; e 11,6%, saída da rua.

Leia também: