Natal no pé de amora

Um dos motivos que me motivaram a entrar nesta vida maluca do jornalismo foi a possibilidade de ouvir e transmitir boas histórias. Contar causos, eis a primeira função do repórter. Se eles vão derrubar ministros ou apenas emocionar e provocar reflexões no leitor, para mim é uma questão secundária.

Quando uma boa história cai no meu colo, não sossego até apurar tudinho e escrever o texto que transmita com maior riqueza de detalhes possível aquela história. Foi o que aconteceu quando soube que uma moradora de rua tinha tido seu bebê debaixo de um pé de amora, numa calçada do nobre bairro Santo Antônio.

Na mesma noite em que ouvi esta história pela primeira vez, entrei em contato com a fonte para pegar mais informações. Não consegui nem dormir. Nos dias seguintes, fui correndo atrás e descobrindo todos os detalhes que pude sobre o episódio. Até a velocidade do vento naquele horário específico em que a pequena bebezinha veio ao mundo, sem qualquer apoio médico ou hospitalar, me interessava. Contei com a ajuda da excelente repórter Rafaela Matias para buscar informações sobre as mulheres em situação de rua na capital.

Meus pais, que tinham ouvido a história antes de mim e se emocionaram com ela, ficaram satisfeitos com a reportagem final. Isso pra mim foi um termômetro importante. Por isso, resolvi recomendar a todos a leitura, como já fiz em outras ocasiões 😉

CLIQUE AQUI para ler o “Natal no Pé de Amora”.

 

Foto: NIDIN SANCHES / Revista Canguru

Foto: NIDIN SANCHES / Revista Canguru

P.S. Que tal aproveitar o espírito natalino para praticar o bem, e ajudar crianças (e adultos) de rua ou outras pessoas em situação de vulnerabilidade? Veja AQUI 10 instituições de confiança, que estão arrecadando doações para fazer a alegria dessas pessoas no Natal.

Leia também:

Anúncios

Quem são nossos moradores de rua?

Não encontrei quem é o autor da foto.

Não encontrei quem é o autor da foto.

Na semana passada, a prefeitura de Belo Horizonte divulgou um estudo muito importante: o terceiro Censo da População em Situação de Rua na cidade. Falhou, no entanto, ao não divulgar, nem disponibilizar em seu site, os dois censos que tinham sido feitos anteriormente, para que pudéssemos ver um panorama histórico desse problema.

Este blog solicitou os dois censos na última sexta-feira, mas a Secretaria de Políticas Sociais informou que eles não são fáceis de encontrar e só poderia nos enviar a partir desta segunda-feira. Como amanhã entro de férias (:D), resolvi buscar ajuda no incansável Google e encontrei um estudo da UFMG que traz alguns dos dados que eu queria. Pode ser lido AQUI.

Eu sempre fui fascinada com o assunto “moradores de rua”, e vira e mexe ele é abordado aqui no blog (veja longa lista ao pé do post). Mexe muito comigo ver uma pessoa dormindo no chão, ao relento, se aquecendo com caixas de papelão, pedindo ajuda para comer e tomar água. Lá em São Paulo, me impressionava demais a quantidade de moradores de rua, de usuários de crack e de crianças pequenas, magrelas, que eu via estendidos no chão perto do bairro em que eu morava — Santa Cecília — como se fossem mortos. Às vezes as crianças estavam tão apagadas que ficavam fervendo no sol de meio-dia, com mosquitos no rosto e pés passando sobre elas, e nem assim acordavam. Também já contei aqui como fiquei “amiga” dos moradores de rua que ficavam na praça onde eu ia fazer caminhada e como me sentia segura com eles por perto, para me proteger de bandidos. Já interceptei muito guarda municipal que ia lá mexer com eles, como se estivessem cometendo um crime. Não, ficar na rua, dormir e morar na rua, não são crimes. São tragédias humanas e sociais, mas não crimes.

Seja como for, acho importantíssimo esse censo, essa tentativa de conhecer os anônimos que não têm endereço fixo, mas que precisam mais do que muitos da ajuda do Estado e das pessoas devidamente endereçadas. É uma forma de tirá-los da invisibilidade. Acho que todo mundo deveria se debruçar sobre os dados divulgados pela prefeitura para tentar entender quem são essas pessoas. E o Estado, mais do que ninguém, para desenvolver políticas sociais melhores.

Eu me debrucei. O arquivo pode ser baixado por quem quiser, basta clicar AQUI.

O primeiro dado impressionante é como a quantidade de pessoas nas ruas aumentou em Belo Horizonte. Em 1998, segundo aquele estudo da UFMG que citei mais acima, havia 1.120 moradores de rua. Em 2005, sete anos depois, havia 1.239 (um aumento de 10%). E agora, em 2013, oito anos depois, havia 1.827 (um aumento de 47% em oito anos e de 63% em 15 anos).

Quem são esses 1.827 moradores de rua em Beagá?

Segue um perfil, a partir dos dados majoritários: eles são homens (86%), têm principalmente entre 31 e 45 anos, são negros e pardos (79,4%), heterossexuais (93,7%), sabem ler e escrever (82%), são mineiros (75%) e principalmente de BH ou de cidades próximas. Os que vieram de outras cidades queriam encontrar um trabalho (47%) e permaneceram justamente para trabalhar (31%), 46% já passaram por abrigos e 40% já estiveram presos, 52% foram parar nas ruas por problemas familiares e 43,9%, também por causa do alcoolismo (36% também por falta de moradia). Moram sozinhos nas ruas, sem grupo, parente ou companheiro (64%), nunca se encontram com os parentes (39%). Já trabalharam fichados, mas não no momento (70%), hoje trabalham principalmente com coleta de recicláveis. Já sofreram roubo, furto, preconceito, ameaça, tentativa de homicídio, remoção forçada, violência sexual e outros crimes violentos, e os crimes foram cometidos principalmente por agentes públicos (44%) ou por outros moradores de rua (43%), querem sair das ruas (94%), utilizam as unidades de acolhimento da prefeitura (46%), possuem algum documento (78%) — e 48% têm título de eleitor, viu candidatos? 31% recebem Bolsa Família e só minorias de 1% a 3% recebem outro tipo de benefício, como seguro-desemprego e aposentadoria. Têm principalmente hipertensão (16%) e doenças de pele (14%), 13% têm alguma deficiência física e 5% têm algum transtorno mental — 43% têm depressão. 48% não usam drogas, mas 32% usam crack, 69% bebem, dos quais metade bebe todos os dias. Ficam principalmente na região Centro-Sul da cidade (44,8%).

Destaquei em negrito os dados que mais me impressionaram e acho que merecem mais atenção.

Um dado me chamou a atenção positivamente, principalmente por atestar em números uma percepção que eu já tinha: em 1998, havia 204 menores de idade nas ruas, ou seja, crianças e adolescentes. Eram os meninos de rua, que chamávamos de “pivetes”, e eram muito-muito comuns em Belo Horizonte. Em 2005, o número de menores de idade caiu para 75. E, em 2013, havia só 13 crianças e adolescentes nas ruas, segundo a constatação do censo. A população de rua envelheceu ou as crianças estão ficando mais no banco da escola? Acho que um pouco das duas coisas, e parte da segunda podemos colocar na conta do Bolsa Família, que tem a importante exigência de obrigar as crianças a terem frequência escolar para que o benefício seja concedido aos pais.

Apesar desse dado positivo, podemos concluir que nossos moradores de rua estão adoentados, sofrem cotidianas formas de violência, dependem de subemprego para tocar a vida (muito mais que de bolsas e demais benefícios), são solitários, usam drogas e álcool com frequência para tolerar esta vida, não param de crescer e, sobretudo, esmagadoramente: quase todos querem sair das ruas (94%, poxa!).

Eles se concentram na região mais rica da cidade, a Centro-Sul, não por acaso: contam com a solidariedade dos mais afortunados, com suas doações e esmolas, com ajuda dos comerciantes e donos de bares e restaurantes. Que tal retribuirmos esse voto de confiança?

ADENDO de 6/6/2014: Consegui obter os outros dois censos, CLIQUE AQUI para ler 😉

Leia também:

Segunda-feira cinza

Ontem desejei um domingo colorido a todos.

Hoje, acordamos de novo para a realidade cinza.

E eis aí um pequeno choque de realidade para você, confortavelmente instalado em sua poltrona da mesa do computador (ou acessando este blog de um iphone, ipad ou outro brinquedo caro desses):

Foto de Oliveiro Pluviano mostra meninos de rua numa manhã de inverno tentando se aquecer nos respiradores com ar quente do metrô em São Paulo. (Foto tirada do Facebook de Padre Julio Lancellotti: https://www.facebook.com/PeJulioLancellotti)

Não nos esqueçamos nem deixemos que essas crianças — crianças! — se tornem invisíveis para nós.

Leia também:

A noite em que conheci Washington

Cruzei com Washington nesta noite, numa esquina deserta e escura, enquanto ele fuxicava nos sacos de lixo do poste e eu andava com meus passos rápidos de sempre, olhando para o chão.

— Tia, me dá um trocado?

Me virei e olhei bem para ele. Esmirradinho, bem magro, pele negra, cabelo já precisando de um corte, quase-blackpower. Não retribuía o olhar.

— Estou sem dinheiro… Está com fome? O que estava mexendo lá no lixo?

— Tava procurando latinha — disse, olhando para uma sacolinha com uma latinha que estava em suas mãos. Ele me acompanhava, mancando.

— Por que está mancando? Machucou o pé?

Descalço, reparei enfim.

— Me mostra seu pé. Vira ele.

Virou, parecia que tinha algo encravado debaixo do dedão de um deles.

— Tem que cuidar desse pé aí… Tenho cartão aqui, quer que te pague um espetinho ali da esquina?

Não respondeu (ou não ouvi. Ele tinha algum problema de dicção, ou falava muito baixo para meus ouvidos surdos).

Segui meu caminho.

Ele me alcançou na faixa de pedestres.

— Tia, compra um guaraná pra mim então?

O guaraná vinha com a latinha de brinde, pensei.

Perguntei ao dono do espetinho se aceitava cartão. Negativa.

— Lá perto do metrô tem loja que aceita — disse ele.

Fomos juntos. Só nós dois, por aqueles cinco quarteirões.

Aproveitei a chance para interrogá-lo.

— Quantos anos tem?

— Dez.

— E você mora onde?

— Moro na rua.

— Há quanto tempo?

— Três meses.

— Alguém cuida de você?

— Sim.

— Um adulto?

— Fico com deus.

— Hummm… Por que está nas ruas?

— Minha mãe morreu.

— Não tem outros parentes?

Ele fez um gesto evasivo com as mãos, como se afastasse uma mosca.

— Alguém já te ofereceu ajuda? A prefeitura?

— Estão procurando um lugar pra eu ficar… Lá na igreja.

— Qual igreja?

— Deus é amor. No Glicério.

Chegamos ao supermercado. Meu maior objetivo era achar um chinelo para ele.

Entramos. Ele já viu a arara com as havaianas, foi direto para lá, sempre mancando.

Enquanto experimentava uma delas, enorme, meu celular tocou. Meu amigo.

— O que está fazendo com esse chinelo, moleque? — ouvi o pito, assustada. Um homenzarrão estava ao nosso lado, olhar duro para Washington.

Fui obrigada a interromper a ligação.

— Ele está experimentando o chinelo.

O homem olhou para mim, meio sem graça (espero que com vergonha), “ah, está com a senhora”, foi embora.

Escolhemos o 39. Washington tem um pé grande, para a estatura. Será que tem só dez anos mesmo?

— Tia, eu também queria um ovo de páscoa.

Sorri. Era Páscoa, até outro dia mesmo. Será que o homenzarrão era cristão?

Mas acabaram todos os ovos de páscoa. Fomos atrás de uma caixa de bombons.

Já na fila, ele não se conteve:

— Posso também pegar um sorvete?

Ele não pediu um pão, uma caixa de leite, um pacote de macarrão, frutas e verduras. É legítima criança, com os desejos que toda criança do universo tem. Isso me alegrou, por um momento.

Lá foi ele mancando, ainda descalço (esqueci de entregar o chinelo), em direção aos gelados.

Passei no caixa, primeiro os chinelos, para ele finalmente aliviar os pés doídos.

Ele pediu uma sacolinha para levar a caixa de bombons e o sorvete.

— Não tem mais — disse a moça do caixa. Ele não sabia; acho que ele não costuma frequentar supermercados.

Ajuntou os dois potes no corpo, um sobre o outro, e finalmente olhou nos meus olhos.

— Obrigada! — nos cumprimentamos com as mãos, naquele gesto de quem acaba de comemorar um ponto num torneio de duplas. O aperto de mão foi firme. E ele foi embora, enquanto eu digitava a senha do cartão.

— Parabéns pelo seu gesto –, disse a moça do caixa.

Nessa hora, finalmente me entristeço (antes tarde do que nunca). Me dou conta de que Washington existe, naquelas condições, e que ele vai continuar daquele jeito, nas ruas, até sabe-se lá como ou quando alguém o salvar. Percebo que os chinelos dificilmente vão durar com ele. Tenho medo de ele ser usuário de crack e trocar aquelas três coisas por um cachimbo, que hoje é R$ 5 (daria seis pedras ao todo…). Ou de ser atacado, roubado, maltratado ainda mais. Adivinho toda a vida dele até então e o que o levou às ruas (com aquele gesto evasivo de quem mata moscas) e que esse mesmo motivo o torna incapaz de perceber que, naqueles 15 minutos de convivência, senti bastante ternura por ele (algo que não sei há quanto tempo ele não recebe de ninguém). Cai minha ficha: para ele, sou apenas mais uma privilegiada, dona de um cartão e de um celular, que comprou aqueles três itens para ficar de bem com minha consciência rasa e receber um elogio da moça do caixa.

Vou atrás dele, meio sem saber o que dizer, tímida: te cuida, Washington! Vai mesmo lá para a igreja, viu? Não ande descalço nas ruas… Fica bem.

Ele, já desinteressado, tom de despedida:

— Fica com deus, tia.

Só rezo para que tenha uma colher e, pelo menos, tome bastante daquele sorvete, nesta noite quente.

O fim do mundo e a menina de 14 anos

Desconheço autor da foto.

Já contei duas vezes aqui histórias que ouvi de taxistas falantes.

Muito boas.

Hoje ouvi mais uma, bem triste.

Disse ele:

— Outro dia estava com uma passageira que me mostrou a foto da filha dela. Tinha 14 anos de idade. Ela estava triste, disse que sem dormir há vários dias, porque não via a filha há semanas. A menina estava viciada em drogas desde os 9. Ela falou que tinha outros três rapazes, mas nenhum deles nunca tinha se envolvido com drogas. Perguntei: “E como deixou acontecer isso com a caçula?” E ela: “Não sei, minha filha vivia nas ruas brincando, quando me dei conta, ela já tinha sumido. Ficou mais de um ano sem aparecer, usando drogas. Depois reapareceu, mas aí sumia de novo de tempos em tempos.” Ela não sabia mais o que fazer com a criança. Com 14 anos, vê se pode!

Lembrei da “gangue das meninas“. Suspirei.

O mundo está prestes a acabar mesmo.

***

(Aliás, hoje caiu uma pauta no meu colo justamente sobre o fim do mundo. Em breve será publicada, então continuem lendo os jornais ;))