A noite em que conheci Washington

Cruzei com Washington nesta noite, numa esquina deserta e escura, enquanto ele fuxicava nos sacos de lixo do poste e eu andava com meus passos rápidos de sempre, olhando para o chão.

— Tia, me dá um trocado?

Me virei e olhei bem para ele. Esmirradinho, bem magro, pele negra, cabelo já precisando de um corte, quase-blackpower. Não retribuía o olhar.

— Estou sem dinheiro… Está com fome? O que estava mexendo lá no lixo?

— Tava procurando latinha — disse, olhando para uma sacolinha com uma latinha que estava em suas mãos. Ele me acompanhava, mancando.

— Por que está mancando? Machucou o pé?

Descalço, reparei enfim.

— Me mostra seu pé. Vira ele.

Virou, parecia que tinha algo encravado debaixo do dedão de um deles.

— Tem que cuidar desse pé aí… Tenho cartão aqui, quer que te pague um espetinho ali da esquina?

Não respondeu (ou não ouvi. Ele tinha algum problema de dicção, ou falava muito baixo para meus ouvidos surdos).

Segui meu caminho.

Ele me alcançou na faixa de pedestres.

— Tia, compra um guaraná pra mim então?

O guaraná vinha com a latinha de brinde, pensei.

Perguntei ao dono do espetinho se aceitava cartão. Negativa.

— Lá perto do metrô tem loja que aceita — disse ele.

Fomos juntos. Só nós dois, por aqueles cinco quarteirões.

Aproveitei a chance para interrogá-lo.

— Quantos anos tem?

— Dez.

— E você mora onde?

— Moro na rua.

— Há quanto tempo?

— Três meses.

— Alguém cuida de você?

— Sim.

— Um adulto?

— Fico com deus.

— Hummm… Por que está nas ruas?

— Minha mãe morreu.

— Não tem outros parentes?

Ele fez um gesto evasivo com as mãos, como se afastasse uma mosca.

— Alguém já te ofereceu ajuda? A prefeitura?

— Estão procurando um lugar pra eu ficar… Lá na igreja.

— Qual igreja?

— Deus é amor. No Glicério.

Chegamos ao supermercado. Meu maior objetivo era achar um chinelo para ele.

Entramos. Ele já viu a arara com as havaianas, foi direto para lá, sempre mancando.

Enquanto experimentava uma delas, enorme, meu celular tocou. Meu amigo.

— O que está fazendo com esse chinelo, moleque? — ouvi o pito, assustada. Um homenzarrão estava ao nosso lado, olhar duro para Washington.

Fui obrigada a interromper a ligação.

— Ele está experimentando o chinelo.

O homem olhou para mim, meio sem graça (espero que com vergonha), “ah, está com a senhora”, foi embora.

Escolhemos o 39. Washington tem um pé grande, para a estatura. Será que tem só dez anos mesmo?

— Tia, eu também queria um ovo de páscoa.

Sorri. Era Páscoa, até outro dia mesmo. Será que o homenzarrão era cristão?

Mas acabaram todos os ovos de páscoa. Fomos atrás de uma caixa de bombons.

Já na fila, ele não se conteve:

— Posso também pegar um sorvete?

Ele não pediu um pão, uma caixa de leite, um pacote de macarrão, frutas e verduras. É legítima criança, com os desejos que toda criança do universo tem. Isso me alegrou, por um momento.

Lá foi ele mancando, ainda descalço (esqueci de entregar o chinelo), em direção aos gelados.

Passei no caixa, primeiro os chinelos, para ele finalmente aliviar os pés doídos.

Ele pediu uma sacolinha para levar a caixa de bombons e o sorvete.

— Não tem mais — disse a moça do caixa. Ele não sabia; acho que ele não costuma frequentar supermercados.

Ajuntou os dois potes no corpo, um sobre o outro, e finalmente olhou nos meus olhos.

— Obrigada! — nos cumprimentamos com as mãos, naquele gesto de quem acaba de comemorar um ponto num torneio de duplas. O aperto de mão foi firme. E ele foi embora, enquanto eu digitava a senha do cartão.

— Parabéns pelo seu gesto –, disse a moça do caixa.

Nessa hora, finalmente me entristeço (antes tarde do que nunca). Me dou conta de que Washington existe, naquelas condições, e que ele vai continuar daquele jeito, nas ruas, até sabe-se lá como ou quando alguém o salvar. Percebo que os chinelos dificilmente vão durar com ele. Tenho medo de ele ser usuário de crack e trocar aquelas três coisas por um cachimbo, que hoje é R$ 5 (daria seis pedras ao todo…). Ou de ser atacado, roubado, maltratado ainda mais. Adivinho toda a vida dele até então e o que o levou às ruas (com aquele gesto evasivo de quem mata moscas) e que esse mesmo motivo o torna incapaz de perceber que, naqueles 15 minutos de convivência, senti bastante ternura por ele (algo que não sei há quanto tempo ele não recebe de ninguém). Cai minha ficha: para ele, sou apenas mais uma privilegiada, dona de um cartão e de um celular, que comprou aqueles três itens para ficar de bem com minha consciência rasa e receber um elogio da moça do caixa.

Vou atrás dele, meio sem saber o que dizer, tímida: te cuida, Washington! Vai mesmo lá para a igreja, viu? Não ande descalço nas ruas… Fica bem.

Ele, já desinteressado, tom de despedida:

— Fica com deus, tia.

Só rezo para que tenha uma colher e, pelo menos, tome bastante daquele sorvete, nesta noite quente.

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12 comentários sobre “A noite em que conheci Washington

  1. Poxa! Foi um lindo gesto mesmo…
    Essa situação dos vários Washingtons que tem por aí deveria preocupar muito mais a sociedade do que todo o resto que a gente ver por aí! Isso é muito triste!
    Boa noite KikaCris!

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  2. É estranha a sensação quando a gente convive com essa realidade longe da nossa, mesmo estando ao lado. Aquela confusão de tentar fazer alguma coisa mas saber que nossa ajuda é às vezes tão pontual… tão passageira. Pelo menos são boas cutucadas na nossa indiferença.

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  3. incrível texto guria…incrível gesto (sei q não foi raso)…me emocionou de fato, posso dizer q chorei feito criança…parabéns…espero em breve poder ter atitudes como essa 🙂

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  4. Bonito gesto…é realmente uma pena ver tanta criança faminta e maltrapilha andando perdida por ai… Sua ajuda com certeza aqueceu o coração do pobre Washington por algum tempo.. mas bom mesmo seria se o governo e a sociedade em geral pudesse interferir de forma duradoura e permanente
    .

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  5. E pensar que os pais deram-lhe o nome de Washington… Não nasceu para ser gauche na vida, um zé qualquer. Mas, como se diz que existe uma universidade da rua, quem sabe ele ainda venha a fazer jus ao nome. Não seria o primeiro. A literatura está cheia de exemplos, e dizem também que ela imita a vida.
    Parabéns pelo texto e pelos bons sentimentos, Cris.

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