Gostim de infância

Só hoje descobri que a música “Kataí”, que minha mãe me ensinou a cantar quando eu ainda era uma criança, foi um “estouro”, um sucesso nas paradas dos anos 60.

Eu achava que era só um trava-línguas, tipo cantiga de roda, sem autor específico, que nunca nem sequer tinha sido gravada.

Hoje, ao ler uma ótima história sobre um cantor de ópera frustrado, descobri que seu pai era o compositor desse clássico de letra tão inocente:

“Fui certa vez à casa de um japonês. E o japonês tacou cigarro no chão. A japonesa começou a ameaçar. E o japonês quis pôr a bomba em minha mão e disse então: ‘Cataí cataí cata cataí, cataí cataí, cata cata já’. ‘Tu me manda catar? Tu me manda catar, japão? Cataí tu, que tu que tacou no chão!'”

E então descobri que Moacyr Franco foi quem celebrizou a canção, em disco de 1964, numa versão altamente psicodélica e engraçada, cheia de risadas abafadas pelo cantor. Achei demais, parece até Mutantes! Divirtam-se:

(E ensinem esta música a seus filhos também. Eles vão adorar! :D)

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“Serra não votaria nele de jeito nenhum”

Foto: revista piauí

A pesquisa Datafolha divulgada hoje, uma semana após o início da propaganda eleitoral na televisão, mostra que minha pequena análise destas eleições feita na quinta passada tende a se confirmar.

Serra (PSDB) despencou cinco pontos percentuais e seu índice de rejeição cresceu também cinco pontos, chegando a impressionantes 43%. Seu tempo de TV foi insuficiente para melhorar seu quadro, o que mostra que ele talvez já tenha atingido um teto, ainda mais se considerar que tanta gente diz não votar nele de jeito nenhum. Acho que ele se queimou muito na cidade por ter se elegido prefeito com a promessa de não abandonar o barco e depois ter deixado a cidade com o desaprovadíssimo Kassab (PSD) para ser governador.

Russomanno (PRB) estagnou na liderança dos 31%, o que mostra que seu pequeno tempo de TV vai tornar difícil a intenção dele de atrair mais eleitores e talvez ele também tenha atingido seu teto. Já Haddad (PT) subiu de 8% para 14%, o que confirma que a grande aparição, ao lado de padrinhos fortes, provavelmente vai fazer ele dar uma guinada, assim como aconteceu com Marcio Lacerda (PSB) em Beagá em 2008, que muito provavelmente vai se reeleger neste ano.

E assim, não duvido, não duvido mesmo, que Serra talvez nem sequer dispute o segundo turno. O que seria algo inédito em uma São Paulo tão tucana*.

Como não tenho mais nada a falar sobre esse assunto, deixo vocês com o texto bem-humoradíssimo da revista “piauí”:

Serra não votaria nele de jeito nenhum” 😀

 

* Bom, nem tão inédito assim, como mostra o ótimo comentário de um leitor, abaixo.

Pau que bate em Chico bate em…

Texto escrito por José de Souza Castro:

Muito bom o artigo do veterano jornalista Alberto Dines publicado hoje no Observatório da Imprensa sobre o julgamento, pelo Supremo, do ex-presidente da Câmara dos Deputados João Paulo Cunha, do PT paulista. Melhor ainda, porque ele refresca nossa memória ao republicar dois artigos escritos em 2005 e 2006, nos quais criticou não apenas o comportamento do político que torrou o dinheiro do contribuinte fazendo anúncios em louvor da Câmara, mas sobretudo da imprensa, que se locupletou em silêncio.

O primeiro artigo foi escrito em 15 de fevereiro de 2005, antes da eclosão do escândalo do Mensalão e no dia em que Cunha se despedia da presidência da Câmara. Trecho:

“O deputado foi, sem dúvida, um inovador. Sobre isso não há menor dúvida. No pior sentido da palavra. A sua participação numa mensagem promocional da Rede Globo e a custosa campanha de publicidade nos principais veículos do país para resgatar a péssima imagem da Câmara sob a sua gestão são inéditos. Inéditos e vexatórios. Na história republicana não há muitos exemplos desse tipo de populismo institucional.

O organismo mais representativo da sociedade brasileira não pode comprar espaço na mídia para mostrar que é responsável e está à altura de suas atribuições. Se precisa valer-se deste artifício promocional é porque falhou redondamente.”

No segundo, de 9 de agosto de 2006, quando João Paulo seria julgado pela Comissão de Ética da Câmara – e absolvido – Dines afirma que o contrato irregular com uma agência de Marcos Valério, no valor de R$ 9 milhões, destinava-se àquela campanha publicitária. E acusa:

“O grande ilícito é justamente esse que a grande imprensa teima em não lembrar. Onde já se viu gastar o dinheiro do contribuinte para prestigiar um poder da República e, ainda por cima, tão desprestigiado? (…) A mídia é cúmplice de João Paulo Cunha. Ela veiculou propaganda enganosa e calou diante de uma gritante irregularidade que envergonha qualquer República. Alguém deve pagar por isso – o corruptor ou o corrompido”.

No artigo de hoje, Dines volta a bater na imprensa:

“E por que razão a evidente imoralidade e escancarada falta de ética escaparam do escrutínio e da sagacidade de nossos opinionistas? Simplesmente porque nossa mídia não costuma rejeitar anúncios, reclames, nem questionar os seus termos. É uma das bases da indústria jornalística: você compra o nosso espaço (ou tempo) e nós veiculamos a sua mensagem. Pagou, levou; à breca os escrúpulos.”

Como se vê, passados sete anos, a imprensa e Dines continuam os mesmos. O leitor decide quem bate melhor.

Mas “eu te amo”

O casal esperava pelo elevador, no hall do prédio.

Ele todo de branco, inclusive os sapatos, ela também. Médicos.

Os dois com aparentes 50 anos de idade. Conversavam animadamente sobre alguma coisa banal do dia de serviço.

Pareciam mais amigos de trabalho do que um casal desgastado por anos de convívio juntos: falavam com aquele tom de voz de quem se gosta e ainda não foi afetado pela rotina, alguém que se esforça para nunca brigar justamente porque o convívio é inevitável, mas também alguém que gosta da companhia do outro para a cervejinha após o expediente, ou — pelo cheiro dos dois — para o intervalo do cigarro na calçada do hospital.

Enfim, como colegas de trabalho, mais do que marido e mulher.

(Ao menos minhas referências de marido e mulher naquela faixa de idade.)

A cumplicidade era também bem maior que a dos casais novinhos, que ainda estão apaixonados e empenhados em fazer tudo dar certo, mas ainda estão se conhecendo sob um mesmo teto.

Para aqueles dois de branco, não há mais novidades. Conhecem-se de cima a baixo, sabem que um solta gases durante a noite e o outro ronca como uma britadeira. Sabem que um mentiu no namoro ao dizer que gostava de ir ao cinema e o outro bebe demais. Sabem que um é irritante ao bazofiar para os amigos e que o outro exagera nas exigências com subalternos ou empregados.

Mas se gostam, passaram por cima de tudo isso, e se falam com aquele tom. Aquele tom de amigos de trabalho, de cúmplices, de quem conta os casos das últimas 12 horas com a maior alegria, de contar e de ouvir em troca.

Percebi tudo isso nos cinco segundos até a chegada do elevador.

Nesse meio-tempo, me perguntei se seriam mesmo marido e mulher. Muito estranho, não pode ser. Devem ser colegas mesmo, ela deve ter vindo à casa dele para aquela cervejinha pós-expediente, vão ouvir uns discos de blues, fofocar e depois ela vai embora.

Mas não. “Você está com a chave de casa?” “Tou sim.” E ela dá um beijo no ombro dele — não sei bem se é um beijo ou se ela só deixa cair o queixo ali, para descansar, como se fosse uma almofada dela, só dela, feita para repousar o queixo dela.

Eles ficam em silêncio durante a subida do elevador, talvez ouvindo todos os meus pensamentos, atentamente. Quando chega meu andar, antes do deles, soltam em uníssono: “Bom descanso.” Não é uma despedida trivial. O normal é as pessoas se despedirem com “boa noite”, com “tchau”. “Bom descanso” é a despedida que aquele casal usa, e ainda usa ao mesmo tempo, no mesmo ritmo, com a mesma entonação. Intimidade.

No último post escrevi sobre problemas da instituição casamento, ao menos depois de alguns anos, ao menos de acordo com minha observação de vida.

Mas ver esses dois médicos de 50 e poucos anos me deu um certo ânimo. Talvez exista felicidade em alguns casamentos. Que esse casal se ame apesar do costume, da rotina, do hábito, da dissonância, da frustração, do desgaste, das tentações externas e dos impulsos.

Eu só queria que todos fossem felizes assim.

“Eu te desamo”

Achei sensacional a coletânea de declarações de desamor (como esta acima) registrada em fotos pela minha amiga de infância Camila Buzelin (dos saudosos tempos do Barão), que hoje é artista plástica em Beagá.

Para completar o trabalho, ela, que também é atriz, filmou uma performance em plena Savassi, que deve ter dado o que falar entre os transeuntes daquele dia: um carro de som, desses com música romântica super brega e apresentador com voz de Celso Portiolli, faz uma declaração pública para uma menina, encomendada pelo namorado dela. Em vez de ser uma declaração de amor, no entanto, trata-se de um término escabroso e humilhante de namoro.

Sintam o drama:

A própria Camila concluiu, após “dois casamentos fracassados”, que é “contra casamentos, mas acha que todos devem experimentar só para terem certeza que é a pior escolha”. (Eu nunca me casei, mas já cheguei a conclusão semelhante.) Por isso, criou o blog Desventuras de uma Descasada, onde, no entanto, se declara como uma “romântica irreparável”.

Haja amor e haja desamor neste mundo! Talvez tudo, no fim das contas, seja só uma questão de sorte 😉