Mas “eu te amo”

O casal esperava pelo elevador, no hall do prédio.

Ele todo de branco, inclusive os sapatos, ela também. Médicos.

Os dois com aparentes 50 anos de idade. Conversavam animadamente sobre alguma coisa banal do dia de serviço.

Pareciam mais amigos de trabalho do que um casal desgastado por anos de convívio juntos: falavam com aquele tom de voz de quem se gosta e ainda não foi afetado pela rotina, alguém que se esforça para nunca brigar justamente porque o convívio é inevitável, mas também alguém que gosta da companhia do outro para a cervejinha após o expediente, ou — pelo cheiro dos dois — para o intervalo do cigarro na calçada do hospital.

Enfim, como colegas de trabalho, mais do que marido e mulher.

(Ao menos minhas referências de marido e mulher naquela faixa de idade.)

A cumplicidade era também bem maior que a dos casais novinhos, que ainda estão apaixonados e empenhados em fazer tudo dar certo, mas ainda estão se conhecendo sob um mesmo teto.

Para aqueles dois de branco, não há mais novidades. Conhecem-se de cima a baixo, sabem que um solta gases durante a noite e o outro ronca como uma britadeira. Sabem que um mentiu no namoro ao dizer que gostava de ir ao cinema e o outro bebe demais. Sabem que um é irritante ao bazofiar para os amigos e que o outro exagera nas exigências com subalternos ou empregados.

Mas se gostam, passaram por cima de tudo isso, e se falam com aquele tom. Aquele tom de amigos de trabalho, de cúmplices, de quem conta os casos das últimas 12 horas com a maior alegria, de contar e de ouvir em troca.

Percebi tudo isso nos cinco segundos até a chegada do elevador.

Nesse meio-tempo, me perguntei se seriam mesmo marido e mulher. Muito estranho, não pode ser. Devem ser colegas mesmo, ela deve ter vindo à casa dele para aquela cervejinha pós-expediente, vão ouvir uns discos de blues, fofocar e depois ela vai embora.

Mas não. “Você está com a chave de casa?” “Tou sim.” E ela dá um beijo no ombro dele — não sei bem se é um beijo ou se ela só deixa cair o queixo ali, para descansar, como se fosse uma almofada dela, só dela, feita para repousar o queixo dela.

Eles ficam em silêncio durante a subida do elevador, talvez ouvindo todos os meus pensamentos, atentamente. Quando chega meu andar, antes do deles, soltam em uníssono: “Bom descanso.” Não é uma despedida trivial. O normal é as pessoas se despedirem com “boa noite”, com “tchau”. “Bom descanso” é a despedida que aquele casal usa, e ainda usa ao mesmo tempo, no mesmo ritmo, com a mesma entonação. Intimidade.

No último post escrevi sobre problemas da instituição casamento, ao menos depois de alguns anos, ao menos de acordo com minha observação de vida.

Mas ver esses dois médicos de 50 e poucos anos me deu um certo ânimo. Talvez exista felicidade em alguns casamentos. Que esse casal se ame apesar do costume, da rotina, do hábito, da dissonância, da frustração, do desgaste, das tentações externas e dos impulsos.

Eu só queria que todos fossem felizes assim.

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