‘O Experimento do Aprisionamento de Stanford’: fraude ou não, um lado sombrio da alma humana

Veja na Netflix: O EXPERIMENTO DE APRISIONAMENTO DE STANFORD (The Stanford Prison Experiment)
Nota 8

Vi este filme há quase uma semana e ele ainda não me saiu da cabeça. Foram 120 minutos de muita agonia, de muitos palavrões disparados contra a tevê e, mais perto do fim, de grande choque. A primeira comparação que me veio à cabeça foi com o filme “A Onda”, que assisti há muitos anos e também me marcou profundamente – quem já viu, entenderá imediatamente o elo entre os dois.

Trata-se de um filme sobre um dos mais famosos experimentos psicológicos da história, feito pelo pesquisador Philip Zimbardo, na Universidade de Stanford, em 1971. A premissa é simples: jovens saudáveis escolhidos de forma quase aleatória são divididos entre guardas e prisioneiros e encarcerados num porão da faculdade, para um estudo sobre autoridade e submissão. Em poucos dias, as coisas degringolam completamente. Não vou entrar em mais detalhes para não estragar a força do filme, especialmente para quem não conhecia o experimento.

O fato é que a gente termina de assistir achando que a alma dos humanos tem algo de podre – e principalmente de muito suscetível. Estudos como este e o Experimento de Milgram foram feitos no contexto da Guerra do Vietnã, tentando explicar as crueldades das batalhas, mas também do holocausto e outros acontecimentos da história então ainda muito recente. E explicaram aparentemente muito bem, naquela época.

Depois de ver o filme, e divulgar como ele me impressionou, recebi de dois leitores diferentes links para textos que mostram como hoje esse experimento de Stanford é contestado, já tendo sido acusado de manipulação, fraude ou pelo menos de ter tido muitas falhas graves de execução (isso para não falar dos problemas éticos óbvios). Vale a pena ler, AQUI e AQUI – mas só depois de assistir ao filme.

Porque, mesmo que o experimento original possa ter sido um grande teatro (embora não seja exatamente isso o que os detratores apontam), ele aconteceu, e foi muito importante para os últimos quase 50 anos da psicologia. E o filme é sobre o experimento da forma como foi apresentado ao mundo. Com interpretações memoráveis de jovens atores que admiro muito, como Ezra MillerMichael Angarano, Tye Sheridan e o próprio Billy Crudup. Que nos prendem, quase sem piscar, durante duas horas, num cenário claustrofóbico de um corredor de uma universidade. Com roupas iguais, o mesmo monótono tom pastel, e excesso de personagens (sem nomes). É quase como se o diretor quisesse nos deixar com a mesma falta de noção de passagem de tempo que Zimbardo deixou seus aprisionados. Funciona.

Depois de ver o filme e, mais tarde, ler esses textos sobre como o experimento pode ter sido conduzido de forma diferente daquela mostrada, a impressão que fiquei segue mais ou menos parecida: com o temor de que os seres humanos são muito suscetíveis a praticar atos de grande crueldade, principalmente quando estão em grupo, mas ainda mais quando existe uma figura de liderança por trás, estimulando as ações. O que não dá pra saber é se somos capazes disso por puro sadismo, como se uma chavinha muito frágil virasse em nosso cérebro dentro de um contexto específico, ou se somos levados a isso pelas condições (como aquele pessoal que participa de linchamentos motivados pela ferocidade/paixão da multidão ao redor). O experimento tal qual foi apresentado por Zimbardo leva a uma conclusão, uma tentativa de replicar o mesmo estudo, feita em 2001, leva a outra.

Talvez os porões da alma humana ainda sejam lugares sombrios demais para que haja uma única conclusão a se tomar sobre eles.

Assista ao trailer do filme:

Veja também:

***

Quer assinar o blog para recebê-lo por email a cada novo post? É gratuito! CLIQUE AQUI e veja como é simples!

faceblogttblog

Anúncios

‘Mr. Holmes’: um Sherlock com muito mais humanidade

Para ver na Netflix: SR. SHERLOCK HOLMES (Mr. Holmes)
Nota 9

Antes de mais nada, é preciso declarar que sou fã das histórias de Conan Doyle e de seu personagem maravilhoso, que tantos filmes e séries já rendeu. Já li os principais romances (Um Estudo em Vermelho, O Signo dos Quatro, O Cão dos Baskerville, O Vale do Terror) e contos com Sherlock Holmes e seu inseparável amigo dr. Watson. Adorei a recente série “Sherlock“, com toda a sua ação e adrenalina, numa velocidade estonteante. Quando vi este “Mr. Holmes” na Netflix, imediatamente fui assistir.

O mais interessante deste filme é que o Holmes interpretado pelo septuagenário Ian McKellen nada tem a ver com o jovial de Benedict Cumberbatch ou com o que imaginamos ao ler as novelas de Doyle. Aqui, ele é um senhor de 93 anos lutando contra a senilidade, contra o apagão que surgiu em suas memórias. Solitário, já há quase 30 anos sem a companhia do dr. Watson, aposentado numa mansão no interior, cuidando apenas de abelhas, Holmes se aproxima do garotinho Roger, filho da governanta. E essa relação quase que de avô-neto dá mais força e lucidez ao famoso detetive.

Desta vez, ele não está tentando desvendar um crime, mas tentando desvendar o que sua memória já apagou. O roteiro vai e volta ao sabor dessas lembranças meio caducas, mas num ritmo muito bem encadeado, com montagem precisa e envolvente. É como ler “Leite Derramado“, de Chico Buarque, que vai revelando as coisas com a instabilidade típica de um narrador com mais de 100 anos de idade. Neste filme, também temos uma narrativa instável, à mercê do que Holmes vai sendo capaz de se recordar do passado, muito graças às experiências do presente.

Por tudo isso, este filme é encantador. Porque é um mistério bem típico de Doyle, nos deixando em suspense sobre como as coisas se desenrolaram. Porque tem um Holmes que quase não guarda semelhança com o superconfiante e arrogante das outras histórias, agora fragilizado pela demência e pela idade avançada. Porque tem um Roger com a curiosidade das crianças e com essa capacidade mágica que têm de mudar coisas que já pareciam assentadas nas vidas ao seu redor. Porque tem muito poucos atores, mas do naipe de Ian McKellen e Laura Linney. E porque tem esse roteiro de idas e vindas, que ajuda a manter o suspense, numa narrativa nada linear. O que era pra ser apenas um mistério ganha ares de drama. Às vezes você não sabe se está vendo um Sherlock Holmes ou um daqueles vários filmes sobre jovens que dão um novo fôlego para a vida de pessoas mais velhas ou debilitadas (ex.: Intocáveis, Um Momento Pode Mudar Tudo, Up: Altas Aventuras, e tantos outros). E achei essa mescla improvável um ótimo diferencial.

O efeito é nos fazer esquecer daquele Holmes que parece um computador, aquele gênio com péssimas capacidade sociais, que muitas vezes apelava para o ópio para “hibernar”. E nos apresentar a um Holmes totalmente diferente, mais verossímil, mais humano.

(Quem sabe até não concordemos que toda aquela ficção era pura invencionice do dr. Watson, que não faz jus ao herói de verdade…)

Assista ao trailer do filme:

Leia também:

***

Quer assinar o blog para recebê-lo por email a cada novo post? É gratuito! CLIQUE AQUI e veja como é simples!

faceblogttblog

‘Todo o Dinheiro do Mundo’: a alma dickensiana dos bilionários

Vale a pena assistir: TODO O DINHEIRO DO MUNDO (All the Money in the World)
Nota 9

O filme já estava prontinho, com trailer e tudo, quando o ator Kevin Spacey foi acusado de ter cometido abuso sexual contra vários colegas de trabalho. Spacey interpretava um dos protagonistas do filme, o magnata J. Paul Getty, que teve o neto de 16 anos sequestrado em 1973. O diretor Ridley Scott optou por substituir o ator e regravar todas as cenas em que ele aparecia, agora sendo interpretadas pelo octogenário Christopher Plummer.

Não sei como seria o filme se Spacey (o da esquerda, na foto acima) tivesse permanecido no elenco, com toda essa maquiagem envelhecendo o ator de 58 anos. Provavelmente, também teria sido bom, porque ele é um baita ator. Mas Plummer também é fera e interpretou o bilionário com maestria. Acabou sendo o responsável pela única indicação do filme ao Oscar, com a estatueta de melhor ator coadjuvante.

E não acho que tenha sido “prêmio de consolação” pelos dez milhões de dólares gastos a mais por causa do oitos dias de regravações. Ele foi mesmo excepcional em gerar sentimento (de raiva, mais frequentemente) no público. Afinal, as pessoas querem ver finais felizes, querem ver famílias se ajudando. E, se um sujeito ganha US$ 17 milhões num único dia, não pode se negar a pagar essa quantia pelo resgate do neto favorito, não é mesmo?

Esse é o conflito do enredo do filme, baseado em fatos reais, que pode ser enquadrado como um drama policial, mas também contém suspense e ação. Apesar de ter entrado no noticiário da época, eu não era nem nascida e não fazia a mínima ideia do desenrolar da história. Isso garantiu o suspense. O roteiro, alternando a aflição da mãe – interpretada pela excelente Michelle Williams – para tentar convencer o sogro a pagar o resgate com o jovem preso no cativeiro, garantiu que as 2 horas e 12 minutos corressem sem qualquer momento de tédio.

Michelle Williams e Mark Wahlberg

Mas o melhor foi a tentativa, bem-sucedida, de nos colocar dentro do cérebro de um sujeito absolutamente rico e também absurdamente sovina – e talvez uma coisa esteja bastante entrelaçada à outra. É como ver o personagem de Dickens, o velho Scrooge, caracterizando os homens de carne e osso mais ricos do mundo, estes que vemos todos os anos na Forbes. De brinde, ganhamos mais um motivo para odiarmos a desigualdade e a concentração de renda no planeta.

Assista ao trailer do filme:

Leia também:

***

Quer assinar o blog para recebê-lo por email a cada novo post? É gratuito! CLIQUE AQUI e veja como é simples!

faceblogttblog

‘Coco’: um filme sobre o vínculo poderoso entre os vivos e os mortos

Não deixe de assistir: VIVA: A VIDA É UMA FESTA (Coco)
Nota 10

Miguel e sua bisavó Coco, que dá o título original ao filme: união entre as gerações.

O que acontece quando nossos queridos morrem? Como manter viva na família a memória dos parentes amados? Qual a importância de que nunca sejam esquecidos? Por que algumas tradições devem ser mantidas?

Estas – e muitas outras – reflexões e mensagens estão contidas nos 105 minutos deste delicadíssimo filme da Pixar/Disney, cujo nome foi tenebrosamente traduzido para o português como “Viva: A Vida é Uma festa”.

Por que a tradução do nome “Coco” para este retirou parte da força do filme? Porque houve um erro de interpretação. Este não é um filme sobre a celebração da vida, mas sobre a memória dos que já estão mortos. Sobre o elo, o vínculo poderoso, que existe entre vivos e mortos. “Coco” é o nome original da bisavó do protagonista Miguel, que, em português, virou, só Deus sabe como, Inês. Uma velhinha simpática e sorridente, provavelmente com demência ou Alzheimer, que guarda dentro de si uma coisa inestimável, que as outras gerações simplesmente não possuem: a vivência de uma época que já não existe mais.

A linda paisagem do filme, cheia de cores, luzes e detalhes preciosos. Na cena, Miguel e Hector.

Ao trabalhar temas tão profundos e até filosóficos, esta animação é capaz de tocar muito mais os adultos do que as crianças – embora, é claro, elas também sejam perfeitamente capazes de capturar o que há de mais valioso nesse roteiro. E ambas as gerações se encantam também com o cenário colorido, rico, detalhado, tipicamente mexicano, cheio de rituais espetaculares que, para os brasileiros, são pura novidade. Nós até temos o Dia de Finados, em 2 de novembro, mas é só mais um feriado como qualquer outro, em que se emenda uma viagem à praia ou, no máximo, se deixa flores no túmulo de algum querido. No México, ao menos nesse México retratado em “Coco”, o Dia de Los Muertos é muito mais carregado de simbolismo. As famílias espalham pétalas de cravos nas ruas e passagens para, segundo a crença popular, guiarem os caminhos dos mortos até os vivos. Seus membros se reúnem em um evento festivo e, juntos, celebram a memória dos antepassados. Que, teoricamente, comparecem também, como espíritos.

Que bom seria se essa celebração aos mortos também existisse no Brasil, mas não como choro lúgubre, e sim como esta festa calorosa, como lembrança cheia de carinho!

A homenagem calorosa dos vivos aos antepassados mortos.

“Coco” levou o Oscar de melhor animação em 2018 – além de arrebatar na mesma categoria prêmios como Globo de Ouro, Bafta, Annie Awards, o do sindicato dos diretores de arte, e muitos outros. Mas também levou uma estatueta por sua linda canção “Remember Me”, que é importantíssima para a história do filme.

A música, aliás, é parte fundamental de “Coco”, já que o ponto de partida do filme é o garotinho Miguel, que sonha em ser um músico famoso, a contragosto de sua família. Um típico “plot” de milhões de filmes e livros sobre conflitos familiares em todo o mundo, não é mesmo? E felizmente, neste filme, a trama não se resume a isso, como se verá nas várias reviravoltas, cheias de emoções, de dramas e de mistérios. Deixo esta canção tão singela, na interpretação de Gael García Bernal (a voz do Hector do filme) para a premiação do Oscar, como encerramento feliz deste post:

Assista ao trailer do filme: 

Leia também:

***

Quer assinar o blog para recebê-lo por email a cada novo post? É gratuito! CLIQUE AQUI e veja como é simples!

faceblogttblog

Os 25 melhores filmes que já encontrei na Netflix, com resenhas e trailers

A partir de amanhã, este blog entra de férias, retornando só daqui a umas duas semanas. Eu de férias desligo celular, me desligo do noticiário, e me concentro em fazer duas coisas: descansar bastante e me divertir. Para isso, além de passear com minha família e butecar (e acompanhar o que resta da Copa do Mundo), outras duas coisas vão certamente fazer parte da minha rotina nos próximos dias: livros e filmes.

São estes últimos que deixo para vocês, na ausência de novos posts, com a facilidade de estarem disponíveis na Netflix, que hoje quase todo mundo assina em casa. Vamos combinar o seguinte: sempre que sentirem falta de um post novo aqui no blog, vocês escolhem um filme desta lista e vão lá assistir, tá bom? Quando tiverem acabado de ver todos, eu já estarei de volta com certeza 😀

Os filmes listados abaixo foram escolhidos seguindo três critérios:

  1. já assisti a todos eles e dei nota 7 ou mais;
  2. fiz resenhas deles aqui no blog (no caso de três filmes, teci um comentário menor, menos elaborado, mas pelo menos falei sobre eles aqui);
  3. estão disponíveis na Netflix, segundo consulta feita na semana passada (Moonlight, por exemplo, chegou a entrar na rede de streaming, mas hoje não está mais lá).

Ou seja, também há outros filmaços na Netflix além destes 25, mas não foram colocados na lista porque eu não tinha escrito sobre eles ainda. A ideia é que esta lista sirva de ponto de partida para quem quiser ver um filme garantidamente bom, garimpado em meio aos vários títulos fracos existentes ali, com uma resenha sem spoilers e trailer disponíveis para quem quiser saber mais detalhes antes de encarar mais de 100 minutos diante da tela.

Anotem as sugestões:

Concorda com minha listinha? Quais deles você já assistiu? Tiraria algum desse rol de 25? Escreva sua opinião nos comentários 😀

Leia também:

 

faceblogttblog