Programação de fevereiro: toda terça-feira, curtas para assistir de graça

Cena do curta “Cabeças Falantes”.

Está na região central de Beagá na terça-feira e disponível para assistir a um filminho curto na hora do almoço? Então anote a programação do mês da mostra Curta Degustação, promovida pelo Centro de Estudos Cinematográficos de Minas Gerais, sobre o qual já falei aqui no blog 😉 O evento é sempre às terças-feiras, às 13h, aberto ao público a partir de 14 anos.

12 de fevereiro:

As Coisas que Moram nas Coisas (2006, Brasil, ficção, cor, 14 min.)

Direção de Bel Bechara e Sandro Serpa. Enquanto acompanham sua família formada por catadores de lixo, três crianças atribuem novos significados aos objetos descartados pela cidade, inventando brincadeiras e pontos de vista.

Sebastião, o Homem que Bebia Querosene (2007, Brasil, experimental, cor, 15 min.)

Direção de Carlosmagno Rodrigues. Filme sobre vida e morte, justaposição de textos niilistas e imagens iconoclásticas.

19 de fevereiro:

Má Sorte (1921, EUA, comédia, p&b, 22 min.)

Direção de Edward F. Cline e Buster Keaton. Sem trabalho, Buster tenta cometer suicídio de várias formas. Por último, ingere veneno de uma garrafa que continha, na verdade, bebida alcoólica. O presidente de um clube, que buscava um esportista para promover seu empreendimento, contrata o bêbado Buster, que precisa aprender a pescar, caçar e cavalgar.

Imagine uma Menina com Cabelos de Brasil… (2010, Brasil, animação, cor, 10 min.)

Direção de Alexandre Bersot. O cabelo, a fronteira final. Entre caretas e escovas, as viagens de uma menina em busca de aceitação.

26 de fevereiro:

O Céu no Andar de Baixo (2010, Brasil, animação, cor, 15 min.)

Direção de Leonardo Cata Preta. A história do jovem Francisco que, desde os 12 anos, registra os fatos importantes de sua vida com fotografias do céu.

Cabeças Falantes (1980, Polônia, documentário, p&b, 16 min.)

Direção de Krzysztof Kieslowski. São feitas apenas três perguntas aos entrevistados: em que ano você nasceu, quem é você e o que você mais deseja. Começando com um entrevistado recém-nascido, as mesmas perguntas vão sendo feitas até chegar à última entrevistada, uma senhora de mais de um século.

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Serviço:

Onde? Avenida Augusto de Lima, 270, Centro. BH.

Contatos: 31-3237-3497 / 99247-6574 / 98432-0924 / cecmg1951@gmail.com


Outros posts para cinéfilos:

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‘Vice’: um filme que deixa a desejar para quem viveu a Guerra do Iraque

Para ver se der tempo: VICE
Nota 6

Amy Adams, Christian Bale e Sam Rockwell irreconhecíveis

 

George W. Bush. Colin Powell. Donald Rumsfeld. Condoleezza Rice. Paul Wolfowitz. Dick Cheney.

Esses personagens da recente história política dos Estados Unidos foram os primeiros a fisgar meu interesse por política internacional. Foram eles os nomes à frente da Guerra do Iraque, em 2003. E foi no primeiro momento em que se confirmaram os bombardeios dos Estados Unidos em Bagdá, em março daquele ano, que eu criei o primeiro blog da minha vida. Passei os meses e anos seguintes acompanhando de perto a história dessa guerra, que só foi acabar muito depois, quando milhares de civis iraquianos já tinham morrido. E deixando como consequência o fortalecimento do Estado Islâmico, que tem causado muito mais atentados do que os que havia no início do século 21.

Para mim, portanto, fica claro que são personagens reais que conheci de perto e que o tema geral de “Vice” me interessa. Imagino que para muitos norte-americanos também. Mas tenho dúvidas se isso se aplica ao resto do mundo. Quantas pessoas querem mesmo conhecer a história de Dick Cheney?

Deveriam querer? Sim, pelo que mostra o filme, sim. Porque ele era um cara boçal, um completo zero à esquerda, que, sabe-se lá como, chegou à cúpula do Executivo e, sob a tutela de Donald Rumsfeld, foi ganhando poder, até chegar a ser vice de George W. Bush – retratado como outro zero à esquerda absolutamente inútil, que não apitava em nada no próprio governo. Dick Cheney vai se fortalecendo a ponto de ser ele o verdadeiro mandante nas principais áreas do governo Bush, incluindo a militar.

Um vice dos Estados Unidos não ter só um papel decorativo não seria assunto a nos dizer respeito, cá no Brasil, não fosse esse vice Dick Cheney: um reacionário da pior espécie, que conseguiu artimanhas jurídicas para dar mais e mais poder à cúpula do Executivo, e garantir políticas que acabaram com a liberdade individual dos norte-americanos, fomentaram as guerras do Afeganistão e do Iraque e, de quebra, permitiram as práticas de torturas, à revelia de qualquer direito internacional ou opinião pública. Ele mudou os Estados Unidos, para pior, e, sendo os EUA o país que é, acabou mudando também o restante do planeta.

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É bom que brasileiros vejam este filme. Dick Cheney me lembrou Bolsonaro em vários momentos, embora seja certamente mais raposa que nosso presente fajuto. Mas ambos têm as mesmas ideias reacionárias, o mesmo gosto pela violência, pela truculência e por passar por cima de direitos civis (Cheney tem uma diferença familiar apenas, que não vou contar para não estragar). Mas Cheney era o vice do pateta George W. Bush. Por aqui a coisa se inverte, já que o vice de Bolsonaro, Hamilton Mourão, é muito mais raposa que ele…

Sam Rockwell como George W. Bush

O filme tem esse mérito de levantar a história para quem se interessar por ela, com um roteiro bem costurado, relativamente ágil, bem editado. Os atores são daquele naipe da melhor qualidade: Christian Bale, que já tem um Oscar e outras três indicações, é unanimidade sobre o merecimento da estatueta por sua encarnação de Dick Cheney. Sam Rockwell, que levou o Oscar no ano passado em “Três Anúncios para um Crime“, está tão parecido com Bush que às vezes acho que estou de volta a 2003, ouvindo aqueles discursos absurdos. Amy Adams, seis vezes indicada ao Oscar, vira outra pessoa em cada filme que faz. E Steve Carrell também está fantástico na pele de Donald Rumsfeld, outro fanfarrão maluco daquele governo.

Mas não é só de parecenças e boas atuações que um bom filme é feito. Não dá pra dizer que o filme é bom. Primeiro, pela estrutura repetitiva: antes mesmo de ver que o diretor era Adam McKay, de “A Grande Aposta“, eu já lembrei em inúmeros momentos daquele filme. Os temas são totalmente diferentes, mas a estrutura me deu a sensação de estar assistindo ao mesmo filme, de novo. É aquela coisa: um narrador (muito irritante), um excesso de didatismo, com explicações para tudo o tempo todo, principalmente na primeira metade do filme. Talvez se eu tivesse assistido a “Vice” antes de “A Grande Aposta”, esse incômodo tivesse me atingido em cheio naquele filme ao qual dei nota 9, e não neste agora. So sorry.

O fato é que “Vice” não é um filme que transcorre bem: a gente (no caso, eu) custa a conseguir chegar ao fim. É penoso. Os meandros do poder nos Estados Unidos, no auge da Guerra do Iraque, deveriam ser mais excitantes, penso eu. Mas não tem jeito, com tanto didatismo, com tanta narração na nossa cabeça.

É assim que chegamos ao fato de “Vice” ter recebido oito indicações ao Oscar e, na minha opinião, provavelmente conquistar um máximo de duas (25%), talvez para dois dos atores ou para Bale e a edição costuradinha. (Vá lá: a maquiagem também é fera, pode levar.) Coincidência ou não, “A Grande Aposta” teve proporção parecida: apenas uma estatueta para suas cinco indicações (20%).

Assista ao trailer do filme:

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‘The Ballad of Buster Scruggs’: seis contos de aventura, como nos melhores clássicos

Vale a pena ver na Netflix: THE BALLAD OF BUSTER SCRUGGS
Nota 8

Meu sonho é que todos os filmes do Oscar estivessem disponíveis na Netflix. Desde que virei mãe, tem se tornado bem difícil ir ao cinema, então tenho que fazer malabarismos para ver os concorrentes da maior premiação do cinema mundial.  Mas que bom que, neste ano, já tivemos dois filmes no páreo e disponíveis na rede de streaming, pra quem quiser ver.

Sobre “Roma” já falei. Belíssimo. Já “The Ballad of Buster Scruggs” é um filme mais para divertir que para refletir, embora também seja muito bonito, com paisagens maravilhosas do Nebraska, Novo México e Colorado, para absorvermos com os olhos na fotografia de Bruno Delbonnel (já indicado cinco vezes ao Oscar, desde 2002, quando fez “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”).

Desta vez, estamos diante de um filme de contos, aos moldes de “Relatos Selvagens“. São seis histórias, todas de velho Oeste, com direito a caubóis, índios, caravanas, carruagens e corrida pelo ouro. Dos seis contos, tenho três favoritos: “Vale Refeição”, “Cânion do Ouro” e “A Garota Nervosa”, que são, consecutivamente, o terceiro, o quarto e o quinto contos. Eles trazem menos sangue e faroeste e mais narrativas ao estilo de Jack London e outros autores americanos que não encontramos mais por aí. O conto de abertura, que dá nome ao filme, é, curiosamente, o que achei menos bom, quase ridículo. É também o mais cômico, com Tim Blake Nelson cantarolando pra lá e pra cá, sorrisão na cara, disfarçando seu feitio assassino. Tirei dois pontos da nota final por ter começado o filme com o pior conto. Mas, diga-se de passagem, foi o meu filme preferido, até hoje, dos irmãos Coen, que não fazem muito meu estilo.

Cena do conto “Cânion do Ouro”

Mais adiante, vemos contos protagonizados pelos atores James FrancoHarry MellingTom WaitsZoe KazanLiam Neeson. Apesar de ter alguns veteranos no elenco, nenhum deles fica mais que 20 minutos na tela, e a maioria nem sequer tem um nome para o personagem que interpreta. Apesar de todos os contos se passarem num mesmo período e região dos Estados, eles têm pouco em comum no enredo. Mas alguns elementos são frequentes: personagens solitários, poucos diálogos. Ainda assim, as poucas falas são bastante interessantes. Como esta, do conto “A Garota Nervosa”:

Billy Knapp: A incerteza… Ela é adequada aos problemas deste mundo. Somente referindo-nos ao próximo podemos ter certeza. 

Alice Longabaugh: Sim.

Billy Knapp: Acredito que a certeza naquilo que podemos ver e tocar raramente é justificável, ou nunca. De todas as eras, desde nosso mais remoto passado, que certezas sobreviveram? E, no entanto, nos apressamos para fabricar novas certezas. Em busca do conforto.  A certeza… é o caminho mais fácil.

Goste ou não de histórias do faroeste, você vai gostar deste filme, se valorizar boas narrativas. Não é à toa que ele foi indicado por melhor roteiro adaptado (além de canção e figurino). Tem história ali, e da boa. Daquelas que a gente não encontra mais em autores contemporâneos, mas sim naqueles livros empoeirados na biblioteca da tia que mora no interior. Aqueles que seu pai recomendou leitura, porque fez a alegria dele quando era criança. É um roteiro com cheiro de clássico, com todas aquelas aventuras tipo “Chamado Selvagem”, “A Ilha do Tesouro” e tantos outros. Isso: um verdadeiro filme de aventura.

Assista ao trailer do filme:

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‘Roma’: sobretudo, um filme muito bonito

Vale a pena assistir na Netflix: ROMA
Nota 9

“Roma” é, sobretudo, um filme bonito.

Bonito mesmo, no sentido amplo da palavra. Com imagens belíssimas, como estas:

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Eu ia absorvendo estas imagens e só conseguia pensar: “Nossa, este filme é muito bonito!”.

Sim, é preto e branco, e quase ninguém faz isso hoje em dia. O último louco que fez e conseguiu bombar no mainstream foi o francês Michel Hazanavicius, com seu “O Artista“, de 2011, vencedor de 5 estatuetas do Oscar, incluindo melhor filme do ano, melhor direção, melhor roteiro e melhor fotografia.

O mexicano Alfonso Cuarón, que já tem dois Oscar por “Gravidade“, tenta a mesma proeza, e volta a ser indicado nas categorias principais, incluindo melhor filme, melhor filme estrangeiro, melhor direção, melhor fotografia, melhor roteiro. Detalhe: Cuarón, além de diretor, também escreveu o roteiro do filme e assina a direção de fotografia.

Lendo mais sobre “Roma”, descobrimos que trata-se de um verdadeiro filme de memórias do diretor, por isso ele trabalhou com tanto carinho e sensibilidade nesse projeto. A história é dedicada a Libo, que foi a faz-tudo da família de Cuarón, assim como a Cléo de “Roma” (interpretada maravilhosamente pela atriz mexicana novatíssima Yalitza Aparicio, que já iniciou a carreira com uma bela indicação ao Oscar). Talvez a escolha do preto e branco tenha sido também parte desse sentimento de nostalgia do autor.

Eu só não dou nota 10 a “Roma” porque acho que ele demora um tempo longo demais para engrenar – como aqueles carros dos anos 70. Mas, uma vez dentro do filme, é difícil tirar nosso espírito de lá, e nos vemos rindo e, principalmente, chorando junto com Cléo em muitas passagens.

Os brasileiros nos identificamos muito com a sociedade mexicana, que lembrará a nossa em vários momentos. A começar pelo ofício quase de servidão que era (é?) o das domésticas que viviam nas casas dos patrões. Mas o filme não é só sobre isso. Haverá mais, muito mais, a refletir a partir dessas memórias de Cuarón. E, no meio do caminho, haverá muitas exclamações assim: “Poxa, mas que cena linda!”

(Ah sim: e com “Roma”, a Netflix faz história no cinema. Mas sobre isso você pode ler em milhões de portais por aí.)

Assista ao trailer do filme:

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‘A Favorita’: longe de ser meu favorito

Em cartaz nos cinemas: A FAVORITA (The Favourite)
Nota 7

Assisti ao filme “A Favorita” poucas horas depois de terminar de ver o belíssimo “Roma”. No filme que vi primeiro, e sobre o qual ainda vou escrever, temos fotografia em tons de cinza, muitos silêncios, muitas cenas estáticas, espaço de sobra para deixar as emoções fluírem. Já em “A Favorita”, temos excesso de tudo: cores, móveis, maquiagens, roupas. Todo aquele excesso exaustivo da monarquia inglesa, empoada e bolorenta, do início do século 18. Também há espaço para cenas estáticas, mas as emoções são duras. Ficamos com o rosto tenso durante as duas horas de filme, perplexos diante de tantas frivolidades e frugalidades que podem ter sido responsáveis por moldar a História naquele período. Há, sobretudo, um excesso de trilha sonora, uma trilha sonora incômoda, alta, irritante, às vezes repetitiva, como uma tecla de piano estragada.

Depois deste parágrafo, há quem possa pensar que detestei este filme, que concorre a 10 estatuetas do Oscar. Bom, ele está longe de ser meu favorito, e certamente não acho que mereça o prêmio de melhor filme, mas tem, sim, seus méritos. O mais interessante deles é mostrar como três mulheres – veja bem, mulheres – podem ter sido tão poderosas no ano de 1708. A rainha Ana, interpretada de forma impressionante por Olivia Colman, é retratada como uma mulher de temperamento explosivo, muito mimada e volúvel, mas também extremamente frágil e deprimida (inclusive pelo fato de ter perdido 17 bebês, que já nasciam mortos ou morriam pouco depois de nascer). A nobre Lady Sarah Churchill (parente do futuro premiê), que exercia influência sobre o governo e sobre as decisões da rainha. E Abigail Hill, que aparece para embolar a história.

Se a intenção era destacar a importância dessas mulheres, o filme consegue até com certo exagero, ao, por exemplo, ignorar completamente a figura do rei, que, segundo consta, ainda estava vivo quando Abigail apareceu, e cuja morte agravou a depressão da rainha Ana. Os outros homens, de resto, aparecem quase que como meros figurantes.

A gente sempre imagina as cortes daquela época cheias de intrigas, traições, mesquinharia etc (como, aliás, também acontece com as repúblicas). O filme retrata essa sordidez com requinte de detalhes, de forma até exaustiva. Talvez seu grande mérito seja despertar nossa curiosidade de querer saber mais sobre aquela época, sobre a rainha Ana, nem que seja lendo mais numa Wikipédia da vida.

Olivia Colman deu vida à rainha Ana e ficou até parecida fisicamente com ela.

“A Favorita” é o filme com mais indicações do ano (empatado com “Roma”), o que não quer dizer absolutamente nada. Em 2014, o filme “Trapaça” (ao qual também dei nota 7) liderava a lista, também com dez indicações – e não ganhou nada. Já em 2017, “Estrelas Além do Tempo” foi o segundo filme com mais indicações – oito! –, e também não levou nada. As três protagonistas de “A Favorita” (as outras são Emma Stone e Rachel Weisz) estão muito bem, mas acho que apenas Olivia Colman deve levar o prêmio de melhor atriz. O filme também deve emplacar com figurino e direção de arte. E acho que só. Quem viver, verá.

Assista ao trailer do filme:

Leia também:

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