Contribuição de leitor: ‘Velhacos’

Hoje publico mais uma contribuição de leitor. O conto a seguir foi enviado por Juan Pablo Vieira Duarte, que prefere ser conhecido como Junas. Se gostar do estilo dele, pode clicar AQUI e ler mais contos como este 😉 Você também escreve contos, crônicas, poemas, resenhas, análises…? Envie para meu e-mail e seu texto poderá ser publicado aqui no blog, na seção de textos enviados pelos leitores 😉

 

“Longos anos de disputas e brigas intensas. A trivialidade dos irmãos Jorge e José foi estruturada com base em seus constantes atritos. Desde quando moravam juntos, com seus pais Josias e Grêta, a dupla já esboçava a típica aversão repetitiva. Como ainda eram apenas crianças, esses conflitos se resumiam em beliscões e deduradas. Porém atos menores já invocaram sentimentos piores em pessoas menos intensas. Não há uma relação mensurável entre a ação e a reação, sentimentos permeiam o subjetivo de forma instável. A única coisa indiscutível, é que o tempo atenua e encrava assuntos mal resolvidos. E o tempo passa rápido. Muito rápido. O suficiente para que todo o rancor deles permanecesse ávido.

Ao contrário do que se possa imaginar, não eram gêmeos. Havia uma diferença de 2 anos de idade entre os irmãos. Que quando ainda em fase de crescimento, tinha enorme relevância. Jorge, o mais velho, possuía enorme vantagem em relação à educação informal que o pai deles lhes fornecia diariamente. “Seja um bom menino na mesa  de jantar, mas na vida seja um canalha”. Jorge inevitavelmente possuía um grau de canalhice mais elevado em sua personalidade. Pobre José, teve que se esforçar muito mais ao longo da vida até conseguir ser repulsivo. O que também o prejudicou, mas nem tanto, foi a derrocada de seu pai ao alcoolismo. Enquanto antes suas frases causavam um impacto contundente em seus filhos, aos poucos, transformaram-se apenas em bobagens de um velho beberrão. Continuar lendo

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Contribuição de leitor: ‘Santiago Fumegante’

Hoje publico aqui no blog um segundo conto enviado pelo escritor pernambucano Nuno Kembali, 55. Ele é autor das novelas “O Matagal ou o vão combate é mais embaixo” e “Rota 12: sobre jaguaretês e outros bichos no diadema do tempo”, com playlists disponíveis no Spotify. Quem quiser saber mais sobre o Nuno pode encontrá-lo no Facebook e no Wattpad. O outro conto que postei no blog, “Eu Vi”, é sensacional, CLIQUE AQUI para ler de novo. Agora trago o conto “Santiago Fumegante”:

 

Livro de contos de Kembali

“Era verão em Santiago. Fazia sol até quase as dez da noite. Ou seria da tarde? Durante todo o dia as pessoas paravam com freqüência nas sorveterias dispostas nas ruas. Helados, helados e mais helados. Café quente só se fosse depois das dez. Apareceu repentinamente uma fumaça que se espalhou por todo o Chile e gerou especulações sobre a sua origem. A cordilheira, ali perto, não teria permitido que o humo se dissipasse, o que aumentava a sensação de calor. Para um país que tem temperaturas mais para amenas que calorentas durante a maior parte do ano era duro conviver com aquele clima.

– Está decidido…

– Que?

– É que tu me matas de calor por dentro.

– Depois de um mês? Isso é novidade para mim nesses tempos líquidos.

Javier olhou outra vez para Miguel com cara de desconsolo, mas a verdade é que ele já se acostumava ao humor daquele rapaz que a cada dia golpeava o seu coração. Ainda hão de descobrir o que provocou tanto incêndio.

– Está decidido. Vou me casar contigo na escadaria do cerro Santa Lucía, com os convidados se espremendo pelas ruas ao lado. Depois nos mudamos para Valparaíso.

– A escadaria está aprovada, mas para que casar? E eu não saio de Santiago por nada.

Javier franziu a testa e os olhos diante da contradição embutida no pensamento de Miguel, mas se fez de desentendido, balançou os cabelos e seguiu de mãos dadas com o novio pelo caminho dos cafés da avenida Libertador.

 

O som no bar do térreo da galeria Radicales tocava o Nirvana com come as you are. Bloody Mary e cerveja, miradas maliciosas, os dedos das mãos se tocando vez por outra por cima e por baixo da mesa. O dono da lojinha que vende sementes de maconha para coleção passou apressado e saudou os rapazes que com alguma freqüência compareciam ao seu estabelecimento, situado logo na entrada da galeria. Continuar lendo

Contribuição de leitor: ‘A Morte do Escritor’

O conto a seguir foi enviado pelo escritor Junior Salvador, que acaba de lançar o livro Vidas Breves. Se você curtir o texto abaixo, que está presente no livro, pode ler mais do mesmo autor, clicando AQUI. Você também escreve contos, crônicas, poemas, resenhas, análises…? Envie para meu e-mail e seu texto poderá ser publicado aqui no blog, na seção de textos enviados pelos leitores 😉

 

“Nesta madrugada fui acometido do pior dos males: solidão. No quarto escuro, sentado diante de meu laptop, ouvia apenas o soprar do vento, lentamente chocando-se contra as paredes frias. Na tela resplandecia a ausência completa de tudo, estava vazia como os cômodos da casa. O ar gélido que entrava por debaixo da porta fazia com que meus pés congelassem. Sentei-me para escrever por volta das vinte e três horas. A tela continuava em branco às cinco e meia. Após iniciar, apagar e reescrever várias histórias, saí do meu estado de transe quando o sol da manhã apontou no horizonte e sua luz bateu contra a janela entreaberta, refletindo nas arestas da persiana.

A luz teimava em entrar pelas frestas e pequenos feixes cortavam a escuridão da madrugada solitária que se esvaía. Era possível ver a poeira dispersa no ar. Quando respirava, acontecia uma revolução no espaço. As partículas moviam-se desvairadas, uma ao encontro das outras, depois tudo se acalmava. Passei algum tempo brincando com a poeira, passando meus dedos pelo feixe de luz, apenas para ver como os grãos reagiriam ao movimento do ar. Na minha cabeça, a lembrança dela começava a ficar ainda mais forte. Continuar lendo