Breviário dos canalhas (II)

O poema abaixo foi enviado pelo poeta Ângelo Novaes, que já tinha publicado por aqui o “Breviário dos Canalhas”, há quase dois anos. Boa leitura!

 

Num país muito distante,
De gente de olhar sombrio,
Canalhas praticam as táticas
Tão gastas, mas tão diretas
Que se diria sua canalhice honesta:

Às mulheres que desejam, apontam o dedo e gritam: “São putas!
Aos artistas que invejam, disparam: “São sujos!”
Aos que falam de ciência, que ignoram, decretam: “São fracos!”
Aos que trabalham em silêncio, assustam: “Vocês custam!”
Aos que contam o que eles fazem, ameaçam: “Não falem!”

Eles mesmos loucos, fracos, lassos e rasos.
Têm muito a ganhar ao agir assim.
Pensam que desviam os olhos
Do pouco que vai em suas entranhas.

Dizem que esse país fica em lugar
Perdido entre a China e a Romênia.
Não sei.
Só assisto à delonga
E tudo que aguarda
O destino dos canalhas.


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10 pontos positivos das universidades públicas brasileiras

Reitoria da UFMG. Fotos: Wikimedia

O texto abaixo foi escrito por Douglas Garcia, professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e colaborador frequente deste blog. Ele tem graduação na USP, mestrado e doutorado na UFMG e pós-doutorado na UERJ.

“Em três Estados diferentes, sou testemunha da seriedade e do tamanho do trabalho das universidades públicas neste país”, afirma o professor. Confira seu texto sobre o assunto do dia – quiçá do ano, ou da década, dependendo do estrago irreversível que este governo Bolsonaro causar sobre a educação no Brasil:

 

Se você tem um filho ou uma filha, provavelmente deseja que, quando crescer, ele ou ela estude em uma universidade pública. Se você mora em Minas Gerais, desejará que faça UFMG, UFOP, ou alguma das outras universidades públicas do Estado. Se mora em São Paulo, vai querer que faça USP, UNICAMP, ou outra das universidades públicas do Estado. O mesmo em todos os outros Estados brasileiros. Está na hora de chamar a atenção para as (muitas) coisas que fazem da universidade pública brasileira um bem público, um patrimônio de todos os brasileiros – e das gerações futuras, também. Aqui vão 10 pontos para a gente se lembrar disso:

#1. Melhor ensino

As universidades públicas brasileiras são, de fato, as melhores no ensino, segundo todos os rankings, como o da Folha de S.Paulo, do Guia do Estudante Editora Abril e do MEC.

#2. Pesquisa científica

As universidades públicas, de fato, fazem a grande maioria da pesquisa científica do país, segundo todos os rankings oficiais.

Biblioteca central da UFMG.

#3. Apoio na produção agropecuária

As universidades públicas, através de suas pós-graduações, vêm há décadas fornecendo apoio decisivo ao aumento de produtividade agrícola brasileira, por meio do excelente trabalho feito pela Universidade Federal de Lavras, pela ESALQ /USP, entre muitas outras.

#4. Pesquisa na saúde

As universidades públicas fazem pesquisa de ponta em áreas decisivas para a saúde da população brasileira, como medicina, farmácia e biotecnologia, com resultados em produtos, e custos muito mais baixos do que os envolvidos em importação de produtos finais similares.

#5. Preservação ambiental do país

As universidades públicas fazem pesquisas que ampliam o conhecimento da fauna e da flora brasileiras, contribuindo decisivamente para a sua preservação, não só através dessas pesquisas, mas também de ações diretas de preservação ambiental.

Portaria da Estação Ecológica da UFMG.

#6. História e cultura brasileiras

As universidades públicas fazem pesquisas que ampliam o conhecimento do passado do Brasil, permitindo entender melhor a forma atual da cultura brasileira, e, assim, uma valorização maior desse legado.

#7. Políticas públicas e desenvolvimento econômico

As universidades públicas fazem pesquisas que mapeiam as carências e as potencialidades das diversas regiões do país, permitindo formular políticas públicas que estimulem o desenvolvimento econômico de cada região.

#8. Hospitais públicos e formação médica

As universidades públicas mantêm grande número de hospitais universitários, os HCs, que realizam milhões de atendimentos por ano, inclusive tratamentos de alta complexidade. Nesses hospitais é feita a formação prática de boa parte dos médicos formados no Brasil.

Hospital das Clínicas da UFMG. Foto: Eber Faioli/UFMG

#9. Parcerias com outros países

As universidades públicas brasileiras realizam grande parte do intercâmbio com pesquisadores das principais universidades do mundo, através de congressos, missões de pesquisa e parcerias com grupos de pesquisa estrangeiros, o que permite que a atualização científica nas diversas áreas seja constantemente mantida.

#10. Ajuda para as comunidades mais carentes

As universidades públicas atendem, de fato, as diversas camadas de renda da população, tornando possível a ampliação de horizontes educacionais, econômicos e sociais tanto para o seu público estudantil, quanto para as comunidades das cidades onde estão instaladas.

 

Em resumo, cidades com universidades públicas têm maiores recursos e oportunidades em saúde, comércio, turismo, educação e desenvolvimento humano.

Se você tem filhos, apoie a universidade pública brasileira. Se não tem, apoie também. As gerações futuras agradecem.

 

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Crônica enviada por leitor: ‘Os Invisíveis’

Texto escrito por Carlos Seixas, 58, amazonense, poeta e funcionário público, que hoje mora no Recife (PE):

Os Invisíveis. Não se trata do título de um filme. Nem tampouco do nome de um desenho animado. É vida real.

Após deixar minha filha no colégio em que ela estuda, em Recife, rumei para a labuta diária. No caminho, havia várias pedras. Mas não sou Carlos Drummond, sou apenas Seixas. Não podia poetizar mineiramente, mas, como sou do mundo – em alemão, meu nome significa homem do povo –, não pude deixar de perceber os invisíveis.

Dois seres humanos fazendo o trabalho de varrição, portando um uniforme de firma contratada pela prefeitura da cidade. Dei bom dia e perguntei, a um deles, desde que horas estava ali fazendo aquele digno trabalho. Com o suor escaldante escorrendo pelo rosto, respondeu: “Desde as 6h e aproximadamente 40 minutos”. Quanta gramática natural naquela voz suave, porém cansada.

E segui caminho. Mais pedras surgiriam na minha rica retina. Na minha frente um carro com a placa de letras que não lembro. Mas os algarismos, sim: 0007. Nada mais adequado ao momento. Já deu pra perceber que eu estava dirigindo um automóvel, ou não? Bom, aquela sequência numérica me encantou. Remeti-me aos aventurescos filmes de James Bond, o agente 007, da gloriosa Corte Britânica. Um herói europeu: bonito, elegante, sedutor.

Já eu, um pouco sonolento, pois não havia dormido o suficiente na noite anterior, tive um “estalo”: que engraçado, herói daqui, herói de lá; um do terceiro mundo e outro do primeirão. Qual deles vocês prefeririam? Eu, os dois. Vocês? Não sei.

Mas vou dizer uma coisa: é ano de eleição para prefeito e aqueles seres invisíveis, se não me engano – creio eu –, pois de política moderna não entendo nada, se tornarão bem visíveis, sorridentes e pós-modernos. Serão heróis na nossa política cambaleante.

E, para dormir em paz, fico imaginando Aristóteles se remexendo em seu túmulo, mesmo sem poder ver em qual política se transformou a sua, idealizada há muito tempo. Há muito tempo mesmo.


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‘Fascismo: um alerta’, de Madeleine Albright: uma resenha concisa

Texto escrito por Douglas Garcia, professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e colaborador frequente deste blog, sobre o livro ‘Fascismo: um Alerta’:

1. Quem é a  autora?

A autora de “Fascismo: um alerta” é a norte-americana (de origem tcheca) Madeleine Albright, diplomata e professora universitária. Ocupou o cargo de Secretária de Estado dos Estados Unidos durante a presidência de Bill Clinton, entre 1997 e 2001.

2. De que trata o livro?

O livro é sobre o autoritarismo de regimes políticos que desgastaram e aboliram instituições democráticas ao longo dos séculos XX e XXI. Ele reconta histórias de ascensão e consolidação de regimes autoritários particularmente emblemáticos em suas práticas antidemocráticas e extrai as características comuns mais importantes do fascismo a partir desses casos. À parte o primeiro (contextual) e os dois últimos capítulos (de balanço e reflexão), os demais capítulos podem ser lidos de maneira independente, na ordem que o leitor preferir. Eles tratam, entre outros, dos casos emblemáticos da Itália de Mussolini, da Alemanha de Hitler; e, já no século XXI, da Turquia de Erdogan, da Rússia de Putin, e da Hungria de Orban.

3. Por que vale a pena ler?

Porque apresenta riqueza de informação histórica aliada a uma reflexão sobre o presente. Certamente motivada pela eleição de Trump, no final de 2016, Madeleine Albright, contudo, não dirige seu foco à administração do republicano. Seu caminho é interessante: mostrar como práticas e discursos antidemocráticos apareceram em diversos lugares do mundo nos séculos XX e XXI, trazendo impactos muito negativos na capacidade de as sociedades orientarem suas políticas de forma participativa, respeitosa dos direitos individuais e atenta ao bem-estar universal de seus cidadãos.

4. Quais são as áreas de interesse relacionadas ao livro?

As áreas de interesse deste livro são muito diversas, com destaque para História, Relações Internacionais e Ciência Política. Quem tem interesse na história do século XX, especialmente nos seus momentos de repressão política, guerra e autoritarismo, terá aqui um vasto campo a ser explorado.

5. Este livro é de leitura acessível ou é difícil?

Sua leitura é acessível e agradável, uma vez que a autora narra vários eventos históricos dos quais foi testemunha direta (é o caso da ascensão do nazismo, na infância) e também protagonista (é o caso das relações com a Coreia do Norte, durante o governo Clinton). Sua linguagem é direta e expositiva, sempre em busca de comunicação com o leitor.

Fascismo: um alerta
Autora: Madeleine Albright
Tradução:  Jaime Biaggio
Editora: Planeta
Ano de publicação: 2018
299 páginas
Preço: R$ 54,90

 

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‘O Gênio e o Louco’, por Carlos Seixas

O leitor do blog Carlos Seixas enviou uma reflexão sobre o filme “O Gênio e o Louco“, que estreou no Brasil há duas semanas. Carlos Seixas é, em suas palavras, “amazonense, poeta e funcionário público, em Recife, a terra do frevo”. Ele já havia contribuído com o blog antes, com o poema “Paraopeba”, vejam AQUI. Ainda não assisti ao filme, mas fiquei curiosa, depois de ler este e-mail do Carlos Seixas. Confiram:

GÊNIO, EU, NÓS? LOUCO, NÓS, EU?

“Penso cá com meus botões: A velha frase insiste e persiste, “de médico e louco todos nós temos um pouco”. Trata-se de referência à relação médico-paciente, mais especificamente de um psiquiatra e seu cliente. O capitalismo continua em voga e a indústria farmacêutica agradece. Mas, aqui, o caso é diferente, ou não, como diria o baiano Caetano. Venho falar do filme “O Gênio e o Louco”. Ao final da película, me vi induzido a acreditar que o gênio e o louco habitavam o mesmo corpo, ou a mente. Será que estou ficando louco? Ou sou um gênio? Durma-se com uma bronca destas, mas só após assistir ao filme, respaldado(a) pela boa gramática da nossa adocicada língua brasileira, mas portuguesa. Não deixem de ir ao cinema para ver este brilhante filme. Pena que um tema tão “hard” não tenha explorado mais a poesia que, por exemplo, abrilhantou o francês “Nos vemos no Paraíso”, tão elogiado no último Festival Varilux que aportou em nossa terra tupiniquim. Boa sessão! E depois, sem ficar louco, emita a sua opinião! Caso seja um gênio, emita mesmo assim!”

Se você também tem algum poema, conto, crônica, resenha de filme, análise ou outro texto bacana de sua autoria que queira ver divulgado aqui no blog, envie para meu e-mail! Vou analisar com carinho e, se tiver a ver com nossa proposta, seu texto poderá ser publicado na seção de textos enviados pelos leitores 😉

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