‘Paraopeba’, um poema de Carlos Seixas

Rio Paraopeba na divisa dos municípios de Betim e São Joaquim de Bicas, em Minas Gerais. Foto de 2014, anterior, portanto, à tragédia da Vale. Crédito: Wikipédia.

 

Diante de tanta tristeza e revolta causadas pelo crime da Vale em Brumadinho (isso para não falar de Mariana), muitas vezes, nos faltam palavras. Sobram informações no noticiário, e a gente vai até se perdendo, diante de tantas notícias. O jornalismo, nessas horas, sozinho, não dá conta de abarcar todo o nosso sentimento. É aí que entram os poemas, tão eloquentes, por mais curtos que sejam. Poemas nos ajudam a extravasar nossas emoções. É por isso que, pela terceira vez desde a chamada “tragédia de Brumadinho”, em menos de um mês, publico aqui um poema que diz mais do que muito textão junto. Este foi escrito e enviado para publicação no blog pelo leitor Carlos Seixas, que é um funcionário público de 58 anos, natural de Manaus e que hoje mora no Recife (PE). Boa leitura:

 

PARAOBEPA

De Carlos Seixas

 

rio, vivo da vida
hoje, vivo da lama

chamam-me
rio de lama
chama apagada
depois da enxurrada

de jeito
desceu rejeito

levando vidas
deixando lágrimas

påginas soterradas
onde havia terra e mata
não há mais nada

odor de dor
é o que há

esta dor
após a tempestade
não tem bonança
só o respiro do amor

 


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‘Reflexões sobre o nacional-socialismo’, em cinco (breves) tópicos

Texto escrito por Douglas Garcia, professor do Departamento de Filosofia da UFOP e colaborador frequente deste blog, sobre o livro ‘Reflexões sobre o nacional-socialismo’:

 

1. Quem são os autores?

São três autores: Arnold I. Davidson, americano, professor de filosofia, que faz uma introdução bastante útil aos textos; Emmanuel Levinas, francês de origem lituana, um dos principais filósofos do século XX, autor de “Totalidade e Infinito”; e Robert Musil, austríaco, um dos principais escritores do século XX, autor de “O homem sem qualidades”.

2. De que trata o livro?

O livro traz dois textos escritos durante os primeiros anos do período nazista, no início da década de 1930. Um ensaio de Levinas, intitulado “Algumas reflexões sobre a filosofia do hitlerismo”, de 1934. E um ensaio de Robert Musil, chamado “Ruminações de um lerdo”, de 1933. Ambos tentam compreender o nazismo como um todo simbólico e um conjunto de orientações para atitudes práticas – ou seja, como uma “cultura”, no sentido antropológico.

3. Por que vale a pena ler?

O livro vale a pena ler porque, em primeiro lugar, está firmemente enraizado na experiência dos autores, que escrevem no mesmo momento histórico em que o fenômeno nazista é produzido. Uma segunda razão para lê-lo é a elegância da escrita e a acuidade das percepções dos autores, registradas em trechos como “foi com olhos bem abertos que não vimos absolutamente nada” (Musil). Além disso, uma razão substantiva para fazer essa leitura é a de vir a ser provocado a pensar o que há de semelhante (e também de diferente) entre movimentos autoritários e antidemocráticos do passado e do presente.

4. Quais são as áreas de interesse relacionadas ao livro?

Este livro interessará bastante àqueles que têm curiosidade sobre o período do nazismo na Alemanha, bem como aos amantes da vertente ensaística e reflexiva da literatura moderna (com Musil) e os leitores de ética e filosofia da cultura (com Levinas). Assim, as áreas de interesse são basicamente: História, Literatura, Filosofia.

5. Qual é o nível de dificuldade da leitura?

O nível de dificuldade da leitura será (talvez, uma vez que não é possível traçar uma “média” abstrata dos leitores) intermediário entre o acadêmico e o de divulgação ampla, considerando a presença, aqui e ali, de termos de uso corrente na cultura alemã do início do século XX, cuja correspondência com o uso comum contemporâneo não é evidente – termos como “espírito”, por exemplo.

Reflexões Sobre o Nacional-Socialismo
Tradução:  Denise Bottmann, Priscila Catão e Flavio Quintale
Editora Âyiné
Ano de publicação: 2016
120 páginas
Preço: R$ 20,90

 

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Dez pontos sobre o que está em jogo nesta eleição presidencial

Texto escrito por Douglas Garcia*:

#1

A eleição democrática para presidência da República no Brasil enfrenta hoje sérios dilemas. Como escolher? Qual o significado de escolher um ou outro candidato? Para quem no primeiro turno não escolheu nem um, nem outro, os dois seriam equivalentemente ruins? Com a intenção de contribuir para a reflexão sobre essas questões, proponho falar sobre princípios, prioridades e critérios de decisão.

#2

Quem se esforça para escolher bem o seu voto, e valoriza o próprio fato de poder votar, é pressuposto que valorizará também as condições que tornam possível o seu ato de votar. Isto é, quem vota, valoriza a democracia. Essa condição está no nível dos princípios. O primeiro princípio, portanto, assumido por quem vota, é o da participação democrática.

#3

Outra condição que está implícita no ato de votar é o da igualdade diante da lei. Esse é o segundo princípio assumido por quem vota. O voto de cada um é de igual valor ao de qualquer outra pessoa. Sem diferença de riqueza, poder, escolaridade, origem geográfica e social. Assim, quem vota demanda que seu voto seja contabilizado igualmente, pois cada um tem os mesmos diretos que todos os outros.

#4

Quem vota, no ato de votar, aprova ainda o princípio que torna possível que esses outros dois funcionem. Como assim? Para que cada um possa ir à sua zona eleitoral votar e participar democraticamente da eleição (primeiro princípio) e ter seu voto contabilizado igualmente ao de todos os outros eleitores (segundo princípio), é preciso que tenha o mínimo de condições concretas: ter as condições corporais de saúde e alimentação suficientes para ir votar, ter o documento eleitoral, poder usar o transporte que for necessário para ir até lá. Esse terceiro princípio, implícito no ato de votar, é o da inclusão social.

#5

Vamos falar agora de prioridades no que toca a esta eleição. Do ato de votar, que todos desejam exercer como direito, se enxergam três tópicos que derivam como prioridades. O primeiro desses tópicos é o do combate à violência contra a mulher. Os números brasileiros sobre violência doméstica, estupro e assassinato de mulheres estão entre os mais altos do mundo. É difícil pensar que esses números possam diminuir sem a ação de uma política de Estado. Sem combater essa violência, os princípios democráticos de igualdade diante da lei, participação democrática e inclusão social não se sustentam na prática.

#6

O segundo dos pontos de prioridade nessas eleições é o da defesa do meio ambiente e de uma atividade econômica que permita a renovação dos recursos naturais como a água, a fauna e a flora do país. Quem viveu a falta de água que aconteceu recentemente no país sabe do que se trata: crise de energia elétrica, crise na agricultura e crise no abastecimento de água das famílias. Esse é um recurso que deve ser usado com responsabilidade e cuidado para com as futuras gerações porque diz respeito à sobrevivência e a possibilidade de uma vida com qualidade. Sem proteger o meio ambiente, não teremos como sustentar na prática nenhum dos três princípios básicos da democracia.

#7

O terceiro tópico prioritário a ser considerado nessas eleições é o da redução da desigualdade social extrema. Não se trata de impor à força uma igualdade que não existe, porque as pessoas têm recursos e capacidades diferentes. Trata-se de considerar que desigualdades extremas no acesso a recursos e bens sociais são contraproducentes no que diz respeito ao progresso de um país, mesmo considerando apenas o âmbito da economia. Um país com pouquíssimas pessoas com instrução e poder de produção e de consumo apresentará também um nível de geração de tecnologia e de renda muito baixo. Aqui também os três princípios básicos da democracia estão envolvidos.

#8

Por fim, vamos falar de critérios de decisão. Não escolhemos abstratamente, mas entre candidaturas reais. O que levar em conta na hora de escolher? Considerando os princípios envolvidos no ato de votar e as prioridades que se seguem deles, proponho três critérios de decisão: valorização dos princípios da democracia; valorização das prioridades democráticas derivadas desses princípios; por fim, medida da proximidade relativa de cada eleitor com as posições dos dois candidatos em relação a princípios e prioridades democráticas.

#9

Procurar por critérios é procurar por objetividade e imparcialidade. Não em termos de uma visão que um habitante de outro planeta poderia ter de nós, mas de alguém que procura enxergar os fatos sociais e a medida objetiva em que está implicado neles. Assim, a valorização dos princípios da democracia e das prioridades democráticas deve ter como linha de orientação a busca por dados objetivos com relação à situação econômica e social do país e aos discursos e práticas dos candidatos à presidência, registrados por fontes credenciadas e confiáveis, abertas ao escrutínio público.

#10

Por fim, é preciso dizer que não é verdade que “todos os políticos são iguais”. E também não é correto (ainda que seja um direito do eleitor), optar por votar nulo ou em branco, uma vez que o seu candidato não passou para o segundo turno da eleição. Ou seja, não existe uma concordância absoluta entre eleitor e representante eleito. O que pode e deve ser buscado é uma proximidade relativa no interior do espectro político de opções. Não é verdade que os dois candidatos desta eleição se equivalham. Há posições muito diferentes entre eles com relação aos princípios democráticos, às questões do meio ambiente, da violência contra a mulher e da inclusão social.

Não me parece que dizer às pessoas em quem votar seja uma atribuição de quem escreve como intelectual. Mas esclarecer o que está em jogo, sim. Fica aqui o convite para que cada um esclareça por si mesmo qual visão de mundo, de sociedade e de país ele (ou ela) quer escolher. Recomendo o aplicativo “Sintonia Eleitoral”, do G1, que é muito bem feito e permite comparar a resposta que você dá a um grande número de questões sociais e políticas com as respostas que cada candidato dá às mesmas questões.

 

* Douglas Garcia é professor do Departamento de Filosofia da UFOP

 

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‘Com os políticos toleramos tudo o que não toleramos na nossa vida privada ou profissional’

Charge do ótimo Duke!

Texto escrito por Stefan Salej*

Para definir os candidatos que quero ou não, que vão me representar na liderança do meu Brasil, preciso definir que Brasil eu quero para mim, para meus cocidadãos e, como se diz no popular, para meus filhos e netos. Que sonho tenho ou temos para este país, gigante adormecido?

Um Brasil democrático e uma economia de mercado que oferece oportunidades para todos, com justiça social, é quase um consenso da sociedade. Desenvolvido para todos, com direitos para todos.

E como chegar lá, após um buraco profundo que temos na economia e na sociedade? Se não conseguir consertar essas mazelas centenárias, seja nas relações raciais, seja nas diferenças sociais e econômicas ou na absoluta quebra financeira do Estado e nas relações federativas e mais e mais, nunca se vai chegar ao progresso, ou crescimento do país como um todo e, com isso, de cada cidadão.

No seu íntimo, na sua família e seus amigos, você tem que definir o que quer para este Brasil. Informações e análises não faltam, falta discernimento individual para as definições. Parte dessa decisão é emocional, mas as consequências não são emocionais, são racionalmente boas ou más para cada cidadão.

Há algumas características de candidatos que são comuns para todos. Uma é a vida pregressa, seja pessoal seja pública. Não existe essa de “nada fez no passado, mas agora vai fazer”. Todos nós temos uma história, e quando votamos, temos que examinar bem os atos, opiniões e fatos dos candidatos. Provavelmente você já enfrentou situação simples de pequeno roubo no seu ambiente de negócios ou da família e pensou assim: “Se fez desta vez, vai fazer na próxima”. Ou “se não trabalha bem agora, não vai trabalhar no futuro”. E mais: como vou saber se trabalha bem? Tenho acesso a ele, há transparência?

Com os políticos toleramos tudo o que não toleramos na nossa vida privada ou profissional. Você contrataria alguém para o cargo de direção de sua empresa se ele tivesse um grave problema de caráter ou se tivesse feito coisas ilegais? Ou no emprego anterior, nada tivesse feito a não ser enrolar todo mundo? Jamais, porque você sabe que isso é um problema, com certeza.

Mas, nas suas escolhas políticas, você age de forma totalmente diferente. A onda de emoção leva-o a uma análise superficial, que lhe traz em seguida um resultado por alguns anos desastrado e acaba com tudo o que você fez a vida inteira.

Democracia é mais do que votar, é, principalmente, para quem teve o privilégio de poder estudar e ser empresário, a obrigação de votar de forma racional e de acompanhar os políticos e suas políticas durante o mandato. O voto é um ato instantâneo, mas suas consequências duram a vida inteira.

 

* Stefan Salej é ex-presidente da Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg), consultor internacional, empresário e cientista político. Saiba mais sobre ele AQUI.

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Tempos de ontem, tempos de hoje. Melhores, piores, ou apenas diferentes?

Hoje reproduzo mais uma valiosa contribuição do historiador e romancista Ricardo de Moura Faria, que também é nosso amigo desde os primórdios da blogosfera 😉 Ele é autor de dezenas de livros didáticos e paradidáticos e dos romances “O amor nos tempos do AI-5” e “Amor, opressão e liberdade”. Boa leitura!

Imagens: Pinterest

Tempos de ontem, tempos de hoje. Melhores, piores, ou apenas diferentes?

“A partir de 1918, os europeus, ainda desnorteados pelos rumos que a guerra havia tomado, com uma mortandade incrível, destruição imensa de cidades etc., começaram a reavaliar o período que antecedeu à Primeira Guerra Mundial, mais especificamente as três décadas anteriores. Cheios de nostalgia, a intitularam como “Belle Époque”.

Eles não se deram, ou não quiseram se dar conta, de que uma época realmente belle não iria produzir uma catástrofe como a de 1914, como argutamente notou a historiadora norte-americana Bárbara Tuchmann, em seu belo livro “A torre do orgulho”.

O mundo que emergiu da guerra era estranho, valores foram ignorados ou desprezados e, portanto, curtir o período anterior era o melhor a se fazer. O tempo dos avós e dos pais era diferente, era considerado melhor do que aquele que tinham de enfrentar.

Estou iniciando estas considerações com esse episódio, para tentar desenvolver uma ideia, a de que todas as épocas anteriores à nossa realmente eram diferentes e é assim em todos os tempos. Nós, historiadores, sabemos que sempre é uma palavra muito difícil para ser usada porque tudo se move, e nada permanece “para sempre”. Ou quase nada. As mudanças podem, talvez, não ser muito perceptíveis no momento em que estão ocorrendo, principalmente aquelas que estão relacionadas às mentalidades que, como já disse o historiador francês Lucien Febvre, se constituem dos comportamentos e formas de pensar. E essa concepção estava imbricada nas relações da Psicologia com a História.

Como já estou chegando aos 70 anos, começaria por dizer que os meus tempos de infância e adolescência (décadas de 1950 e 1960), com certeza, foram substancialmente diferentes do que vivem as crianças e adolescentes nessas primeiras décadas do século XXI. Morando numa cidade pequena do interior, os divertimentos eram na praça enorme que havia em frente à nossa casa. Ali se jogava futebol, ali se soltava papagaio. Nos quintais, o gostoso era subir em árvores bem altas para se avistar quase toda a cidade. Ou, na época das frutas, chupar jabuticaba, manga, goiaba. Crianças que, além da escola, brincavam com outras crianças. Não havia televisão, só o rádio. E a luz só existia em algumas poucas horas da noite. Dentro de casa, se podia jogar dama, ludo etc.

Um pouco mais velho, com 9, 10 anos, já se podia entrar na brincadeira dos adolescentes, quase sempre o “esconde-esconde”, que se chamava de “negro fugido”. Corríamos pela cidade quase toda para procurar o “negro fujão”, que tentava se esconder de um bando de crianças e adolescentes. Tudo na rua.

Eram tempos melhores ou piores do que os de hoje? As crianças, hoje, “brincam” com smartphones, com jogos eletrônicos. Não socializam como na minha época de infância. Não arrisco dizer que os tempos eram melhores ou piores. Eram diferentes, sim, bem diferentes.

Passando agora para a questão da sexualidade. Não existiam aulas de educação sexual, nem na escola, nem nas casas. Esse assunto era tabu. Claro que, na adolescência, sempre aparecia um que sabia das coisas e comentava, ao seu jeito, com os neófitos. Lembro que, cursando o Ginásio numa escola católica de Juiz de Fora, alguns padres tentavam convencer os rapazes (a escola não era mista) dos perigos da masturbação e outros – geralmente os professores de religião – faziam o maior mistério para uma “aula especial” que haveria na semana seguinte, quando iriam explicar como as crianças eram feitas. E a expectativa se frustrava quando um padre alemão, com sotaque carregadíssimo, tentava, suando, explicar como o “perrrru” entrava na mulher para produzir a nova vida. Todos os alunos vermelhos, não de vergonha, mas da tremenda vontade de rir, que só explodia mesmo na hora do recreio.

Hoje estamos vendo esse debate sem fim sobre a questão de gênero.  Já ouvi comentários que os consultórios de psicólogos e psicanalistas que atendem jovens estão repletos de casos de depressão oriundos exatamente dessa pressão para assumirem uma homossexualidade ou uma bissexualidade ou até uma transsexualidade. Pressão que, muitas vezes, surge nas escolas, e que levam garotas e garotos a terem relações homoeróticas, e que depois se acham em grande confusão mental. Acho que, inclusive, o fazem às escondidas de pais e parentes.

Ter ou não ter educação sexual nas escolas? Muitos dirão que sim, outros muitos dirão que não. E esses últimos apontam quase sempre para os tempos antigos, como se fosse possível repeti-los na atualidade. São tempos diferentes…

Pergunto: os jovens de hoje estão se reunindo para discutir política? Quando falo “os jovens”, quero saber se a maioria está fazendo isso, porque uma minoria eu sei que mantém a chama acesa. Ou hoje é mais importante ficar enviando mensagens pelas redes sociais com erros gramaticais, de concordância e de conceituação absurdos, ou ainda, se reunirem para jogar videogames? Que livros eles estão lendo? Que músicas estão ouvindo? As letras dizem algo?

Mesmo sem conhecimento de pesquisas a respeito, mas observando o que jovens escrevem no Facebook ou no Twiter, sou obrigado a reconhecer que, em termos de idéias políticas ou de politização, como dizíamos na época, no meu tempo de adolescente chegando à idade adulta, final dos anos 60 e início dos 70, o grau de conhecimento e envolvimento em questões políticas era bem mais acentuado do que hoje e envolvia a quase totalidade dos estudantes.

Creio que, se eu estivesse ainda atuando no magistério, poderia ter uma ideia melhor sobre isso, mas considero que a multidão de jovens nas ruas pedindo intervenção militar denota que eles ignoram completamente a realidade brasileira. Não por acaso – me permitam fazer essa colocação aqui – quando lancei meu livro “O Amor nos tempos do AI-5” na Bienal de São Paulo, um jovem de seus 18, 19 anos veio até mim querendo saber se o que eu escrevia era ficção científica, pois entendia que AI-5 significava Artificial Intelligence nível 5. Pode parecer engraçado, mas é trágico!

O meu ensino médio, que na época passou a se intitular Ensino de Segundo Grau, foi feito de 1966 a 1968. E nós tínhamos, no Colégio de Aplicação da UFMG, o curso Clássico e o Científico, o primeiro voltado para os estudantes que se dirigiam à área de Ciências Humanas. Foi o que cursei e tínhamos Filosofia, História, Português (com redação toda semana, temas livres), Latim, Inglês, Francês, Geografia. Lembro dos debates acerca do imperialismo americano, sobre a Primavera de Praga, sobre a Guerra do Vietnã. Três amigos e eu estudávamos antes das aulas noturnas na pensão onde um deles residia e ali tínhamos debates políticos. Também nos encontrávamos aos sábados na Camponesa, onde se comia um pão de queijo especial, tomava-se uma cerveja bem gelada e víamos que não apenas nós, mas todos os estudantes colegiais e universitários que lá frequentavam, que discutiam política o tempo todo. Recordo bem o que nós conversamos depois que aquele deputado Márcio Moreira Alves fez um discurso que os militares não acharam graça nenhuma e pressionaram o Costa e Silva. Nós saímos da nossa reunião no sábado, convictos de que a situação iria engrossar nos dias seguintes. E deu no AI-5.

Nós estudávamos História, Filosofia… e tínhamos condições de analisar a conjuntura em que vivíamos… Hoje se quer reduzir a carga horária de História e eliminar a Filosofia dos currículos… Tempos diferentes, sem dúvida!

Uma questão política da mais alta relevância: a luta da mulher pela igualdade de direitos. Só quero dizer que fico pensando o que as feministas dos anos 60 que lutaram bravamente para fugir da dominação machista, e brigaram, e lutaram e conseguiram tanto, o que elas pensariam se vivas estivessem, ao saber que no Brasil mulheres se autodenominam de frutas (melancia, pera, morango, melão, jaca e sei lá mais o quê) e postam fotos seminuas ou nuas, como se estivessem se oferecendo para serem comidas por machos famintos.

Eu concluo dizendo que, realmente, no meu tempo – que é um tempo recente – as coisas eram diferentes…”

Será que eram melhores ou piores? O que você acha?

 

 


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