Contribuição de leitor: ‘Velhacos’

Hoje publico mais uma contribuição de leitor. O conto a seguir foi enviado por Juan Pablo Vieira Duarte, que prefere ser conhecido como Junas. Se gostar do estilo dele, pode clicar AQUI e ler mais contos como este 😉 Você também escreve contos, crônicas, poemas, resenhas, análises…? Envie para meu e-mail e seu texto poderá ser publicado aqui no blog, na seção de textos enviados pelos leitores 😉

 

“Longos anos de disputas e brigas intensas. A trivialidade dos irmãos Jorge e José foi estruturada com base em seus constantes atritos. Desde quando moravam juntos, com seus pais Josias e Grêta, a dupla já esboçava a típica aversão repetitiva. Como ainda eram apenas crianças, esses conflitos se resumiam em beliscões e deduradas. Porém atos menores já invocaram sentimentos piores em pessoas menos intensas. Não há uma relação mensurável entre a ação e a reação, sentimentos permeiam o subjetivo de forma instável. A única coisa indiscutível, é que o tempo atenua e encrava assuntos mal resolvidos. E o tempo passa rápido. Muito rápido. O suficiente para que todo o rancor deles permanecesse ávido.

Ao contrário do que se possa imaginar, não eram gêmeos. Havia uma diferença de 2 anos de idade entre os irmãos. Que quando ainda em fase de crescimento, tinha enorme relevância. Jorge, o mais velho, possuía enorme vantagem em relação à educação informal que o pai deles lhes fornecia diariamente. “Seja um bom menino na mesa  de jantar, mas na vida seja um canalha”. Jorge inevitavelmente possuía um grau de canalhice mais elevado em sua personalidade. Pobre José, teve que se esforçar muito mais ao longo da vida até conseguir ser repulsivo. O que também o prejudicou, mas nem tanto, foi a derrocada de seu pai ao alcoolismo. Enquanto antes suas frases causavam um impacto contundente em seus filhos, aos poucos, transformaram-se apenas em bobagens de um velho beberrão. Continuar lendo

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Contribuição de leitora: ‘Chapeuzinho Roxo’

Desta vez o conto foi enviado pela leitora Susan Blum, curitibana que é professora universitária na Universidade Positivo, oficineira de criação literária no CELIN (UFPR), formada em psicologia (PUC-PR) e Letras (UFPR) e mestre em literatura pela UFPR. Ela é autora do livro de contos “Novelos nada exemplares” (2010), participante da coletânea de contos “Então, é isso?” (2012) e está na antologia de “48 contistas paranaenses” (2014). Está procurando uma editora para publicar a biografia de Julio Cortázar que escreveu junto com o jornalista Cassiano Viana. Quem gostar do estilo dela pode ler mais contos em seu blog.

Vamos ao conto enviado por Susan:

Ilustração de Gustave Doré.

Ilustração de Gustave Doré.

“Era uma vez… não. Esta não começa assim.

Roxo. Meio roxo. Muito roxo. E dolorido. Em uma meia moldura inchada e dolorida, o olho semi-aberto se observa no espelho.

Pega a maquiagem e tenta, com meio sucesso, esconder o roxo do olho.

Sentia raiva, MUITA raiva, dos covardes que fizeram aquilo. Enfrentou-os com meia coragem. Agora engolia o choro, porque não se deve chorar. E relembra da surra. Aqueles animais!

O ódio parecia evaporar as meias lágrimas que insistiam.

Pegou seu chapéu roxo para sair de casa. Andar sempre ajudava. Antes de sair, no entanto, o ritual de sempre: pegar uma meia, dobrar algumas vezes, passar por dentro de um lado, afofar para parecer um pênis e enfiar por dentro da calça. Agora sim! Ficava mais confiante!

Viu os meninos da vizinhança brincando de futebol. Pediu para entrar. Depois de um tempo jogando bola, resolveu voltar para casa.

Mas ao entrar no quarto rosado, com babados, bichinhos e estampas florais, sentiu de novo a raiva aflorar.

Será que sua mãe não enxergava?

Que droga! Novamente infeliz, se jogou na cama e mais uma vez chorou.

Passados meses, soube de uma cirurgia que poderia ajudar. Guardou dinheiro e fez!

Sentia cansaço de escutar o de sempre:

“Não importa se você é diferente. Amo você mesmo assim”.

Como assim MESMO assim? É uma doença por um acaso? Um defeito? Que horrível dizer isso!
Mas agora, com o tratamento que estava fazendo, tinha certeza de que iria ser feliz!

Depois de meses, entrou no quarto ainda rosado, correu para o espelho, arrancou as roupas do corpo e deixou-as em frangalhos jogadas no chão.

Por fim, tirou o chapéu roxo e viu, satisfeit@: Finalmente era lobo.”

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Contribuição de leitora: ‘O poço’

Nas últimas duas semanas, recebi três contribuições de textos enviados por leitores. Publico hoje mais uma, enviado pela escritora e poeta Maria Lourdes da Silva, que é da cidade de Mogi das Cruzes, interior paulista. Ela cursa licenciatura em filosofia e já tem um romance publicado, que pode ser comprado AQUI.

Vamos ao conto dela:

Reprodução / Flickr

Reprodução / Flickr

“Eu e meus irmãos brincávamos no quintal, que naquele tempo tinha vegetações com algumas árvores frutíferas, touceiras, ramas e um poço bem no meio. O céu estava todo alegre e colorido por conta das pipas que flutuavam nos ares e se misturavam com as nuvens brancas, o sol estava quente.

Meu irmão Murilo nos presentou com pipas e a minha era uma raia amarela. Ele era o campeão da rua nos campeonatos de pipas que aconteciam no bairro. Mamãe havia saído para a sua luta diária revendendo os seus cosméticos e produtos de beleza.

Pedrinho, o irmão do meio, estava tão empolgado com sua pipa azul que, quando a lançou no céu, gritava : “Tá voando! Tá voando!”

O que não esperávamos é que ele, andando de costas dando linha em sua pipa, caísse no poço… Foi uma gritaria imensa. Eu, distraída com minha raia que não subia, olhei para o alto e vi a pipa azul do Pedrinho declinar no céu… mas ele já estava dentro do poço.

Olhamos pela borda e ele estava submerso às águas, agarrado, segurando a tábua que tampava o poço e que o salvou de um afogamento.

Senhor Araújo era um vizinho muito alegre e tranquilo e escutou os gritos de mamãe, que chegou no mesmo instante. Pulou a cerca de bambu que separava as três casas vizinhas, num ímpeto e agilidade extraordinários, e o retirou do poço jogando-o para os braços de minha mãe. Os vizinhos que se aglomeraram no portão o aplaudiram como herói.

A tarde passou com todo aquele tumulto, a casa encheu de gente e mamãe convidou a todos para que entrassem para tomarem um café após aquele susto.

Fui a última a entrar, parei na porta da cozinha, olhei para o quintal em volta do poço, as pipas jogadas e abandonadas no chão, o poço ainda destampado, e observei no céu — a lua, testemunhando um pouco daquele momento. Senti medo, mas, aliviada por ter acabado tudo bem, entrei e fechei a porta.”

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Contribuição de leitora: “Até no inferno!”

O texto abaixo foi enviado pela leitora Sue Amado, professora de inglês de 49 anos de idade. Ela é nascida na Guiné-Bissau, país da África Ocidental, e hoje mora em Tomar, cidade do distrito de Santarém, em Portugal (Fiquei muito feliz ao saber que este blog é lido de tão longe!). Ela já tem quatro livros publicados e, neste ano, vai publicar mais um, já em fase de revisão. Quem gostar de seu estilo pode ler outros contos dela em seu blog.

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Agora, vamos ao conto da Sue:

Quadro

Quadro “Der Kuss” (O Beijo), de Gustav Klimt, feito entre 1907-1908.

“Sempre disse que daria tudo para ter quem me seguisse, quem não soubesse viver se eu não estivesse por perto, alguém que sentisse as minhas palavras, tão fundo, que todas as outras fossem apenas o que se precisa de usar para nos juntarmos ao resto do mundo. Daria tudo para saber de quem pousasse um olhar fixo em mim, e que conseguisse auscultar-me por dentro. Um corpo no qual me encostasse para que todas as dores do mundo se subtraíssem, ter quem planeasse ver-me, nos mesmos lugares, até que os nossos corpos se recusassem obedecer-nos, mas que deixasse de importar, porque estaríamos a envelhecer juntos.

Gostava de poder mostrar, sentir e viver, um amor que me fizesse mergulhar nos mesmos mares dos quais tenho medo de morte, talvez por já ter morrido em algum, um amor que me levasse a perdoar cada falha, com receio de falhar também eu, e a ponto de perder quem realmente importasse.

Gostava de te poder dizer, todos os dias, tal como o sinto agora, que por ti me superaria, iria até onde fosse preciso para ser a pessoa que visualizasses em cada pedaço do teu futuro. Eu sei que da forma como te amo me faria ser amada de volta, e que se te perdesse procurar-te-ia, iria até no inferno, ao lugar de onde dizem nenhuma alma ter jamais saído, e te traria de volta, para que estivesses do lado de quem te respira e sabe como se te entrar dentro.

Nada, nem ninguém, nos roubaria um segundo que fosse, a mais do que aqueles que já teriam que nos arrastar para longe um do outro, porque viver tem, infelizmente, outras nuances e estar contigo e em ti, nunca poderá ser sempre e para sempre, mas seria intenso, sentido e desejado, tanto que não precisaria de te dizer o que escrevo agora, porque já o saberias, já me teria encarregado eu de te o provar.

Vou aprendendo a tranquilizar-me, a saber esperar, porque agora, mais do que ontem, sei que te terei outra vez, que te reconhecerei em qualquer outra vida, mesmo que o duvides, mas acredita que se te tiraria até do inferno, então também te conseguiria encontrar, em qualquer rua de um novo destino, na hora certa, naquela em que passarias tu para que te visse realmente!”

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Decálogo do Contista, por Horacio Quiroga

No final do livro de Quiroga que resenhei ontem, há um “Decálogo do Contista”, em que ele dá as regras para quem quiser arriscar nessa seara. Boa sorte:

I – “Crê em um mestre – Poe, Maupassant, Kipling, Tchecov – como em Deus mesmo.”

II – “Crê que tua arte é um cume inacessível, não sonhes dominá-la. Quando puderes fazê-lo, conseguirás sem ao menos perceber.”

III – “Resiste o quanto puderes à imitação, mas imite se a demanda for demasiado forte. Mais que nenhuma outra coisa, o desenvolvimento da personalidade requer muita paciência”.

IV – “Tem fé cega não em tua capacidade para o triunfo, mas no ardor com que o desejas. Ama tua arte como à tua namorada, de todo o coração”.

V – “Não comeces a escrever sem saber desde a primeira palavra aonde queres chegar. Em um conto bem-feito, as três primeiras linhas têm quase a mesma importância das três últimas”.

VI – “Se quiseres expressar com exatidão esta circunstância: “Desde o rio soprava o vento frio”, não há na língua humana mais palavras que as apontadas para expressá-la. Uma vez dono de tuas palavras, não te preocupes em observar se apresentam consonância ou dissonância entre si”.

VII – “Não adjetives sem necessidade. Inúteis serão quantos apêndices coloridos aderires a um substantivo débil. Se encontrares o perfeito, somente ele terá uma cor incomparável. Mas é preciso encontrá-lo”.

VIII – “Toma teus personagens pela mão e leva-os firmemente até o fim, sem ver nada além do caminho que traçastes para eles. Não te distraias vendo o que a eles não importa ver. Não abuses do leitor. Um conto é um romance do qual se retirou as aparas. Tenha isso como uma verdade absoluta, ainda que não o seja”.

IX – “Não escrevas sob o império da emoção. Deixe-a morrer e evoque-a em seguida. Se fores então capaz de revivê-la tal qual a sentiu, terás alcançado na arte a metade do caminho”.

X – “Não penses em teus amigos ao escrever, nem na impressão que causará tua história. Escreva como se teu relato não interessasse a mais ninguém senão ao pequeno mundo de teus personagens, dos quais poderias ter sido um. Não há outro modo de dar vida ao conto”.

A bem da verdade, esse decálogo também pode ser aplicado à feitura das boas reportagens… Jornalistas burocráticos deste mundo: bora tentar? 😉