Contribuição de leitora: ‘Chapeuzinho Roxo’

Desta vez o conto foi enviado pela leitora Susan Blum, curitibana que é professora universitária na Universidade Positivo, oficineira de criação literária no CELIN (UFPR), formada em psicologia (PUC-PR) e Letras (UFPR) e mestre em literatura pela UFPR. Ela é autora do livro de contos “Novelos nada exemplares” (2010), participante da coletânea de contos “Então, é isso?” (2012) e está na antologia de “48 contistas paranaenses” (2014). Está procurando uma editora para publicar a biografia de Julio Cortázar que escreveu junto com o jornalista Cassiano Viana. Quem gostar do estilo dela pode ler mais contos em seu blog.

Vamos ao conto enviado por Susan:

Ilustração de Gustave Doré.

Ilustração de Gustave Doré.

“Era uma vez… não. Esta não começa assim.

Roxo. Meio roxo. Muito roxo. E dolorido. Em uma meia moldura inchada e dolorida, o olho semi-aberto se observa no espelho.

Pega a maquiagem e tenta, com meio sucesso, esconder o roxo do olho.

Sentia raiva, MUITA raiva, dos covardes que fizeram aquilo. Enfrentou-os com meia coragem. Agora engolia o choro, porque não se deve chorar. E relembra da surra. Aqueles animais!

O ódio parecia evaporar as meias lágrimas que insistiam.

Pegou seu chapéu roxo para sair de casa. Andar sempre ajudava. Antes de sair, no entanto, o ritual de sempre: pegar uma meia, dobrar algumas vezes, passar por dentro de um lado, afofar para parecer um pênis e enfiar por dentro da calça. Agora sim! Ficava mais confiante!

Viu os meninos da vizinhança brincando de futebol. Pediu para entrar. Depois de um tempo jogando bola, resolveu voltar para casa.

Mas ao entrar no quarto rosado, com babados, bichinhos e estampas florais, sentiu de novo a raiva aflorar.

Será que sua mãe não enxergava?

Que droga! Novamente infeliz, se jogou na cama e mais uma vez chorou.

Passados meses, soube de uma cirurgia que poderia ajudar. Guardou dinheiro e fez!

Sentia cansaço de escutar o de sempre:

“Não importa se você é diferente. Amo você mesmo assim”.

Como assim MESMO assim? É uma doença por um acaso? Um defeito? Que horrível dizer isso!
Mas agora, com o tratamento que estava fazendo, tinha certeza de que iria ser feliz!

Depois de meses, entrou no quarto ainda rosado, correu para o espelho, arrancou as roupas do corpo e deixou-as em frangalhos jogadas no chão.

Por fim, tirou o chapéu roxo e viu, satisfeit@: Finalmente era lobo.”

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