A burrice no poder está acabando com o Brasil

Todas as charges que ilustram este post são do Duke, o melhor chargista do Brasil.

Texto escrito por José de Souza Castro:

A burrice no poder tende não só a se perpetuar, como a nela se afundar. O acúmulo de bobagens ou de tragédias, a partir de um certo ponto, exigiria tamanha confissão de incompetência, que os donos de poder continuam até a ruptura total. Reconhecer a burrice torna-se demasiado penoso.

É com essa constatação que o economista Ladislau Dowbor, professor titular de pós-graduação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, inicia um artigo publicado no site Outras Palavras, que li com grande interesse e que recomendo aos leitores deste blog.

Considerando, porém, que alguns não terão tempo para ler suas 13 páginas (6.571 palavras), me animo a resumi-lo, em parte:

FORÇA DA INÉRCIA

A burrice política obedece a uma impressionante força de inércia. Isso levou, por exemplo, cinco presidentes norte-americanos sucessivos a se afundarem na guerra do Vietnã, apesar da convicção íntima, hoje conhecida, de que era uma causa perdida.

Qualquer semelhança com o golpismo no Brasil insistir numa política que empurra o país para trás, mesmo depois de quatro anos de desastre, não é evidentemente uma coincidência, é a regra. No túnel da burrice, os que a perpetram sempre imaginam que logo adiante surgirá a proverbial luzinha. Se a política sacrifica em vez de ajudar, dirão que o sacrifício não foi suficiente, é só aprofundar um pouco mais. Com gigantesco esforço de mídia, de fake-news e de dinheiro, elegeu-se um presidente cujo rumo é simplesmente acelerar a Marcha. Com Deus e a Família rumo ao absurdo.

NÃO HÁ FALTA DE RECURSOS

A austeridade nunca funcionou, porque o capitalismo, para se expandir, precisa de produtores, mas também de consumidores. No centro do raciocínio, está a ilusão de que não temos recursos suficientes para incluir os pobres. As políticas sociais e um salário mínimo decente não caberiam na economia, no orçamento, ou na Constituição, segundo os políticos.

Nosso problema não é falta de recursos, e sim a burrice na sua distribuição.  O Brasil produz 6,3 trilhões de reais de bens e serviços; divididos por 208 milhões de habitantes nos dá um per capita de 30 mil reais ao ano.

Na fase do lulismo, a economia cresceu, sendo que a renda dos mais pobres e das regiões mais pobres cresceu mais do que a renda dos mais ricos: todos ganharam, os pobres de maneira mais acelerada, reduzindo a desigualdade. A ascensão dos pobres gerou nos ricos a reação esperada: a mesma que tiveram com Getúlio e com Jango, agora repetida com Dilma e com Lula. Reconhecer que funciona o que sempre denunciaram seria penoso demais. A burrice é muito teimosa.

O Banco Mundial qualificou os anos 2003 a 2013 de The Golden Decade¸ a década dourada da economia brasileira. É preciso ser muito ideologicamente cego para ignorar o imenso avanço que representaram a queda do desemprego de 12% em 2002 para 4,8% em 2013, a abertura de 18 milhões de empregos formais, a retirada de 38 milhões de pessoas da pobreza, a redução do desmatamento da Amazônia de 28 para 4 mil quilômetros quadrados, o acesso à luz elétrica para 15 milhões de pessoas e assim por diante.

A NARRATIVA DA ENGANAÇÃO

A opacidade mental dificulta naturalmente a aceitação dos números por quem quer se convencer do contrário. Então se gera uma forma sofisticada de bobagem chamada hoje de “narrativa”: fazer política para o povo é populismo, o populismo quebrou as contas do Estado e o caminho certo é o da boa dona de casa que só gasta o que tem. Portanto, a dona de casa Dilma tem de ir para casa.

Mas os números são simples: o que gerou o déficit não foram as políticas econômicas e sociais do governo, e sim os juros escorchantes sobre a dívida pública e a dívida privada, a chamada financeirização. Já pararam para pensar o que significa o Brasil ter, em 2018, 64 milhões de adultos endividados até o ponto de não poderem mais pagar suas dívidas?

CORTE DE POLÍTICAS SOCIAIS

Quando a Dilma tenta, entre 2012 e 2013, reduzir as taxas de juros, começa a guerra política, com manifestações, boicote e denúncias. A partir de meados de 2013 não há mais governo. Dilma ainda ganha a eleição, mas, como foi anunciado pelos adversários, não governaria. A burrice atinge o seu ápice quando se cortam as políticas sociais com a lei do teto de gastos, mas se mantêm as taxas de juros. Os bancos agradeceram, a classe rentista também. Jogaram a economia na recessão.

Em termos políticos, tiraram Dilma sem crime, prenderam Lula sem comprovação de culpa, elegeram um presidente absurdo por meio da prisão de quem ia ganhar a eleição, e quem prendeu Lula ganhou o posto de ministro.

Sim, de 2014 para cá, são muitos anos em que estão “consertando” a economia, que continua parada. O presidente eleito vai reduzir ainda mais os rendimentos da massa da população. Só para lembrar, no Bolsa Família são 30 bilhões de reais ao ano, que geram demanda e dinamizam a economia. Só os juros sobre a dívida pública, na faixa de 320 bilhões de reais, representam dez vezes mais, alimentando rentistas. E como as finanças deformadas quebraram a economia, o déficit aumentou. É um círculo vicioso.

No entanto, persiste a narrativa simplória: Dilma quebrou a economia. Para a maioria das pessoas, em particular quando não entendem os processos, política se resume a eleger o culpado. O sistema financeiro travou a economia, mas vendeu ao povo uma culpada, aliás, mulher e teimosa, vítima ideal.

CAPITALISMO DÁ TIRO NO PRÓPRIO PÉ

O lucro sobre investimento é legítimo: gera empregos, produtos, e paga impostos. Os banqueiros chamam os diversos papéis que rendem dividendos de “produtos”, o que constitui um disfarce simpático. Dinheiro ganho com aplicações financeiras não coloca um par de sapatos no mercado de bens realmente existentes. Diferenciar investimento produtivo e aplicação financeira é básico.

Papéis financeiros renderam nas últimas décadas entre 7% e 9% ao ano. Só para lembrar, a produção efetiva de bens e serviços aumenta no mundo num ritmo incomparavelmente menor, da ordem de 2% a 2,5%. Os afortunados, logicamente, irão optar pelas aplicações financeiras. A cada dia a maior parte deste dinheiro é reaplicada, gerando um enriquecimento improdutivo que gradualmente multiplica bilionários e trava a economia. É o capitalismo dando o tiro no próprio pé, ao perder a sua principal justificativa, a produtividade. De crise em crise, no cassino financeiro mundial, vimos o 1% dos mais ricos do planeta se apropriar de mais riqueza do que os 99% seguintes. É sistemicamente disfuncional.

A economia de mercado supunha trocas entre produtores e consumidores, com geração de emprego e renda. Hoje os “mercados”, grupo limitado de especuladores, apresentam um surto de otimismo a cada redução dos direitos da população. É a lógica da insensatez.

Um exemplo prático ajuda: há alguns anos a Coréia do Sul desbloqueou recursos públicos pesados para financiar sistemas de transporte público não poluente. O investimento gerou evidentemente um conjunto de atividades de pesquisa e de produção, e portanto emprego. Como utilizar transporte coletivo é muito mais barato do que cada pessoa pegar o seu carro, foram geradas economias que mais que compensam o investimento. Como investiram em transporte menos poluente, melhoraram as emissões tanto pela tecnologia desenvolvida como pela redução do uso de automóveis. Menos poluição nas cidades significa menos doenças de diversos tipos, e economias na área da saúde. A redução do tempo perdido nos engarrafamentos permite menor desgaste da população, mais tempo com lazer, melhor produtividade no trabalho. O exemplo tende a ilustrar apenas o óbvio: os recursos têm de ser investidos em projetos e programas que geram efeitos multiplicadores em termos de dinamização econômica, de proteção do meio ambiente e de melhoria do bem-estar das famílias. Tanta inteligência que se gasta para encontrar a aplicação financeira que mais rende, poderia ser utilizada para elaborar os projetos mais úteis. E enriquecer a sociedade.

No Brasil, a economia não funciona, porque não se coloca o dinheiro onde vai ter efeitos multiplicadores.

BANCOS EXTORQUEM AS FAMÍLIAS

No Brasil, as famílias e as empresas pagam anualmente, só em juros, sem reduzir a dívida, 1 trilhão de reais. Ou 16% do PIB. Em fevereiro de 2018, por exemplo, os juros bancários para pessoa física estavam na faixa de 137% ao ano, quando na França são inferiores a 5%. Assim o sistema financeiro drenou a capacidade de compra das famílias e a capacidade de investimento das empresas.

O dinheiro dos nossos depósitos e o fluxo de juros que os bancos extorquem das famílias e das empresas são em grande parte aplicados em títulos da dívida pública. O governo pagou aos bancos e aos ricos que têm aplicações deste tipo 341 bilhões de reais em 2017, cerca de 6% do PIB. Nossos impostos, em vez de financiarem políticas sociais e infraestruturas, vão parar nos bolsos dos especuladores financeiros, de gente que não produz nada.

Isso é agravado pelo sistema tributário. Enquanto na Europa se corrige em boa parte a deformação taxando o capital financeiro, as grandes fortunas, as heranças, e as rendas mais elevadas, no Brasil os ricos pagam proporcionalmente menos que os pobres, e desde 1995 os lucros e dividendos distribuídos são isentos de impostos. Além disso, cerca de um terço do nosso PIB se encontra em paraísos fiscais. Parte dos imensos drenos que sangram a nossa economia, que vaza por todo lado.

A nossa Constituição é clara: “O sistema financeiro nacional [será] estruturado de forma a promover o desenvolvimento equilibrado do País e a servir aos interesses da coletividade.” Hoje, serve essencialmente para alimentar improdutivos, sejam eles banqueiros, grupos nacionais ou internacionais, e em particular a classe média alta que com tanto entusiasmo ocupa a avenida Paulista. A realidade é que os bancos criaram um sistema em que os nossos impostos são desviados em grande parte para os seus cofres e para os rentistas que participam da festa, essencialmente os mais afortunados. Os banqueiros manejam o Estado, drenam os seus recursos, e explicam que a culpa é do Estado, dos impostos elevados, e dos “gastos” com os mais pobres.

Seria incomparavelmente mais produtivo para todos, inclusive para os bancos, fomentarem a economia em vez de drená-la. A China tem esse ritmo de desenvolvimento porque canaliza os recursos financeiros “de forma a promover o desenvolvimento”.

MANUTENÇÃO DA DESIGUALDADE É BURRA

Manter a desigualdade é particularmente absurdo, mas está no centro das propostas do poder. Afinal, os ricos que nos regem defendem os seus próprios interesses, e é raríssimo ter alguém no poder que não seja rico, branco, homem, e centrado em aumentar as suas próprias vantagens.

O sistema se torna disfuncional, inclusive para os donos do poder. Jogaram a economia na recessão, no desemprego, e no caos político. Esse sistema nem para os ricos funciona.

Todos esses ricaços irresponsáveis que esbanjam os seus recursos com consumo espalhafatoso ou especulação financeira, em vez de ajudar na implementação de políticas que funcionam para o conjunto da sociedade, todas essas corporações que geram tragédias sociais e ambientais, navegam em valores de primatas, na ética de que o sucesso consiste em arrancar o pedaço maior, que se dane o sofrimento, que se dane o planeta. Aqui temos inteligência impressionante para gerar novos meios, mas uma burrice impressionante em termos de definir os fins. Vamos construir mais muros, abrir mais condomínios, mais casulos de riqueza, sistemas de repressão mais violentos?

Essa desigualdade é evidentemente disfuncional também em termos sociais e políticos. E a desigualdade constitui em particular uma burrice no plano econômico. Porque funcionaram o New Deal de Roosevelt, o Welfare State dos países hoje desenvolvidos, o milagre da Coréia do Sul, o impressionante ritmo de desenvolvimento da China, a “década dourada” do Brasil? Todos tiveram em comum a expansão da capacidade de compra da base da população, e o acesso a políticas sociais públicas e universais, que permitiram ampliar a escala de produção e o emprego.

O consumo das famílias e a produção empresarial geram por sua vez impostos que aumentam as receitas do Estado, permitindo o financiamento das políticas sociais: uma população com mais saúde e educação é mais produtiva. Aqui não são necessários ideologias e ódios, e sim um simples olhar para o que funciona. E o que funciona é quando a economia é orientada segundo as prioridades e o bem-estar das famílias. A desigualdade, em termos econômicos, apenas mantém uma atividade de base estreita e de baixa produtividade.

O leitor interessado pode acessar o texto completo AQUI.

Leia também:

***

Quer assinar o blog para recebê-lo por email a cada novo post? É gratuito! CLIQUE AQUI e veja como é simples!

faceblogttblog

Anúncios

Campos de concentração nazista de loucos no governo Bolsonaro?

Texto escrito por José de Souza Castro:

Foto: Luiz Alfredo/Museu da Loucura (1961)

Entre as regressões possíveis no governo Bolsonaro, uma já foi assinalada, sem que a imprensa e os eleitores tomassem conhecimento, ainda durante o governo Temer: a volta dos manicômios. Tenho interesse especial nesse tema, mas só tomei conhecimento da novidade ontem no blog Viomundo.

Soube da existência de manicômios ainda menino, ao ouvir, no começo dos anos 50 do século passado, que um irmão de meu pai – o tio Vital, nascido em 1899 em Santo Antônio do Monte, vivia desde jovem num hospício de Barbacena.

O horror dessa situação, porém, só me bateu forte quando o “Jornal do Brasil”, onde eu trabalhava, acompanhou a visita do psiquiatra italiano Franco Basaglia, em 1979, no hospital psiquiátrico de Barbacena, fundado em 1903.

Estudioso do problema dos manicômios, Basaglia comparou o Hospital Colônia de Barbacena, o maior do Brasil, a um campo de concentração nazista. Na época, o psiquiatra italiano liderava uma campanha mundial pelo fechamento dos manicômios.

Não sei se foi nesse manicômio – havia outros em Barbacena – que meu tio Vital, que ao nascer fora homenageado com o mesmo nome do pai acrescido de um Filho, passara a maior parte de sua vida. Uns sete anos antes da ida de Basaglia, Vital tinha sido libertado por um irmão, Abelardo.

Assim, ele pôde passar os últimos anos de vida em sua terra natal, na casa de uma irmã. Tinha então 74 anos. Dez anos mais novo, Abelardo, um simples empresário, descobrira que a doença do irmão podia ser tratada em casa, tomando um comprimido diário.

Algo que talvez a Frente Parlamentar Mista em Defesa da Nova Política Nacional de Saúde Mental e da Assistência Hospitalar Psiquiátrica, lançada no último dia 27 de novembro na Câmara dos Deputados, não saiba.

Ou sabe, mas são deputados com interesses outros que ultrapassam a saúde mental. É possível que não tenham um tio que será condenado a viver, até morrer, num desses hospícios. Talvez, os loucos da família sejam apenas eles – os defensores da nova política nacional de saúde mental.

Nova? Basaglia riria disso, se não houvesse morrido em 1980, um ano depois de sua última visita ao Brasil.

Recorro agora ao artigo do Viomundo, assinado pela jornalista Conceição Lemes. Trecho:

“Entre os que discursaram [no lançamento da Frente Parlamentar Mista], Quirino Cordeiro Júnior, que chegou ao Ministério da Saúde em maio de 2016, com o golpe que derrubou a presidenta Dilma Rousseff (PT).

(…) Quirino desqualifica tudo o que foi feito na política de saúde mental no Brasil nos “últimos 30 anos” acusando-a de ”absolutamente ideológica”, entre outras coisas.

Como Quirino é coordenador de Saúde Mental desde maio de 2016, suponho que ele se refira ao período que vai de 1986 a 2016.

Quirino, aliás, tem se apresentado como o executor das políticas elaboradas por representantes do setor privado e da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).

Há anos a ABP tenta o retorno ao modelo baseado em hospitais, que garante ao psiquiatra o controle absoluto do ‘mercado’ da psiquiatria.

É nesse contexto que se insere o artigo de Ana Paula Guljor sobre a apresentação de Quirino no lançamento da frente parlamentar.

Ana Paula é médica psiquiatra, pesquisadora da Fiocruz, no Rio de Janeiro, e diretora da Associação Brasileira de Saúde Mental (Abrasme).”

E o que diz a diretora da Abrasme? Alguns parágrafos:

“(…) A fala de Quirino no lançamento da Frente Parlamentar Mista Pró-Manicômio é a síntese do projeto político do governo Temer e também sinaliza o caminho que seguirá o presidente eleito.

A proposta deste grupo político se faz representar desde o ministro da saúde anterior, Ricardo Barros, por uma lógica privatista, que busca privilegiar o mercado de planos de saúde e medicina privada.

Reduz a concepção de saúde à ausência de doença.

Desta forma, o tratamento retoma um modelo biologizante restrito a intervenções centradas na medicalização e excluindo os determinantes sociais do processo saúde-doença.

Esta lógica se contrapõe ao processo proposto pela Reforma Psiquiátrica que direciona seu olhar para o sujeito e suas necessidades, não buscando apenas a remissão de sintomas.

A política em curso busca desconstruir o Sistema Único de Saúde em prol do favorecimento de nichos de mercado (indústria de fármacos, corporações médicas, medicina de grupo e planos de saúde), que passam a ditar as diretrizes dos “tratamentos eficazes”.

Esse processo leva quem tem condição econômica mediana e alta à compra de assistência médica privada e conveniada para obter seu tratamento, enquanto condena a massa da população vulnerável à desassistência.”

Desassistência? Ah, bom. Se for só isso, não teremos campos de concentração nazista para loucos no governo Bolsonaro…

Leia também:

***

Quer assinar o blog para recebê-lo por email a cada novo post? É gratuito! CLIQUE AQUI e veja como é simples!

faceblogttblog

Dilma e o sári vermelho

Texto escrito por José de Souza Castro:

Acabei de ler “O Sári Vermelho”, livro de Javier Moro (nada a ver com o juiz), publicado em 2009 pela Editora Planeta do Brasil. A história da pobre italiana Sonia Maino, casada com o indiano Rajiv Ghandi, filho da primeira-ministra Indira Ghandi que também foi primeiro-ministro. Depois que o marido e a sogra foram assassinados durante campanhas eleitorais, Sonia só não se tornou a dirigente mais poderosa da Índia porque não aceitou sua nomeação, preferindo continuar presidindo o socialista Partido do Congresso, criado por Mahatma Ghandi e seu amigo Jawaharlal Nehru, que se tornou primeiro-ministro depois de declarada a independência em agosto de 1947.

Uma baita história – o que justifica as 540 páginas do livro. Ser publicado no Brasil, onde o que mais se lê é o WhatsApp e suas fake-news, faz todo o sentido pela semelhança entre o drama brasileiro pós-impeachment de Dilma Rousseff e o neocolonialismo a Donald Trump e entre uma Índia nascida da luta contra os colonizadores britânicos e do esforço para se manter uma nação unida.

Nehru morreu em 1964, ainda primeiro-ministro. Três anos depois, a filha Indira se tornou a primeira mulher a ocupar, democraticamente, o cargo mais importante de um país de 500 milhões de pessoas e que se destacava pela imensa maioria de indianos pobres ou miseráveis.

Desde a independência, sob Nehru, houve muito progresso econômico, mas o problema da corrupção, endêmico na Índia, parecia invencível. Rajiv calculava que 85% de todos os gastos de desenvolvimento acabavam nos bolsos dos burocratas. Sonia e o primeiro-ministro Manmohan Singh, indicado por ela quando desistiu do cargo, conseguiram aprovar uma lei “que permite a qualquer cidadão examinar as ofertas dos contratos de licitação pública e evitar, assim, a prevaricação e o suborno”, escreveu Moro – o outro.

O governo socialista conseguiu que o país avançasse muito, investindo em educação, ciência e tecnologia. A Índia foi o país que mais rapidamente cresceu no mundo, depois da China, mas falta muito ainda para que fosse deixado para trás o seu passado arcaico, como sonhava Nehru.

A distribuição da riqueza é tão ruim como no Brasil. Em Bombaim, que em 2008 se tornara a quarta do planeta em número de bilionários, contava com a maior favela da Ásia e a maior concentração de prostitutas infantis do mundo. Enquanto isso, um bilionário presenteou sua mulher com… um Airbus!

A situação havia piorado quando a direita nacionalista venceu as eleições depois do assassinato de Rajiv Ghandi, filho de Indira, em maio de 1991. O Partido do Congresso só voltou ao governo em maio de 2004, graças à campanha eleitoral liderada por Sonia Ghandi.

A Índia estava então com mais de 1 bilhão de habitantes e 670 milhões de eleitores. O país tinha 30 milhões de celulares, contra cerca de 1,5 milhão cinco anos antes. Quatro milhões de funcionários públicos foram mobilizados em 700 mil mesas eleitorais. Votos em papel. A eleição ocorreu no dia 10 de maio e o resultado final foi conhecido cinco dias depois.

Apesar da vitória, Sonia Ghandi não aceitou a oferta de se tornar primeira-ministra, para não acirrar ainda mais os ânimos da oposição que não se conformava em ser governada por uma católica italiana. A questão religiosa já havia causado centenas de milhares de mortos, num país que deveria, conforme Ghandi e Nehru inscreveram na Constituição, ter um governo laico. Mas a direita oposicionista vinha fomentando e se aproveitando eleitoralmente dos conflitos religiosos geralmente sangrentos.

Havia um campo fértil para o dissenso. Em 1967, quando Indira se tornou primeira-ministra, aos 48 anos, a Índia era um país de maioria hindu, mas com mais de 100 milhões de mulçumanos, 10 milhões de cristãos, 7 milhões de siques, 200 mil parses e 35 mil judeus. No imenso território indiano conviviam 4.635 comunidades diferentes e línguas tão antigas como diversas, uma Babel em que eram usados 845 dialetos e 17 línguas oficiais. E cerca de 330 milhões de divindades.

“Talvez a maior conquista dessa nação forjada por Nehru e Gandhi seja que continuava sendo livre a despeito do rosário de maldições e de terríveis problemas herdados dos colonizadores britânicos”, analisa o escritor espanhol Javier Moro.

Num cenário como esse, o leitor brasileiro chega ao final do calhamaço aliviado com a situação do Brasil. Apesar de Bolsonaro e de seus fanáticos de todas as crenças, de Deus acima de tudo, de Trump e dos bilionários gananciosos que comandam a economia e a política aqui e no mundo, há esperança. Se a Índia pôde, o Brasil pode.

Ameaçada de morte tantas vezes, Sonia Ghandi continua viva, aos 75 anos. Em 2013, foi apontada pela revista “Forbes” como a terceira mulher mais poderosa do mundo, atrás da chanceler alemã Ângela Merkel e da presidente do Brasil, Dilma Rousseff.

Há 11 meses, seu filho Raul Gandhi a sucedeu como presidente do Partido do Parlamento. E Dilma Rousseff, em outubro, não se elegeu senadora pelo PT mineiro. Nada que cause desesperança.

Leia também:

***

Quer assinar o blog para recebê-lo por email a cada novo post? É gratuito! CLIQUE AQUI e veja como é simples!

faceblogttblog

Os tempos difíceis de Dickens não voltam mais com Bolsonaro

Texto escrito por José de Souza Castro:

Era comum ver crianças trabalhando nas fábricas inglesas do século 19. [Não sei autoria da foto]

Vinte anos depois de comprar “Hard Times”, edição da Oxford University Press, estou relendo o livro escrito em 1854 por Charles Dickens, em plena revolução industrial inglesa. Por mais desastroso que seja o governo almejado pelo ex-capitão Bolsonaro, com telescópio invertido para 1964, a situação dos trabalhadores brasileiros dificilmente regressará às condições de 164 anos atrás. Mas, de toda forma, eles viverão “Tempos Difíceis”.

No começo de 1999, enquanto eu lia “Hard Times”, o tucano Fernando Henrique Cardoso iniciava sua nova gestão de quatro anos, sob o signo da crise do real. Em janeiro, depois da posse, a moeda se desvalorizou bruscamente e os juros pagos pelo governo chegaram a 45% ao ano. Aos trancos e barrancos, a economia foi se recuperando, mas não o suficiente para manter em mãos tucanas o comando do país.

Em 2002, Lula se elegeu. Só então a situação dos trabalhadores melhorou.

Já então, poucos se lembravam dos conceitos de utilitarismo e de economia política, concebidos pelos economistas ingleses Adam Smith (1723-1790) e David Ricardo (1772-1823), criticados por Dickens. Esses economistas defendiam que a distribuição da riqueza era governada por leis imutáveis da natureza, que a prosperidade nacional dependia do lucro dos empresários, e os salários dos trabalhadores não podiam aumentar sem pôr em risco a harmonia econômica e dar prejuízo, tanto para os trabalhadores quanto para os industriais.

Afinal, nada havia posto mais em risco a indústria brasileira como a implementação, no governo FHC, de políticas econômicas deflacionistas (juros elevados e baixo investimento estatal), associadas a um câmbio semifixo sobrevalorizado e à abertura indiscriminada da economia, com consequente aumento dos déficits comerciais e enfraquecimento da indústria nacional.

Não por acaso, um personagem relevante de Tempos Difíceis é o banqueiro Bounderby, que se orgulhava das condições de vida em Coketown, cidade fictícia criada por Dickens, inspirado em outras cidades industriais inglesas, onde os trabalhadores – homens, mulheres e crianças – eram mantidos trabalhando nas usinas entre 14 e 16 horas por dia, com folga só aos domingos.

Segundo o banqueiro, na cidade enfumaçada pelas chaminés das fábricas movidas a carvão e vapor, não existia em Coketown nenhum operário – homem, mulher e criança, aos quais chamava indistintamente de Hands (Mãos) – que não sonhasse em comer tartaruga e carne de veado com uma colher de ouro.

A poluição faz um bem danado aos pulmões. Não é?!

Não vão comer com uma colher de ouro, avisava o banqueiro, que tinha sua própria definição para o trabalho feito pelos Hands: “É o mais agradável trabalho que existe, o mais leve trabalho que existe e o mais bem pago trabalho que existe”.

Não havia motivo, também, para reclamar da poluição em que todos viviam e trabalhavam, pois fumaça “é a coisa mais saudável no mundo em todos os aspectos, particularmente para os pulmões”.

Bolsonaro e seus generais iam se divertir, se lessem “Hard Times”.

Leia também:

***

Quer assinar o blog para recebê-lo por email a cada novo post? É gratuito! CLIQUE AQUI e veja como é simples!

faceblogttblog

A vazante da maré de sorte do vice-governador mineiro

Texto escrito por José de Souza Castro:

Toninho Andrade em maio de 2017, falando sobre ruptura com governador Pimentel. Imagem: Reprodução / TV Integração

Foi no município mineiro de Vazante, onde iniciou sua carreira política como prefeito, que o vice-governador de Minas, Antônio Eustáquio Andrade Ferreira, o Toninho Andrade, foi preso na última sexta-feira pela Polícia Federal, numa das operações da Lava-Jato. Em junho de 2017, ele se preparava para assumir o governo, torcendo para que o governador Fernando Pimentel, denunciado em outra operação da Lava-Jato, fosse afastado do cargo.

Escrevi sobre isso num longo artigo para este blog. Na imprensa, poucos se ocupavam de Toninho Andrade, até mesmo quando se tornou durante um ano, por indicação do seu partido de sempre – o MDB – ministro da Agricultura no governo Dilma Rousseff.

De fato, como bom político mineiro, Toninho Andrade trabalha em silêncio. Pouco se sabe sobre sua atuação, durante 12 anos, como deputado estadual mineiro. Como deputado federal, presidiu o PMDB estadual, o que lhe serviu de escada para o ministério da Agricultura e, em seguida, para a vice-governadoria.

Apesar da aparente falta de importância desse político profissional – que se espera seja desmentida pelas investigações da Operação Capitu na área da corrupção –, ele conseguiu, como vice-governador, que o filho mais velho, um engenheiro civil de 33 anos de idade, tivesse o aval de Fernando Pimentel para presidir a Gasmig, uma estatal que, dois anos antes, já apresentava faturamento anual de R$ 1,5 bilhão.

Na mesma época, esse filho, Eduardo Lima Andrade Ferreira, foi também nomeado Diretor de Gás da Cemig, que tem a Gasmig como subsidiária.

Esse nepotismo foi ignorado pela imprensa mineira, mas não pelo PSDB e DEM, partidos de oposição, que mereceram uma nota no jornal “Valor”.

Somente em maio de 2016, o Conselho de Administração da Cemig resolveu destituir Eduardo Andrade do cargo de diretor de gás. Demorou mais um ano e ele foi desligado do Conselho de Administração da Gasmig. O pai emedebista tinha motivos familiares para tramar a queda do governador petista. Não lhe faltava um bom mestre, Michel Temer.

Mas deu azar.

Leia também:

***

Quer assinar o blog para recebê-lo por email a cada novo post? É gratuito! CLIQUE AQUI e veja como é simples!

faceblogttblog