Contribuição de leitor: ‘Velhacos’

Hoje publico mais uma contribuição de leitor. O conto a seguir foi enviado por Juan Pablo Vieira Duarte, que prefere ser conhecido como Junas. Se gostar do estilo dele, pode clicar AQUI e ler mais contos como este 😉 Você também escreve contos, crônicas, poemas, resenhas, análises…? Envie para meu e-mail e seu texto poderá ser publicado aqui no blog, na seção de textos enviados pelos leitores 😉

 

“Longos anos de disputas e brigas intensas. A trivialidade dos irmãos Jorge e José foi estruturada com base em seus constantes atritos. Desde quando moravam juntos, com seus pais Josias e Grêta, a dupla já esboçava a típica aversão repetitiva. Como ainda eram apenas crianças, esses conflitos se resumiam em beliscões e deduradas. Porém atos menores já invocaram sentimentos piores em pessoas menos intensas. Não há uma relação mensurável entre a ação e a reação, sentimentos permeiam o subjetivo de forma instável. A única coisa indiscutível, é que o tempo atenua e encrava assuntos mal resolvidos. E o tempo passa rápido. Muito rápido. O suficiente para que todo o rancor deles permanecesse ávido.

Ao contrário do que se possa imaginar, não eram gêmeos. Havia uma diferença de 2 anos de idade entre os irmãos. Que quando ainda em fase de crescimento, tinha enorme relevância. Jorge, o mais velho, possuía enorme vantagem em relação à educação informal que o pai deles lhes fornecia diariamente. “Seja um bom menino na mesa  de jantar, mas na vida seja um canalha”. Jorge inevitavelmente possuía um grau de canalhice mais elevado em sua personalidade. Pobre José, teve que se esforçar muito mais ao longo da vida até conseguir ser repulsivo. O que também o prejudicou, mas nem tanto, foi a derrocada de seu pai ao alcoolismo. Enquanto antes suas frases causavam um impacto contundente em seus filhos, aos poucos, transformaram-se apenas em bobagens de um velho beberrão.

Sua mãe, Grêta, era pouco ativa na educação das crianças. Recheava-os de amor e compreensão, mas de forma muito limitada. Tivera sido persuadida no seu tempo de adolescência a se casar com Josias. O arrependimento que aos poucos foi emergindo, lamentavelmente veio demasiado tarde. Logo após o nascimento de José, talvez até durante a excruciante dor do parto, veio a resignação. Momento que lhe fez pensar sobre a vida. Sua atitude em relação a Josias, que nesse momento já estava fortemente domado pelo vício, era de total desprezo. Não tinha mais interesse em viver um cotidiano mórbido ao lado do seu marido. Tampouco medo. O tempo em que sentia, no mínimo, tesão por tal homem, já havia passado. Levava então uma vida totalmente à parte de sua família, por assim dizer. A decisão de ser mãe não fora dela, e não estava disposta a continuar arcando com tal.

“Ficamos nostálgicos, porque a impotência inerente ao ser humano cresce com o tempo. Também por outros motivos, mas principalmente pelo tempo. No fim somos velhos broxas e arrependidos. Espero que não. Mas é só o que consigo avistar desde meu altar eterno de juventude. Restam apenas as lembranças, como estigmas insistentes incrustados na pele. As rugas são uma figura ilustrativa ótima, que servem como evidências claras da ação do tempo sob a pele humana. Expostas como provas de que os velhos são, de fato, velhos.

Aparento estar profundamente abalado com a ideia da velhice, já que quase a abomino nas entrelinhas desta nota pessoal. De fato sim, tenho um medo latente que adentra e penetra além de minha máscara de narrador. Sou um jovem nato, que teme um dia murchar tão rapidamente a ponto de não estar plenamente disposto a morrer. Agora, creio ter espantado suficientes leitores com idade avançada. Hora de continuar com o conto.”

O crescimento dos jovens foi teoricamente normal. Tanto que todos os vizinhos relevavam o fato de Josias ser um pai solteiro e bêbado. Os garotos frequentavam todos os dias letivos da escola, não falavam palavrões e obedeciam os professores. O que haveria de estar de errado com essas crianças? Se dependesse dos dois, ninguém iria esboçar, nem por um instante, qualquer tipo de sentimento que se aproximasse de pena. Sabiam que se não fossem à aula teriam que aguentar, em casa, as bobagens de seu pai. Se falassem palavrões teriam de aguentar os castigos. Obedecer os professores sempre fora fácil. A complacência já era algo natural em suas personalidades. Atuar exageradamente como os professores queriam era, de certa forma, algo extremamente divertido. Aprenderam na escola como se satisfazer com a sordidez do sarcasmo.

A vida lhes apresentou a frustração cedo demais e eles reagiram da forma que podiam. Suas reações se tornaram cínicas e calculistas.  Eram ótimos nisso, já que a convivência com seu pai, um homem de fácil escárnio, os tornou desinibidos. Tinham muitas responsabilidades com apenas alguns poucos anos de idade. Cresceram ranzinzas e enrustidos com seus próprios sentimentos. Os alívios cômicos eram, além de uma satisfação momentânea, um método de vingança sutil. Expor sentimentos tristes para outro homem seria provar para seu pai que haviam se tornado sensíveis e  fracos. Queriam e seriam canalhas até o fim de suas vidas. Mesmo que o preço fosse a saúde. O que não sabiam é que o preço fica cada vez mais difícil de pagar.

Quando Josias morreu, sentado e com um copo de vinho na mão, Jorge tinha 18 e José 16. Foi uma perda estranhamente pesarosa e melancólica. A tristeza confundiu os sentimentos dos dois adolescentes, que agora, estavam totalmente desestabilizados. Toda a motivação provocativa que os fazia viver, agora tinha sido arrancada deles. Aquela figura que os mantinha na linha não existia mais. Tinham as chaves de seus grilhões, mas no fim tinham se acostumado ao peso de carregá-los. O termo masoquistas seria um exagero, sádicos também, o prazer deles não poderia ser resumido com fetichismo. A válvula que trancava a liberdade de expressão de seus sentimentos tinha sido liberada. Porém não era algo que tinham aprendido a lidar. O descontrole emocional era latente e visível em seus pequenos atos de maldade despudorada. Eram crianças agitadas chamando atenção. Crianças grandes e inteligentes.

Não havia um grande motivo central para tudo isso, era simplesmente o jeito deles de viver. Odiar um ao outro era o método mais simples e convincente que tinham de se comunicar. O desafeto entre os dois era o maior ato de cumplicidade que poderiam ter. Foi assim que aprenderam a interagir. Carinho não era algo alcançável, porém os dois se permitiam ser, simultaneamente, o saco de pancadas e o agressor. Existia uma ética teatral entre eles que tornava tudo mais complexo e intimista. A intenção era clara e específica. Não tinham nenhuma vontade de se machucar irresponsavelmente. Era uma relação saudável no fim das contas.

Infelizmente estavam sozinhos e com uma casa para cuidar. A carência e a insatisfação com essa realidade era notório. Por mais que a perversidade os tornava muito mais inteligentes e perspicazes que a média, ainda eram adolescentes. Sempre foram responsáveis por si mesmos, mas na época, ainda sim era uma escolha. Pressão não era algo corriqueiro em suas vidas. Agora tinham que sustentar uma casa. Jorge tinha arranjado um emprego com o dono de uma loja que se compadeceu com a situação. José ainda ia à escola, mas só quando queria. A vida adulta os corroía de forma lenta e discreta. As perspectivas se encurtaram de uma hora para outra. No fim das contas talvez não fossem tão complacentes assim.

“Somos tão comportados não é mesmo? Talvez não no começo das nossas vidas, lá ainda tínhamos os culhões intactos. Enquanto crianças, pulamos, fugimos e gritamos. Nossa reatividade é motivo de risadas e questionamentos atenciosos. Temos a proteção moral da idade contra a retaliação violenta. Mas a medida que o tempo passa, nossos pais ficam mais impacientes. A bagunça e o barulho inerente da convivência com crianças agora os deixa mais irritados. Exigem que nossa personalidade se adapte à ordem e aos bons costumes. A violência vira um artifício comum e de uso nem sempre moderado. Num tratado de interesse unilateral, nos vemos chantageados e submissos. Inocentemente aceitamos tratados parecidos ao longo de toda a nossa vida.

Os hormônios descontrolados na adolescência talvez sejam fruto de tudo aquilo que fora suprimido no passado. Chegamos num limite de nervos, onde a fragilidade emocional e a confusão da idade é berço da revolta. Isso claro, se conseguimos fugir da lobotomização constante da mídia, escola e muitas vezes dos próprios pais. Adolescente comportadinho é sinônimo de preocupação. A passividade é a admissão da frieza e da estagnação. A passagem da adolescência à vida adulta, é a mudança de posição no “tribunal da vida”. De vítima de uma sociedade limitante e opressiva a apenas mais um cúmplice do sistema.”

Quando menos esperavam, os atos de truculência fugiram de controle. O cansaço e as tarefas cotidianas conseguiram perverter a única forma que os dois irmãos tinham para escapar do real sofrimento. E ao se magoarem profundamente, não queriam nem sabiam como reverter tal situação. Apenas permanecia o silêncio mórbido intercalado por resmungos irregulares. Toda a elegância e classe dos xingamentos foi reduzida a gritos e demonstrações de brutalidade. Não era possível ter uma vida saudável num ambiente tão nocivo como aquele. A estrutura mental dos dois sucumbia, até o dia em que José partiu. Sem nem avisar, pegou as coisas que julgava mais importante e saiu em uma jornada solitária. Tinha certeza de sua escolha, mas sabia que teria de voltar em algum momento para pegar o resto de suas coisas. Pelo menos que fosse em um momento mais oportuno, onde os dois estivessem com seus eixos melhor ajustados.

Os anos passaram, e as luas subiram. Cada vez mais afastados, os dois não se correspondiam mais. O rancor irresoluto era o que mais se via nos rostos dos irmãos. Ambos, sozinhos, não se lamentavam, mas lembravam de seus dias com a companhia do outro. Mesmo de longe, era tudo muito mútuo. A culpa que depositavam sobre si e sobre o outro era irremediável. Viviam à sombra de um passado do qual lhes restava apenas amaldiçoar. Numa nostalgia que para dos dois era praticamente póstuma, já que agora apenas respiravam, visitavam mentalmente um ao outro. Volta e meia choravam, assim como qualquer outro humano. Até que num dia, depois de tantos outros iguais, Jorge vê no solado de sua porta uma caixa. Dentro dela uma garrafa de vinho tinto seco e uma carta escrita a mão:

“Você é um merda. Isso eu falo de boca cheia e com meus nervos intactos. Pode atestar isso pela minha escrita. Sempre fui certo e incisivo em minhas afirmações, você, mais do que qualquer um, sabe disso. Porém no auge de minha instabilidade emocional não soube e nem pude ser um mártir. Nunca tive a menor intenção de ser cego, mas apenas depois de velho pude notar isso. A intransigência foi o que melhor aprendemos com o nosso pai. Um velho totalmente destruído, assim como nós estamos agora. Por isso te envio essa garrafa cheia de vinho. Para que não te esqueças, que mesmo tão revoltados e insuperáveis quando jovens, hoje somos tristes e patéticos. Exatamente como aqueles que nos subjugavam.  E que neste momento ela seja a corda que te tire do fundo deste poço. Tenho a minha do meu lado neste instante. Que nossas risadas histéricas e senis tornem este momento sublime e majestoso.”

Jorge não estava emocionado nem atônito. Sua reação foi apenas de se sentar o mais confortável possível em sua poltrona. Encarou por alguns minutos a garrafa, abriu a garrafa com o saca rolhas úmido de tantas outras garrafas. E num rápido gole, ambos retomaram a lembrança da voz de seu pai. Enquanto o vinho descia pelas suas goelas, secando suas bocas, sentiram um leve comichão em seus lábios. Quando o vinho começou a ser digerido, construíram simultaneamente a mesma retrospectiva. E assim que o vinho se desintegrou em suas correntes sanguíneas, falaram as mesmas palavras que seu pai disse antes de morrer: – Nunca gostei de vinho.”

 

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