Conheça Rafael David, um artista autodidata que, aos 34 anos, largou tudo para perseguir seu sonho

Igrejinha da Pampulha, de Rafael David, na Av. Professor Magalhaes Penido, 378, Jaraguá, BH

Uma das minhas páginas fixas favoritas aqui do blog é a vitrine que criei para os grafites espalhados pelas ruas de Belo Horizonte. Você pode espiar AQUI, se ainda não conhece. Eu não sou grafiteira, nem conheço muitos desses talentosos artistas, faço apenas o trabalho de fotografar toda vez que encontro um muro desses na minha frente, e divulgar naquela galeria.

Foi assim que o Rafael David, de 34 anos, chegou até meu site e me procurou para mostrar seus belos trabalhos. Trocamos e-mails, porque eu queria conhecer um pouquinho mais da história dele, e achei emocionante perceber como o desenho sempre fez parte de sua vida, desde a infância, e só agora ele teve coragem de correr atrás desse sonho de viver da arte.

Por isso, e para divulgar esses trabalhos tão bonitos, compartilho aqui neste post a história de Rafael David. Tomara que possamos ver muitos trabalhos dele estampados nos prédios da cidade nos próximos anos!

“Sou nascido e criado no bairro Ouro Preto, em BH, pertinho da lagoa da Pampulha. Estudei em escola pública toda a vida e, desde sempre, tive certa facilidade e gosto para desenhar. Luz e sombra sempre me chamaram a atenção.

Na segunda série do ensino fundamental, a professora prometeu que o aluno com as melhores notas no fim do ano ganharia um belo relógio como prêmio. Eu tive as melhores notas, mas o prêmio foi alterado para um kit de desenho, já que, segundo a professora, eu passava boa parte do tempo desenhando em meus cadernos… Fiquei sem relógio mas ganhei um incentivo.

Nos anos seguintes, continuei ganhando algumas telas e tintas, e pude brincar bastante.

Em 1998, fomos visitar uma parente em Vitória (ES) e, na praia, vi uns caras pintando quadros em papel cartão com spray e fiquei maravilhado com aquilo, passei horas observando como faziam para aprender também. Quando voltei de viagem, não dei descanso a meu pai até ele me comprar algumas latas de spray e o papel cartão – e esse foi meu primeiro contato com spray. Fiz alguns quadros que até ficaram bons, mas, como era muito caro, parei por ali com os sprays.

Aos 18 anos decidi tingir e pintar camisas para vender na escola e ganhar algum dinheiro. Não ganhei muito, mas foi nesse processo que eu realmente descobri que tinha um potencial forte para a arte, porque comecei a pintar nas camisas rostos de artistas com uma precisão que surpreendia até a mim. Pintei muitas camisas, atendi encomendas, mas, como não dava para sobreviver, fui deixando de lado.

Depois disso, trabalhei de office-boy, boleiro em quadras de tênis, auxiliar de escritório, entre outros “bicos”. Moro pertinho de muitos bares e restaurantes e, depois de muito relutar, sonhando em viver da arte, não tive opção e entrei para o ramo de restaurantes. Comecei como copeiro, daí para garçom, e cheguei até a gerência em uns 12 anos de restaurante. Nesse meio-tempo, mantive minha ligação com a arte fazendo tatuagens em casa para complementar o orçamento.

No ano passado, pelo peso e insatisfação de estar trabalhando e consumindo tanto tempo e energia em um ramo que nunca almejei, entre outros problemas pessoais, fui passar um tempo em um sítio de um amigo. Lá, ele perguntou se eu queria pintar uma parede, deixou eu escolher o tema, e me perguntou qual o material a ser comprado. Foi assim que, depois de anos, voltei a pegar em uma lata de spray e fiz aquele elefante quebrando barreiras, meu primeiro grafite. Isso me lavou a alma e marcou meu reencontro com a arte! Gostei demais e decidi de vez explorar ao máximo o dom que Deus me deu, me dedicando exclusivamente à arte, porque é ela que sustenta minha alma.”

Gostou da história e do trabalho do Rafael David? Você pode ver mais no Instagram que ele acabou de criar: @rafadarte. Quem quiser contratar um mural do Rafael, pode entrar em contato pelo telefone/whatsapp (31) 99480-6381.

 

E você, também abandonou o que fazia para perseguir um sonho antigo? Conhece mais alguém que tenha feito isso? Envie a história para mim e ela pode ser contada também 😉

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‘Depressão e suicídio: os dramas deste século triste’, por Ricardo de Moura Faria

Pedintes não são exclusividade do Brasil. Esta mora em Barcelona. Foto: Izabel Faria

A contribuição recebida hoje foi de ninguém menos que o professor e historiador Ricardo de Moura Faria, que já foi citado várias vezes aqui no blog e tem até livro publicado na nossa biblioteca, para ser baixado e lido gratuitamente. Ricardo é historiador, autor de mais de 70 livros didáticos e paradidáticos, e atualmente tem se dedicado a publicar romances de época: “O amor nos tempos do AI-5” e “Amor, opressão e liberdade”. É também blogueiro e meu amigo virtual de debates na blogosfera desde os tempos do “Tamos com Raiva”, minha primeiríssima página, criada em 2003. No artigo abaixo, ele trata de temas importantíssimos da nossa sociedade atual. Boa leitura!


Depressão e suicídio: os dramas deste século triste

Os tempos que estamos vivendo estão muito tristes, e eu diria que no Brasil atual essa tristeza ainda é maior do que em outros locais. E é a nossa realidade aquela que cientificamente ou empiricamente podemos debater.

Fiquei espantado com um dado que foi noticiado neste ano: se pudessem, 62% dos jovens brasileiros emigrariam. E não vou negar que já dei esse conselho a alguns amigos.

Homem em parque de BH. Foto: Ricardo Faria

Por que emigrariam? Sem dúvida, pela tristeza de viver em um país que não lhes acena com a possibilidade de um futuro promissor, associada com a quase certeza de que a situação do país só tende a piorar, que nada dá certo… enfim…

Os poucos momentos de alegria social, que são, basicamente, o carnaval e o esporte, notadamente o futebol, creio que já esgotaram sua capacidade de provocar alegria. A seleção brasileira é formada por estrangeiros milionários que estão se lixando para o país; o carnaval que se vê na mídia é, em essência, aquele que acontece dentro dos parâmetros estabelecidos, enquanto a violência que acontece nas ruas, durante os desfiles de blocos, pouco é noticiada.

Nossa democracia, tão frágil, é esculhambada diariamente pelos integrantes dos três poderes. O que aparece, dia após dia, são fatos de estarrecer. Somos roubados nos impostos que pagamos para sustentar mordomias inacreditáveis a qualquer país sério. A violência nas ruas, o aumento do número de sem-teto, sem-terra, a miséria exposta a cada esquina. Como alguém consegue ser feliz em meio a tudo isso?

Nossas mulheres são espancadas, estupradas, mortas. O número de assassinatos anualmente supera o número de mortos na Guerra do Vietnã, que durou cerca de vinte anos! Jovens e negros são a maioria dos assassinados.

Essa tristeza toda é que, a meu ver, explicaria o incontável número de depressivos, de suicídios, inclusive entre jovens.

Por uma dessas coincidências da vida, chegou-me às mãos um artigo da escritora Eliane Brum, em que o tema do suicídio entre jovens é analisado com profundidade, inclusive com uma entrevista feita por ela com o psicanalista Mario Corso. E, dissertando sobre o absurdo número de suicídios de jovens (a segunda causa de mortes de adolescentes, em todo o mundo), a grande pergunta que ela levanta é: “Por que mais jovens se suicidam hoje do que antigamente?”

Ela observa que a pouca divulgação na mídia dos suicídios de jovens acaba levando à conclusão de que se trata de um problema individual. Resposta com a qual ela não concorda, pois aborda a questão não como individual, mas social.

“Quando adolescentes se matam, eles dizem algo sobre si mesmos, mas também dizem algo sobre a época em que não viverão. A inversão da pergunta não é um jogo retórico. Ela é decisiva. É decisiva também porque devolve a política à pergunta, de onde ela nunca poderia ter saído. E a recoloca no campo do coletivo.”

Então, as perguntas corretas seriam: 1) Por que não haveria mais adolescentes interrompendo a própria vida nos dias atuais do que no passado? E 2) como conseguir uma resposta que não seja a brutalidade de tirar a própria vida?

Homem em Ouro Preto. Foto: Ricardo Faria

A primeira pergunta remete ao mundo em que estamos vivendo, pois se trata de um mundo em que, nas redes sociais, as curtidas e bloqueios assumem importância para os jovens sem perspectivas de futuro num mundo sem emprego e com destruição ambiental sem limites.

Trabalho? Já na década de 1980 a pensadora francesa Vivienne Forrester apontava em livro brilhante – “O horror econômico” – que, num curto espaço de tempo, os robôs passariam a ocupar o lugar dos seres humanos, que se tornariam, portanto, descartáveis. O que fazer com bilhões de pessoas sem emprego, sem renda e, portanto, não-consumidoras, que vivem num sistema que clama pelo consumo para se reproduzir?

A visão dela se completa com a de Robert Kurz em “O colapso da modernização”, em que ele aponta exatamente esse problema que o sistema terá de solucionar. Esperamos que não seja uma solução de extermínio global.

Para a segunda pergunta, eu me confesso incapaz de dar uma resposta. Vocês teriam?

 


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Contribuição de leitor: ‘Inabalável’

Adoro quando chega contribuição de leitores para o blog! 😀

Já são 64 textos recebidos, desde que criei esta categoria por aqui. Se você também tem algum poema, conto, crônica, resenha de filme, análise ou outro texto bacana de sua autoria que queira ver divulgado aqui no blog, envie para meu e-mail! Vou analisar com carinho e, se tiver a ver com nossa proposta, seu texto poderá ser publicado na seção de textos enviados pelos leitores 😉

Hoje publico um poema enviado pelo Ricardo Santos de Souza, de 39 anos, morador de São Paulo (SP). Se quiser ler mais textos dele, pode clicar AQUI. Confira o poema “Inabalável”:

“Prenderam meu corpo mas não sepultaram meu espírito.
Cercaram meus passos mas não corromperam meus sonhos.
Foram rápidos em apontar os meus erros, só não imaginaram que eu estava certo.
Tentaram me transformar em ruínas.
Enganaram-se, porque os meus sonhos e o meu espírito são mais fortes do que essas grades que me cercam.
Sofro, mas é a dor que me faz crescer.
Quando parece que essas grades querem me sufocar, fecho os olhos e viajo descobrindo o mundo e todo o seu interior que é só meu e de mais ninguém.
Estar preso significa não deslumbrar o futuro, é achar que tudo ao redor acabou, representa pensar que tudo está escuro, significa desejar todos os dias que o sol não apareça amanhã.
Enganam-se, porque nós estaremos sempre livres, eu e o meu espírito, enquanto acreditarmos que os meus sonhos, a minha esperança e a minha Fé são maiores que tudo isso.”

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Contribuição de leitor: ‘Neymar, por favor, pede pra sair’

O texto abaixo foi enviado pelo leitor Douglas Garcia, que já colaborou outras vezes aqui no blog. Concorda com o ponto de vista dele? Deixe sua opinião aí nos comentários 😉

Neymar durante jogo contra a Costa Rica | Reprodução

Neymar, por favor, pede pra sair

“O jogador Neymar, no último jogo da seleção brasileira de futebol contra a seleção da Costa Rica, em 22 de junho, perpetrou as seguintes ações:

1. Xingou um jogador adversário com palavras muito baixas, na frente do juiz, situado a poucos centímetros de si, gesto filmado e captado pela televisão e exibido no mundo inteiro.

2. Caiu diversas vezes em campo, diante de faltas efetivamente realizadas pelos jogadores adversários, em alguns casos, e de forma injustificada, em outros.

Charge do Duke

3. Reclamou de modo espalhafatoso com o juiz em diversas ocasiões a respeito de suas marcações. Em uma delas, golpeou raivosamente a bola com a mão, gesto pelo qual levou cartão amarelo.

4. Opôs-se a uma devolução de bola ao adversário, gesto de retribuição comum chamado de fair play, xingando o seu capitão e colega de time, Thiago Silva, que a havia realizado. O caso foi relatado à imprensa pelo próprio Thiago Silva.

5. Caiu de joelhos ao chão, em lágrimas, após o final, atraindo para si a atenção das câmeras.

Esses são os fatos.

Alguns espectadores que viram o jogo, com base na sua percepção dessas ações, poderiam dizer que:

Neymar agiu de modo desrespeitoso em 1, 3 e 4.

Neymar agiu de modo irresponsável em 2.

Neymar agiu de modo pouco solidário em 5.

Em todas essas ocasiões, Neymar terá agido mal.

Foi dito que Neymar gostaria de ser para o povo brasileiro uma espécie de novo Ayrton Senna.

Neymar, se é esse o seu propósito, nesse momento e nessas condições físicas e psicológicas, por favor, pede pra sair.”

 


Você também escreve análises, contos, crônicas, poemas, resenhas…? Envie para meu e-mail e seu texto poderá ser publicado aqui no blog, na seção de textos enviados pelos leitores 😉

 

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‘Ninguém é racista no Brasil’, por Graziele Martins

O texto escrito pela designer gráfico Graziele Martins merece ser lido e compartilhado por todos. Que este Mês da Consciência Negra desperte reflexões importantes como estas em toda a sociedade. Diga NÃO ao racismo!

Vamos ao texto dela. Os grifos em negrito são meus, só pra destacar as partes mais absurdas do que ela viveu:

 

“Ninguém é racista, mas aos 5 anos eu fui vítima de racismo sem nem saber do que se tratava. A mãe de uma garotinha (da mesma idade) a tirou de perto de mim na piscina que brincávamos no clube com os dizeres: ‘Não quero você brincando com essa neguinha’.

Ninguém é racista, mas, aos 13, um colega de escola que não ia com minha cara gritou aos berros: ‘Macaca preta!’ Aos 17 eu entrei na faculdade (através do ProUni) e minha vaga era de cotas para negros, já que na ficha de inscrição eu não me enquadrava nas categorias de cores que ali estavam: eu não era branca, nem amarela, nem parda, eu era negra. A faculdade exigiu que eu comprovasse minha cor, se nem na minha certidão de nascimento estava escrito: cor negra. Fui obrigada a escrever uma carta de próprio punho explicando que minha cor era negra e era assim que eu me considerava.

Ninguém é racista, mas aos 18, numa loja de departamentos, a vendedora (branca) me perseguia por achar que eu não tinha condições de comprar nada ali… Aos 25, uma mulher branca deixou de sentar ao meu lado, o único lugar vazio dentro de um ônibus lotado, com aquele olhar de superioridade, e disse em tom de voz baixo: ‘Não gosto de preto’. E, em seguida, sentou-se com medo de encostar em mim…

Ninguém é racista, mas no ano passado eu fui a uma festa (predominante de pessoas brancas) e eu era a única negra do local, quase um evento à parte. Perdi as contas de quantas pessoas ‘elogiaram’ minha cor, meu cabelo. Um rapaz (branco, claro) disse que nunca tinha ficado com uma mulher da minha cor (eu não seria a primeira, com certeza).

Ninguém é racista, mas olha com cara de desprezo quando um negro se aproxima, ou infelizmente com olhar de medo, já que os negros são sempre marginalizados na nossa sociedade…

Ninguém é racista, mas não dá credibilidade quando vê um negro em um cargo que ‘deveria ser de um branco’. Quantas vezes você duvidou da capacidade de um médico, advogado negro? Quantos profissionais dessas áreas, negros, você conhece? Quantos negros trabalhavam na mesma empresa que você?

Ninguém é racista, o Brasil não é racista, mas os números (infelizmente) não mentem, Continuar lendo