Contribuição de leitor: ‘Eu vi’, por Nuno Kembali

Livro de contos de Nuno Kembali

Nuno Kembali / Reprodução

Fazia tempos que o blog não recebia uma contribuição de leitor, mas, para compensar, esta que chegou está realmente incrível. O conto abaixo foi enviado por Nuno Kembali, 55, escritor brasileiro nascido no Recife. Ele é autor das novelas “O Matagal ou o vão combate é mais embaixo” e “Rota 12: sobre jaguaretês e outros bichos no diadema do tempo”, com playlists disponíveis no Spotify. Quem quiser saber mais sobre o Nuno pode encontrá-lo no Facebook e no Wattpad.

 

Agora vamos ao excelente conto de Nuno Kembali! Boa leitura:


Eu vi

Mirela: Meu Jesuscristinho, eu vi tudo. Eu estava no banheiro da casa de Peu quando começou o tiroteio. Eu tinha acabado de apagar a luz do banheiro e por pouco não abri a porta de vez e dei de cara com aquilo tudo. Eu ia abrindo, e abri, quer dizer, meio que abri, e dali eu vi tudo, meu Deus. Foi o Senhor que me colocou naquele banheiro, exato naquela hora. Eu nem estava com tanta vontade de ir lá, mas parece que tinha que ser para eu ir no banheiro naquela hora, exatinho quando os homens apareceram e mataram Peu, Dinho e Sandrinha também, meu Jesuscristinho.

Mãe: Que horror, meu Deus, que horror, minha filha, venha cá, me abrace.

Mirela: Um horror, mamãe. Meu coração disparou, eu nem sabia bem o que fazia, fiquei ali parada, me tremendo toda, meu corpo inteirinho tremia. Eu vi, mamãe, eu vi quando o homem passou por cima do corpo de Peu. Ele não sentia nada, nadinha, mamãe, ele estava era satisfeito. Não deu para ver o outro homem direito, mas o que eu vi era gordo e grande. E eu morri de medo, mamãe, de ele vi para o meu lado, fazer xixi ou cocô no banheiro, aí eu estava frita, mamãe. A senhora não pode imaginar o que eu senti, mamãe, eu me urinei toda ali mesmo enquanto olhava pela brecha da porta o que eu via, mamãe.

Mãe: Calma, minha filha, já passou, se acalme. Não precisa mais ter medo, eu estou aqui do seu lado, passou, passou, passou…

Mirela: Eu vi, mamãe, eu vi quando o homem cortou a cabeça de Peu. Era muito sangue, mamãe, muito, muito sangue, espalhado por todo lado. Era tudo, tudo muito feio, mamãe, aquelas coisas todas saindo pelo pescoço. Deus me livre ver aquilo outra vez, mamãe, mamãe, esse lugar, esse lugar…

Mãe: Meu amor, minha filha, foi Deus quem te protegeu. Obrigada, meu Deus.

A rua das Tabocas, em Peixinhos, Olinda, ficou cheia de curiosos para ver o sangueiro na casa de Peu, os corpos de Peu e Dinho degolados, o corpo pequenino da filha de Peu, as paredes manchadas de sangue, as marcas de pneu deixadas na rua. Houve quem passou mal ao ver as entranhas dos irmãos abertas no pescoço, a menina de seus dez anos também morta, as marcas de bala nos corpos e nos móveis, o sangue descendo pela porta da rua, mais sangue que jorrou a manchar o sofá e o centrinho derrubado no meio da sala.

Durante a madrugada as cabeças de Peu e Dinho foram deixadas em frente à casa da própria mãe, em Aguazinha.  Dona Severina quase morreu quando foi avisada, de manhã bem cedo, que as cabeças dos seus dois filhos estavam justo na frente da sua casa. Dorinha, a vizinha do lado, ao ver a desgraça feita, bateu na porta traseira da casa de Dona Severina. Tremia todo o seu corpo e chorava com os olhos se desmanchando em lágrimas.

Dorinha: Se prepare, minha amiga, se prepare porque o que fizeram com seus filhos não se faz com um cachorro.

Dona Severina caiu na cadeira da pequena cozinha já tendo a certeza de que havia perdido seus dois filhos por morte matada, aquilo que ela sempre temeu. Mas quando Dorinha falou que haviam matado e colocado a cabeça dos seus meninos na porta da frente da sua casa, agarrou-se a ela um soluço que descia pelo corpo inteiro, não tinha como controlar, não tinha chá-do-que-fosse que desse jeito. Os vizinhos Manoel e Joaquim saíram com ela nos braços pela porta dos fundos do seu casebre e tiveram que fazer um caminho mais longo para não passarem pela frente da casa, onde as cabeças ainda se encontravam. Ninguém tinha coragem de chegar perto para vê-las, as veias misturadas a areia, os olhos esbugalhados de Peu, os lábios roxos e um líquido branco saindo pela boca de Dinho.

Quando o IML chegou, horas depois do aviso pelos vizinhos, alguns cachorros haviam feito mais estragos nas cabeças dos irmãos. Um olho havia sido arrancado, os lábios comidos, as orelhas mutiladas. Uma das cabeças já se encontrava mais colocada ao meio da rua, enquanto o cachorro mais feroz foi espantado com um pedaço de pau por um homem que vivia nas proximidades. Colocaram dois panos por sobre as cabeças, que foram levados juntos com elas pelos agentes do IML.

Mirela: Eu vi, seu delegado, eu vi, eu vi, eu vi, eu vi tudinho. Eu vi quando o homem atirou mais vezes, acho que para ter certeza de que estavam mortos. Peu já estava morto, mas ele atirou muito, muito mais. O corpo de Peu ficou todo esburacado. Eu vi, depois que minha mãe chegou, eu vi de perto, o corpo dele sem cabeça e também o corpo de Dinho. Tinha muitos buracos no corpo de cada um e de Sandrinha também. Eu não vou esquecer nunca mais, nunca mais aquela coisa toda vai poder sair da minha cabeça.

Delegado: Você se lembra como era a fisionomia do homem que fez aquilo?

Mirela: Eram dois homens, delegado, mais eu só vi um direito. O outro eu só vi um pedaço da perna e do braço porque a porta não deixava ver mais e ele estava de um jeito que só aparecia a perna e um pouquinho do braço. O rosto eu não vi. O que eu vi, eu vi todo, eu vi, era gordo e grande, tinha uma cara de quem estava muito brabo. Uma hora ele olhou para dentro que pareceu que estava me vendo no banheiro. Eu gelei, delegado, eu pensei que ia morrer. Eu me… Ele tinha o revólver na mão e ficou parado no pé do corpo de Peu. O homem arrancou a cabeça de Peu com uma serra e foi embora.

Delegado: Eles ficaram ali muito tempo?

Mirela: Ficaram, ficaram, ficaram, eu fiquei ali olhando para ele sem ele me ver, eu rezava para que os homens fossem embora, mas eles não iam. Eu não sei quanto tempo durou, mas eu sei que durou muito, para mim foi como se eles não quisessem mais ir embora. Eu só pensava que eles iam ir para o banheiro e eu ia ser morta igual fizeram com Peu, Dinho e Sandrinha.

Mirela tomou um pouco de água com açúcar que lhe trouxeram, enquanto a mãe segurava sua mão. Ela falava, falava, enquanto o delegado e o escrivão prestavam atenção nos detalhes e lhe faziam mais perguntas. Depois de liberar Mirela, e encaminhá-la à psicóloga, o delegado e o escrivão comentaram que os matadores não deviam ter ficado tanto tempo no local, como era a impressão da menina. Pela sua experiência, os assassinos agem rapidamente e logo deixam a cena do crime.

A psicóloga da Secretaria de Defesa Social acalmou Mirela com mais água e pegou a outra mão da menina, enquanto a mãe continuava segurando sua mão direita.

Psicóloga: Não precisa ter mais medo, Mirela, passou, OK? Eu estou aqui para lhe ajudar.

Mirela: Eu vi, moça, eu vi tudinho, juro pelo amor de Jesus. Jesuscristinho sabe, ele que me protegeu. Meu Deus, as bonecas que a gente brincava, tudo ensanguentada, moça. O laço de fita verdinho que estava na mão do homem era meu, não era de Sandrinha, era meu.

Mais tarde, os noticiários locais de TV não deram destaque à chacina ocorrida na periferia, como não o fizeram os noticiários da manhã e da tarde. A notícia teve destaque mesmo foi nos programas policiais, na TV e no rádio, com comentários jocosos de um locutor.

Locutor: Peu e Dinho, dois dos mais perigosos meliantes da Região Metropolitana do Recife, foram mandados essa madrugada para o além. Não se sabe quem matou as peças boas. Uma menina, que brincava com a filha de Peu e se encontrava no banheiro da casa, assistiu tudo e nos conta. Vamos ver.

Mirela: Eu vi, eu vi quando o homem branco, grande, gordo e galego, de barba grande também, cortou a cabeça de Peu e levou embora.

Mirela e sua mãe dormiram aquela noite num quarto de hotel alugado pelo Estado. Não sabiam ao certo até quando poderiam ficar ali, mas seria pelo menos por uma semana, o tempo considerado necessário pelas autoridades para a proteção da menina. Da janela do quarto de hotel, Mirela olhou para a lua a lembrar que havia uma lua igual àquela na noite anterior, quando ela saiu de casa e entrou na casa de Peu para brincar com Sandrinha. Duas luas depois daquela, um fogaréu tomou conta de parte da rua em que viviam Mirela e sua mãe. A rua ficou outra vez cheia de gente, agora para ver o fogo ardendo sobre o que havia de madeira e barro na construção, os poucos móveis, a poeira do desfazimento das coisas, depois espraiando até alcançar outras duas residências. Não fosse a ajuda dos vizinhos, não teria restado casebre em pé naquele lado de Peixinhos. Ao chegar ao local o Corpo de Bombeiros o incêndio estava quase todo debelado. Ficou o cheiro de fogo misturado a restos de madeira, cimento e barro.


Você também escreve contos, crônicas, poemas, resenhas, análises…? Envie para meu e-mail e seu texto poderá ser publicado aqui no blog, na seção de textos enviados pelos leitores 😉

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