Um conto sobre o paladar

O texto abaixo foi enviado pelo paulistano Luiz Gustavo Almeida, de 20 anos, que vem fazendo contos sobre os cinco sentidos. Ele não tem (ainda) um site ou blog para divulgação de seus textos, então ainda bem que enviou para esta seção do blog 😉

Você também escreve contos, crônicas, poemas, resenhas, análises…? Envie para meu e-mail e seu texto poderá ser publicado aqui no blog, na seção de textos enviados pelos leitores 😉

Agora vamos ao conto do Luiz:

PALADAR

“O som do pneu roçando devagar nas pequenas pedras do asfalto da rua 20 completava a poluição sonora do bairro Benjamim naquela noite. Bernardo estaciona seu carro na garagem, olha para as chaves e solta um profundo suspiro contemplando a sua chegada em casa como se voltasse de uma batalha.

A deliciosa sensação do estar em sua fortaleza novamente o fez perceber a sua fome, que o tamanho cansaço havia tratado de inibir. E não, não há tempo de se despir adequadamente. Tira primeiro a sufocante gravata, depois, seu torturador indispensável: o relógio. Desabotoa a camisa, tira o cinto, o sapato, mas mantém a meia. Toda maciez é não só bem-vinda, mas se faz necessária.

E a balança em Bernardo está equalizada. Não distingue qual o mais pesado, se a fome ou o cansaço. Mas parece que já aprendeu que o cansaço é realmente o inimigo, e por isso cede a ele na hora de preparar a sua janta. Vai atento à geladeira na esperança de encontrar algo velho, mas nem tanto assim ao ponto de aparentar isso, para ser sua refeição. E indignado por não ter uma surpresa, vai à caça nas prateleiras de sabe-se lá o quê para ter o menor trabalho possível, e vitorioso, acha um macarrão instantâneo que promete ficar pronto em 3 minutos. Os únicos necessários são essas ondas amarelas em forma de tijolo, um pequeno saco de tempero e míseros 500ml de água.

Segue minuciosamente a receita: primeiro ferve a água, e seguindo as regras da praticidade já se adianta e deixa aberto o pacote de macarrão e o pequeno saco de tempero. Mas ao pegar o macarrão pra jogar na água, seu braço desatento bate no pequeno saco e derruba-o. O mundo de Bernardo ruiu. Ruiu não pelo fato unicamente, mas pela compreensão de seu terrível: precisará agora pensar em algo para comer. Não, acalmou-se e recompôs-se. Não precisará pensar em tudo, só em um detalhe, uma parte do processo, que é o que vai dar sabor àquilo na água. Pensativo, fica aflito, mas a genialidade bate à porta quando se lembra dos tomates. Ah, os tomates! Bernardo fica satisfeitíssimo com a ideia, pois é prática, e, apesar do trabalho, pensa com seus botões: “Ainda que não vai ficar tão artificial com esses tomates”.

Abre a geladeira, vai diretamente na gaveta onde estavam guardados, e os leva a mesa. Pega a tábua, analisa uma faca, depois outra, seleciona uma terceira, puxa a cadeira, e senta à mesa. Começa picando os tomates no objetivo de algo parecido com um molho, mas resolve cortar em rodelas, pois acha que ficará esteticamente mais bonito, consequentemente  mais prazeroso também. Ao terminar os cortes lembra-se que os tomates perderam o seu caráter prático, mas manteve o seu valor em sabor e ganhou um sentido estético, e pensa: Como umedecer essa comida?

Quando vai a geladeira outra vez, fica decepcionado ao não achar nada que umedeça aquele macarrão. Sorrateiramente se lembra do azeite, mas não, não, azeite é simples demais. Então, em uma saída de mestre, aceita que seu prato não seja dos mais molhados, mas compensa acrescentando outros ingredientes que estavam perdidos por aí: o macio queijo muçarela; o couve-flor, que sempre adora quando vem quando pede comida chinesa.( Não se recorda porque o comprou na feira de dois dias atrás, mas ignora, e orgulhoso de si, resolve prepara-lo); As cebolas, para dar aquele toquezinho que só ela tem, mas que não sabe definir; O alho e seu cheiro preenchedor. Um leque se abriu a Bernardo. Bernardo abriu um leque. E sabe disso.

Quando estava picando a cebola, e foi até a pia para molhar os chorosos olhos, eis que estes se esbarram com o macarrão na água fervida. E para. E olha. Olha atentamente para aquele macarrão, que não sabe como é feito, e nem lembra se tem gosto. Se assusta profundamente mirando aquela água inóspita. Foi quando Bernardo, em seu momento triunfante desse dia, quiçá de tantos outros anteriores, rompe a camisa de força de cada dia que lhe é imposta vencendo um de seus maiores demônios, o costume, ao decidir abandonar aquela facilidade que era aquele miojo. Não, Bernardo sabia agora que não se tratava só do macarrão.

Olha uma receita de um quiche de tomate, pega os ovos, o leite, a farinha, a manteiga e começa a preparar esse promissor prato. Devido à inexperiência demora mais de 1h30 na confecção, mas, ao comer o quiche de tomate, aqueles que no início foram sua tragédia, consegue em cada garfada fazer aquilo que se deve fazer em cada refeição: sentir o gosto, saborear, se deliciar com as sensações.

Ao terminar de comer pega o guardanapo e limpa a boca. Permanece na cadeira, agora de olhos fechados, e, pausado em si. Abre os olhos, levanta, e anda até o quarto. Amanhã acorda cedo.”

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