A estátua do Duque de Caxias e as lições da História

Texto escrito por José de Souza Castro:

Este texto com correção na edição do dia 7 deste mês do jornal “Folha de S.Paulo” lembrou-me de episódio do qual já havia me esquecido e que, no entanto, foi marcante no jornalismo brasileiro em plena ditadura militar. Uma ditadura que muitos, por ignorância ou má fé, querem ter de volta.
Não me lembrei do artigo do jornalista Lourenço Diaféria quando eu escrevia, uns 30 anos depois, para o blog da Novae, um relato contrário ao Duque de Caxias, o herói da Guerra do Paraguai. Houve polêmica entre os leitores, e pouco depois a Novae desistiu do blog e eu deixei de colaborar para o site do qual uma das minhas filhas jornalistas, a Kika, fora por um tempo a subeditora.

De qualquer forma, o artigo não me levou à prisão, ao contrário de Diaféria. Os tempos eram outros, não vivíamos mais numa ditadura. As ameaças a jornalistas vinham da Justiça, como se vê aqui. Por enquanto, nada mudou.

Lourenço Diaféria era colunista da “Folha de S.Paulo”. No dia 1º de setembro de 1977, publicou um texto intitulado “Herói. Morto. Nós”, em que comentava a morte de um sargento do Exército dentro do fosso das ariranhas no Zoológico de Brasília. O sargento estava de folga e levara sua mulher e os quatro filhos para passear. Ao ver um garoto de 14 anos sendo atacado pelas ariranhas, pulou dentro, jogou-o para fora – e morreu dilacerado pelos bichos.

O autor também pagou pela ousadia. Foi enquadrado na Lei de Segurança Nacional. Seu texto foi considerado pelo ministro da Justiça e pela Justiça Militar ofensivo às forças armadas. Pode-se ler o texto aqui, no final do artigo de Franklin Valverde, publicado em setembro de 2008 pelo Observatório da Imprensa, pouco depois da morte de Lourenço Diaféria, que já havia sido absolvido pela Justiça.

Qual a ofensa do jornalista? Ter escrito que preferia o heroísmo do sargento ao do Duque de Caxias, a quem o imperador Pedro II concedera o título nobiliárquico por suas vitórias em batalhas e que, em 1962, foi declarado Patrono do Exército. Dois anos antes, o prefeito de São Paulo, Adhemar de Barros, inaugurou sua estátua na Praça Princesa Isabel.

“Prefiro esse sargento herói ao duque de Caxias”, escreveu Diaféria em 1977. “O duque de Caxias é um homem a cavalo reduzido a uma estátua. (…) O povo está cansado de espadas e de cavalos. O povo urina nos heróis de pedestal”.

O ministro do Exército, general Silvio Frota, fez representação ao ministro da Justiça, Armando Falcão, que determinou abertura de inquérito. Quinze dias depois da publicação do artigo, Diaféria foi detido, em casa, pela Polícia Federal. No dia seguinte, o jornal publicou a coluna em branco na página 44 da Ilustrada. O general Hugo Abreu, chefe da Casa Militar do governo do general Ernesto Geisel, ameaçou, por telefone, o publisher da “Folha”, Octávio Frias de Oliveira, de fechar o jornal caso persistissem as críticas ao governo e a coluna continuasse a ser publicada em branco. Frias cedeu. Do episódio resultou a saída de Cláudio Abramo da direção de Redação do jornal.

O jornal prefere não falar sobre isso. Escreve, na tal correção de que falei no começo deste artigo, que Diaféria foi solto cinco dias depois da condução coercitiva pela Polícia Federal, e que após a polêmica voltou a escrever para o jornal. “Ao todo, ele publicou 1.868 textos, entre colunas e reportagens assinadas, na Folha”, diz.

Talvez o leitor, como eu, tenha lido, no mesmo dia em que foi publicado, o texto de Diaféria. Ler agora talvez não traga a mesma vibração, mas continua imperdível. É histórico. E a História nos ensina a não errar de novo.

Vale terminar este texto com a seguinte informação: Lourenço Diaféria havia sido condenado pelo Superior Tribunal Federal a oito meses de prisão, com direito a suspensão condicional da pena (“sursis”). Em fevereiro de 1980, o Supremo Tribunal Federal o inocentou, como o havia feito a Justiça Militar de São Paulo, no julgamento em primeira instância. No STF, a maioria dos juízes, influenciados pela recente Lei da Anistia e pelo fim da censura à imprensa, votou contra o relator, ministro Cunha Peixoto.

Seria esperar muito que, nessa fase da história, o STF reformule também o julgamento do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, em Porto Alegre, que condenou neste dia 7 de novembro o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto, aumentando sua pena de dez anos de prisão, imposta pelo juiz de primeira instância, Sérgio Moro, para 24 anos?

Teremos, talvez, que esperar que muita água passe sob a ponte da História, para que isso aconteça…

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2 comentários sobre “A estátua do Duque de Caxias e as lições da História

  1. Receio que nossos dias de liberdade de escrita estejam muito próximos ao fim, isso por dois motivos -cresce o conservadorismo que prefere manter as pessoas ignorantes pois são fáceis de assim serem manipuladas e segundo nós que escrevemos hoje não somos lidos, não de verdade, em tempos de face book um ótimo texto como esse é tido como grande demais, a maior parte das pessoas nem chega nas partes boas. Estamos formando um país de analfabetos funcionais digitais, que não sabem usufruir da liberdade que temos hoje que quando a perder não saberá o que perdeu.

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