José Olímpio e Mercedes, um breve conto de amor e amargura

Pequenos cuidados. Autor: Puuung

Autor: Puuung

Recebi o conto abaixo da leitora Rita Prudêncio, que completa 33 anos de idade hoje (feliz aniversário!! 😀). Ela é professora e pesquisadora universitária em Rio Branco, no Acre. Seus textos podem ser lido no blog Água Batendo no Nariz. Para entrar em contato com ela, basta enviar um email.

Quando terminei de ler o conto de Rita, pensei na hora em como o amor pode estar nas coisas mais prosaicas. Mesmo que mesclado à decepção, desilusão, amargura e outros sentimentos nem tão bonitos. O texto aborda a rotina de um casamento, do ponto de vista do cuidadoso marido. E é muito apropriado para este Dia dos Namorados. Por isso, recomendo a leitura pelos apaixonados e desapaixonados que passarem por aqui neste domingão.

Bom proveito:

 

“José Olímpio acordou assustado. O quarto estava escuro e mais quente que o habitual. Ele tateou o móvel perto da cama, em silêncio, para não despertar Mercedes, que ressonava a seu lado, e encontrou o telefone celular. Cobriu a cabeça com as cobertas, para evitar que a luz azul da tela acordasse a esposa, e olhou as horas. Passava das seis da manhã, estava atrasado. Não fosse o incrível sonho que tivera com a mutante do filme que assistiram na noite anterior, talvez perdesse a hora do expediente.

A esposa há dias vinha reclamando de cansaço e dores lombares, por isso José Olímpio não usava mais o despertador, por receio de interromper o sono da mulher, que sofria com muitos e variados problemas de saúde, apesar do viço que lhe cobria a pele e denunciava seus vinte e oito anos, testemunhas de uma robustez que desmentia todas as mazelas físicas das quais, frequentemente, era acometida.

Ele levantou, pé ante pé, e procurou a lanterna com a amargura de todas as manhãs. Desde que se casaram, seis anos antes, ele cumpria o mesmo enfadonho e triste ritual. Procurava as roupas de trabalho, passava a ferro e se vestia com a ajuda da lanterna. Não incomodar fazia parte da natureza conformista e tímida de José Olímpio. Queria sempre que a esposa dormisse um pouco mais, quem sabe algumas horas extras de sono fariam desaparecer a fadiga que ela sentia.

Com a lanterna em mãos, ele abriu o guarda roupas com cuidado. O ranger desagradável de uma das portas o deixou apreensivo. Olhou para a esposa e, vendo que ela continuava a dormir, procurou, em meio à bagunça, uma calça jeans e uma camisa de cor clara e discreta que combinava perfeitamente com seu temperamento. Iluminou o pequeno armário na parede oposta à procura do ferro de passar. Sempre detestou engomar roupas e por isso relutava em aprender a passar as próprias camisas mas, a despeito de toda e qualquer resistência, elas estavam cada vez mais bem passadas e sem vinco, o que lhe dava íntima satisfação. Também não gostava de depender da esposa e nunca pediu que ela realizasse alguma tarefa de que ele mesmo não fosse capaz, desse modo, José Olímpio cozinhava, passava, organizava a estante de livros e cuidava da limpeza da casa quase todas as noites, único momento do dia em que não estava exercendo sua função de separador de cartas e embalagens nos Correios da cidade.

A esposa não trabalhava fora e, até onde ele sabia, nunca trabalhou. Essa era uma das amarguras secretas de José Olímpio, única questão na vida que lhe apertava o peito como um torniquete e prendia a garganta com um nó indesejado, o qual ele procurava ignorar. No entanto, cada dia que passava era como um martírio, uma mão pesada a apertar o torniquete de sua angústia. Enquanto engomava a roupa procurando vincos imaginários à luz da lanterna, ele pensava no quanto a vida seria mais fácil se a esposa o ajudasse com as despesas da casa. Há seis anos ele pagava, sozinho, todas as dívidas, o que incluía o aluguel, que abocanhava quase um terço do minguado salário, luz, água, telefone, internet, TV a cabo e supermercado, sem contar os gastos com combustível e remédios para a esposa convalescente. Ainda tinha o terreno onde pretendiam construir a própria casa e cujas parcelas aumentavam vertiginosamente com a alta da inflação. Tantos anos trabalhando para sustentar os dois, contando moedas para honrar seus compromissos financeiros e, por vezes, renunciando as horas livres para ganhar um dinheiro extra no trabalho estavam transformando José Olímpio, um sujeito antes risonho e brincalhão, em um poço de amargura e tristeza.

Quando conversava com a esposa sobre ela arrumar um emprego para auxiliá-lo com as despesas, os dois sempre acabavam brigando. Ela alegava que era humilhada, que ele achava que era o manda chuva porque trabalhava fora e tinha dinheiro, mas que ela trabalhava muito mais em casa, lavando as roupas dele e preparando diariamente o almoço, além de cuidar de outros serviços domésticos enquanto ele estava fora. Além disso, dizia, não dava prejuízo financeiro absolutamente nenhum, já que todas as contas que ele pagava estando com ela, também pagaria se fosse solteiro e morasse sozinho.

José Olímpio, perplexo, nunca reagia a esses rompantes da mulher, apesar de sentir-se invadido por uma irresistível vontade de chorar e de sair correndo, sem rumo, até seus pés sangrarem. Também não lhe passava pela cabeça abandonar a esposa, moça do interior, crescida em família conservadora e, apesar de tudo, boa dona de casa. Pensava, sim, em viajar sozinho por uns tempos, tirar férias do mau humor de sua consorte, cujos acessos temperamentais ele atribuía à falta de ocupação, já que não tinham filhos e o tempo empregado nas tarefas cotidianas era mínimo. Esses pensamentos lhe davam a certeza de que se ela arrumasse um emprego, tudo iria se ajeitar. Ela faria amigos, ficaria mais tempo fora de casa, tomaria sol e a fadiga a abandonaria para sempre, pois uma vida produtiva era o mais poderoso energético que alguém poderia desejar.

Esperançoso e satisfeito com essas reflexões, José Olímpio guardou a lanterna e foi tomar o primeiro banho do dia. Enquanto escovava os dentes, lembrou que o aluguel estava vencido há quatro dias e que o dinheiro que ainda tinha na carteira não era suficiente para pagar, a menos que estivesse disposto a ir a pé para o trabalho até o fim do mês. Tinha que escolher entre ficar se escondendo do senhorio, que logo começaria a lhe cobrar, ou acordar todos os dias para fazer a caminhada de uma hora e meia até a agência onde trabalhava. E chegar em casa todas as noites uma hora e meia além do previsto por causa do trajeto de volta. A esperança de José Olímpio se esvaiu como um sopro diante do espelho do banheiro. “Se ela trabalhasse e pagasse o aluguel…” Seu pensamento foi interrompido por um barulho vindo do quarto. A mulher provavelmente tinha acordado por algum motivo e talvez quisesse usar o banheiro. Ele escovava os dentes, agora com força e raiva por se sentir um fracassado, um vil funcionário, com um contracheque ainda mais vil, um idiota de trabalhar como um mouro para sustentar um casamento fadado à ruína, uma mulher que demonstrava gostar dele, apesar de não poder contar com ela para absolutamente nada no quesito ‘parceria e boa vontade para construir uma vida juntos’. Suas gengivas estavam sangrando e ele torcia para que Mercedes não batesse à porta do banheiro; não queria vê-la, não queria olhar para aquela mulher que o explorava e sem a qual talvez ele pudesse até viajar nas férias, algo impensável com a quantidade de dívidas que tinham.

Entrou embaixo do chuveiro e sentiu as lágrimas se misturarem à água fria enquanto tentava não pensar em mais nada. A cabeça latejava, como sempre que o torniquete da angústia parecia mais apertado e o choro agora fluía sem controle. Do lado de fora Mercedes, impaciente, chamou: “Amor, preciso usar o banheiro. Você ainda demora?” “Já estou saindo”, foi a resposta dele, lutando para que a voz não denunciasse seu estado de espírito naquele momento. Saiu sem olhar a esposa nos olhos e aproveitou que ela não estava no quarto para acender a luz e procurar uma cueca. O ar condicionado agora estava ligado e José Olímpio sentiu inveja da mulher, que tinha todo o dia livre para dormir o quanto quisesse. Pegou as roupas e o desodorante e foi até a cozinha para usá-lo, pois o cheiro no quarto também incomodava Mercedes. Vestiu-se e secou os cabelos enquanto sua esposa voltava para a cama. Quis ir lá perguntar se as dores tinham desaparecido, mas achou que o nó na garganta não ia deixar que a voz escapasse. Voltou ao quarto silenciosamente e guardou o desodorante enquanto ouvia a respiração pesada de Mercedes, indício de que tinha pegado no sono outra vez. Adorava mais que tudo o cheiro dela, uma fragrância entorpecente que o envolvia e enfeitiçava. Voltou à cozinha e preparou, com cuidado, o desjejum da esposa, com um afeto que afogava todas as suas mágoas, que desatava o nó da agonia e clareava a mais definitiva verdade de sua vida: não era capaz de conceber uma vida sem Mercedes. Voltou ao quarto e olhou a mulher durante alguns minutos plenos de ternura. Juntou suas chaves, abriu a porta vagarosamente e partiu para mais um dia de trabalho.”

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