O amor na dor

Para pegar na locadora: AMOR (Amour)

Nota 9

amor

É fácil amar quando somos jovens, saudáveis e estamos no começo de um relacionamento. Tudo anda às mil maravilhas. Mas e quando já passamos dos oitenta, temos netos e vivemos sob o mesmo teto há décadas? E quando, numa manhã corriqueira, um dos dois sofre um derrame e fica com metade dos membros paralisados, passando a depender do outro para tudo, inclusive ir ao banheiro, virar na cama e se locomover?

Eis um teste por/em que poucos casais passam. Anne e George são submetidos a isso. Sua vida ia bem e leve, embora com todos os percalços de uma vida como casal. Às vezes, a pessoa mais doce e gentil também age como um monstro, observa Anne — isso é da natureza humana. Mas a vida segue com seus concertos (os dois são professores de música, afinal), livros, filha distante, fatos preenchendo álbuns de fotografia empoeirados. “A vida é bonita. E longa”, resume Anne.

A prova de amor se torna especialmente árdua quando a dignidade é posta em jogo, dá vazão à depressão e torna uma pessoa totalmente dependente de outra. “Promete não me levar ao hospital?”, pede ela. O filme é sobre essa promessa de amor. “Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença”, entoa o hino de amor dos rituais católicos. Quantos, ao trocarem suas promessas, vão cumpri-las com amor até depois dos 80?

O que vemos nessas duas horas e sete minutos de filme é o casal que cumpriu sua promessa. “Se tivesse acontecido comigo, você teria feito o mesmo”, afirma, numa interrogação, George. É a pergunta que deve pairar sobre a cabeça dele durante as noites de insônia. E, ao mesmo tempo, não importa.

Como viver o amor durante a dor, a dependência, a perda da dignidade?

“É sobre um drama que todos nós vivemos ou vamos viver. Todos temos um mal, uma doença, uma fragilidade. Como lidamos com elas é que nos faz diferentes”, disse a atriz Emmanuelle Riva, 86, brilhante na pele de Anne.

“Não é a idade dos personagens que importa, mas como vivem o drama. Envelhecer, e por vezes adoecer, faz parte da vida. Cabe a nós escolher como vamos encarar a experiência. Temos de tentar ser felizes”, disse o ator Jean-Louis Trintignant, 83, o comovente George.

Diante disso, as intromissões da filha, Isabelle Huppert, 60, parecem até agressivas. Nós, espectadores, estamos naquele apartamento com o casal, vivendo sua intimidade difícil e tocante, minuto após minuto, ou dia após dia, pelo tempo do filme. E ela vem de fora querer dar palpite?

O filme mexe com quem o assiste porque nos dá a expectativa de uma vida finita, que é algo que poucas vezes cruza nossos cérebro, talvez até por uma defesa natural do nosso organismo contra a sensação de impotência gerada pela morte. Ao mesmo tempo, nos faz desejar ter um George para tornar nossa morte, quando vier dolorosa e lentamente, mais suave.

(Não se preocupem, não estou estragando o fim: desde o primeiro minuto do filme, sabemos que Anne vai morrer. Mas queria que os leitores deste blog comentassem abaixo o que acharam do destino de George, pelo qual esperei em todo o filme.)

Afortunados os que podem viver o amor até na dor…

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2 comentários sobre “O amor na dor

  1. É o tipo do filme que a sala sai totalmente em silêncio, ao final. Super triste e um convite à reflexão. Cheguei a sugerir uma pauta (que acabou não sendo feita aqui, mas que pode ser feita a qualquer momento) com as pessoas (marido/mulher, filhos, pais, irmãos) que param suas próprias vidas para se dedicarem de corpo e alma a outra pessoa que ela ama, que de uma hora para a outra (por causa de uma doença, um acidente) fica 100% dependente. Bonitas as falas dos atores.

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