Prefere estar na prisão a continuar casado? Leia este texto!

"Isso é parte do nosso processo."

“Isso é parte do nosso processo.” Charge da “The New Yorker”

A repórter Carolina Caetano, de “O Tempo”, é daquelas que conseguem extrair as histórias mais surpreendentes a partir dos crimes e boletins de ocorrência mais banais. Ela tem um faro de repórter de polícia de antigamente: faz a ronda de sempre, entre os batalhões e delegacias, que todos os outros fazem, mas consegue descobrir, a partir das primeiras informações, as histórias mais inusitadas — daquelas que dão inveja ao “Sensacionalista” 😉

Uma das últimas reportagens dela que me chamaram a atenção foi esta da semana passada: “Marido se cansa das reclamações da mulher e implora para ser preso“. Além da história propriamente dita, fiquei impressionada com os comentários.

Escreveu Euclides Silva:

“Num primeiro momento, a notícia é engraçada e inusitada, mas só quem já passou (e ainda passa por isso) pode dimensionar. Elas começam a falar…se você se cala para encerrar o assunto, elas ficam mais nervosas e falam mais…se você responde, elas partem para a baixaria, gritam e ofendem você e sua família, e muitas ainda partem para a agressão física já alertando: “encosta, encosta a mão em mim que eu te denuncio com base na lei Maria da Penha”…Sei que muitos podem estar rindo, mas isso vem acontecendo, e muito…”

E o Henrique Silva:

“Isso é coisa mais comum do que se pensa. Casar com a pessoa errada é trágico, assim como escolher a profissão errada. São cruzes difíceis de carregar qdo erramos na escolha. Tb ja me deu vontade de me matar, sumir e ate me separar, mas o pobre qdo casa ao divorciar sempre sai no prejuízo. O jeito é aceitar calado e viver insatisfeito, uma mulher “largada” sabe muito brm como estragar a vida do ex companheiro, tudo piora mil vezes. O jeito é aturar, tomar cerveja e ver o futebol pra esquecer da vidinha que me meti. Eu entendo perfeitamente o q esse cara deve passar, tb sou vítima de mulher problemática e estressada dentro de casa, tudo ta ruim pra ela. Deus me livre! Fico o menos q posso em casa pra evitar atrito.”

Por fim, o Wagner Santos:

“Isso é mais comum do que todos pensam. Muitas mulheres ficam se fazendo de vítima e quando o homem tenta fazer alguma coisa pra resolver, elas fazem chantagem barata, fazem barraco e fazem um inferno na vida do homem. E ainda tem gente que acha que a mulher é uma florzinha plantada no jardim. Pra mim não significa nada ter dia internacional da mulher, pois muitas delas são apenas bonitas por fora é um fosso de propaganda enganosa. Lei para proteger os homens, já!”

Cada um desses comentários teve várias “curtidas”, mostrando que outros leitores concordaram ou se identificaram com a situação descrita por esses.

O que mais me chamou a atenção na reportagem e nos três comentários foi essa percepção triste dos casamentos. Pelo primeira vez, me dei conta da quantidade de casais infelizes que existem por aí, mas que optam por evitar o divórcio — seja por razões religiosas, seja por medo de serem julgados pela sociedade, seja por medo de ficarem no “prejuízo” –, e, sem encontrarem muita saída, acabam vivendo anos e anos de sofrimento, que tentam contornar com traições, bebedeira ou a pura tortura psicológica. Claro que, nessa sinuca, encontram-se tanto homens como mulheres.

Eu não me canso de pensar: por que não se separam, pura e simplesmente? Um colega, que já se divorciou, respondeu: “É muito mais complicado do que você imagina. O processo é traumático.” Mas será tão traumático quanto viver até o fim da vida preso a alguém de quem não se gosta? Pior: alguém que você odeia? Cuja companhia não suporta?

Lembrei imediatamente de um capítulo do livro “O velho que acordou menino“, com memórias do sábio escritor Rubem Alves. Conta ele:

“Segundo testemunhas fidedignas não há registro de que meu avô capitão Evaristo e minha avó Dona Delminda jamais tenham trocado palavras em público. (…)

Parece que eles se detestavam. Com razão. Não existe forma mais segura de fazer com que duas pessoas se odeiem que prendê-las numa mesma casa. (…) Os casamentos eram negócios arranjados pelos pais. (…) Os sentimentos não importavam. (…)

Não existe coisa que enfureça mais a parte raivosa de uma dupla do que saber que a outra parte está se divertindo. Muitos casais que se odeiam não se separam por não poderem suportar a ideia da liberdade feliz do outro. Ficam juntos a vida inteira pela insuperável felicidade de fazer da vida do outro um inferno.”

Lembro que, quando li este livro, achei a perspectiva do autor muito surreal e improvável. Mas a reportagem da Carolina  Caetano e os comentários que vieram depois provam que Rubem Alves estava certo. Acho que muitos não se separam justamente porque não se veem em outra vida além desta, em que trabalham arduamente para fazer a vida do cônjuge um inferno — e vice-versa.

Eu tenho ainda pouco tempo de casamento e acho inconcebível a ideia de me ver presa a alguém que eu não ame, admire e respeite — como amo, admiro e respeito meu marido, e tenho prazer com a companhia dele, em conversar com ele. Mas cada um é cada qual.

Aos que ainda não “escolheram a pessoa certa”, como definiu um dos comentaristas, dou uma dica do Rubem Alves para que o façam, com menos chances de erros, e evitem cair nesse círculo de horrores de preferir a prisão ao casamento. Em outro livro dele que gosto muito, “Ostra Feliz Não Faz Pérola”, ele dá a receita (página 81):

“‘Ao pensar a possibilidade do casamento cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: ‘Serei capaz de conversar com prazer com esta pessoa até a minha velhice?” (Nietzsche) Tudo o mais no casamento é transitório.”

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7 comentários sobre “Prefere estar na prisão a continuar casado? Leia este texto!

  1. Pra mim, mais inconcebível que ficar com alguém que não te faz bem pro resto da vida eh matar alguém só porque não vão ficar mais juntos, seja por que motivo for. E toda hora a gente lê uma história dessas, pessoas que destroem a própria vida, a do outro, a de famílias inteiras, muitas vezes dos próprios filhos. Nunca consegui compreender o que leva alguém a fazer isso…

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  2. Tb não entendo quem prefere permanecer num casamento ruim a se separar, mas não sou casada, então não vou ficar falando de uma situação pela qual nunca passei…
    Até porque essa reflexão vale para outros campos da vida também, como trabalho, cidade/bairro em que mora, às vezes até outras pessoas de nossa convivência (amigos, colegas). Não sentimos prazer mas ficamos como medo de mudar, pensando que a mudança pode ser pior – “melhor o inferno que é conhecido” (frase que li em algum livro e acho bem verdadeira!!)

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