Memórias de um sábio — e a solidão infantil

Já falei aqui no blog como o Rubem Alves é sábio. Ele fala das miudezas da vida como se fossem as coisas mais importantes do mundo — porque sabe que são mesmo. Ler seus livros é passear pelo encantamento com os passarinhos, os picolés, as mexericas, os carros de bois. É como voltar ao olhar virgem das crianças.

Melhor ainda quando ele decide relembrar, justamente, seus tempos de menino no interior de Minas. Muito do que ele descreve daquela infância aconteceu comigo, tantos anos depois, e existe até hoje. É como se as crianças tivessem a mesma forma de encarar o mundo, mesmo que sob o véu de tecnologias totalmente diferentes.

Ele fez isso no livro “O Velho que Acordou Menino”, que acabo de ler agora. Vejam um trecho da sabedoria de Alves:

“Há um momento na vida das crianças em que o que elas mais desejam é ficar livres dos olhos dos adultos. Por isso procuram a solidão. Para os adolescentes e os adultos, a solidão é o espaço do abandono. (…) Para mim era diferente. A solidão era o espaço da minha liberdade. Na solidão eu podia entregar-me às minhas fantasias, sem que ninguém me perturbasse. (…) São dois os espaços da solidão infantil. Primeiro, os pequenos espaços, simbolizados pelo sonho de uma casinha no alto de uma árvore. Depois, os grandes espaços, simbolizados pela criança correndo sozinha pela campina.”

Isso é, para mim, GENIAL! Como ninguém nunca pensou nisso antes? As crianças gostam da solidão, porque é sozinhas que conseguem cultivar a imaginação. Crianças, se bem orientadas, adoram ler — o hábito mais solitário que existe. Adoram brincar de boneca sozinhas. Muitas vezes, mesmo quando têm várias amiguinhas ou irmãs da mesma faixa etária, preferem brincar sós.

Eu falo por mim. Quando era criança, fazia amiguinhos com facilidade. Mas também adorava espalhar as Barbies pela casa e ficar, por horas e horas, tagarelando sozinha minhas histórias, protagonizadas pelas bonecas. Outra brincadeira que eu amava era fingir que era pirata e, debaixo da mesa da copa, navegar um navio cujos mastros eram os pés do móvel. Um dos meus cantos favoritos na casa era um cantinho atrás de um sofá da sala, entre ele e a parede. Lá, eu colocava vários badulaques, cobria tudo com um cobertor, e fantasiava que estava num barraco ou na minha mansão, a depender do dia. E quantas crianças não adoram fazer esses barracos com os lençóis, para brincarem sozinhas, sem perturbação dos adultos?

Até hoje acho que tenho alma de criança. Eu tenho vários amigos e convivo bem com as pessoas, gosto de sair, de me socializar, de ir a festas e bares. Mas também sinto muita necessidade de ficar só com a minha própria companhia, fechada em meus próprios pensamentos. Em alguns dias de folga, às vezes sou capaz de ficar o dia inteiro, ou mais de um, sem nem sequer abrir a boca para emitir um som. É uma clausura leve, cheia de ideias, sem nenhuma pretensão religiosa, filosófica ou moral. Trata-se apenas do meu lado infantil manifestando sua necessidade de voar pela campina ou esconder atrás da cabana do sofá.

Meu apezinho, meu barraco, minha mansão.

Leiam também o querido Rubem Alves! Sairão da leitura muito mais sábios do que entraram.

“O Velho que Acordou Menino”
Rubem Alves
Editora Planeta
269 págs.
De R$ 21,50 a R$ 34,90.
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3 comentários sobre “Memórias de um sábio — e a solidão infantil

  1. Adorei sua maneira de expressar sua alma de criança. Quem aqui te escreve é uma jovem de 70 anos feito agora em julho(graças a Deus). Modéstia à parte tambem tenho alma de criança e todos gostam de ficar ao meu lado. Acho ate que não sou criança boba. rss Adoro ler e escrever tambem. Quanto ao Ruben é realmente incomparável.Digo é porque jamais será esquecido.Tenho um blog que não é tão importante quanto o seu,mas é nele que descarrego tudo que sinto e penso ao longo desta jornada. Se quiser dá uma espiadinha. na minha página tambem é ritabivar:coisas da vida entretenimento.O blog é. ritabivar.blogspot .com

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