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Empregada doméstica não é um carro de luxo

Sou uma grande defensora da ampliação dos direitos para as empregadas domésticas. Acho um absurdo que, no país onde houve avanços em tantas áreas, as domésticas ainda não façam jus à limitação das oito horas diárias de trabalho, por exemplo. Todos nós sabemos que, em muitos lugares do Brasil, elas ainda dormem nas casas e, por isso, trabalham o dia inteiro, como escravas. Muitos podem dizer que não é bem como escravas, já que recebem salário, mas ainda é comum a prática de reter o salário por causa de dívidas (lembram do sistema feudal?) ou de pagamentos em comida ou moradia.

Isso para não falar de crianças que são trazidas das regiões mais pobres do país, como o Vale do Jequitinhonha, para “serem criadas” em casas de famílias de cidades maiores, onde, na verdade, trabalham como domésticas o dia inteiro. Claro, tudo isso está diminuindo, especialmente nas capitais. Mas no interior e nos rincões do país, ainda é corriqueiro. E tampouco não é incomum ver as domésticas serem discriminadas em condomínios de luxo e clubes onde vão trabalhar para as madames. Eu mesma fiz matéria a respeito disso não faz muito tempo.

Pois bem. Agora está finalmente avançando na Câmara projetos de lei que garantem diversos direitos trabalhistas às domésticas. E eu sou obrigada a ler, de uma entrevistada, que “nada adianta ter um Camaro se não é possível mantê-lo”.

Resta informar a algumas pessoas que, se ter uma doméstica em casa sai caro, é porque ela é uma empregada como qualquer outra, que precisa ter suas garantias pagas em dia, como qualquer um de nós. E que, se isso virou um luxo para poucos, é assim mesmo que tem que ser. Inclusive porque não é toda moça que está se submetendo mais àquele regime semiescravo de outrora, não. Está difícil encontrar nas grandes cidades uma doméstica que aceite dormir no trabalho, ralar o dia inteiro, e receber um salário mínimo. Que bom para elas, que assim está sendo. Talvez estejamos caminhando para o patamar a que os Estados Unidos chegaram nesse assunto (após muita luta, que começou muito mais cedo que a nossa e teve ligação direta com a luta pelos direitos dos negros). Lá, doméstica é, sim, artigo de luxo, porque recebe bem e é valorizada. Quem não pode pagar, que contrate uma faxineira esporadicamente ou aprenda a cuidar da própria sujeira.

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Cristina Moreno de Castro Ver tudo

Mineira de Beagá, jornalista, blogueira, poeta, blueseira, atleticana, otimista, aprendendo a ser mãe. Redes: www.facebook.com/blogdakikacastro, twitter.com/kikacastro www.goodreads.com/kikacastro. Mais blog: http://www.otempo.com.br/blogs/19.180341 e http://www.brasilpost.com.br/cristina-moreno-de-castro

10 comentários em “Empregada doméstica não é um carro de luxo Deixe um comentário

  1. É, aos poucos essa realidade vem mudando – mesmo que devagar, mas o importante é que os direitos trabalhistas avancem. E é verdade, essa prática de trazer meninas do interior para a capital e assim “serem criadas” ( na verdade estarem à disposição dos patrões 24 horas) vem diminuindo mesmo: quando eu cheguei a Salvador, há 12 anos, eu ainda encontrava em algumas casas meninas com este perfil – e até na escola, à noite, quando os patrões as “liberavam” para estudarem.

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  2. Apoiadíssima!
    Eu cresci criada por babás e empregadas domésticas, mas nunca dei conta dessa relação, que é ao mesmo tempo pessoal e profissional (principalmente quando a pessoa dorme na sua casa). Quado saí de casa, fiz questão de fazer todo o serviço. Limpar o banheiro não é das minhas tarefas favoritas, mas para quem tinha sempre alguém pra fazer esse serviço, até que sobrevivi. Fico muito feliz que as coisas estejam mudando. Apesar de saber que meus pais só queriam o meu conforto, quero que meus filhos aprendam a ajudar no serviço da casa.

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    • Sim, tb quero o mesmo para meus filhos. Inclusive porque lá em casa, embora a gente tenha tido empregada doméstica por vários anos, também tivemos vários anos sem, principalmente quando eu era criança. Eu e meus irmãos fazíamos tabelas de serviços domésticos e dividíamos tudo de forma equilibrada, de forma que todo mundo tinha a mesma quantidade de tarefas que se revezavam nos dias da semana. Só meu irmão empurrava com a barriga e nunca fazia a dele (mundo machista… Em compensação, meu pai sempre cuidava de lavar e passar as roupas, dando o exemplo). Eu acabei me afeiçoando a lavar as vasilhas e até hoje é o que mais gosto de fazer 🙂

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  3. Acho que domésticas deveriam ser carro de luxo. Pessoas tratam os carros de modo muito melhor do que outras pessoas. Cuidam, fazem seguro, lavam, pulem, levam para a manutenção… alguns até os exibem na sala de visitas.

    Vou montar um consórcio de doméstica(o)s.

    []s,

    Roberto Takata

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  4. Penso diferente. A atividade é nuclearmente uma convivência remunerada e somente depois uma profissão. A nova lei nao passa de um arremedo mal feito de colonialismo. Era da hipocrisia! Breve teremos peruanas, colombianas e bolivianas trabalhando nas casas brasileiras e aí seremos moderninhos como os americanos. As injustiças não se resolvem pela equiparação de um lar a uma empresa. De fato há quem trate mal empregadas domésticas e há empregadas domésticas ladras e porcas (quando os patrões estão fora, lógico). Basta uma filmadora oculta em casa para sair rapidinho do “País das Maravilhas”. A atividade é muito singular para este tratamento. Se a empregada trabalha à noite é hora-extra? Sim. Se resolve levantar à noite para fazer um lanchinho e pára prá bater um papo com o patrão é hora-extra? rs O ideal seria estabelecer um piso salarial e pronto. Quem quiser, trabalha no ramo. Quem não quiser, vá prá um balcão de padaria. Simples assim. Reconheço a nobreza de intenções de quem defende, mas discordo.

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