O preconceito contra as mães no mercado de trabalho

Nove meses após o nascimento de seu 1° filho, Fernanda Nascimento engravidou de novo e passou a ser afastada de projetos | Foto: Moacyr Lopes Junior / Malagueta

Neste domingo de Dia das Mães, vocês vão ler inúmeras reportagens especiais, em todos os veículos de comunicação do mundo, tentando encontrar um gancho diferente para abordar a efeméride. Vão surgir personagens intrigantes, histórias emocionantes, todo tipo de coisas incríveis (ou meio clichês/óbvias) para se ler sobre a maternidade nos dias de hoje. Minha indicação de leitura é a reportagem feita pela revista “Canguru”, onde trabalho, sobre mulheres que, ainda no século 21, são demitidas apenas por terem se tornado mães. Com casos de fazer corar até os mais machistas, além de dados sobre as contestações no judiciário e entrevista com representante do Ministério Público do Trabalho.

Ser mãe não diminui nenhuma mulher, e jamais pode ser justificativa para deixar de ser promovida no trabalho ou (muito menos) para ser demitida. Aliás, tive grandes chefes ao longo da vida que eram mães (em ordem cronológica: Tacy Arce, Ana Estela de Sousa Pinto, Michele Borges da Costa, Ivana Moreira) e minha própria mãe, Ivona, criou 4 filhos, sempre trabalhando em dois empregos, e ainda fez duas pós-graduações.

Como diz uma das entrevistadas na reportagem da Isabella Grossi, “quando você é mãe, o seu rendimento não cai, pelo contrário. Sua performance melhora, porque você quer entregar tudo mais rápido”. Se eu já não era procrastinadora antes do Luiz, posso dizer que dupliquei meu nível de “bomba atômica” desde que ele nasceu. Enfim, não deixem de ler esta reportagem, queridas mães e pais e pessoas que não têm filhos. Será uma das melhores que vocês vão encontrar neste Dia das Mães. Clique no link abaixo:

Até hoje mulheres ainda são demitidas só porque se tornaram mães

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Luiz Carlos Maciel, 77, filósofo desempregado

Luiz Carlos Maciel

Luiz Carlos Maciel

Texto escrito por José de Souza Castro:

Leio no blog do poeta pernambucano Flávio Chaves que o filósofo Luiz Carlos Maciel está desempregado há quase um ano. Tem 77 anos e está sem dinheiro. Ele se oferece para trabalhar, avisando que só não canta e dança. No mais, o que vier, “eu traço”.

É possível que algum leitor nunca tenha ouvido falar de Luiz Carlos Maciel. Foi um dos fundadores de O Pasquim, surgido seis meses depois do AI-5, quando a ditadura militar se impunha como nunca. E o jornal se revelou como flor do lodo, no brejo político e social em que se transformara o Brasil: em pouco tempo, vendia mais de 200 mil exemplares por edição.

Posso poupar tempo, encaminhando o leitor a este artigo escrito em julho de 2004 pela historiadora paulistana Patrícia Marcondes de Barros. Um resumo:

“Jornalista, dramaturgo, roteirista de cinema, filósofo, poeta e escritor. Apesar de sua vasta atuação no cenário cultural brasileiro, Luiz Carlos Maciel é comumente lembrado por sua participação no Pasquim, com a coluna Underground, quando então escrevia artigos sobre os movimentos alternativos que eclodiam no mundo, assim como as manifestações anteriores que lhes serviram de base, como o romantismo, o surrealismo, o existencialismo sartreano, a literatura da Beat Generation, o marxismo, entre muitos horizontes (re)descobertos na época. Este trabalho de difusão da contracultura lhe valeu o estereótipo de ‘guru da contracultura brasileira’ ”.

No final do artigo há uma breve cronologia dos trabalhos realizados por Luiz Carlos Maciel até 2004. Uma lista impressionante. Vivesse nos Estados Unidos ou na Europa, onde a cultura tem valor, esse gaúcho não teria chegado aos 77 anos desempregado e sem dinheiro.

Mas ele vive no Brasil. País onde cultura e velhice são desprezadas. Pior, se além de velho, é mulher, negra e faxineira.

No mesmo dia em que tomei conhecimento do caso de Luiz Carlos Maciel, soube do que aconteceu com a faxineira de um prédio residencial num bairro de classe média alta de Belo Horizonte. Um prédio de oito andares, com um apartamento de quatro quartos por andar.

Até agosto de 2012, o prédio tinha contrato de administração assinado com empresa especializada. O condomínio pagara a essa empresa, em 12 meses, um total superior a R$ 10 mil, incluindo salário da faxineira, INSS, FGTS e vale transporte. Havia faxina cinco dias por semana.

Para economizar, o condomínio decidiu cancelar o contrato e pagar diretamente a duas faxineiras que, conforme a lei, não têm qualquer direito trabalhista. Uma delas trabalha quatro horas por dia, dois dias por semana; outra, um dia por semana, durante oito horas. O gasto total caiu para R$ 9.520 no ano.

As faxineiras são as mesmas, até agora. Mas houve uma mudança: a que trabalhava um dia por semana, durante oito horas, passou a trabalhar por quatro horas, há cerca de três meses. O salário foi reduzido também pela metade. Mas a perda para ela é maior do que 50%, pois enquanto gastava com ônibus “x”, tirado de seu salário “y”, agora gasta o mesmo “x” tirado de metade do “y”. Um matemático pode calcular melhor do que eu a perda da faxineira.

Ela aceitou, sem reclamar da decisão da síndica. “O que eu podia fazer?”, perguntou-me ela. “Tenho 69 anos, e ninguém vai me empregar para fazer faxina, mesmo que eu possa trabalhar direitinho com essa idade. É melhor pingar do que secar”, filosofa.

“O que vier, eu traço”, diz o filósofo desempregado Luiz Carlos Maciel, oito anos mais velho.
A culpa é da crise econômica, que pesa mais para os mais fracos. Só dela? Não pesa nada na consciência dos mais ricos – não é, papa Francisco?

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7 memes contra os ignorantes da web

Enquanto eu escrevia o post de ontem, fiquei lembrando de alguns comentários que sou obrigada a ler na internet, dia após dia. São tiros disparados contra gays, contra partidos políticos, contra negros, pobres, nordestinos, mulheres — e o que todos eles têm em comum é a ignorância em que se baseiam.

Já ouviu alguém dizer que vivemos em uma ditadura “gayzista”?

Ou que o governo federal está transformando o Brasil em Cuba?

É de uma ignorância que até dói. Muitas vezes passa pela falta de escola mesmo, ou pelo excesso de crença em boataria de internet.

Mas quem solta esse tipo de frase não tem interesse nenhum em estudar, pensar, ponderar, debater. São pessoas com quem não vale muito a pena discutir, porque já estão embotadas pelo ódio.

Então, podemos recorrer aos memes! Nunca disparei um meme na vida, mas hoje achei ótima ideia. Vejam só como pode funcionar:

Comentário: “Vivemos numa ditadura gayzista! Os héteros sofrem mais discriminação que os gays!”

Resposta:

meme2

Comentário: “O governo federal está transformando o Brasil em Cuba! Ou Venezuela! O PT é comunista!”

Resposta:

meme3

Comentário: “Vou protestar nas ruas pelo impeachment da presidente eleita! Quero a intervenção militar e a volta da ditadura, porque naquela época o Brasil era muito melhor do que hoje! Vivemos numa ditadura da esquerda!”

Resposta:

meme4b

Comentário: “Bandido bom é bandido morto! Tem mais é que espancar esses bandidos mesmo! Tomara que ele chegue na cadeia e seja estuprado dez vezes mais!”

Resposta:

meme5

Comentário: “Nordestino é tudo burro! Eles que elegeram o PT, por causa do Bolsa Esmola! Vamos separar o Sul/Sudeste do Norte/Nordeste!”

Resposta:

meme1

Comentário: “Temos que defender os valores da família! Esses projetos de lei que protegem os gays de homofobia são atentados contra a família! Nem existe homofobia no Brasil!”

Resposta:

meme7

Comentário: “Aliás, nem existe racismo no Brasil. Os brancos e héteros deviam fazer uma Parada também, pelo orgulho branco e hétero! Devia ter cota para brancos nas empresas, porque estamos virando minoria! Os negros estão ficando no lucro, com tantas cotas e benefícios!”

Resposta:

meme6

 

 

Como eu escrevi aqui outro dia: o bom humor é sempre a melhor resposta 😉

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Um filósofo das ruas

sempreemdesvantagem

Imagine uma pessoa má. Que, há 27 anos, estuprou a garota de quem gostava e a matou, juntamente com o namorado dela. Que já bateu em várias pessoas, e matou ainda outras, enquanto esteve na prisão, para pagar pelo primeiro crime.

Este é Sócrates. Um criminoso e, quando o conhecemos, já ex-presidiário. Ele mora em uma espelunca, luta diariamente para sobreviver e, como diz o nome do livro, está “sempre em desvantagem”. Essa condição de pessoa-em-constante-culpa, de sobrevivente e de lutador o transformou em uma espécie de filósofo, de sábio, aquele que os vizinhos respeitam e de quem buscam conselhos.

Aos poucos, vamos aprendendo a gostar desse anti-herói (tendo a ter uma queda por anti-heróis da literatura e do cinema, fazer o quê?), e a respeitar suas ideias e tomá-las como acertadas.

E vamos acompanhando suas histórias, capítulo a capítulo, ou conto a conto — porque, de certa forma, os capítulos são independentes e podem ser lidos de forma aleatória. Segue-se uma linearidade temporal, mas cada capítulo tem seu começo, meio e fim, então a ordem não é importante.

Vamos acompanhando o dia em que ele critica o ladrão por contribuir para a imagem ruim que a sociedade norte-americana tem dos “irmãos” negros, o dia em que briga com o garoto que matou o frango depois de matar outra criança, o dia em que teimou até conseguir um emprego, o dia em que conheceu um casal na praia, o dia em que passou a frequentar a livraria etc. Histórias fortes, até a última, a mais triste de todas, que trata da amizade.

Uma temática que permeia todas as histórias é a discriminação à comunidade negra. A forma como o autor, Walter Mosley, escreve sobre isso me fez pensar em vários momentos que eu estava lendo um livro que se passava ainda na era pré-Martin Luther King, de segregação explícita. A toda hora tinha que me obrigar a lembrar que era uma história dos anos 2000. O que me fez pensar: seria exagero de Mosley ou a sociedade norte-americana, mesmo nas ruas modernas de Los Angeles, ainda continua mesmo tão atrasada e com tantos guetos raciais? Acho que deve ser a segunda opção. (E, se lá é assim, num país tão mais combativo em relação ao racismo, pobre do Brasil…)

Ao menos existem os Sócrates modernos, com suas filosofias das ruas, para nos ensinar a olhar.

Sempre em desvantagem
Walter Mosley
Editora Record
236 págs
De R$ 20 a R$ 40,75

O discurso mais importante da História completa 50 anos (e o sonho ainda não foi realizado)

Marcha Sobre Washington, em 28.8.1963

Marcha Sobre Washington, em 28.8.1963

Há exatos 50 anos, 250 mil pessoas se reuniram na “Washington para a Marcha por Emprego e Liberdade” e ouviram o discurso mais importante da História, saído da boca de um emocionadíssimo Martin Luther King Jr., que tinha apenas 34 anos de idade. Aquele momento foi o cúmulo de protestos que tinham começado em 1955, quando a costureira Rosa Parks se recusou a ceder seu lugar num ônibus para um branco e foi presa pelo gesto de revolta. King ganhou o Nobel aos 35 anos de idade e morreu, assassinado, aos 39 apenas. Mas suas palavras ecoam até hoje e até hoje me arrepio quando ouço ele dizer, por exemplo:

“Tenho um sonho de que meus quatro filhos viverão um dia em uma nação onde não serão julgados pela cor de sua pele, mas pelo teor de seu caráter.”

Ele repete sua frase “Eu tenho Um Sonho” como um refrão de uma música gospel ou de um lindo blues e, a cada hora que essa frase é disparada, vemos as lágrimas escorrendo no rosto dele e dos milhares que são filmados no momento.

King ainda não conseguiu ver seu sonho realizado. Nem em sua “América”, onde o número de negros presos é seis vezes maior que o de brancos. Nem no restante do mundo, onde ainda vemos mais negros assassinados no Brasil, por exemplo. Mas enquanto esse discurso continuar sendo ensinado às crianças, jovens e adultos, e mais e mais pessoas se conscientizarem de que as diferenças devem ser respeitadas e que o maior respeito é a igualdade perante a lei, ainda teremos esperança de que esse sonho de King um dia seja, enfim, realizado.

E “todos os filhos de Deus, negros e brancos, judeus e gentios, protestante e católicos, poderão se dar as mãos e cantar, nas palavras da velha canção negra, ‘livres, enfim! Livres, enfim!'”

Quem quiser ler o discurso na íntegra AQUI ESTÁ.

Eu, pessoalmente, acho muito mais emocionante escutá-lo, direto do orador. Tem pouco mais de 15 minutos e são 15 minutos de mudar um mundo inteiro:

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