Gordofobia, padrões inatingíveis e o controle sobre as mulheres

Li um texto muito-muito bacana, como há tempos não lia, sobre os assuntos que enumerei no título deste post. Foi escrito pela jornalista Nathalia Ilovatte e publicado em sua página no Facebook Entre Borboletas. É daqueles textos que não carecem de introdução ou complemento, porque já dizem tudo. E eu assino embaixo mesmo. Então vamos direto a ele:

Reprodução/ facebook.com/entreborboletasblog

“”Caraca, tô gorda!”, pensei ao bater o olho nessa foto. E não foi mera constatação. O pensamento veio em tom de crítica e de lamentação, como que provando que eu não dou conta da minha vida e não tenho competência nem para murchar essa barriga.

Passei a vida com vergonha do espelho e não me lembro de algum dia não ter reclamado do meu corpo. Tudo nele sempre me pareceu muito ou pouco, nunca a medida certa. E isso, para mim, era motivo para desgostá-lo e escondê-lo.

Na adolescência, comecei dietas que viraram um transtorno alimentar, custei a reencontrar equilíbrio na relação com a comida, e julgava as outras pessoas pela forma física delas também.

Hoje, 11 meses depois do meu filho nascer, eu não sou gorda, mas também não pareço com nenhuma mulher de outdoor – nem daqueles que dizem exibir as mulheres reais (o que faz a gente se perguntar: seriam as magras de mentira?).

Embora reeducar a mente seja um trabalhoso exercício diário e em alguns momentos a gente dê 35 passos para trás, a maior diferença entre eu hoje e dois anos atrás não está no desenho da silhueta, mas no significado que vejo nele. (…)”

CLIQUE AQUI para ler até o final, vale a pena 😉

 

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O preconceito contra as mães no mercado de trabalho

Nove meses após o nascimento de seu 1° filho, Fernanda Nascimento engravidou de novo e passou a ser afastada de projetos | Foto: Moacyr Lopes Junior / Malagueta

Neste domingo de Dia das Mães, vocês vão ler inúmeras reportagens especiais, em todos os veículos de comunicação do mundo, tentando encontrar um gancho diferente para abordar a efeméride. Vão surgir personagens intrigantes, histórias emocionantes, todo tipo de coisas incríveis (ou meio clichês/óbvias) para se ler sobre a maternidade nos dias de hoje. Minha indicação de leitura é a reportagem feita pela revista “Canguru”, onde trabalho, sobre mulheres que, ainda no século 21, são demitidas apenas por terem se tornado mães. Com casos de fazer corar até os mais machistas, além de dados sobre as contestações no judiciário e entrevista com representante do Ministério Público do Trabalho.

Ser mãe não diminui nenhuma mulher, e jamais pode ser justificativa para deixar de ser promovida no trabalho ou (muito menos) para ser demitida. Aliás, tive grandes chefes ao longo da vida que eram mães (em ordem cronológica: Tacy Arce, Ana Estela de Sousa Pinto, Michele Borges da Costa, Ivana Moreira) e minha própria mãe, Ivona, criou 4 filhos, sempre trabalhando em dois empregos, e ainda fez duas pós-graduações.

Como diz uma das entrevistadas na reportagem da Isabella Grossi, “quando você é mãe, o seu rendimento não cai, pelo contrário. Sua performance melhora, porque você quer entregar tudo mais rápido”. Se eu já não era procrastinadora antes do Luiz, posso dizer que dupliquei meu nível de “bomba atômica” desde que ele nasceu. Enfim, não deixem de ler esta reportagem, queridas mães e pais e pessoas que não têm filhos. Será uma das melhores que vocês vão encontrar neste Dia das Mães. Clique no link abaixo:

Até hoje mulheres ainda são demitidas só porque se tornaram mães

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Retrato sem plumas de uma elite sem lei

É muito raro eu ir ao teatro, por isso vocês quase não veem resenhas de peças aqui no blog. Então foi com satisfação que recebi o texto abaixo, escrito e enviado pelo leitor Douglas Garcia, professor de filosofia da UFOP que já foi apresentado neste espaço. A dica dele é que todos corram para assistir ao espetáculo “Infância, Tiros e Plumas”, em cartaz do Centro Cultural do Banco do Brasil de Belo Horizonte desde a última sexta-feira. Vejam por que vale a pena assistir:

 

Divulgação

Divulgação

“Infância, tiros e plumas” está em cartaz no CCBB de Belo Horizonte, nas sextas, sábados e domingos até o dia 07 de Setembro. Texto de Jô Bilac e direção de Inez Viana. Fugindo do esquema “Zorra total” que grassa como uma praga em nossos palcos, é uma peça que merece ser vista.

O texto e os atores são excelentes, com destaque para as espetaculares atrizes femininas: Bianca Byington, Juliane Bodini e Carolina Pismel. A peça é engraçadíssima, lembrando o humor de filmes como o argentino “Relatos Selvagens”, de Damián Szifron e “Amores Passageiros”, de Pedro Almodóvar. O cenário é simples, mas funciona muito bem visualmente. Há poucas inserções musicais, mas quando ocorrem são de forte impacto dramático.

O texto de Jô Bilac é o maior trunfo da peça. Dotado de uma linguagem rápida e direta, tem enorme potencial de comunicação com o público e é afiado na crítica do presente brasileiro. Mais especificamente, da substituição brasileira da lei pelo “esquema”, praticada de modo complacente pelas suas elites e elevado a forma de vida e de relação com o país e com os outros. Explico.

Enquanto a lei é impessoal, supõe o respeito aos direitos iguais de todos e um compromisso coletivo com o país, o “esquema” é pessoal, supõe o poder de desrespeitar todos que se ponham como obstáculo aos próprios interesses privilegiados e um descompromisso com a ideia de país. Não por acaso, a peça se passa em um aeroporto e em um avião, na primeira classe de um voo para a Disney. Para essa elite, o Brasil é apenas um cenário como outro qualquer.

A peça capta com rara sensibilidade esse estado de coisas que é o nosso. Seu achado é desdobrar em pequenas cenas cômico-dramáticas, que se comunicam entre si, a estrutura geral brasileira de “esquema” e desrespeito sistemático das pessoas. E mostrar como essa estrutura se dinamiza: prática comum das elites, ela se espraia para todos os grupos sociais, inclusive as crianças. Com efeito, uma das cenas mais cruéis da peça se dá quando duas crianças humilham um comissário de bordo negro e nordestino. A peça lança mão de um mecanismo desestabilizador do preconceito: mostra a brutalidade brasileira passada às crianças como mecanismo de perpetuação de desigualdade de direitos e de oportunidades.

Imperdível.

Uma nota pessoal: depois da peça, ouvi uma situação que poderia ter se passado “dentro” da peça. Fui jantar em um bom restaurante da Zona Sul, muito movimentado naquele horário. Ao dirigir-me ao lavabo, não pude deixar de ouvir um dos garçons comentar com outro: “Ele falou para mim: ‘Você vai me atender AGORA!’ e eu falei para ele: ‘E você vai largar o meu braço'”.

Brasil.

—> Mais sobre a peça:

“Infância, Tiros e Plumas”
Em cartaz até 7 de setembro
Sexta, sábado e segunda às 20h; domingo às 19h
Duração: 80 minutos
R$ 10 inteira, R$ 5 a meia
No CCBB: Praça da Liberdade, 450
Mais informações AQUI

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