Gordofobia, padrões inatingíveis e o controle sobre as mulheres

Li um texto muito-muito bacana, como há tempos não lia, sobre os assuntos que enumerei no título deste post. Foi escrito pela jornalista Nathalia Ilovatte e publicado em sua página no Facebook Entre Borboletas. É daqueles textos que não carecem de introdução ou complemento, porque já dizem tudo. E eu assino embaixo mesmo. Então vamos direto a ele:

Reprodução/ facebook.com/entreborboletasblog

“”Caraca, tô gorda!”, pensei ao bater o olho nessa foto. E não foi mera constatação. O pensamento veio em tom de crítica e de lamentação, como que provando que eu não dou conta da minha vida e não tenho competência nem para murchar essa barriga.

Passei a vida com vergonha do espelho e não me lembro de algum dia não ter reclamado do meu corpo. Tudo nele sempre me pareceu muito ou pouco, nunca a medida certa. E isso, para mim, era motivo para desgostá-lo e escondê-lo.

Na adolescência, comecei dietas que viraram um transtorno alimentar, custei a reencontrar equilíbrio na relação com a comida, e julgava as outras pessoas pela forma física delas também.

Hoje, 11 meses depois do meu filho nascer, eu não sou gorda, mas também não pareço com nenhuma mulher de outdoor – nem daqueles que dizem exibir as mulheres reais (o que faz a gente se perguntar: seriam as magras de mentira?).

Embora reeducar a mente seja um trabalhoso exercício diário e em alguns momentos a gente dê 35 passos para trás, a maior diferença entre eu hoje e dois anos atrás não está no desenho da silhueta, mas no significado que vejo nele. (…)”

CLIQUE AQUI para ler até o final, vale a pena 😉

 

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Desabafo de um ex-zoador de gordinhos

Quadro do colombiano Fernando Botero (1932-), famoso por pintar e esculpir figuras rotundas como este simpático "fumador"

Quadro do colombiano Fernando Botero (1932-), famoso por pintar e esculpir figuras rotundas como este simpático “fumador”

O texto do Gabriel Nadal, que publiquei ontem aqui no blog, me fez pensar um bocado. Não me canso de me espantar com a existência de pessoas que se satisfazem em serem cruéis com outras. Em tratarem outras pessoas como se fossem piores – apenas por serem diferentes, aí incluindo os mais gordos, ou os homossexuais, ou os que têm menos condições financeiras, que têm alguma deficiência física etc. Qualquer coisa que se enquadre no conceito de “minoria” (e, dependendo da situação, o simples fato de ser mulher também é ser uma minoria) leva a pessoa a ser tratada pior.

O que me deixou muito feliz foi ver que outros leitores leram e também refletiram bastante sobre as palavras contundentes de Gabriel. Um deles, o Pacífico Guerra, até enviou um relato pessoal para a publicação no blog. Segue o texto abaixo, que acho que complementa muito bem o que foi publicado ontem:

“O falecido psicanalista Eduardo Mascarenhas chegou a dizer que as maiores vítimas do preconceito humano são os gordos.

Só tenho um irmão, seis anos mais jovem do que eu. Ele foi gordo, durante grande parte de sua vida. E eu era um dos que o zoavam por causa da sua gordura. Ele não se importava com as gozações.

Um dia, fiquei espantado, quando ele me revelou que chegou a procurar um profissional da psique, para achar uma resposta: “Por que sou gordo?”. É, ele fingia que não se importava com as gozações…

Uma vez, dentro de nossa casa, ele falou que iria passear e pegar umas meninas, e meu tio materno disse: “Onde já se viu gordo conseguir meninas?”. Ele, aparentando não ter se importado com a tirada infeliz do nosso tio, disse: “Elas me acham fofinho”.

Muitas e muitas pessoas me falavam que eu era um cara muito complexado. Eu negava. Mas, depois de já com uma idade avançada, digo que sou um poço de complexo. E ainda acho que tive muita sorte, pois acredito que seu eu fosse gordo, negro, gay, baixinho, careca, deficiente físico, eu não aguentaria, me meteria em muitas confusões, não chegaria na idade em que cheguei.

O pior é a falta de sensibilidade, de discernimento de alguns, assim como eu próprio, para achar que pessoas como as gordas nem se incomodam com suas condições e com os frequentes deboches. Custei a cair na real…”

Já está mesmo na hora de todo mundo cair na real, né? 😉

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Desabafo de um gordinho

Recebi o texto abaixo, um verdadeiro desabafo, do leitor Gabriel Nadal Branco Martins. Ele nos faz refletir sobre a ditadura que as pessoas com sobrepeso vivem nos dias de hoje, tema já abordado aqui no blog. Começa na pré-escola, com o bullying, continua na adolescência, com as piadas e a dificuldade de encontrar paqueras, e segue pela vida profissional afora, com vários empregos sendo vetados (basta ver a quantidade de processos na Justiça do Trabalho sobre isso). Mas ninguém melhor do que o próprio Gabriel para nos contar:

Quadro do colombiano Fernando Botero (1932-), famoso por pintar e esculpir figuras rotundas como este simpático "fumador"

Quadro do colombiano Fernando Botero (1932-), famoso por pintar e esculpir figuras rotundas como este simpático “fumador”

“Desde pequeno sou gordo. Motivo de piadas e zoação, antes de inventarem o bullying, zoar o gordo já era normal. Em sala de aula, eu queria me enturmar e soltava uma piada — e, claro, ninguém ria, ficava aquele silêncio mais constrangedor. Dois minutos depois, o magrão largava a mesma piada sem tirar nem pôr: a sala caía na risada. Aprendi a ser zoado, ao menos assim fiz alguma amizade colegueira; deixava me zoar pra não ficar totalmente excluído.

A infância passava e eu pensava: “Beleza, na adolescência vai mudar…”. Pois bem, não muda, você pode até colocar a melhor roupa, seu melhor perfume, mas, mesmo assim, você ainda é alvo de zoação. Você vai a uma loja de roupas e não compra aquela que é legal, e sim a que serve.  Na festa, é normal todos estarem comendo seu salgadinho ou qualquer porcaria, mas quando um gordinho levanta pra beliscar algo já vêm os pensamentos negativos: “Vai comer tudo e não vai sobrar nem migalha”, ou ficam com aqueles olhares maliciosos pra cima da gente.

Pra ficar com uma mina parece que ela está te fazendo um favor. Você quer ser atencioso, bacana, etc e tal, mas, no máximo, vira um “amigo”. Quando você tem um carro até aumentam suas chances, mas apenas para virar motorista — essas maria-gasolinas te dão moral, uma leve e fictícia chance de que você vai ficar com elas, mas… aquele seu amigo magro cata sua “amiga”.

Depois ficam falando: “Ah, é que você não se enturma, fica isolado”, ou coisa parecida. Esses que a sociedade julga “normais” não sabem e nunca saberão o que é ser um gordinho. O que um gordinho passa em um dia, muitos magros não suportariam nem por 1 minuto. Batalhamos para não entrar em depressão, comecei a fumar para a ansiedade diminuir (já que tá tudo lascado mesmo, um mal a mais não faz diferença).

Vocês devem estar pensando: “Nossa, que baixa autoestima, que deprê…”. Pois é, caros leitores, os gordinhos se juntam entre si, pois sabem o que cada um passou. Meu melhor amigo é igual a mim: se ficamos isolados, ao menos estamos juntos rindo da nossa barriga.

Festas? Tô fora, se é pra ficar rodado, prefiro ficar em casa. O que adianta eu saber cozinhar, lavar, passar, ser carinhoso, gentil, amigo, companheiro, intelectual, se sou gordo? Um magro que não sabe nem de onde o ovo da galinha veio é “o cara”. Dinheiro? Até ajuda, mas quem sai ganhando são seus “amigos”. Tenho carro, casa com piscina, barco, som muito bom, mas NA MINHA FESTA NA MINHA CASA COM MINHAS COISAS quem fica com as minas são os outros. Você fica no máximo conhecido por dar uma festa bacana, elas colam em você, pois sabem que tem de tudo e lá vão encontrar os “caras perfeitos”.

Posso contar nos dedos as mulheres com que fiquei, mas com muita luta e muito gasto também. Se for pra gastar com mulher hoje, prefiro ir ao cabaré: lá eu sei que não importa minha aparência e sim minha carteira, que é a única coisa gorda de que todos gostam, a carteira recheada.

Família? Não posso reclamar muito, mas já passei muita tristeza com pai-mãe-tio falando do meu peso, de como devo comer, de que devo consultar endocrinologista. Putz, se fosse contar quantos médicos e dietas malucas pelos quais já passei daria pra escrever um livro. Não é por falta de tentar, já que não nos enquadramos na sociedade: fazemos esportes, dietas macabras, coisas que até Deus duvida, mas nossa genética não ajuda, há o tal efeito sanfona.

Aí falam que eu não me aceito. Claro que me aceito, só falta a sociedade me aceitar, pois o que adianta eu me aceitar e os outros não?

Hoje tenho 24 anos, estudo, trabalho, mas meu melhor passatempo é ficar na beira da lagoa, sem ninguém pra falar o que devo comer e como devo ser. Pito meu palheirinho sossegado, pesco bem tranquilo.

Ainda penso em um dia namorar sério — puxa, seria algo incrível! Eu lembro que, no tempo do Orkut, eu queria colocar o status “namorando”, porque ia ser algo incrível. Meus namoros não deram certo porque eu “dava atenção demais”. Mas não demorava muito e lá estava a garota nos braços de um boy atlético. Falam que o gordinho é todo meloso, sabe por quê? Simples: quando uma mulher lhe dá atenção ou até fala com você, fazemos de tudo para não perder , pensamos: “Quando vamos encontrar uma de novo??”. Mas hoje a mulher prefere o cafajeste, aquele magrão que pisa e judia. E quem roda?? ACERTOU: o gordo. Eu falo o mesmo sobre as gordinhas: são lindas, boa gente e boas companhias, mas atualmente a maioria também espera pelo príncipe atlético.

Gordinhos e gordinhas do Brasil: levantem a cabeça, pois vocês são muito melhores do que a sociedade fala que devem ser. Deixei aqui meu desabafo para a sociedade. Estão idolatrando a anorexia, e aí tem muita gente fazendo cirurgias e dietas macabras para se enquadrar na sociedade. Se esquecem de nós, então vamos fazer a nossa sociedade, a nossa moda e provar que podemos ser muito felizes!”

(Texto de Gabriel Nadal Branco Martins)

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Quer enviar seu texto para publicação aqui no blog? É só entrar em contato e, se o texto tiver a cara deste blog, terei o maior prazer em publicá-lo 😉

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