Um crime, um acidente e a mesma causa em comum: arma de fogo em mãos erradas

1) No auge dos 32 graus do calorão de Beagá, um pai foi a uma sorveteria com o filho de 10 anos para comemorar o aniversário do garoto, que faria 11 no dia seguinte. Lá dentro, ouve outro cliente chamando seu filho de “gordo” e bate boca com ele, dizendo que aquilo era bullying. A discussão se estende até a rua, e o outro cliente saca uma arma menor que a palma de uma mão e atira no olho do pai da criança, na frente do filho. Depois de disparar, vira-se e sai caminhando tranquilamente, até ser detido por uma testemunha, que chama a polícia. Enquanto isso, a criança chora, tentando reanimar o pai, já morto. [Leia a reportagem de Aline Diniz e Letícia Fontes]

2) Um adolescente de 17 anos, seu priminho, de 10, e outras crianças, estavam em um culto da igreja, no interior de Minas, e, em seguida, foram ter uma aula de música. Chegando à casa, o adolescente encontrou uma espingarda em cima de uma mesa de sinuca e, por curiosidade, pegou a arma. Apontou para uma lavoura de café em frente, atirou – puf! –, mas não saiu nada. Achando que a arma estava descarregada, apontou para o primo mais novo, atirou – bum! – e, desta vez, saiu um projétil que foi parar bem no peito da criança. Pouco depois, o garoto morreu. O outro, que atirou acidentalmente, foi apreendido. O filho do dono da espingarda ficou tão transtornado que quebrou a arma. [Leia a reportagem de Natália Oliveira]

O que esses dois casos têm em comum?

Sim, ela: a arma de fogo. No primeiro caso, foi usada em uma briga por motivo banal, fútil, que poderia ter sido facilmente resolvido entre os dois desconhecidos se tivessem conseguido terminar a discussão com serenidade. Mas, no calor do bate-boca, um deles estava armado. Mirou: bum! E ao menos três vidas foram destruídas graças a esse gesto. O pai era um bandido? Não, de jeito nenhum, estava só tentando proteger o filho do que considerou uma ofensa verbal. O “cidadão de bem” que atirou era um bandido? Não sei dizer, mas agora tornou-se um assassino.

No segundo caso, a arma de fogo foi usada por acidente, ou por ingenuidade. Não existisse arma ali, e as crianças teriam voltado para casa naquele fim de tarde, depois de uma tarde normal com orações e aula de música. Mas a espingarda estava à mão, atraiu a curiosidade da criança mais velha e, bum!, ao menos três vidas foram destruídas graças a essa curiosidade.

Armas de fogo devem ser restritas ao máximo. Quanto mais estiverem disponíveis, à mão de pessoas inabilitadas para manuseá-las (como aquelas sem controle, muito esquentadas ou as crianças), mais frequentes serão os casos de mortes por motivos fúteis (brigas de trânsito são um prato cheio para isso), acidentes com crianças e suicídios.

No entanto, nosso digníssimo presidente e sua equipe planejam, em vez de restringir mais, ampliar o acesso à posse de armas. Mesmo antes de a legislação ter efetivamente mudado, só pelo fato de o país estar vivendo esta atmosfera bélica dos seguidores de Bolsonaro, a venda de armas já disparou (literalmente) no mercado.

Eu chorei lendo estas duas notícias acima, imaginando a dor desses parentes que perderam seus entes queridos para o acaso, facilitado pela presença de uma arma de fogo. Chorarei muito mais, nos próximos anos, com os vários outros crimes ou acidentes evitáveis que certamente vão pipocar por todo o Brasil. Na torcida para que ninguém que eu amo também vire manchete de jornal.

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‘Extraordinário’, um filme peculiar – e pelos motivos menos esperados

Para ver no cinema: EXTRAORDINÁRIO (Wonder)
Nota 9

Extraordinário não é um filme incrível apenas por trazer a história de Auggie Pullman, um garotinho de 10 anos que tem uma deformação no rosto e precisa superar os olhares insistentes, o bullying, o estranhamento, a não aceitação e até mesmo o asco que outras pessoas, as [muitas aspas]normais[muitas apas], sentem por ele possuir uma diferença escancarada no rosto. Também não é incrível apenas por essa história, que tinha tudo para ser pesada, ser contada com delicadeza e graça por causa da narrativa sob a perspectiva de um protagonista mirim (o que já tinha acontecido no outro filme estrelado pelo pequeno Jacob Trembley, “O Quarto de Jack).

Extraordinário não é incrível apenas por nos fazer chorar do início ao fim, em cenas intercaladas por sorrisos ou até risadas, por aquele quentinho no peito, depois de alguns socos no estômago, pelo morde-e-assopra dos filmes que fazem pensar, cheios de frases maravilhosas, ainda que muitas sejam belos clichês (“choose kind“). Não é incrível apenas por abordar dois temas tão urgentes, como a inclusão e o bullying, de forma tão absolutamente bem construída, em roteiro, direção e atuações impecáveis – com destaque para, além de Trembley, a sempre ótima Julia Roberts, o sempre ótimo Owen Wilson, e a excelente, até então desconhecida para mim, Izabela Vidovic.

Estamos falando de um filme com potencial para ser indicado a vários Oscar, especialmente por melhor roteiro adaptado de uma novela homônima que R.J. Palacio escreveu depois de levar seu filho a uma sorveteria e vê-lo chorar ao olhar para uma criança com a síndrome de Treacher Collins – a mesma do pequeno personagem Auggie Pullman. Mas também forte merecedor de estatuetas de melhores atuações e melhor maquiagem.

O que achei mais incrível neste pequeno filme foi Continuar lendo

Desabafo de um ex-zoador de gordinhos

Quadro do colombiano Fernando Botero (1932-), famoso por pintar e esculpir figuras rotundas como este simpático "fumador"

Quadro do colombiano Fernando Botero (1932-), famoso por pintar e esculpir figuras rotundas como este simpático “fumador”

O texto do Gabriel Nadal, que publiquei ontem aqui no blog, me fez pensar um bocado. Não me canso de me espantar com a existência de pessoas que se satisfazem em serem cruéis com outras. Em tratarem outras pessoas como se fossem piores – apenas por serem diferentes, aí incluindo os mais gordos, ou os homossexuais, ou os que têm menos condições financeiras, que têm alguma deficiência física etc. Qualquer coisa que se enquadre no conceito de “minoria” (e, dependendo da situação, o simples fato de ser mulher também é ser uma minoria) leva a pessoa a ser tratada pior.

O que me deixou muito feliz foi ver que outros leitores leram e também refletiram bastante sobre as palavras contundentes de Gabriel. Um deles, o Pacífico Guerra, até enviou um relato pessoal para a publicação no blog. Segue o texto abaixo, que acho que complementa muito bem o que foi publicado ontem:

“O falecido psicanalista Eduardo Mascarenhas chegou a dizer que as maiores vítimas do preconceito humano são os gordos.

Só tenho um irmão, seis anos mais jovem do que eu. Ele foi gordo, durante grande parte de sua vida. E eu era um dos que o zoavam por causa da sua gordura. Ele não se importava com as gozações.

Um dia, fiquei espantado, quando ele me revelou que chegou a procurar um profissional da psique, para achar uma resposta: “Por que sou gordo?”. É, ele fingia que não se importava com as gozações…

Uma vez, dentro de nossa casa, ele falou que iria passear e pegar umas meninas, e meu tio materno disse: “Onde já se viu gordo conseguir meninas?”. Ele, aparentando não ter se importado com a tirada infeliz do nosso tio, disse: “Elas me acham fofinho”.

Muitas e muitas pessoas me falavam que eu era um cara muito complexado. Eu negava. Mas, depois de já com uma idade avançada, digo que sou um poço de complexo. E ainda acho que tive muita sorte, pois acredito que seu eu fosse gordo, negro, gay, baixinho, careca, deficiente físico, eu não aguentaria, me meteria em muitas confusões, não chegaria na idade em que cheguei.

O pior é a falta de sensibilidade, de discernimento de alguns, assim como eu próprio, para achar que pessoas como as gordas nem se incomodam com suas condições e com os frequentes deboches. Custei a cair na real…”

Já está mesmo na hora de todo mundo cair na real, né? 😉

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Desabafo de um gordinho

Recebi o texto abaixo, um verdadeiro desabafo, do leitor Gabriel Nadal Branco Martins. Ele nos faz refletir sobre a ditadura que as pessoas com sobrepeso vivem nos dias de hoje, tema já abordado aqui no blog. Começa na pré-escola, com o bullying, continua na adolescência, com as piadas e a dificuldade de encontrar paqueras, e segue pela vida profissional afora, com vários empregos sendo vetados (basta ver a quantidade de processos na Justiça do Trabalho sobre isso). Mas ninguém melhor do que o próprio Gabriel para nos contar:

Quadro do colombiano Fernando Botero (1932-), famoso por pintar e esculpir figuras rotundas como este simpático "fumador"

Quadro do colombiano Fernando Botero (1932-), famoso por pintar e esculpir figuras rotundas como este simpático “fumador”

“Desde pequeno sou gordo. Motivo de piadas e zoação, antes de inventarem o bullying, zoar o gordo já era normal. Em sala de aula, eu queria me enturmar e soltava uma piada — e, claro, ninguém ria, ficava aquele silêncio mais constrangedor. Dois minutos depois, o magrão largava a mesma piada sem tirar nem pôr: a sala caía na risada. Aprendi a ser zoado, ao menos assim fiz alguma amizade colegueira; deixava me zoar pra não ficar totalmente excluído.

A infância passava e eu pensava: “Beleza, na adolescência vai mudar…”. Pois bem, não muda, você pode até colocar a melhor roupa, seu melhor perfume, mas, mesmo assim, você ainda é alvo de zoação. Você vai a uma loja de roupas e não compra aquela que é legal, e sim a que serve.  Na festa, é normal todos estarem comendo seu salgadinho ou qualquer porcaria, mas quando um gordinho levanta pra beliscar algo já vêm os pensamentos negativos: “Vai comer tudo e não vai sobrar nem migalha”, ou ficam com aqueles olhares maliciosos pra cima da gente.

Pra ficar com uma mina parece que ela está te fazendo um favor. Você quer ser atencioso, bacana, etc e tal, mas, no máximo, vira um “amigo”. Quando você tem um carro até aumentam suas chances, mas apenas para virar motorista — essas maria-gasolinas te dão moral, uma leve e fictícia chance de que você vai ficar com elas, mas… aquele seu amigo magro cata sua “amiga”.

Depois ficam falando: “Ah, é que você não se enturma, fica isolado”, ou coisa parecida. Esses que a sociedade julga “normais” não sabem e nunca saberão o que é ser um gordinho. O que um gordinho passa em um dia, muitos magros não suportariam nem por 1 minuto. Batalhamos para não entrar em depressão, comecei a fumar para a ansiedade diminuir (já que tá tudo lascado mesmo, um mal a mais não faz diferença).

Vocês devem estar pensando: “Nossa, que baixa autoestima, que deprê…”. Pois é, caros leitores, os gordinhos se juntam entre si, pois sabem o que cada um passou. Meu melhor amigo é igual a mim: se ficamos isolados, ao menos estamos juntos rindo da nossa barriga.

Festas? Tô fora, se é pra ficar rodado, prefiro ficar em casa. O que adianta eu saber cozinhar, lavar, passar, ser carinhoso, gentil, amigo, companheiro, intelectual, se sou gordo? Um magro que não sabe nem de onde o ovo da galinha veio é “o cara”. Dinheiro? Até ajuda, mas quem sai ganhando são seus “amigos”. Tenho carro, casa com piscina, barco, som muito bom, mas NA MINHA FESTA NA MINHA CASA COM MINHAS COISAS quem fica com as minas são os outros. Você fica no máximo conhecido por dar uma festa bacana, elas colam em você, pois sabem que tem de tudo e lá vão encontrar os “caras perfeitos”.

Posso contar nos dedos as mulheres com que fiquei, mas com muita luta e muito gasto também. Se for pra gastar com mulher hoje, prefiro ir ao cabaré: lá eu sei que não importa minha aparência e sim minha carteira, que é a única coisa gorda de que todos gostam, a carteira recheada.

Família? Não posso reclamar muito, mas já passei muita tristeza com pai-mãe-tio falando do meu peso, de como devo comer, de que devo consultar endocrinologista. Putz, se fosse contar quantos médicos e dietas malucas pelos quais já passei daria pra escrever um livro. Não é por falta de tentar, já que não nos enquadramos na sociedade: fazemos esportes, dietas macabras, coisas que até Deus duvida, mas nossa genética não ajuda, há o tal efeito sanfona.

Aí falam que eu não me aceito. Claro que me aceito, só falta a sociedade me aceitar, pois o que adianta eu me aceitar e os outros não?

Hoje tenho 24 anos, estudo, trabalho, mas meu melhor passatempo é ficar na beira da lagoa, sem ninguém pra falar o que devo comer e como devo ser. Pito meu palheirinho sossegado, pesco bem tranquilo.

Ainda penso em um dia namorar sério — puxa, seria algo incrível! Eu lembro que, no tempo do Orkut, eu queria colocar o status “namorando”, porque ia ser algo incrível. Meus namoros não deram certo porque eu “dava atenção demais”. Mas não demorava muito e lá estava a garota nos braços de um boy atlético. Falam que o gordinho é todo meloso, sabe por quê? Simples: quando uma mulher lhe dá atenção ou até fala com você, fazemos de tudo para não perder , pensamos: “Quando vamos encontrar uma de novo??”. Mas hoje a mulher prefere o cafajeste, aquele magrão que pisa e judia. E quem roda?? ACERTOU: o gordo. Eu falo o mesmo sobre as gordinhas: são lindas, boa gente e boas companhias, mas atualmente a maioria também espera pelo príncipe atlético.

Gordinhos e gordinhas do Brasil: levantem a cabeça, pois vocês são muito melhores do que a sociedade fala que devem ser. Deixei aqui meu desabafo para a sociedade. Estão idolatrando a anorexia, e aí tem muita gente fazendo cirurgias e dietas macabras para se enquadrar na sociedade. Se esquecem de nós, então vamos fazer a nossa sociedade, a nossa moda e provar que podemos ser muito felizes!”

(Texto de Gabriel Nadal Branco Martins)

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Quer enviar seu texto para publicação aqui no blog? É só entrar em contato e, se o texto tiver a cara deste blog, terei o maior prazer em publicá-lo 😉

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Fanatismo é burro, mas perigoso

Já escrevi outras vezes, desde que tinha meu blog anterior, que todo fanatismo é burro, mas não existe fanatismo inocente: fanáticos são pessoas potencialmente perigosas, justamente por se acharem melhores que as outras, superiores, se acharem capazes de dar lição nos outros, que ainda não sucumbiram àquela fé.

Isso serve para fanáticos de partidos políticos, que tanto vimos na campanha nojenta do ano passado, para os fanáticos de times de futebol, e, claro, para os religiosos. Serve para todos.

De toda a profusão de análises que foram feitas sobre o massacre do Realengo — e não gostei de praticamente nenhuma, pela facilidade com que os analistas têm de dar receitas fáceis para coisas complexas — a que mais me chamou a atenção saiu publicada na Folha de hoje. É do Contardo Calligaris, geralmente ótimo.

Toda ela merece ser lida, mas o trecho de que mais gostei, sobre o fanatismo, eu destaco aqui:

Para transformar os fracassos amorosos em glória, o fanatismo religioso é o cúmplice perfeito. Funciona assim: você é isolado? Sente-se excluído da festa mundana? Pois bem, conosco você terá uma igreja (real ou espiritual, tanto faz) que lhe dará abrigo; ajudaremos você a esquecer o desejo de participar de festas das quais você foi e seria excluído, pois lhe mostraremos que esse não é seu desejo, mas apenas a pérfida tentação do mundo. Você acha que foi rechaçado? Nada disso; ao contrário, você resistiu à sedução diabólica. Você acha que seu desejo volta e insiste? Nada disso, é o demônio que continua trabalhando para sujar sua pureza.
Graças ao fanatismo, em vez de sofrer com a frustração de meus desejos, oponho-me a eles como se fossem tentações externas. As meninas me dão um certo frio na barriga? Nenhum problema, preciso apenas evitar sua sedução -quem sabe, silenciá-las.
Fanático (e sempre perigoso) é aquele que, para reprimir suas dúvidas e seus próprios desejos impuros, sai caçando os impuros e os infiéis mundo afora.
Há uma lição na história de Realengo -e não é sobre prevenção psiquiátrica nem sobre segurança nas escolas. É uma lição sobre os riscos do aparente consolo que é oferecido pelo fanatismo moral ou religioso. Dito brutalmente, na carta sinistra de Wellington, eu leio isto: minha fé me autorizou a matar meninas (e a me matar) para evitar a frustrante infâmia de pensamentos e atos impuros.

Wellington era fanático e tinha sofrido bullying e nunca ficou com nenhuma mulher e, quem sabe, tinha ainda um distúrbio mental para potencializar tudo isso. Mas nem precisa. O caldeirão já estava fervendo, mesmo sem o distúrbio. Ao ver aqueles dois vídeos que ele fez, não fico com a impressão de estar de frente para um doente mental não tratado. A mim parece ver ali um ator, falando palavras bem pensadas, no tom certo de voz, com tudo friamente calculado para que aquela imagem fosse preservada depois da “resposta radical”. Ele estava, afinal, respaldado pela autoconfiança que o fanatismo lhe proporcionou.